Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado
acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já
tem saudades das suas.
Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista
Francisco Lourenço.
Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão
na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para
casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as
chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.
--E sahiram sem lagrimas!--disse o artista, com a voz golpeada de
soluços.
--Como eu saí de casa de meus paes para a tua...--respondeu a mulher.
--Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!... Nem as filhas! Nem
agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de
vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente!
Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem,
ninguem comnosco!
--Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que
esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a
primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto,
assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.
--Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.
--Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu
consentimento: não foram ingratas.
--Sairam sem verter uma lagrima.
--Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»?
Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós
fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.
--E tu que fazes? porque não almoças?
--Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E
Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?
--Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta
para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos
lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.
A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não
poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia
que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a
gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe
deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que
elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o
avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das
filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações
domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as
afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:
--Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja
doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.
Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e
genros.
Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos
medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado,
voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o
dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á
falsidade. Taes como: _Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais
negro que a sepultura_. E n'outro relanço: _Eu nunca devia ter saido da
nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella
obscuridade._ E, finalmente, rematando a carta, dizia: _Quem sabe se eu
tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho
presagios terriveis...._ Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um
a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancando soluços e exclamações,
que ninguem consolava!
--Que mal fizemos nós a Deus!--clamava Francisco. Não fui eu sempre bom
filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo?
Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre
mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de
Fernando!--proseguia o artista, relendo a carta.--Na doença pouco falla:
nunca me disse que doença tinha... _Tenho desejado a morte; o futuro é
negro, mais negro que a sepultura!_... Vê tu estas palavras, Maria! Eu
não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe
escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que
esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não
transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então
por que se chora elle? que _má estrella o persegue_? porque _não ha de
tornar a ver-nos_?
--A mim...--atalhou Maria--certo é que não... Pouco tenho de vida,
Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de
repente?...
--Dize, Maria...
--Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para
alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração
que o tire de lá para fóra?
--A fallar a verdade--disse Francisco--a idade das paixões é a d'elle...
Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr
bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ou impropria d'elle, o tempo
ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de
vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não
tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo.
Deixas-me tu ir, mulher?
Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da
alma, e murmurou:
--Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu
quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer
na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e
acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha
dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne
para onde estiver melhor.
Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro,
sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de
Italia.