Paulina encontrou os olhos de sua irmã, que pareciam dizer-lhe: «ouves?»

Leopoldo Roberto esperou novas perguntas das meninas. Passados minutos,

aventurou-se o artista a perguntar:

--Pois não conheciam o seu patricio?

--Foi-nos apresentado pelo principe de Monfort--disse Eugenia--mas dos

seus infortunios não sabiamos.

--É de Florença a senhora que elle ama?--perguntou Paulina.

--É de Portugal.

--E elle está em Italia?!--accrescentou Eugenia--porque não vae então

para Portugal?

--Andará a viajar para conhecer se ella o ama, e sente a ausencia--disse

Paulina.

--A dama está em Florença. A formosa Paulina conhece-a.

--Eu!...

--Sim, minha senhora. Digo-lhe o grande amor de Fernando, e peço-lhe que

o salve.

O pintor ia retirar: Paulina exclamou:

--Venha cá... explique-me esse mysterio... Eu conheço a senhora

portugueza que Fernando ama?!

--Os anjos de innocencia nem mesmo tem o coração que adivinha?--replicou

Leopoldo--Hei de eu por força dizer-lhe que Fernando queria morrer sem

que a imprevista Paulina soubesse que o matava?!

As meninas não proferiram um monosyllabo. Leopoldo, o ascetico amante de

Carlota Napoleão, approximou-se de Fernando, que falava com a princeza.

Levava nos olhos uma alegria desusada. Carlota mudou de local, e o

pintor disse a Fernando:

--Quebrei o encanto. Paulina sabe que a amas. É bom que estas mulheres

se glorifiquem com saberem os nomes das victimas. Morrer

obscuramente!... morrer ignorado da mulher por quem diluimos a vida em

lagrimas de sangue! Isso não! é preciso abrir larga fenda no peito,

arrancar fóra o coração, e mostrar-lh'o. Então sim! ao menos servimos á

gloria da mulher que se amou. Ella, se não póde dizer «amei-o,» diz

«matei-o!» e póde ser que o diga com piedade; venha, pois, essa piedade

posthuma, que deve ser regalo do cadaver! Que maior serviço posso eu

fazer-te, amigo?

Fernando apertou convulsamente a mão de Leopoldo, saiu aos jardins a

dilatar o peito, a desdobrar da alegria que vos commove como os assaltos

do medo. O pintor não o seguiu, dizendo:

--Vae só, que eu não tenho alegria nem lagrimas que esconder. Recorda-te

sempre de mim: propiciei-te o idolo em cujas aras era desconhecido

holocausto. Agora pódes acabar, que cumpristes a tua missão. A minha

ainda está imperfeita.

Para que o leitor me não tome como cousa de destemperada imaginativa

este Leopoldo Roberto, pintor francez, amante de Carlota Napoleão,

peço-lhe que abra um livro de Eugenio Pelletan, o qual livro se chama

_Horas de Trabalho_. Ahi, por algures, achará em resumo, n'aquella

linguagem diamantina do illustre professor de philosophia, a historia

dos amores; e, logo na pagina seguinte, a historia do suicidio do

pintor.

Hão de ver como elle atirou com o peito ás puas do despedaçador

IMPOSSIVEL, e arquejou voluptuariamente n'aquellas agonias, sem

esperança de sentir a mão da princeza enxugar-lhe o suor glacial.

Reparem no quadro que elle aperfeiçoou na vespera do seu dia final. São

scenas campezinas: obreiros que vão ás ceifas e voltam dos campos

coroados de espigas. Oh! que formosissimas visões antecedem os

paroxismos do talento! Que lucido agonisar o dos genios? Quem ha de crêr

na mortalidade da alma, quando ella assim se rejubila ao pé do golfão em

que o corpo se despenha como pedaço de materia postulosa e tábida?

E não te salvou o anjo da arte, ó poeta das primaveras, dos arreboes, e

dos crepusculos? Não tinhas uma Galathea em cada uma das tuas

camponezas? Não te palpitavam aquelles corações debaixo da palheta? Já

sabias que a tua immortalidade estava á porta do seu templo, para

abrir-t'o logo que a lousa te batesse em cheio sobre o craneo estalado

pela bala?

Que princeza te valia uma inspiração das tuas noites desveladas!

Quantas rainhas de virtudes deixaste lá em baixo escondidas nas

florestas que perpetuaste em teus quadros!

E não as amaste, como prodigo, e as déstes ao mundo, que t'as ama e as

adora nas galerias, nos museus, nos empórios das summas maravilhas do

bello!

Olha ahi por esses palacios de principes, na Florença, em que

premeditaste morrer, olha ahi como as turbas se enlevam no teu genero

immorredoiro!

E vê tu quantas princezas, como a tua Carlota Napoleão, desceram do

solio ao exilio, do exilio á tumba, da tumba ao esquecimento; e os teus

poemas ficam; e o teu espirito revive em céo e terra, e o homem pára

diante da tua sombra, e deplora que uma princeza não subisse a ti para

tu não desceres a procura-la no bojo negro do teu inferno, ou nas

explendorosas serpes da chamma em que te abrasaste, ó crysalida d'um

anjo!

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 22 / 49 题