VII

Queremos agora vêr como procede o portuguez.

A poesia do mysterio está aguada. Descerraram-se d'entre as nevoas as

duas estrellas que devem approximar-se ou repellir-se. A constellação é

mais de esperar, quando os prenuncios são d'esta ordem.

Tenha-se em seus brios, Fernando Gomes! Portuguezes são pouco dados a

beberem trago a trago uma prosaica morte em ideaes mysterios! Costumâmos

abrir o coração e despejar á flux quanto lá ha. Se nos desdenham, a

dignidade propria nos rehabilita. Se nos acolhem, damos pelo commum

excellentes maridos, carinhosos paes, e preciosos jarretas na velhice.

Romances d'amor, que desandam em morte de tuberculos moraes, não pegam

cá. Isto é terra de Hespanha e o céo de Italia, como diz o mais poeta

dos portuguezes, o dulcissimo Castilho. Ama-se como na Italia, e

entendia-se como em Hespanha. Quem quer saber o que é amar em Italia,

leia Byron em Veneza, e Henry Beile em todos os seus romances, e

peculiarmente na _Physiologia do amor_. Eu gosto de indicar as fontes

limpas, para que me não attribuam aguas sujas, nem acoimem o romance de

hoje em dia de pêco e ôco de conhecimentos uteis.

Ora vamos lá ao conto, que está a meada a desencadilhar-se.

Fernando Gomes venceu o seu pejo, e voltou dos jardins ao salão. Um

francez, desconhecido d'elle, perguntou-lhe se era o portuguez Fernando.

--Sou o portuguez Fernando--disse o moço.

--As suas patricias encarregaram-me de perguntar a Leopoldo Roberto se o

senhor sahira; Leopoldo Roberto não sei onde está: porém, como encontro

o senhor, creio que lhe dou prazer communicando-lhe directamente os

cuidados das senhoras de Briteiros.

Fernando agradeceu affectuosamente a urbanidade do francez, e

convisinhou das meninas, a tempo que chegava Bartholo.

--Patricio e amigo--disse este a Fernando--não fuja da gente. Amigos,

amigos, politica á parte.

--Eu não fujo de vossa excellencia--disse o moço côr de rosa, quanto

rosas se alastram em rosto de homem trigueiro.

--Pois o senhor sabe--tornou Bartholo--que está um portuguez em

Florença, portuguez dos bons tempos, e não o procura?!

--Vossa excellencia até hoje não me deu bastante afouteza para solicitar

tamanha honra.

--Vá quando quizer. As minhas portas estão francas a quantos

portuguezes, realistas ou não realistas, quizerem visitar um portuguez

que honrou sua patria!--Ora o senhor, que saíu ha dois annos de Lisboa,

ha de dizer-me se lá viu meninas mais galantes do que as minhas filhas!

Fernando córou outra vez, e tartamudeou; as meninas sorriram; e o pae

insistiu na pergunta com certo desplante que não vae mal em velhos

folgasãos, e até faz gosto ouvi-los n'estas liberdades, quando se fundam

em muito amor ás filhas.

Fernando respondeu:

--Posto que eu conhecesse pouquissimo a sociedade de Lisboa, digo, sem

receio de baixa lisonja, que as filhas de vossa excellencia seriam em

Lisboa, como em toda a parte, bellezas distinctas.

--São a pintura da mãe--atalhou Bartholo.--Minha mulher foi a dama mais

linda de Portugal. Deixou-me estes anjos para me ampararem. Se não

fossem ellas, eu tinha-me atirado á cova que m'a roubou!

Assomaram subitamente lagrimas aos olhos do quinquagenario. Fernando

hauriu prazer d'aquellas lagrimas. Porque? O moço queria presuppôr

coração, sensibilidade e affectos brandos n'aquelle homem que lhe

avultava de bronze á phantasia.

Passou Bartholo o lenço pelos olhos, e continuou:

--E ha por ahi quem se tenha lembrado de me privar das filhas!... Veem

com a palavra «casamento» propôr afoitamente a um pae que rompa os laços

de dezoito annos, que lance de si as suas joias, a luz dos seus olhos, o

ar do seu peito, e as deixe ir nos braços de uns libertinos fatigados,

que as viram hontem pela primeira vez, e ámanhã lhes voltarão a face com

sobranceria de maridos! É horrivel este systema de organisação social! A

sociedade não se sustenta senão á custa d'estes roubos legaes feitos ao

coração de um pae. E isto se chama manutenção da moral!... Deixa-la ser!

As minhas filhas são a minha vida. Em quanto eu respirar, quero ve-las,

quero te-las ao lado do meu leito de agonia. Custaram-me muito. Ficaram

sem mãe muito tenrinhas. Criei-as eu nos meus braços: passava as noites

com o ouvido collado á fechadura das alcovas onde dormiam as amas, para,

assim que os anjinhos chorassem, acordar as mercenarias creadas. Isto

fazia eu, senhor Fernando, quando negocios importantissimos de estado

dependiam das minhas vigilias. Cresceram aquecidas pelo meu bafejo.

Trouxe-as desde os seis annos na minha carruagem, quando ia aos

tribunaes; não as confiava de ninguem. E queriam roubar-m'as agora que

estão feitas, lindas, e ricas de felicidade e alegria para me

retribuirem o muito que soffri por ellas!... Ainda bem que nenhuma me

tem sido ingrata. Quando rejeito os pretendentes, adivinho-lhes a

vontade d'ellas. O maximo prazer que me dão é serem dignas de illimitada

confiança. Dizem que as vigio; tem-n'o dito o principe de Monfort; é

falso, é calumnia; ellas ahi estão que o digam. São senhoras das suas

acções: vão onde querem: ordenam seus passeios e visitas; e eu sigo-as

com a docilidade e contentamento de uma creança. Ambas ellas sabem que

me matam no momento em que me deixarem; e por isso Florença, Londres,

Paris tem sido para minhas filhas como desertos... Coitadinhas! querem

ir para Portugal; teem saudades de não sei que ninharias pueris!...

Deixae estar, filhas, lá iremos, lá iremos em dias mais ditosos. A

justiça ha de vencer, porque sois dois anjos, e estaes da parte da

justiça. Tendes muita vida para largas esperanças. Voltaremos a Portugal

talvez mais cedo do que vós mesmas ambicionaes. O rei... Agora reparo

que estou falando com um soldado _mindeleiro_...

--Não, senhor--atalhou Fernando--não posso gloriar-me da façanha do

Mindello...

--Façanha!... Ora essa! que façanha?!

--Coragem, atrevimento, se vossa excellencia antes quer...

--Qual coragem!... O senhor então não sabe a historia contemporanea...

Fale-me de traições, se quer que eu lhe explique a façanha do Mindello,

que, espremida na mão imparcial d'um critico, dá de si um heroismo

negativo, uma pagina de historia que, d'aqui a cincoenta annos, quando

os taes sete mil e quinhentos tiverem morrido, será reduzida á data do

desembarque d'um principe foragido do Brazil, e mais nada...

Fernando Gomes estava escarlate, e reteve-se a ponto de murmurar apenas:

--A historia não se faz assim. Vossa excellencia está brincando!...

--Brincando!... interrompeu o membro da Alçada.--Creia o que eu lhe

digo, que tenho o segredo da rebelião desde mil oitocentos e dez. O

senhor nasceu hontem: não sabe nada. Pegou d'uma arma, quando

naturalmente largou a espada de folha de flandres, e a pistola de matar

moscas...

Paulina fitou os olhos em Fernando, e fez com elles e com os labios a

mais ameigadora supplica de silencio e tolerancia. O condecorado das

linhas do Porto sorriu-se, já perdida a côr, e fez um gesto mezureiro ás

galhofas algum tanto colericas do fidalgo.

Bartholo cahiu de seus azedumes, quasi furioso, na razão e

arrependimento do excesso. Com brandos termos e rosto prasenteiro se

desculpou, promettendo nunca mais fallar em rei nem roque; e ajuntou:

--Sabe o que faz isto? É eu não ter portuguez com quem fale nas

desgraças de Portugal, que tanto o são para gregos como para troianos.

Estes emigrados francezes e polacos todos me falam dos negocios da sua

terra, e ninguem sabe nada dos negocios da minha. Chamam-me hespanhol, e

não querem acreditar que Portugal é uma nação que faz reis e desordens

por sua conta e risco. Um francez a quem eu descrevi os tumultos de

Portugal, desde que Napoleão lhe quiz lançar as garras, teve a

petulancia de me dizer que qualquer poça d'agua suja, examinada com um

microscopio, offerecia um rebuliço de vermes admiravel! Confesso-lhe,

que se não tivesse duas filhas, havia de pôr a cara ao francez em apuros

de ser examinada com o microscopio!

Fernando Gomes soffreando a indignação, sorriu-se. O seu primeiro assomo

fôra pedir o nome do francez; reflectindo, porém, um momento, desculpou

o atrevido com as objurgatorias ridiculas e talvez sanguinarias de

Bartholo de Briteiros contra Napoleão, na propria casa de Jeronymo

Bonaparte, o irmão predilecto do imperador.

O dialogo terminou assim, sem que as meninas proferissem palavra.

Fernando afastou se com tristeza, recordando as vehementes expressões de

Bartholo, com referencia ao casamento impossivel das filhas. Quem,

d'animo frio, ouvisse o cioso pae de Paulina, daria pouco peso aos

termos acres e despoticos do velho: o mais racional seria preparar a

rebellião no espirito da filha, e vingar assim a sociedade ultrajada

pelo egoismo d'um tyranno de dois corações, sedentos de mais amoraveis

affectos, e mirando a elles por providencial influxo. Fernando, porém,

com o seu verdadeiro, e, por isso mesmo, timorato amor, ponderou como

invencivel a vontade do pae, e inconquistavel a vontade de Paulina.

Estava elle engolfado n'estes pensares, a distancia visivel das meninas.

Eugenia chamou-o, e disse-lhe:

--O papá affligiu-o com as suas rabugices?

--Não, minha senhora: eu respeito a paixão do senhor Bartholo de

Briteiros.

--Olhe que elle diz assim as coisas; mas não odeia ninguem--disse

Paulina.--Quando vae a nossa casa? Estimavamos muito vel-o, para

conversarmos muito da nossa terra... Vá ámanhã, sim?

--Com o maior prazer...--balbuciou Fernando.

--Demora-se em Florença? tornou Paulina.

--Não sei dizer a vossa excellencia...

--Depende o demorar-se da vontade de sua familia?--perguntou Eugenia.

--Já desobedeci á vontade de meus paes. Eu devia estar em Lisboa a esta

hora... Estou em Florença, e Deus sabe onde o meu destino me chama...

Se Leopoldo Roberto houvesse sido menos explicito com a filha de

Bartholo de Briteiros, o tom em que Fernando respondeu á pergunta de

Eugenia bastaria a manifestal-o. O silencio de ambas, e a meiga

expressão de Paulina foi tambem para elle sobeja prova de que o tinham

comprehendido. Os dois corações, n'aquelle instante, esposaram-se em

mysteriosas delicias. Tinham-se revelado tudo no magnetico relance

d'olhos que se trocaram. Aquellas almas ou se haviam mentido, ou

identificado para sempre. Nenhum d'elles assim o pensava. Nós, os que

estamos de fóra, é que sabemos decidir d'estes vinculos eternos, e raro

nos illudimos. Pena é que cada amante não traga á sua beira um

observador, bastante martellado n'estas psycologias, para desde logo

caminhar em terreno seguro, com a sibylla ao lado.

[A]Fernando visitou o fidalgo. O acolhimento foi excellente. As meninas

reviveram quantas recordações ainda tinham de Lisboa. O antigo

desembargador, com insolita moderação, relatou ao hospede a chronica

mysteriosa de Portugal desde 1810, a revolução de Gomes Freire de Andrade,

a de 1820, e as alternativas sequentes das duas parcialidades. Teve

momentos lucidos de consciencia politica, e de admiravel modestia. Pelos

modos, se em vez do conde da Barca, ou do conde de Basto, elle fosse o

ministro valído de D. João VI, ou de D. Miguel, Portugal voltaria á sua

idade de ouro. Para se exaltar era justo que desluzisse a reputação dos

privados de D. Carlota Joaquina, e então foi verdadeiro. Deu como decidido

ter sido envenenado D. João VI. Contou minudenciosamente a morte do marquez

de Loulé em Salvaterra: chamou-lhe _golpe de estado_: mas a historia ha de

chamar-lhe golpe de cajado, porque o palaciano foi morto a pauladas.

Deteve-se por descuido a fallar dos supplicios de Lisboa, Porto e Extremoz.

Eram tudo, no seu modo de ver, sacrificios necessarios á manutenção da

ordem. E argumentava com a historia. O protestantismo, dizia elle, não

entrou em Portugal: graças ás fogueiras da inquisição. Em quanto a Europa

ardia em guerras religiosas, Portugal gosava pacificamente da sua

prosperidade, e da pureza do seu catholicismo. D'estas sublimes paragens da

historia portugueza, descia o apologista do fogo depurativo da fé a provar

a necessidade da pena de morte como cauterio ás chagas sociaes, antes que

ellas contaminem os membros sãos. _Etc._

Fernando ouvia-o silencioso. No entanto as meninas, entretidas com os

taboleiros floridos dos seus jardins, diziam entre si:

--E tu és capaz de lhe dar o ramo, Paulina?

--Era... mas... que hei de eu dizer-lhe? Ensina-me Eugenia.

--Eu sei cá!... não lhe digas nada... Quando o pae não vir, offerece-lhe

as flores.

--O melhor era deitar o ramo no chapéo.

--Mas se elle o deixa ver ao papá?--redarguiu Eugenia.

--Deus nos livre! E que pensas tu?...

--De que, Paulina?

--Será verdade o que disse o Leopoldo Roberto?[B]

--Se elle te ama?

--Sim...

--Pois não vês?! Eu ia jurar que sim... E tu? tu é que devéras gostas

d'elle...

--Penso que sim... E de que serve?!... Este amor que o pae nos tem, é

uma prisão! Todas as meninas da nossa idade tão felizes!... e a gente

n'esta melancholia, a dominar as inclinações... para o não desgostar! Os

outros paes não se importam. A gente vê tanta gente alegre com seus

maridos! pois não vê?

--Pois sim; mas tu que queres, Paulina? O pae não nos deixa casar...

--É porque a gente não se tem importado...

--Estás enganada... O pae soube que eu gostava do conde de Rohan, e

fingiu que não o sabia. Lembras-te? Uma vez disse-me que se eu amasse

alguem em Florença, ia immediatamente comnosco para a Azia! Quando tu em

Paris gostaste d'aquelle emigrado portuguez, não viste como elle sahiu

logo para Londres?

--Depois, o Albuquerque foi ter a Londres--atalhou Paulina--e o pae foi

logo para a Escossia.

--É verdade; e depois, diz a toda a gente que as grandes cidades são

desertos para nós! Tu verás, Paulina... Se elle desconfiar que amas

Fernando, leva-nos para a Russia...

--Isso leva!

--Então, vê lá se te sabes esconder; e, se fallares com o Fernando,

diz-lhe que seja acautelado, senão...

--Como hei de eu falar-lhe?! Não vês que o papá já hoje me perguntou o

que hontem estivemos a falar com elle na _soirée_ do principe?... Já me

lembrou escrever-lhe duas palavras...

--Ai! escrever-lhe!--atalhou Eugenia assustada.

--Pois então? isso que tem? é crime?

--E se o papá vem a saber que lhe escreveste?

--Quem lh'o ha de dizer?...

--Agora é que eu vejo que o amas seriamente, Paulina.

--Amo: de ti não me escondo, Eugenia.

--Pois então, se queres, escreve-lhe.

--E que hei eu dizer-lhe? Eu nunca escrevi... Tu é que já sabes, minha

Geni.

--Diz-lhe que não denuncie que te ama: senão que o papá nos tira logo de

Florença.

--Só isso?!

--Pois que mais? Quando elle te escrever, então responderás...

.........................................................................

Este dialogo, que parece estirado, correu em menos de quatro minutos. As

meninas pediram ao pae licença para subirem do jardim a casa.

Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.

Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor

que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de

Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal!

Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do

globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo,

trazem, como regra, o anexim: _cada terra com seu uso_. A gente não

acaba de capacitar-se d'isto!

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 23 / 49 题