Aquelle dia e o seguinte passaram em indecisões do pae e do filho.
Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre mãe
andava, de um para outro, a negociar a reconciliação: ao marido dizia
que Fernando não podia nem devia retroceder: ao filho prégava-lhe
sermões de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e
ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo é que
Maria com os seus sermões conseguiu revirar o animo do filho a tal
ponto, que o moço, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pêso
ás chufas dos condiscipulos.
_O que a mulher quer, Deus quer_: é o titulo de um livro francez, que
póde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Lourenço, com os
seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do
filho, tão de longe pensada e afagada; ora Maria Luciana, em termos
brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que
tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho
á rasão e consciencia de verdadeiros brios.
Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter
magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar
por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.
Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces
lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e
concluir lá os estudos preparatorios.
Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.
Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um
menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a
ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e
tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a
mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o
desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem
ir entregue a si mesmo.
Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o
concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora
tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a
minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos
condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se
apregoar filho d'um sapateiro.
Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-se o batalhão
academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes
alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da
liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do
artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde
creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz,
arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire,
e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas
hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos
academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a
fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de
Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma
espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a
demora da primeira batalha.
Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido
antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já
marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa,
cogitando em mandar soccorros a Fernando.
Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador
no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco
Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo
d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a
liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não
viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias
de Bonaparte, que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de
muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado
nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o
humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das
amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de
Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo,
quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo--energumeno
panegyrista das forcas--bastaria a fazer d'elle um acerrimo _malhado_.
Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação
de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era
estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças
de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima
a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as
algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as
contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos
Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer
chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres
hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem.
Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de
grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes
obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de
bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de
gloria, nenhuma consideração de obediencia o retinha em seu posto. Lá,
os camaradas, denominavam-n'o o _pequeno diabo_, termos que se
conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o
conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre
tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem
em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que
ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a
arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos
novos.
Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado
com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraçar sua familia, e
seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa.
Depois da convenção de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil,
Fernando tornou para Coimbra a começar sua formatura em direito.
Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que
estancavam as prerogativas das raças nobres, e derramado o thesouro das
coisas boas á vida por todos os homens indiscriminadamente, era de
esperar que Fernando Gomes se désse por contente de ter nascido filho de
um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado
ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das
linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides
da intelligencia!
Sublime engano!
Os seus mesmos camaradas, quer invejosos da condecoração, quer da
intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do
filho do mestre Francisco Lourenço. Os conterraneos diziam que as suas
melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calçada do
Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos
de meia-tigela, como lá dizem uns dos outros, não apertavam, sem
repugnancia, a mão de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando
podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa.
Isto acontecia um anno depois da restauração dos direitos do homem!
Trinta annos já rodaram sobre esse facto de ridiculas convenções, e o
filho do sapateiro é ainda hoje, e o mesmo será d'aqui a cem annos, um
conviva chamado pela lei a sentar-se á mesa universal; mas a lei é uma
tola: lá está o fiscal d'estas universaes communhões, que tranca os
cancêllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que já Horacio lhe
dizia: _ne sutor ultra crepidam_; ou _tractent fabrilia fabri_, que tudo
quer dizer: «não se admittem sapateiros cá.»
Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua
mãe se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus
condiscipulos, o academico respondia:
--Tratam-me bem.
--Os tempos mudaram--accrescentava o pae.
--Mudaram; os homens é que não--dizia Fernando; e de salto, aventava
assumpto que désse córte na conversação penosa.
Proseguiu o moço em sua formatura, e concluiu-a com ser premiado no
ultimo anno, como em todos tinha sido.
Suppunha Francisco Lourenço que seu filho, notavel pelos serviços
prestados á restauração, e por seus premios, fosse chamado ás funcções
da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o
correio de algum ministro batesse á porta de Francisco Lourenço a
procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel.
O artista, de véras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao
filho. Fernando sorriu da boa fé e crença de seu pae, e disse-lhe que
estava sinceramente arrependido de não ter renunciado ao estudo, quando
chegou a descer á loja para sentar-se entre os officiaes.
Este arrependimento, sincero ou não, desgostou o pae, e toldou-lhe o
rosto de tristeza inconsolavel.
Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Lourenço tinha o melhor da sua
livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de
bibliómano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o
bacharel alli passou um anno, quasi só, raras vezes visitado por seus
paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vêr os locaes
descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na
historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor ás ruinas da Italia, Byron
ás da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney ás do Oriente.
Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos.
Francisco Lourenço, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os,
pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funesto resultado
em tão contumaz estudo. Deixa-lo ir, porém, custava-lhe a vida; e a
estremosa mãe, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer
com lagrimas.
Aos rogos de Fernando nenhumas razões empeceram: Maria Luciana transigiu
com o assentimento do marido.
Os recursos pedidos eram muito inferiores á liberalidade com que o pae
lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afóra isso,
ordens de quantias indeterminadas. Tal confiança era bem cabida no moço,
que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas,
economias com que comprava livros de recreio.
Sahiu Fernando por França em direitura á Italia. Deteve-se em Roma
alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o
conhecia; a ninguem procurava. Sósinho, de ruina em ruina, vivia com o
passado, e dava pouquissima de sua admiração ás grandezas do presente.
Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio
em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as
pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavações
dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e
contemplação que as obras primas de Miguel Angelo.
Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de
Bragança procurava hospitalidade á sombra da theara pontifical. O
principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo,
que tem as chaves do céo, não sabemos se teve fome: as chronicas
contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe
emprestaria as chaves do céo, se sua alteza quizesse para lá ir, as
chaves porém, dos reaes celleiros e cofres, essas é que decerto lhe não
emprestou. Os papas dão muito mais facilmente as ambrosias celestiaes,
que umas sopas diarias aos principes proscriptos.
Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel
de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com
que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas
miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano,
espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara
Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou
meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das
meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe
Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era
apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados
infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o
raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o
fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um
desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais
compassiva e generosa.
Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre
romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'onde se
lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa
parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle
major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do
Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em
Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes
antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e
grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na
estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas,
e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas
hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general
miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.
E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um
presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um
anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma
elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei no _Nacional_ do Porto.
Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois
infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais
cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras
dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e
converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das
liberdades patrias!
Agora é de mais!