IV

Transferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e

Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em

Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida

para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse

em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando

carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações

livres!--dizia entre si Fernando Gomes.--Eu sei cá o que são livres! nem

homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças

a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte

se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que

deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e

vedando o accesso de seus gabinetes aos operarios suados, calejados e

sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em

nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em

vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão

depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o

pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para

baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos

redimidos por elles!»

Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.

Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio.

Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que

se anojava em Paris!

Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á

Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do

seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no

rumo da patria.

Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos.

Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os

seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás

regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho.

E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu

acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo

as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem

mulheres... (cem _senhoras_, emendarei eu, se vossa excellencia

permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa

escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas

dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que

almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes

santa, do bello ideal!?

Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem:

eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por

dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no

ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.

Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore

que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma

deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes

velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou

Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel.

Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo

fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com

algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado

pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este

museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do

edificio, que é museu de si mesmo.

Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem

dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes

apontamentos que me dirigem, encontro o capitulo intitulado: PRIMEIRA E

ULTIMA PAIXÃO DE FERNANDO GOMES.

Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de

eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que

vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é

tragica a paixão!

Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao

terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois

volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos

pelo theor seguinte:

Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á

realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O

emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que

assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra

que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus

de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que,

no dizer do accordão, _iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante

regente pela sua feliz chegada a estes reinos_.

Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era

Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a

origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do

diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os

casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do

mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza, dizia-se que Bartholo

possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o

que eu não averiguei por me parecer desnecessario.

O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de

Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas

alfaias e baixella. O _vassallo_ de D. Miguel de Bragança pompeava

faustos de rei, em quanto seu _senhor_, o tão chorado principe dos seus

amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita

philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me

lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas...

(Cá em Portugal já se não diz varas: é _metros_: camisa de quinze metros

e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania

não se ha de perder o anexim que é expressivo).

Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e

exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se

lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem,

e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro

relanço das suas _Noites de Italia_: «Entende-se facilmente que homens e

mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta

epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da

Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta

de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.»

Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, e não pelos viajantes--que

o magistrado não lia viajantes--deu comsigo na formosa Toscana.

Estanceavam por lá, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados

nobres da França, cujos exforços se mallograram na Vendéa. O palacio

Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmão mais novo do

imperador Napoleão, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres,

em nascimentos, artes e sciencias.

Bartholo de Briteiros, tinha a illustração triplicada da fortuna. Era

notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre em _Poggi

Bonzi_, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas,

a _Val d'Arno_, á _Poggia Imperiale_, e a quantos pontos convergia a

nobreza toscana.

Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi,

Strozzino.

A formosura das filhas contribuia não pouco para a consideração que o

pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a

hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem

perguntava porém qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava

n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiação de graças, que seriam

delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os

dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua

imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com

todo o viço de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma,

na gloria do seu Creador.

A mãe d'estas duas meninas morrera aos vinte annos, quando, em Lisboa,

reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no

berço, conforme iam crescendo, recebiam do céo os dons soberanos que sua

mãe levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a

mãe não fôra mais linda que ellas.

O desembargador desvelara-se medianamente na educação litteraria das

filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma

certa ignorancia, que é o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas

horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regaço d'ella.

Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do

pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto

para as alçadas, e braço inflexivel para hastear patibulos. Chamado

sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e

do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo

d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam á

morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. Não cuidem,

porém, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as

filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do

seu funccionalismo e meditações. O contrario, de todo em todo. Brincava

com ellas; com uma em cada braço, em quanto meninas até aos nove annos,

andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A

orçarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigação de brincarem

com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o

andassem procurando. Muitas vezes saía d'estes brinquedos para assignar

ao lavrar o accordão de uma sentença de forca, muito firme de pulso, e

convicto da sua fidelidade aos principios, á moralisação dos povos, á

ordem publica, e á justiça, filha primogenita de Jesus Christo.

N'aquelle dia em que o exercito libertador assomou em Almada, e o Telles

Jordão foi espingardeado, Bartholo de Briteiros, ainda duvidoso do

desesperado desenlace da causa que elle julgava vencida por parte de seu

rei, enfardelou á pressa o mais valioso de sua casa, ensacou muito

cabedal em moeda que tinha herdado de avós, prescreveu ordens aos seus

mordomos e caseiros das provincias, e embarcou em navio inglez, ancorado

no Tejo, com as duas meninas palidas de susto.

Horas depois, saía barra fóra, quando já em Lisboa repicavam os sinos á

fuga do duque do Cadaval, e ao approximar-se o duque da Terceira. A esse

tempo estalavam apedrejadas todas as vidraças do palacio de Bartholo de

Briteiros, ás Amoreiras, e a populaça, a brava e briosa gentalha,

apossava-se, por direito de conquista, da mobilia do desembargador, e

repartia, a soccos fraternaes, o espolio do miguelista.

V

Estava Fernando Gomes em Florença, conforme o seu costume em toda a

parte, sequestrado de toda a convivencia, visitando antiguidades, lendo

outras, e como que mumificando-se a si proprio entre tantas velharias.

Alguem disse a Fernando que o hospedeiro principe de Monfort mostrava

aos seus visitadores a espada que Napoleão floreara na batalha de

Marengo. Posto que o nosso portuguez presasse muito mais contemplar a

lança de Leonidas ou o punhal de Bruto, não quiz perder o lanço de ver o

sabre oriental do maior capitão do mundo, depois de Alexandre, e Cesar,

dizia elle.

O princepe recebeu-o no gabinete, onde estava escrevendo as suas

_Memorias_: mostrou-lhe a espada, facultou-lhe o exame dos tropheus

d'armas, recolhidos n'um armario envidraçado; e bem assim as chaves de

ouro da cidade de Breslaw, quaes o imperador lh'as dera, congratulando-o

pela conquista d'aquella cidade.

Fernando, incitado a fallar pelo tom familiar do erudito principe, deu

de seu saber muito boa conta sobre pontos de historia antiga, romana e

grega, monumentos, batalhas, sciencias, e tudo quanto mereceria ser

archivado em volumes grossos de soporiferas academias. O ex-rei de

Westphalia deleitou-se em ouvi-lo, não sabendo ainda se era expatriado

da Vandêa o cavalheiro que tão correctamente fallava lingua franceza.

Fallou de si Fernando em breves termos, dizendo-se portuguez, soldado da

liberdade, o infimo dos seus fautores em Portugal. Accrescentou logo que

deixara a liberdade do seu paiz, e saíra a procura-la n'outros pontos do

mundo, a fim de compara-la com a que deixara na sua terra, rachitica,

derrengada e aleijadinha.

Gostou o principe da grave sombra com que o douto moço mofava da

liberdade dos portuguezes, (gente malquista sempre dos Bonapartes) e

prolongou a palestra até horas de jantar. Fernando despediu-se já

fatigado da convivencia: o filho do artista dava pouco pela gloria de

conversar fito a fito com um ex-monarcha, irmão do heroe de Austerlitz,

das Pyramides e de Friedland.

Dias decorridos, Fernando foi convidado, em nome do principe de Monfort,

a passar a noite no palacio Orlandini. Cogitou o moço no mais urbano

modo de esquivar-se ás pesadas honras de tão luzida sociedade. A

educação acanhara-o; e os dissabores, suggeridos por causa de seu

nascimento, eram-lhe um constante espinho a impellirem-no para longe de

ajuntamentos. Assustava-o de mais o receio de encontrar portuguezes nos

salões do principe, e ter de responder-lhe ás naturaes perguntas entre

conterraneos que se encontram em paiz estrangeiro. Precisamente

quereriam saber o seu nome, o nome de seu pae, as suas relações na

patria, as mil coisas que se presumem sabidas de homens que viajam e se

relacionam com principes. Todos estes barrancos lhe empeciam o caminho

do palacio Orlandini, e nenhum expediente lhe suggeriram com que

delicadamente recusasse o convite. Sacrificou-se ao dever de quem tinha

sido tão affavelmente tratado por personagem assim venerada nos

prestigios da magestade, a magestade dos heroismos, mais imponente que a

do sceptro hereditario.

Antes da sua entrada no palacio, chegara Bartholo de Briteiros com as

bellas meninas. Em quanto as duas portuguezas levadas pelas damas se

gosavam da frescura da noite nos jardins, que muitas vezes serviam de

salões, Jeronymo Bonaparte conversou com Briteiros largamente ácerca do

moço portuguez que muito o encantara com a sua vasta erudição, e

perguntou ao hospede se conhecia _Fernando Gomes_. O fidalgo franziu a

testa, e disse:

--Não sei dizer a vossa alteza quem seja Fernando Gomes. Os _Gomes_ em

Portugal não sei quem sejam. Antigamente houveram os de bom toque; mas

de D. João I para cá não acho menção d'elles nas chronicas. É appellido

obscurecido, ou se perdeu.

--Póde ser que o seu patricio achasse o _Gomes_ perdido!...--disse o

principe com ar de riso.--O que eu sei é que o portuguez Fernando Gomes

sabe muito, e entretem com assumptos, aborrecidos quando a gente os lê

nos livros, ou nos monumentos. Gostei muito d'elle, e estimarei que a

minha estima agrade ao seu patricio.

Pouco depois foi annunciado Fernando Gomes, e logo conduzido á sala em

que já estavam as damas da primeira jerarchia toscana; e, entre tantas e

tão perigrinas, as nossas angelicaes portuguezas, honrando mais a terra

de Camões, que quantos diplomatas nos andam lá por fóra engrandecendo.

Bartholo de Briteiros fitou os olhos no portuguez, e lá entre si disse:

«Não conheço: isto é homem ordinario.»

--Tem aqui um patricio--disse o principe a Fernando.--É emigrado, e pae

das duas meninas, que o senhor além vê, que parecem madonas. Ditosas

revoluções as que obrigam a sair do seu ninho as formosuras que Deus faz

para que todo o mundo as veja! O senhor de Briteiros é um pae ditoso,

que se revê nos seus dois cherubins, dignos de Florença mais que de

Lisboa. Os modelos que Raphael e Ticiano adivinharam, justo é que vivam

em Italia, que é o céo das artes e das maravilhas. Não conhecia o senhor

de Briteiros?

--Não, senhor--respondeu Fernando.

--De onde é o cavalheiro?--perguntou Bartholo.

--Sou de Lisboa.

--Talvez que, se me disser o nome de seu pae, eu possa conhecer a sua

familia.

--Vossa excellencia não conhece de certo o nome de meu pae. Sou filho de

um homem do povo.

--De onde saem os reis do genio--ajuntou Jeronymo Bonaparte.

Bartholo fez um gesto insignificativo com a cabeça, e disse, passados

minutos:

--Veio de Portugal ha muito tempo?

--Ha vinte e tres mezes.

--Como estão as cousas por lá? Quem governa a canalha?

--Governa-se ella, presumo eu--disse Fernando.

O principe sorriu e murmurou:

--A resposta é um livro completo. A canalha governa-se a si em

Portugal...

--Em Roma no reinado dos Cezares e no Baixo Imperio, e em toda a parte

onde as nacionalidades se dissolvem--accrescentou Fernando.

--Diz muito bem!--acudiu Briteiros--Portugal está em dissolução. O

senhor é necessariamente realista!

--Não, senhor. Fui soldado nas linhas do Porto. Pugnei a favor da

liberdade, synonimo de humanidade. Servi-me a mim, servindo as classes

abatidas pelo privilegio. Se me enganei, a culpa não foi minha.

--Mas enganou-se...--atalhou Bartholo com má cara--A canalha é que

reina.

--Mas com gravata, luva branca, espada, chapeu de plumas, e

arminhos--ajuntou Fernando Gomes.

--E isso é bom?--redarguiu o fidalgo.

--É bom como lição, como experiencia...

--E depois? quando se quizerem emendar, era uma vez Portugal...

--Seremos hespanhoes, inglezes, ou turcos, mas com juizo--disse

Fernando.

--Ahi está o patriotismo dos _malhados_--exclamou Briteiros.

--Basta de politica--interveio o principe de Monfort, a quem destoara a

violencia da ultima phrase do ex-ministro da Alçada.

Fernando ficou pensativo a um canto do salão, meditando no appellido

_Briteiros_. Sabia de cór os nomes dos signatarios do accordão que

enforcou os academicos. Não lhe era extranho o feio aspecto d'aquelle

homem. Devia ser elle: ouvira em Lisboa dizer que o mais façanhudo dos

algozes vivia em Florença, com grande luxo, e segura posse de seus bens

na patria. Odiou-o; não poude mais fital-o em rosto. Pensava em sair da

sala, quando Jeronymo Bonaparte lhe disse:

--Venha ver as suas lindas patricias, que desejam conhecer o

portuguez... Mas tome tento em não argumentar com o pae. O senhor de

Briteiros é contumaz inimigo do povo e da liberdade. Cá entre os meus

hospedes francezes é conhecido por _Luiz XI_. O homem é um apologista

das gaiolas de ferro para uso das avesinhas que cantam a liberdade.

Detesta Lamartine, que escreveu contra a pena de morte, e defende que a

arvore da liberdade deve ser cortada, torada, serrada e afeiçoada á

maneira de forcas. Tem de bom que salga as suas theses com muita

inepcia: gente emigrada não póde desprezar estes perrexis do riso, por

isso o senhor de Briteiros é muito procurado. Agora vamos ver que duas

flores saíram d'aquelle bravio matagal.

Approximou-se o principe de Eugenia e Paulina.

--Aqui está o seu patricio, minhas senhoras--disse elle, indicando a

Fernando uma cadeira--conversem; espaireçam saudades da sua terra.

Retirou-se o apresentante, deixando o filho de Francisco Lourenço

penosamente enleiado.

--Está ha muito em Florença?--perguntou Eugenia.

--Ha dois mezes, minha senhora.

--Lisboa é mais linda, não é?

--Lisboa é a patria; mas Florença é a perola do mundo--disse

Fernando.--Não vi na Grecia vestigios de lá ter havido uma Florença; e,

com tudo, a Grecia era a colmeia dos mais doces favos do mundo antigo.

Aqui me parece que vejo resurgidas as delicias da Roma imperial, os

jardins de Lucullo, os marmores jorrando espadanas de crystal, as

thermas de Antonio, os...

Reteve-se Fernando. Reparou que o estavam escutando duas meninas, que,

no ar do semblante, pareciam escutar idioma desconhecido. Que sabiam

ellas de Lucullo e Antonio, as florinhas dos anjos, que da vida e mundo

apenas conheciam o espaço perfumado de seus virginaes aromas? A ellas

que se lhes dava de Florença, onde viviam tristes, com saudades do seu

jardim de Lisboa, onde tinham cada uma seu canteiro, e em cada canteiro

as plantas do seu amor? Seis annos havia que tinham deixado a patria, e

ainda se diziam uma á outra: «Ainda veremos as nossas casinhas de murta?

Já arrancariam as trepadeiras que se entrançavam em redor das janellas

do nosso quarto?» O que ellas queriam era ouvir falar de Portugal, de

Lisboa, do seu palacio, e talvez das suas flôres. Conheceria Fernando as

flôres que ellas tinham?

--Tem muitas saudades de Portugal?--disse Fernando.

--Sempre...--respondeu Paulina.

--E quem priva seu pae de voltar á patria?

--Elle não quer!--disse Eugenia--Tanto lhe temos pedido! Responde nos

sempre que só volta a Portugal com o sr. D. Miguel... Quando irá o sr.

D. Miguel, sabe?

--Não sei, minhas senhoras... Parece-me que o sr. D. Miguel não pensa em

lá voltar...

--Não?!--atalhou Paulina--E o papá a dizer que sim!... Então nunca lá

tornaremos!

--Tornam, tornam. A final o pae de vossas excellencias vae sem a

companhia do sr. D. Miguel, e supponho até que elle póde viver

tranquillo sem a protecção do principe. As pessoas, que serviram o

partido do sr. D. Miguel, teem toda a segurança em Portugal; d'isto deve

estar sobejamente informado o pae de vossa excellencia.

--Diga-lh'o, sim?--tornou Eugenia.

--Não me atrevo a aconselhal-o; porém, se o sr. Bartholo de Briteiros

quizesse ouvir o meu parecer, dir-lhe-ia que o partido liberal só

persegue os seus proprios amigos.

As meninas não entenderam a doble intenção d'estas ultimas palavras.

Fernando, em virtude do nenhum uso que tinha de trato com senhoras,

compunha sempre as suas phrases em estylo sentencioso, como se as

estivesse palestrando com philosophos ou politicos.

A mim, comtudo, o que mais me espanta é a facilidade com que Fernando

Gomes dizia aquellas coisas, mais ou menos convinhaveis ás pessoas com

quem falava! Não o insandeceram duas mulheres que eram lindas a capricho

de Deus! Poder estar assim um mortal, razoando em termos communs, diante

de espiritos para quem se fez a linguagem mellica do madrigal, a poesia,

como ella é no Oriente, e como os hebreus a saberiam lêr no cantico dos

canticos! Pois não tinha elle olhos, á mingua de coração! Acaso o

temperamento lymphatico póde tanto que as imagens objectivas se não

espelhem na retina, e o coração não tome conta dos filtros que os olhos

lhe côam como arames abrazeados de electricidade?!

Eu sei cá!...

Fernando, passado um quarto de hora, saiu do lado das filhas de Bartholo

de Briteiros, e desceu ao gabinete do principe, onde sua alteza estava

fumando e tratando assumptos litterarios com artistas, poetas, e

eruditos de differentes paizes.

O principe chamou-o á sua beira, e segredou-lhe:

--Pois fugiu-lhes?! Não o entretiveram as patricias? Já sei o que foi:

as pequenas não sabiam nada de Roma e Grecia... Mas lindas de véras,

não? Qual lhe parece mais moldada pelos velhos typos da sua predilecta

Grecia?--disse Jeronymo Bonaparte com jovialissimo rosto.

--São formosas como portuguezas--respondeu Fernando Gomes--mas em

Londres seriam mediocremente graciosas. Os typos gregos eram menos

correctos; todavia a fórma antiga, como a estatuaria a perpetuou,

exprime os estupendos lances das tragedias que não se adivinham nas

physionomias aperfeiçoadas pela lima das gerações. As cabeças de marmore

parece que ainda fremem cheias de vulcões. O busto das Aspazias,

Corinnas, Faustinas e Cleopatras dardejam fogo d'aquelles pedaços de

Carrara e Paros. A mulher viril da esplendida antiguidade, conforme a

civilisação a veiu entronando atravez dos seculos, mais e mais se foi

amollentando em feminilidades. Ganhava em prestigio o que perdia em

realeza de forças. A mulher esculpturada em Roma e Grecia, ainda amante

e amada, incutia pavor aos seus sacerdotes; a mulher dos nossos tempos é

uma creança que se quer acariciada e bajulada como se as graças da

infancia lhe aquilatasse o merecimento.

--Parece-me porém--interrompeu o principe de Monfort--que as vantagens

são a favor da mulher comtemporanea, da mulher mulher. Que entende o

cavalheiro?... As suas patricias, a meu vêr, são perfeitas mulheres para

se amarem sem inveja de gregas e romanas...

--Certamente.

--E saiba que teem sido pretendidas de grandes senhores da França, da

Polonia, e da Italia. E o avarento pae não as cede ás mais remontadas

stirpes nem aos mais abastados concorrentes. Fidalgo diz elle que o é

dos mais antigos das Hespanhas; e, como o senhor Fernando sabe, o

Creador ordenou, quando fez ou refez o globo, que a Hespanha ficasse

sendo um estanque de fidalgos retemperados por sangue ostrogôdo, alano e

suevo, sangue barbaro, que teve quatro mil annos a sua nobreza escondida

nas florestas do norte... Advirto-o, meu amigo, d'esta avareza do senhor

de Briteiros, que não vá succeder apaixonar-se o senhor por alguma das

suas patricias!... Eu ficaria com eterno remorso de o ter apresentado,

se o visse ámanhã a braços com um amor funesto!...

Fernando Gomes sorriu-se das graciosidades do principe, e saiu, pouco

depois, do baile.

No restante d'aquella noite não viu Grecia nem Roma. Por sobre os vastos

destroços, que compunham as necropolis da sua memoria, adejava um

cherubim em nuvens de perfumes, era tudo primavera com seus devaneios;

flôres e mocidade e verdura em tudo: de tudo tirava esperanças que lhe

chamavam a alma ao futuro. O passado, então, pareceu-lhe melancholico: a

poesia dos imperios pulverisados avultou-lhe como horrenda soledade; e o

sol do dia seguinte encontrou-o ainda buscando no esplendor das suas

visões o cherubim, que era, em todo o rigor da fidelidade, a imagem de

Paulina Briteiros.

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 20 / 49 题