VI

Tinha expirado o prazo da viagem, estipulado por Fernando, e aceite por

seu pae. No penultimo mez dos dois annos, recebeu o moço carta de

Francisco Lourenço, instando por sua ida antes de concluido os dois

annos, se possivel fosse. O artista dizia assim em sua carta:

«Está pactuado o casamento de tuas irmãs.

«Gracinda casa com um official de secretaria, rapaz de bom proceder, e

familia honrada. Genoveva, não menos feliz, vae unir-se a um capitão de

mar e guerra, homem já entrado na edade, mas muito estimavel, e muito do

agrado d'ella. O prazer de nós todos seria que assistisses a esta festa,

e enxugasses as lagrimas de teus velhos paes, quando as duas meninas, na

mesma hora, se apartarem de nós! A estas dôres chama o mundo _festas_. O

apartar-me de meus filhos quer o mundo que eu o festeje, como se

approximasse mais de minha alma! Que tristeza será a d'esta casa se tu

aqui não estiveres, filho! Que direi eu ás lagrimas de tua mãe, e ella

ás minhas!... É preciso que nos ampares a ambos: aos teus braços é que

ambos pediremos força para acceitar com resignação esta dôr obrigatoria,

pela qual alguns paes recebem parabens! Não me detenho a pedir-te que

venhas. Surda estaria a tua alma se não ouvisses os dois velhos que te

estremecem...»

..........................................................................

Eu podia escrever muitas paginas soberbas de hyperboles, umas minhas, e

outras copiadas, para dizer quanto Fernando amava Paulina; porém,

n'essas muitas paginas, seria tudo pouco para dizer tanto como n'esta

linha: _Fernando leu a carta de seu pae, e não sahiu de Florença_. Isto

vai sem ponto de admiração, porque eu, em materia d'amor, estou como

Horacio a respeito de tudo mais: _nihil mirari_. Maiores desatinos que o

de Fernando Gomes reclamam indulgencia das almas bem formadas, almas que

não sejam raio de luz sem calor n'uma pouca de lama, ou humano barro,

que dispara no mesmo.

Fernando mentiu a seu pae: disse que estava enfermo de febres, apanhadas

em Roma nas lagôas pontinas. E mentiu sem vergonha de si mesmo! A

celebrada honra de Epaminondas é a fabula mais paradoxal da antiguidade.

Amasse elle uma Paulina, e estivesse em Florença, em Florença que, no

dizer do author de _André Chénier_, «é como a Circe que maneata os

forasteiros de invisiveis liames, e lhes dá continuada festa de musica,

paisagens, perfumes, pompas e mulheres, a fim de incutir-lhes o

esquecimento do seu paiz!...»

Fernando fugiu ás musicas e aos perfumes da magica cidade. O seu amor

era taciturno e solitario, como um luto de saudade inconsolavel. Nascera

em rebentações de fogo como as lavaredas da Sicilia. Estava debaixo do

céo italiano; incubou-se d'aquelle fogo, bebeu a peçonha da immensa

mansenilha, que braceja serpentes de mortal amor por todos aquelles

remansos fataes de Genova, Piza, Veneza e Napoles. O céo esperara-o

n'aquelle ponto para lhe emborcar d'um jorro todo o amor, que lá em cima

é glorificação, e cá em baixo inferno. As flôres de sua alma

desabrolharam das mil côres da esperança, e no viço de primeiras; mas

logo amarelleceram. O formidavel «impossivel!» bateu-lhe na cabeça e

peito, para que a razão e o coração morressem a um tempo. A razão morreu

para não reagir. O coração vivia com centenares de cabeças como a hydra.

O coração é a salamandra de seus proprios incendios; lacera-se, como o

pelicano; de cada golpeada tira golfos de sangue, e n'este sangue medram

esperanças, cada dia mais infernadas. Este é o amor maldito dos que

amam, como amava Fernando a creatura divinisada por todos, isempta de

todos, vigiada pelos olhos coruscantes do velho, que tinha coração de

pae, com ferocidades de rei das selvas, velador dos seus leonculos.

Seria este imaginar impossiveis uma hallucinação do nosso homem? A gente

mais sisuda e mais desbaratada em lidar com o mundo não lhe acontece

tantas vezes fazer pé atraz, diante de travancos que uma borboleta

transmonta a brincar por entre arbustos floridos? N'este artigo de

mulheres, quantas vezes se nos figuram castellos roqueiros umas

sobrancerias que lá ao pé se alhanam como relvados macios, planos,

chãos, e todos desentranhados em boninas, que se estão como offerecendo

ás solicitas abelhas, e até a zangãos damninhos!

Ora vamos ver se Fernando cae das alturas por onde se anda após do

cherubim, e vem cá baixo á estrada coimbran, ao amor rameraneiro, de

theor e modo que o estylo possa assingelar-se o necessario para ser bem

entendido e estimado. Fuja todo o romancista de entender com personagens

que trazem a cabeça de telhas acima: a nossa linguagem lusitana é pouco

para exorbitancias taes. Os francezes dizem tudo o que querem, e até o

que não ha, nem tem ideia correspondente. Os allemães tambem. Cá entre

nós, boa gente do velho Portugal, gente que é toda vulgo nas paixões

quotidianas, quem quizer remedar extrangeiros nublando os ares com

fumaças de idealismo, despega em tolice tamanha, que não será assombroso

fecharem-se-lhe as portas da academia real das sciencias, ou

negar-se-lhe venera da ordem de S. Thiago da Espada! Não póde ir mais

longe o menos preço dos parvos.

Paulina via todos os dias Fernando na _piazza di Dome_, sobre a qual se

abriam as janellas dos seus aposentos. Chamava logo a irmã, clamando

pressurosa:

--Vem vêr o nosso patricio, Eugenia!

Assentavam os cotovellos no peitoril do balcão de marmore, e alli se

quedavam como duas rolas, a contemplar o portuguez, que as cortejara, e

parecia te-las logo esquecido. Não ousava elle fita-las segunda vez!

Remirava-as por entre os grupos: e o espaço aereo d'entre quatro cabeças

era a suprema ambição do moço, a entre-aberta do céo nas visões de um

santo anachoreta.

Algumas noites as filhas de Bartholo de Briteiros viram Fernando no

palacio Orlandini.

--Que terá elle que nos não procura?!--dizia Paulina a sua irmã--Mas

repara que não dá preferencia a ninguem!

--É tão triste aquelle homem! Serão assim todos em Portugal?--dizia

Eugenia.

--Faz-me pena aquella tristeza! acudiu Paulina.

N'outra noite a compassiva filha do fidalgo disse á irmã:

--Chamemo-lo, sim? não parecerá mal?

--Não; pois que mal é chamarmos o nosso patricio?

Eugenia fez signal a um francez, que não era principe, nem duque, nem se

quer especieiro rico: era um pintor, um amigo querido de Bonaparte.

--Senhor Leopoldo Roberto--disse ella--conhece aquelle portuguez que

está falando com a princeza Carlota?

--Fernando?... Conheço-o desde que elle chegou a Florença--respondeu o

palido mancebo.--Achei-o um desgraçado.

--Desgraçado?!--atalhou Paulina.--Que infortunios são os d'elle?

--Os extremos: os do amor sem esperança--respondeu o pintor.

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 21 / 49 题