II

Posto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite,

Francisco Lourenço cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa.

Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes,

quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus

caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no

Cartaxo, onde ia formando deposito de livros, _amigos da velhice_, como

elle dizia. Tencionava Francisco ir lá passar o ultimo quartel da vida,

empregando-a, sem outras distracções, no enlevo dos bons auctores que ia

conhecendo.

A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes

de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a não

lesse a sua mulher. Como não tinham filhos, sobejavam os ocios do

arrumamento das coisas domesticas. Maria sentava-se a costurar, nas

noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com

emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do coração ou

espirito. A _Cantata de Dido_, a pagina mais maviosa entre as mais

inspiradas da poesia portugueza, já ella a sabia de cór, á custa de

ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas

nacionaes antigos e do seu tempo, excepto José Agostinho de Macedo, que

Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Camões, e o émulo

atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o

frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia,

vontade de escorchar com um pontapé aquelle ôdre de vinho e peçonha.

Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Lourenço agradecia a Deus

a felicidade do primeiro filho, quando o já não pedia nem esperava.

--Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem--disse o festivo

pae a sua mulher.--Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a

minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. Já

sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de

ser um descançar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma

de meu filho uma boa porção da minha essencia.

Não deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do

artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se

haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume

lhe rescendia em tudo. O seu permanente privar com poetas, ou com a

natureza, mãe de todos, e mais mãe dos que a amam sem lhe devassarem os

segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que

para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros

arrobamentos de pae.

Por esse tempo falleceu o velho Lourenço e o pae de Maria. A herança de

ambos daria sobeja independencia a Francisco; porém, a existencia da

creança, dilatando o alcance das ambições paternas, desviou-o do antigo

proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho é

realmente um aguilhão que aperta os temperamentos mais desleixados em

grangeio de bens de fortuna. Já lhe queria parecer a Francisco Lourenço

que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o

seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos

porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de

pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho,

afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o

numero de officiaes, a fim de exportar calçado para o Ultramar.

No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem

querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada mercê

das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro

que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem

educação scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava não poder

crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e

Violantes do Céo, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a

senhora Maria Luciana ás tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as

meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto

consolava as tristes apprehensões do pae; mas era ainda pouco para

allivial-o do desgosto de não ter filhos, que podessem ser tres grandes

poetas, ou, ao menos, tres sabios que é um grau de sciencia muito mais

facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem.

Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove

annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, até aos

dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra.

N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns

com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de

Horacio e Ovidio.

Grande era o dissabor do moço, quando vinha das aulas, e via, atravez da

vidraça que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas

ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua mãe, e pedia-lhe que

aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que já

tinham para viverem em decente mediania. A boa mãe não se esquivava de

pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse

mostrar-se envergonhado do officio de seu pae.

O imprudente moço não deu o devido peso ás reflexões da mãe, e insistiu

no seu desgosto e rogos. Bem póde ser que os condiscipulos lhe atirassem

á cara, como despique de inveja dos progressos d'elle, o seu nascimento

humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este

barbaro quilate. Á peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques

da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o

exemplo das preferencias. A applicação no moço da baixa tracção era

menos louvada que a preguiça no escolar de familia illustre. Este

escarneo do Evangelho chegava até Coimbra, onde se degladiavam primazias

de nobreza, e só com muita paciencia para ultrages e desprezos,

conseguia formar-se o filho do artifice, que não se abalançava a entrar

em communhão de sciencia com os privilegiados da boa fortuna.

É, pois, de crêr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos,

desejasse que seu pae levantasse mão do officio de sapateiro, que mais

que outro qualquer--sem podermos dar razão do porque--se presta á

zombaria nas facecias dos chocarreiros.

Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja.

--Porque?!--perguntou Francisco Lourenço.

--Porque...--tartamudeou o filho--se meu pae quer formar-me... não me

parece...

--Diz, homem!--acudiu o pae á indecisão de Fernando, com semblante

transtornado--não te parece o que?

--Que seja bom ter loja de...

--De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavra _sapateiro_!

Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu

pae?

Fernando baixou os olhos e não respondeu; mas o silencio era, no caso, a

mais eloquente das confirmações.

--Está bom--disse Francisco--descança que se ha de remediar tudo o

melhor que puder ser. Hoje não vaes á aula. Amanhã falaremos.

Francisco Lourenço fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de

referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluçante, que a

consternada mulher não sabia como explicar nem consolar.

Falaram largo tempo. O marido saíu de melhor sombra. Maria chamou

Fernando e disse-lhe:

--Deus te perdôe o mal que fazes a teu pae! Eu não quiz dizer-lhe que

fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!...

Fernando, d'esta vez vali-te; mas não caias n'outra. Olha que teu pae é

tão bom como severo. Segue a carreira que elle te dá, e deixa-o lá com a

sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar?

Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle é de livros. Se trabalha,

para ti é, e para tuas irmãs. O que temos seria bastante para um, se

tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu não has de

querer ser doutor, e ver tuas irmãs sem nada. Vae á aula; e, se alguem

te disser que és filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita

honra em ser filho de quem és... Póde ser que os fidalgos, que t'o

disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ...

Estas judiciosas razões não consolaram a Fernando.

A resposta foi um calado despeito, e uma visagem de desdem, que Maria

viu com os olhos humidos.

Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua mãe, e disse-lhe que

não tornava á aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a

explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado

com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara

qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em

logica pertenciam ao dilemma. A mãe não conheceu o travôr do epigramma.

Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu

pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe:

--Irás frequentar outra aula.

--Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo

desabrimento deshumilde.--Emquanto o pae estiver n'este modo de vida,

hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em

Lisboa, como em Coimbra.

--Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.

A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde

Fernando estudava, e disse-lhe:

--Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como

teu pae e teu avô.

Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e

foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a

intervallos:

--Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi

a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter

vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu

andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse

largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a

desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!...

Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o

vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo

consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a

sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero

sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem

de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande

afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que

eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle;

tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do

mundo, que m'o ha de perder!

Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que

tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde

os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do

artista.

--Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja

conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei

de recommendar a Fernando que não diga em Coimbra quem é seu pae, ou

consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes,

Maria? ...

Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que

argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais

sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para

engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por

desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a

elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu

maior engrandecimento?

Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae,

se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.

--E porque não hei de eu ir?!--respondeu placidamente Fernando, com

grande assombro da mãe.--Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero

sê-lo quando m'o chamarem.

--E não te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?--tornou a

mãe, commovida pela briosa resolução e desapego do filho.

--Não perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae

o é. Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. Não receio

que me humilhem na loja.

Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, não sabia bem o que

dizia, nem, a menos que a natureza se não houvesse singularisado n'elle,

devia insistir muito tempo em pontos de tão isempta grandeza de animo.

N'aquelle mesmo dia desceu á officina, e disse ao pae que lhe talhasse o

seu serviço. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe:

--Vá para cima!

Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significação

d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca

descêra á casa de trabalho, nem trocára palavra com algum dos officiaes.

Estes, por ironia, e lá muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o o

_fidalguinho_, e riam á sucapa, quando, atravez das portas envidraçadas,

o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho.

A situação de Francisco Lourenço era afflictiva. A corajosa apresentação

do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar

com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o

estudante recebera aterrado a nova: não se enganou; mas longe estava de

cuidar que a reacção do brio o determinasse a acceitar sem custo um

tirocinio de sapateiro. A verdade é que ambos estavam enganados: o pae

com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem.

Não sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas

forçoso era verem-se á mesa da ceia. O artista não poude engulir bocado.

Maria ensopava o lenço em lagrimas. Fernando, grave, mas não triste, ia

comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irmãs, extranhas

ás amarguras dos paes.

Quando as meninas, depois de darem graças a Deus, se retiraram ao seu

quarto, Fernando disse com muita brandura:

--Porque hão de estar tristes?! Eu já disse á mãe que acceito qualquer

posição que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio:

se meu pae não quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades

dos livros, nem pesar de esperanças perdidas em grandezas do mundo.

--Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!--atalhou o pae.

--Não me envergonho: vocemecê não entendeu bem a minha magua. O que eu

não posso supportar são as zombarias dos meus condiscipulos, que por

força me hão de encher de fel o coração, e fazerem-me mau. Qualquer que

seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e

poderei distinguir-me d'elles com a minha instrucção, sem que ella me

faça alvo dos seus motejos. Isto é o que eu desejo e penso.

--Tens dezesete annos, Fernando!--disse o pae--É tarde para recomeçares

nova carreira.

--Eu me applicarei para ganhar tempo. Não lhe dê isso cuidado, meu pae.

--E queres ser sapateiro?

--Serei...

Como este SEREI foi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella palavra!

Que volume de psycologia, de physiologia de coração, de philosophia

transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz

de extrahir d'aquelle SEREI! Da accentuação que Francisco Lorenço deu á

palavra _sapateiro_, tambem podia formar-se outro volume psycologico,

physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas

variantes desde a sinceridade do santo, até á ironia do demonio de

Goëthe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno

cá mandou, depois dos enviados que prégaram a distincção entre homem e

homem!

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 18 / 49 题