monumentos de Roma e da Italia. Ora, n'um grande numero d'estes
monumentos, o _entablamento_, isto é, a parte superior da Ordem,
composto do _friso_, da _architrava_ e da _cornija_, membros que, nas
Ordens Gregas, servem sempre para ligar duas columnas proximas, tinha
sido supprimido e substituido por arcos, os quaes vinham firmar-se nos
capiteis d'essas columnas. Quando procuram empregar materiaes de pequena
dimensão, a substituição do arco pelo entablamento é perfeitamente
logica; porém esta não é a pratica seguida na epocha da _decadencia_
romana, de interpôr ao fecho inferior do arco e ao açafate do capitel,
um simulacro de entablamento da Ordem, entablamento que ficava
completamente inutil, visto que o seu emprego está preenchido pelo
_arco_. Na época da renascença, esta prática pouco racional e pouco
reflectida foi geralmente adoptada, principalmente d'áquem dos Alpes.
Além de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia romana
outros defeitos tambem notaveis no que diz respeito ás cornijas: em
primeiro logar, quando muitas Ordens estão sobrepostas na altura de um
monumento, como acontece frequentemente nas fachadas, põem-se _tantas
cornijas_ quantas são as _Ordens_; depois, coisa mais singular ainda, a
Ordem collocada _no interior_ de um monumento _conserva_ a sua cornija,
isto é, o _remate do edificio_ destinado a ter _um telhado_ e um algeroz
para dar saída ás aguas da chuva!
A architectura do renascimento, todavia, não é uma simples mescla, uma
copia servil da architectura greco-romana. Serve-se ella, na verdade,
das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos e para outros climas,
aproveitando os progressos obtidos pela arte de edificar durante o
estylo ogival. Os edificios que executou conforme os principios de
construcção d'este ultimo estylo, foram enfeitados á maneira antiga,
ornamentado superficialmente, ou desfigurados, como em S. Paulo de
Londres, por paredes isoladas que encobrem a configuração architectonica
do monumento; emquanto na Belgica, nas egrejas do renascimento, o
systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em toda a parte
conservado, porém dissimulado com arte. As paredes exteriores das naves
lateraes, muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, e muitas
vezes esses arcos-butantes ficam revirados (isto é, collocados de
maneira que a sua curva convexa fica posta na direcção do telhado
d'essas naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles.
_Decoração_. Sob o ponto de vista da decoração pintada e esculpida,
muito mais que sob o ponto de vista architectonico, o periodo da
renascença, no sentido mais lato, póde-se dividir em muitos estylos,
apresentando cada um caracteres distinctos. Estas sub-divisões se
applicam particularmente ás producções da arte Franceza. 1.^o o estylo
da renascença propriamente chamado, o qual comprehende o XVI seculo e a
primeira metade proximo do XVII seculo; todavia sepára-se algumas vezes
d'esta época nos annos 1610 a 1642, para lhe constituir o estylo Luiz
XIII; 2.^o o estylo Luiz XIV (1643 a 1715); 3.^o o estylo Luiz XV (1715
a 1774); 4.^o o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); 5.^o finalmente o estylo,
designado do imperio (primeiros annos do XIX seculo).
Na origem da _renascença_, os ornamentos foram, como na architectura
imitados quasi servilmente dos monumentos da antiguidade. As almofadas,
frizos, pilastras e um grande numero de outros trabalhos architectonicos
se revestiram, nos edificios os mais sumptuosos, de assumptos de
decoração proveniente da arte greco-romana. As palmetas, folhas de
acantho e triglyphos tornaram a apparecer em todo o logar. Viam-se
tambem, genios alados, figuras naturaes e phantasticas de toda a especie
enlaçadas nas grinaldas e em espiraes formando desenhos os mais
caprichosos. Estes ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme
os modelos antigos achados em Roma nas _grutas_ ou ruinas do palacio de
Titus, tiveram no principio o nome de _grotescos_, denominação mais
propria do que a de _arabescos_, a qual lhe foi dada depois, porque os
Arabes proscreviam severamente da sua decoração qualquer representação
da natureza animada.
O estylo da renascença não se conservou intacto senão até o principio do
XVI seculo.
Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente em grandes
espiraes, palmas muito desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os
elementos de ordem architectural, medalhões, trophéus, etc.
O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela elegancia exaggerada nos
pequenos detalhes, desce á affectação na lindeza. A esculptura
decorativa abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e subtilmente
contornadas; faz com frequencia uso de conchas ou embrechado,
misturando-as em todas as suas composições. A linha recta cede o logar á
linha curva, e sobretudo a symetria não é observada. No principio do
XVIII seculo, o gosto se corrompeu de novo; volta-se no traçado do plano
e nas fachadas dos edificios ás fórmas torcidas e ás linhas quebradas.
Nos ornamentos dos maiores e soberbos contornos, as plantas vistosas do
estylo Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se e
entrelaçando-se uns nos outros da maneira a mais singular, e
acompanhados de abundantes obras de conchas e de grande numero de
cupidos; o que fez dar a este _estylo exquisito e todo affectado_ o
appellido de estylo _embrechado_ e estylo _Pompadour_.
A affectação e o grande exaggero que caracterisam o estylo de Luiz XV
motivaram cedo uma reacção. No reinado de Luiz XVI voltaram a empregar
menos entrelaçados e menos entalhaduras. A descoberta de Herculanum e a
publicação das _Antiguidades de Athenas_ contribuiram a levar o
entendimento para o gosto mais serio, uma decoração menos contrafeita;
fizeram vigorar as fórmas classicas da arte grega e romana, cujas
investigações recentes vieram a descobrir os especimens importantes e
notaveis.
A época da revolução franceza e do directorio causou um extraordinario
prejuizo á industria artistica. Quando, no principio do actual seculo,
um novo estado politico ficou definitivamente constituido, o seu novo
soberano, vencedor na Italia e no Egypto, cuidou em conservar junto de
si as coisas que lhe recordassem as suas victorias gloriosas.
No _estylo do imperio_ viu-se apparecer os gryphos, as sphinges, os
feixes consulares, victorias com palmas e corôas de carvalho. Pouco
tempo depois, esses assumptos foram quasi os unicos empregados na
decoração tanto de architectura, como na mobilia.
_Plano das egrejas_. A maior parte das egrejas da renascença têem a
fórma da cruz Latina. As capellas que havia ao correr das naves lateraes
e na nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas em França,
na Belgica e na Allemanha, porém conservaram-se na Italia. A capella mór
e o cruzeiro terminavam geralmente por uma abside semicircular ou
polygonal, apresentando no interior uma disposição de pilastras
corinthias ou compositas, entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas
de volta inteira, descançando sobre columnas ou pilares põem a nave
principal em communicação com as naves lateraes. As portas, as janellas
e todas as aberturas estão tapadas na sua parte superior por um arco de
volta inteira.
Os _triforiuns_ das egrejas ogivaes não se construiram na renascença.
Primeiramente substituiu-os, durante algum tempo, uma galeria em sacada,
tendo parapeito de cantaria vasado ou de obra de ferro; todavia pouco
depois esse logar foi occupado por uma simples cornija com sacada
bastante solida para servir como galeria, podendo-se andar á roda da
nave principal, ficando na altura das janellas superiores.
O monumento mais gigantesco e grandioso que tem produzido a architectura
do renascimento é, sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano em
Roma, cuja construcção foi dirigida pelos mais celebres architectos,
Bramante, Raphael, os dois S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola,
Maderno e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente o seu
mau gosto em bellas-artes veiu a ser proverbial, sendo originado pela
inveja dos seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu superior
talento: imaginando dar formas novas e as mais extravagantes ás suas
composições architectonicas afim de supplantar os seus rivaes, morreu
_desesperado_ por nada ter conseguido; posto que fosse dotado de
talento, o seu desmarcado amor proprio veiu a causar-lhe o descredito do
seu nome. N'esta colossal construcção da Basilica de S. Pedro
consumiu-se mais de seculo e meio.
_Fachadas das egrejas_. As fachadas compõem-se regularmente de duas, e
algumas vezes de _tres Ordens de columnas sobrepostas_. A ordem inferior
abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as lateraes, é mais larga
que a ordem superior; essa corresponde á unica nave central, pois que o
madeiramento das naves lateraes não sóbe nunca até o entablamento da
primeira ordem. A ordem mais superior sempre terminada por uma attica ou
um frontão triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada nos angulos,
acrotéros com vasos, fogaréos e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada
lado da ordem superior, preenchem os espaços dos angulos rectos
produzidos pela superposição das duas ordens tendo desigual largura. As
columnas da fachada estão geralmente embebidas um terço ou metade do seu
diametro. Um ou tres portaes, conforme a importancia do edificio, dão
ingresso nas naves.
Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, vindo a ser muito rica
e poderosa no XVII seculo, adoptaram em toda a parte esta composição
para as fachadas de suas egrejas; por isso dá-se o nome do _estylo dos
Jesuitas_ á architectura religiosa d'esta época. A maior parte das
egrejas que estes religiosos construiram distinguem-se pela abundancia
dos seus ornamentos, principalmente as edificadas na Belgica.
_Abobadas_. As abobadas têem, como as da época antecedente, nervuras
encruzadas, as quaes, em logar da fórma da ogiva, descrevem uma curva de
volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos duplos são largos e
muitas vezes formados por almofadas pouco fundas. No XVI seculo, as
abobadas tinham ás vezes decorações pintadas, e os seus fechos sustentam
abobadas pendentes com muitas sacadas de bastante peso. Depois
abandonou-se, além dos Alpes, a decoração pintada, substituindo-lhe os
ornatos em relevo.
_Torres_. As torres, geralmente construidas sobre plano quadrado, e
compostas de dois, tres ou quatro andares sobrepostos e ornados de
pilastras ou de columnas embebidas, têem muitas d'ellas uma balaustrada
á bôca da flecha, com as fórmas mais variadas; campanulada, piriforme,
pyramidal ou uma fórma mais complicada ainda.
*Mobilia religiosa*
_Altares_. Durante algum tempo continuou o uso dos retabulos com
divisões multiplices, no genero d'aquelles dos ultimos annos do periodo
ogival, porém tendo as molduras das almofadas em detalhes no gosto do
renascimento.
Foi proximo do XVI seculo que uma mudança radical appareceu na fórma e
disposição dos altares. Os retabulos foram então substituidos pelos
porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, encimados com
frontões de fórmas muito variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores
raros e preciosos, sobretudo para as columnas, adquirindo-os com grande
despeza, dos paizes os mais distantes. A arcada imitando o _arco de
triumpho_ foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e
baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimensões; e estes mesmos
acabaram em pouco tempo para serem substituidos geralmente por
esculpturas.
Quando no XVII e no XVIII seculos, as fórmas extravagantes (_rocôcó_)
prevaleceram no systema da decoração, os altares tambem ficaram
sobrecarregados de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram as
columnas _torcidas_, em _espiral_ e em _saca-rolhas_!
_Tabernaculos_. O uso de collocar tabernaculos para conservar a
eucharistia sobre os altares principaes e secundarios, generalisou-se no
fim do XVI seculo. Até essa época as particulas se conservaram, como
durante o periodo ogival, nos tabernaculos isolados em fórma de torre ou
em armarios abertos na parede, por detraz ou á ilharga do altar. Houve
mesmo paizes onde o antigo costume não ficou abandonado inteiramente só
muito depois do XVII seculo.
Os tabernaculos de marmore e de madeira que se collocavam sobre o altar
desde a época do renascimento, compõem-se geralmente de um cylindro ôco
ornado com riqueza e reunido a _predella_ ou throno, no qual se põem
castiçaes sobre misulas reviradas. O cylindro fechado no seu cume por
uma tampa de fórma hemispherica tem por remate um crucifixo, dividido
por um, dois ou tres compartimentos com separação, e girando sobre um
eixo vertical.
_Cadeiras do côro, obra de talha e confissionarios_. As obras de
entalhador que ornam muitas egrejas do XVII seculo, são as principaes
obras deixadas pela época da renascença.
As costas das cadeiras do côro compõem-se sempre de almofadas de
marcenaria ornadas de baixos-relevos ou de pinturas, separadas umas das
outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou Composita, sustentadas em
sacadas por misulas com bella obra de talha. Os fustes d'essas
columnasinhas, rectos ou torcidos, estão cheios de lindos arabescos e
delicadas folhagens. A obra de talha e dos confissionarios apresentam na
sua decoração de esculptura bastante similhança com as das cadeiras do
côro.
_Jubéos e balaustradas_. Os _jubéos_ da renascença compõem-se geralmente
de tres arcadas de volta inteira, que descançam sobre columnas ou
pilastras imitadas das Ordens classicas.
Collocam-se os jubéos á entrada da capella mór nas grandes egrejas até
proximo do meiado do XVII seculo.
No meiado do XV seculo, uma grande reacção se fez contra os jubéos,
porque, dizia-se então, destruiam o aspecto architectonico e impediam os
fieis de vêr o sacerdote no altar. Muitos foram desmanchados n'esta
época, outros transportados proximo da fachada Occidental da egreja, a
fim de servirem de tribunas para collocar os orgãos.
As _balaustradas_ destinadas a vedar a capella mór e a separar das naves
lateraes as capellas, ou resguardar certas partes da mobilia religiosa,
foram poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, faziam-se de
preferencia de marmore ou latão. A sua composição era de repetidas
columnasinhas de fórma classica, quer com balaustres em pé ou
_revirados_, o que lhe fez dar o nome de _balaustrada_.
Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos funerarios entre
essas separações da capella mór e as naves nas cathedraes e nas egrejas
importantes.
_Caixas de orgão_. Na época do renascimento, deu-se ás caixas dos orgãos
as maiores dimensões. Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes,
do lado do Evangelho, na parte inferior do _triforium_, no primeiro ou
segundo vão da nave principal. Depois, isto é, perto do meiado do XVI
seculo, foram assentes proximo do cruzeiro, á entrada dos lados lateraes
da capella mór. Finalmente, quando as dimensões dos orgãos se foram
desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se tribunas especiaes na
nave central, proximo da frente Occidental da egreja. As mais antigas
caixas dos orgãos estão cobertas de obra de talha.
_Pulpitos_. Durante o periodo da renascença, o pulpito teve dimensões
muito maiores que precedentemente. No XVI e XVII seculos foram
construidos geralmente de madeira; porém desde o meiado do seculo
seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore á madeira. Os pulpitos das
egrejas de primeira ordem compõem-se muitas vezes de grupos de estatuas
acompanhadas de arvores, rochedos e outros detalhes pittorescos
representando factos da historia sagrada ou ecclesiastica.
_Tumulos e campas_. No XVI seculo os cenotaphios eram compostos ainda
como durante o periodo ogival, d'um sóco ou macisso de alvenaria,
coberto por uma grande lousa, sobre a qual se vê a estatua do finado. Á
roda do sóco acham-se por vezes estatuasinhas debaixo de arcaduras de
volta inteira descançando sobre columnelos jonicos, corinthios e
compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas estão
substituidas por uma ordem de brazões. A figura do finado vê-se umas
vezes deitada, outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio.
Esta ultima attitude foi a mais commum no fim do periodo: todavia no
XVII seculo, os monumentos sepulchraes veem a ter uma composição muito
mais complicada; os sarcophagos tiveram as mais variadas fórmas, e as
estatuas dos finados foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas,
como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, a Fé, Esperança,
Caridade, etc.
No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas vezes collocados por
baixo de uma arcada muito ornada no estylo do renascimento. Esta
decoração architectonica applicada sobre as paredes de uma capella ou
das naves lateraes, da nave principal e capella mór conservou-se nos
XVII e XVIII seculos, mas disposta com acerto, com as modificações
introduzidas successivamente na architectura. Na segunda metade do XVII
seculo, e muito mais frequentemente no seculo seguinte, rematavam os
tumulos com pyramides e obeliscos em meio relevo, ornados de bustos, em
medalhão, do finado. Os cyprestes, as columnas quebradas, as urnas
funereas, genios com fachos derribados, todas as reminiscencias pagãs
vieram a ser tambem uma decoração mais seguida n'esta ultima época.
O uso das _campas_ continuou durante o periodo do renascimento, e o seu
numero augmentou muito relativamente á época precedente. No XVI e no
XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros;
tambem ás vezes se assentavam na grossura da parede, junto do logar em
que fôra sepultado o finado. As mais antigas, especialmente as da
segunda classe, estão cobertas em parte por figuras em alto e baixo
relevo, em parte com inscripções. Mais tarde limitaram-se a uma simples
inscripção acompanhada de um symbolo ou de um brazão.
A maior parte das campas são de calcareo azul ou de marmore preto, e
muitas vezes têem as inscripções embutidas com marmore branco. Acham-se
tambem algumas lousas funerarias de latão, cujos traços gravados estão
cheios de um esmalte encarnado ou preto, posto a frio.
Desde o começo do XVII seculo, as inscripções funereas principiam
frequentemente pela fórma pagã D (_eo_) O (_ptimo_) M (_aximo_), ou com
as letras P. M. interpretadas PIAE MEMORIAE, mas isso tem o
inconveniente de fazer directamente allusão ao P (_iis_) M (_anibus_)
dos antigos romanos.
_Pias baptismaes_. As pias baptismaes apresentam pouca importancia; a
iconographia tão esplendida e tão abundante de symbolismo que se notava
sobre as pias romãs, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival,
desapparece de todo. Ellas foram então formadas de simples pias de
marmore, circulares ou polygonaes, tendo a fórma de uma semi-esphera ôca
e achatada, ás vezes ornadas com molduras de fórma de perolas e assentes
sobre um pedunculo com molduras. As tampas são de latão ou de madeira.
_Obras de ourivesaria e de esmaltador_. Durante o periodo da renascença,
os ourives serviram-se princípalmente do trabalho de estampar em relevo,
da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de ourivesaria. Os
esmaltes de côres, cujo uso havia sido introduzido no fim do XV seculo,
concorreram egualmente ás officinas de Limoges, Augsbourg e de
Nuremberg. Os _Limousinos_ cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as
peças metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis
ou medalhões: os _Allemães_ empregaram os esmaltes, não sómente como
faziam os Limousinos, para pintar pequenos modilhões, muitas vezes
camafeus côr de rosa, e os applicavam sobre os pés dos calices, das
custodias e sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem
para fazer realçar, pelo emprego do colorido superficial, certos
detalhes das suas peças de ourivesaria, por exemplo, as figuras,
folhagens, flôres e grinaldas.
O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na
litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os
deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pagã foram
resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia da
Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes na
reproducção dos heroes do paganismo: representavam o Padre Eterno com as
feições de Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora
assemelhando-a ás deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios nús,
e as tres Graças serviram para personificarem as virtudes theologaes.
Entre os arabescos via-se reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos,
Tritões, Nereidas; representações onde a natureza humana e a natureza
animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do culto
revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes dimensões
fóra de toda a proporção.
_Calices_. Os ourives do XVI seculo abandonam pouco a pouco as tradições
da edade média, e, posto que a fórma antiga da taça se conserve ainda
algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez maior. A
principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se levar pela
sua imaginação, esquecendo completamente as boas tradições dos tempos
anteriores. O calix chega, e mesmo vae além muitas vezes, á altura
desmedida de 35 centimetros; a taça estreita-se muitas vezes de maneira
que na communhão o padre é obrigado a curvar a cabeça para traz; o nó
não se distingue já da hastea, e o diametro do pé do calix diminue a tal
ponto que ao menor choque o calix está arriscado a cair.
A patena é uma simples chapa redonda, não tendo nenhuma cavidade.
_Pyxide_. As pyxides distinguem-se das que havia nas épocas precedentes
pelas suas muito grandes taças; sendo raramente ornadas de lavor
representando assumptos religiosos. A começar do XVII seculo, a sua
tampa não fica ligada á taça por um gonzo.
_Custodia_. As custodias de fórma radiante, foram, póde-se dizer, as
unicas conhecidas da época do renascimento; teem geralmente as dimensões
muito exaggeradas. As custodias com cylindro de crystal apparecem apenas
no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais tarde estes ultimos,
substituindo o cylindro de crystal por um sol radiante. Nas custodias
ricas, o oculo com sol radiante é algumas vezes ornado de grupos, scenas
em alto relevo e estatuasinhas, que não convém, por fórma alguma, junto
ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais vezes ainda
nas custodias modernas.
_Relicarios_. Os grandes relicarios do renascimento eram as mais das
vezes de madeira pintada e dourada. Faziam-se ainda algumas vezes os
relicarios de madeira, apresentando a imitação de egrejas
contemporaneas, com columnas, entablamento, frontão, etc. Muitas vezes
tambem serviam-se de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que
se collocavam sobre uma base ornada com molduras com ovanos.
Encaixilhavam-se as reliquias no meio da face anterior d'essa base,
mettendo-as debaixo de vidro, ou em um pequeno. relicario de metal.
_Estofos preciosos_. _Tecidos_. No XVI seculo, os estofos de que se
serviam para as vestimentas, os mais ricos eram tecidos com oiro ou
prata, brocado e velludos de Genova e de Utrecht.
_O estofo com oiro ou prata_ é um tecido feito com fios cobertos de
qualquer d'estes metaes. Quando os desenhos são tecidos servindo-se dos
mesmos fios ou fios de seda, designam-se _brocado_. Finalmente, se em
logar de fios de seda se servem de velludo, chama-se _velludo de
Genova_.
Antes do XVII seculo não se conhecia o _velludo lavrado_: da sua
superficie tiravam-se servindo-se da thesoura, certas partes do pello
para formar desenhos de flôres e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter
um resultado analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina
movida a braços ou pela agua; foi este o processo que forneceu, durante
muitos seculos, o _velludo batido_. O _velludo_ dito de _Utrecht_ tem
geralmente o pello mais comprido que as outras qualidades de velludos, e
distingue-se por uma consistencia mais forte.
_Bordados_. Os _bordados_ da época do renascimento podem-se dividir em
duas grandes classes. A primeira comprehende os estofos bordados, tendo
conservado a sua flexibilidade, e consistindo o seu apreço na disposição
artistica dos fios de oiro, prata, seda ou lã de differentes côres,
empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em
estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas,
flôres, fructos e figuras com as quaes estão ornados; podia-se suppôr
que o bordador, esquecendo o seu proprio officio, foi pedir auxilio a
uma arte estranha, que não é nem póde ser a que lhe pertence! Inutil
seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o bordador
empregasse os processos de execução dos quaes legitimamente elle dispõe
pela natureza mesmo do seu officio, áquelle que empregou da arte da
esculptura, arte da qual os effeitos nos parecem incompativeis com os do
bordado inconvenientemente produzido.