situadas em um recinto inteiramente fechado, á roda de uma egreja
isolada de todos os lados. Sectarias de _Bégard_, partidistas de uma
perfeição extrema que permittia todos os excessos de devoção e que fôra
adoptada no III seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas.
_Hospitaes_. Os hospitaes da idade média differem absolutamente dos
hospitaes modernos. Os do XII e do XIII seculos compunham-se sempre, de
uma extensa casa onde estavam as camas para os doentes, de uma egreja ou
capella contigua a esta casa e communicando com ella, de um aposento
para os enfermeiros, e de algumas casas para serviço. Por causa da
hygiene ficavam geralmente situados nas proximidades da porta da cidade
ou sobre a margem de um rio.
*Iconographia do periodo ogival*
_Observações preliminares_. As representações iconographicas tão
variadas e tão abundantes de symbolismo, que se encontram em grande
numero sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas Roman e
Ogival, eram geralmente projectadas e imaginadas, não pelo obreiro ou
artista que executava o objecto, porém, por um padre, frade ou secular
litterato.
_A aureola_. A aureola ficou em uso como signal iconographico durante
todo o periodo ogival. _Crucifera_ pertence exclusivamente ás pessoas da
Santissima Trindade; simplesmente _circular_ é attributo caracteristico
dos Santos. A sua fórma manteve-se geralmente a mesma que era antes,
salvas algumas modificações em certos paizes, mas apenas no termo do
periodo ogival.
No fim do XIV seculo, não sómente os Santos, os Apostolos e Nossa
Senhora, mas tambem os anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo
ficaram privados d'este attributo caracteristico. Se a aureola por acaso
apparece ainda resplandecendo alguma imagem, foi porque o artista,
luctando contra a moda, commetteu archaismo. Um sem numero de monumentos
que datam d'esta epocha e chegaram até á nossa, apresentam _sem aureola_
as imagens divinas, angelicas ou sanctificadas.
*Representação da Santissima Trindade*
Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas vezes do baptismo de Jesus
Christo para representar a Santissima Trindade. Como no periodo Roman,
dava-se ainda, durante o periodo ogival, a fórma humana ás tres pessoas
Divinas, ou pelo menos ás duas primeiras, pois o Espirito Santo
continuou a ser frequentemente symbolisado por uma pomba. As tres
pessoas Divinas continúam a ser representadas da mesma fórma até ao fim
do XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura de um ancião, o
Filho de Deus a de um homem de trinta a trinta e cinco annos, e o
Espirito Santo a de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao Padre
Eterno dá-se então o distinctivo de um globo, uma Cruz de resurreição ao
Filho, e um livro ao Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma
epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo algumas vezes o seu Filho,
de papa ou de imperador, com a pretensão de expressar, por assim dizer
materialmente, o seu supremo poder, achando-os revestidos das insignias
das duas maiores auctoridades conhecidas sobre a terra.
Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, dois symbolos da
Santissima Trindade, consistindo em figuras geometricas, o triangulo e
tres circulos entrelaçados. Na epocha do renascimento, costumavam muito
a inscrever n'um triangulo algumas vezes um olho, outras o nome de
Jehovah.
*O crucifixo e a crucificação*
No XIII seculo, epocha designada _do soffrimento_, ou da _realidade_,
principia-se a representar Jesus Christo na Cruz. O corpo do Redemptor
curva-se ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante
desagradavel; os braços não ficam na sua posição horisontal, pois as
espaduas descem sensivelmente abaixo do ponto de união das mãos, de modo
a figurar os esforços naturaes produzidos por um corpo humano suspenso
por meio de cravos; os pés sobrepostos afastam-se de pessima posição,
muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; finalmente a cabeça de
Christo, moribundo ou sem vida, está quasi sempre inclinada sobre o
hombro direito, isto é, para o logar onde se vê a Mãe de Jesus e tambem
algumas vezes a personificação da Egreja.
Nas crucificações pintadas e esculpidas do XV e XVI seculo, a cruz do
Redemptor e as dos ladrões, muitas vezes bastante altas e de diminuta
grossura; assim como a travessa horisontal da cruz do Christo tem um
grande comprimento, em quanto que a extremidade que tem o titulo, sobe
apenas ao ponto de intersecção das duas travessas.
Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se com timidez
primeiramente a supprimir o _suppedaneum_ e a pregar á cruz, por meio de
um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; porém, depois de
algum tempo, o emprego de tres cravos veiu a ser quasi tão commum como o
de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico empregado.
O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII seculo. A corôa de
espinhos, quasí desconhecida antes, apparece de tempos a tempos no XIV
seculo. No seculo seguinte encontra-se frequentemente.
No XIII seculo, a representação da crucificação foi ainda algumas vezes
reproduzida com todas as personagens e accessorios historicos e
allegoricos que acompanhavam precedentemente e que já temos descripto; o
mais das vezes, todavia, não se conservam senão alguns. Os que se vêem
geralmente são Nossa Senhora e S. João, o sol e a lua. Os dois ladrões,
a egreja e a synagoga raro apparecem.
_Nossa Senhora e S. João_. Durante o periodo roman, Nossa Senhora e o
discipulo mais amado são representados com uma attitude de paz, erguendo
geralmente os braços para o Redemptor ou occultam o rosto em signal de
pezar. No XIII seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo,
conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, o gesto que se lhe
attribue exprime já uma dôr vulgar e natural.
No XV seculo, e algumas vezes já no XIV seculo, os artistas christãos
procuram produzir, na alma do espectador, sentimentos de ternura e de
compaixão.
Para este effeito representam Nossa Senhora desmaiada nos braços das
duas santas mulheres que a amparam. Os exemplos d'este _deliquio_,
encontram-se na Italia desde o XIII seculo.
_O Sol e a Lua_. Durante o periodo ogival, o Sol é figurado geralmente
por um disco radiante, e a Lua por um simples quarto crescente.
_A Egreja e a Synagoga_. Como já explicámos, a Egreja e a Synagoga eram
personificadas, durante o periodo roman, por simples mulheres trazendo
os respectivos attributos. Depois do meiado do XII seculo, essas
mulheres representavam rainhas. A que symbolisava a Egreja, sempre
collocada á direita de Jesus Christo, traz uma corôa, e levanta a cabeça
com uma expressão de orgulho; as mais das vezes, tem n'uma das mãos o
calix, e na outra uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo de uma
egreja.
A Synagoga, pelo contrario, tem uma corôa que lhe pende da cabeça e um
estandarte cuja haste se quebrou entre as suas mãos; deixando escapar as
taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por uma faxa ou por um dragão
que se lhe enrosca á roda da testa.
_Os dois ladrões_. Os ladrões nas mais antigas crucificações, apparecem
de tempos a tempos durante o periodo ogival; teem os musculos encolhidos
até a contorsão, e as mãos, não pregadas sobre a cruz, mas ligadas ás
costas de maneira a deixar passar, pelo centro, a travessa horisontal do
instrumento do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se de
novo representados os ladrões, principalmente nos retabulos de madeira
de obra de talha da escola hollandeza.
_Imagem de Nossa Senhora_. _Nossa Senhora com o Menino Jesus_. Durante o
periodo ogival, o _grupo historico_ de adoração dos reis magos, que se
vê sobre alguns pequenos _diptycos_ ou _triptycos_, de marfim, onde se
vê, ao mesmo tempo, a crucificação e outras scenas tiradas da vida de
Jesus Christo. N'esta representação os reis magos trazem sempre na
cabeça a coroa real.
No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente Nossa Senhora
_assentada_ em uma cadeira ou throno, tendo sobre os joelhos o Menino
Jesus, o qual deita a benção com a mão direita e na esquerda tem um
livro ou o globo terraqueo.
Já muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde quasi sempre, Nossa Senhora
está de pé e com o Menino Jesus no braço esquerdo. Durante a primeira
parte do periodo ogival, a sua posição é mais ou menos curvada.
Em quanto aos caracteres que apresentam as imagens de Nossa Senhora
assentada ou de pé nos differentes monumentos do periodo ogival,
pódem-se resumir nos termos seguintes. Nunca o grupo de Nossa Senhora
com o Menino Jesus foi mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima o
XIV seculo, descuida a sua bella composição poetica para adoptar a
realidade primeiramente e depois descahir na vulgaridade até á rudeza.
No fim do XII e no principio do XIII seculo, póde-se dizer que Nossa
Senhora não apparece já com o Menino Jesus: esta representação seria
muito vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer mãe que
tivesse o seu filho ao collo; mas então a Santa imagem o tem _junto de
si_. O Menino Jesus traz o globo do mundo na mão esquerda e deita a
benção com a mão direita; além d'isso está completamente vestido, é já
crescido, posto que ainda menino; é o Deus-Homem, mais depressa que
Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa Senhora principia a ser mais do
que a guarda de seu Filho como fazem todas as mães mortaes! Jesus está
ainda vestido, abençôa trazendo um livro ou um globo; porém o vestuario
é menos largo e mais curto, o livro menos volumoso, o globo mais
pequeno.
_Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora_. Mencionaremos as tres
principaes:
A _Annunciação_ é quasi sempre representada da mesma maneira. Nossa
Senhora está de joelhos sobre um genuflexorio no momento em que apparece
o Anjo. Entre a imagem e o Anjo está um vaso com a flôr de liz aberta.
Muitas vezes S. Gabriel tem n'uma haste esta flôr ou um sceptro; por
vezes traz na mão uma bandeirola com a inscripção: _Ave Maria_. Um raio
luminoso cae sobre a cabeça de Nossa Senhora, ou então, o Espirito
Santo, sob a fórma d'uma pomba, descança sobre a imagem da Virgem Maria.
_A morte de Nossa Senhora_ é quasi sempre representada da maneira
seguinte: Nossa Senhora está deitada sobre um leito rodeada pelo seu
Divino Filho e pelos apostolos. Jesus traz no braço a alma de Nossa
Senhora, representada por uma creancinha. Os apostolos trazem muitas
vezes um livro com figura iconographica.
_A coroação de Nossa Senhora_ faz-se umas vezes por Jesus só, outras por
tres pessoas da Santissima Trindade; outras ainda vê-se Nossa Senhora
com a corôa na cabeça, sentada sobre o mesmo throno em que está o seu
Divino Filho, o qual se lhe abraça ao peito.
Deixariamos incompleta a historia iconographica de Nossa Senhora, não
mencionando aqui a _Arvore de Jessé_, que se vê tantas vezes desde o XII
seculo. Jessé adormecido serve de alguma maneira de raiz ao tronco
mysterioso, o qual sáe quer do seu peito, quer de sua bocca, quer do seu
cerebro. Os ramos d'este tronco separando-se, trazem na extremidade um
dos antepassados do Redemptor; no cimo, uma flôr desabrocha e serve de
apoio a Nossa Senhora, algumas vezes só, outras tendo nos braços o seu
Divino Filho. As mais das vezes a arvore de Jessé complica-se, entre
cada ramo está collocado um propheta com um phylateria mostrando a
prophecia de que é auctor, e que se refere á vínda de Jesus Christo.
Olhando para a extremidade d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve
repousar o Espirito Santo. No Oriente, não se limitam unicamente a
intercalar os prophetas no meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino
_Balaam_, e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV e XVI seculos
produziram um grande numero de arvores de Jessé.
_Os Apostolos e os Evangelistas_.--_Apostolos_. Jesus Christo escolheu
doze apostolos á frente dos quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do
Redemptor, o traidor Judas ficou substituido por S. Mathias. Além
d'estes doze apostolos, que constituem a congregação apostolica assim
chamada, deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros santos que
haviam tomado uma parte activa e vasta na fundação da Egreja christã.
Tal foi S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho de Damasco, elle
o grande promotor da conversão dos pagãos e appellidado, por esta razão,
o apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnabé, S. Lucas e S.
Marcos, unicos discipulos, os quaes pelas suas prédicas, e, os dois
ultimos tambem, pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente
contribuiram para a propagação da doutrina de Christo.
Como S. Paulo figura quasi sempre entre os apostolos quando se
representam reunidos em numero de onze, resulta que se supprime
geralmente um; as mais das vezes é S. Mathias, o successor do traidor
Judas, algumas vezes tambem S. Judas ou qualquer outro apostolo.
Até ao XIII seculo, os apostolos, á excepção de S. Pedro e S. Paulo, não
tinham nenhum attributo caracteristico pelo qual se podessem distinguir
uns dos outros. Representavam-se todos de uma maneira uniforme, com um
livro ou um rolo de papel na mão. Depois do XIII seculo, ficam
geralmente caracterisados pelos instrumentos presumidos do seu martyrio;
porém, como o genero do supplicio que soffreram não é muito bem
determinado para todos, torna-se por vezes difficil designar com certeza
o nome de alguns d'elles: todavia o que os caracterisa ordinariamente é
o seguinte:
S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz abatida, instrumento do seu
supplicio; S. Paulo, a espada com que lhe cortaram a cabeça; S. João, o
calix envenenado do qual saiu a morte sob a fórma de um dragão; Santo
André, com a Cruz em fórma de X, e que tem o seu nome; S. Jeronymo, a
espada, ou as mais vezes, o bordão e o vestido de peregrino guarnecido
de conchas; S. Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, um
grande cutello do qual se serviram para o esfollar, e algumas vezes
tambem uma cruz; S. Matheus, um machado, uma espada ou uma lança; S.
Simão, uma serra; S. Judas, uma cruz ou um livro; S. Thiago, um bordão;
S. Thomaz, uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo uma lança;
finalmente S. Marçal, uma picareta ou um alfange.
_Evangelistas_. Os Evangelistas continuaram a ser representados da mesma
maneira que precedentemente, quer seja com a fórma humana, quer seja
pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer seja por quatro figuras
aladas.
Já indicámos o logar respectivo que devem sempre occupar os animaes
symbolicos nos quatro angulos de um quadrado ou nas extremidades dos
quatro braços da Cruz. Esta regra ficou em vigor durante o periodo
ogival.
_Scenas diversas_. Seria impossivel indicar, mesmo resumidamente, todas
as scenas representadas pelos pintores e esculptores christãos da idade
média. Mencionaremos sómente as quatro principaes, e que se veem mais
vezes.
_O Dia de Juizo_. Esta scena encontra-se principalmente: 1.^o _no
principio do periodo ogival_, esculpida nos tympanos dos portaes
principaes das abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e mesmo nas
capellas; 2.^o _no fim do mesmo periodo_, pintada na nave principal das
egrejas por cima do arco triumphal.
Para dar uma ideia exacta da maneira como esta scena é representada nas
principaes cathedraes francezas, faremos a descripção do Dia de Juizo,
que se vê no portal central da Sé de Paris. Este assumpto é um dos mais
bem compostos. A verga da porta está inteiramente occupada por figuras
representando diversos misteres saindo dos seus tumulos, despertadas por
dois anjos, os quaes, de cada lado, tangem trombeta. Todas estas
personagens estão vestidas; ahi está um papa, um rei, guerreiros,
mulheres e um preto. Na zona superior, está ao centro um anjo que peza
as almas; dois demonios tentam fazer pender um dos pratos para o seu
lado. Á direita de Jesus Christo estão os escolhidos, todos vestidos de
compridas vestimentas e coroados. Estes escolhidos são representados sem
barba, jovens e risonhos, olhando para Jesus. Á esquerda o demonio
empurra uma multidão d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos do seu
mister. As expressões d'estas figuras são indicadas com superior
talento: o terror, o desespero assignalam-se nas suas feições. Na parte
superior está, ao centro Jesus Christo, representado semi nu, que mostra
as suas chagas; dois anjos em pé, á direita e á esquerda, têem os
instrumentos da Paixão; depois, estão de joelhos, implorando o
Redemptor, Nossa Senhora e S. João. As curvaturas do portal do lado dos
condemnados estão occupadas, na parte inferior, por vistas do inferno, e
do lado dos escolhidos, por anjos e patriarchas, entre os quaes se vê
Abrahão colhendo as almas no seu regaço; depois os escolhidos em grupos.
Esta esculptura tão notavel é da era de 1210 a 1215, e estava
inteiramente pintada e dourada. Ha a mesma representação nas cathedraes
de Chartres, Amiens, Reims e Bordeus.
O inferno é quasi sempre figurado por uma bocca enorme de monstro
lançando chammas, no meio das quaes os démos, armados de grandissimos
harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes tambem é representado o
inferno por uma grande caldeira na qual os démos precipitam as almas dos
perversos; e, n'este caso, um demonio armado de um folle activa o fogo
da caldeira.
A scena _de se pezar as almas_ faz geralmente parte do Juizo final, e é
quasi sempre representada da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura
a balança: em um dos pratos está uma alma humana figurada por uma
creança nua; emquanto ao outro, com o pezo que deve ter a alma do
innocente, afim de ser admittido no paraizo, Satanaz procura que elle se
incline para o seu lado. Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar
aos ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da nossa morte, está
representada nas miniaturas dos manuscriptos, e mesmo nas gravuras em
madeira que ornam alguns livros impressos no fim do XV e no principio do
XVI seculo.
_Missa designada de S. Gregorio_. Este assumpto encontra-se muitas vezes
nos paineis e nas miniaturas do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e
Jesus Christo apparece-lhe em vida, em pé sobre o altar, e á roda estão
os instrumentos da Paixão. Traz os estigmates nos pés e nas mãos, e
deixa saír do lado o sangue da chaga.
_Alma humana_. Quando os artistas da idade média representam uma pessoa
moribunda, indicam sempre a alma do justo que acaba de saír do corpo,
por uma creancinha nua trazida nos braços de Nosso Senhor.
_Sibyllas_. A representação dos prophetas tem-se ás vezes ajuntado ás
sibyllas, que se reputa haverem predito o nascimento, a vida, a morte, e
a resurreição de Jesus Christo. No XIII seculo, começou-se a fazer
figurar em alguns monumentos, principalmente a sibylla do _Dies irae_.
As doze sibyllas são: 1.^a A Sibylla da Persia, _percicae_, que tem na
mão uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes
vezes o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.^a A de Libya, _libicae_,
que tem um brandão acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.^a
A de Delphos, _delphicae_, que tem na mão uma corôa de espinhos, porque
prophetisou as mortificações de Jesus Christo. 4.^a A do Mar Vermelho ou
de Erythrea, _erythracae_, uma das mais celebres, que havia predito a
ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças divinas; traz uma espada
nua. 5.^a A de Cumas, _cumana_, egualmente muito citada, tem um
presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura.
6.^a A de Samos, _samia_, traz uma corôa de espinhos como a de Delphos,
e um caniço, porque prophetisou a Paixão. 7.^a A Cimmerianna,
_cimmeria_, prophetisou a crucificação, e por esta razão traz uma cruz
da paixão. 8.^a A de Tivoli, _tiburtina_, tem na mão uma vara, por haver
annunciado a flagellação do Redemptor. 9.^a A de Phrygia, _phrygia_,
traz uma cruz de resurreição, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas
encarnadas. 10.^a A de Hellesponto, _hellespontica_, tem por attributo
uma rozeira florida, ou então uma cruz, porque annunciou algumas
circumstancias da Paixão. 11.^a A Europa, _europaea_, tem um alfange,
porque predisse a degolação dos innocentes. 12.^a Finalmente, a Sibylla
Agrippa tem a vara como a de Tivoli.
CAPITULO VI
Periodo da Renascença
_NOÇÕES PRELIMINARES_
Não nos demoramos muito sobre as differentes phases da arte na epoca da
renascença, mais apropriadamente moderna do que antiga; e que, por
conseguinte, não pertence ao dominio da archeologia.
Chama-se _renascença das artes e das lettras_ ao retrocesso para a arte
classica antiga e para as litteraturas grega e latina. A renascença das
artes estendeu-se não sómente á architectura, mas a todas as artes de
desenho. A reacção favoravel para a architectura grega, romana ou
classica, produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca o estylo
ogival tinha vigorado summamente, nem dominado só com poder absoluto.
Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura néo-classica transpoz
os Alpes, e passou successivamente á França, Hespanha, Portugal,
Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais afastados do
renascimento, foram tambem os ultimos a adoptarem os seus principios
architectonicos.
Na França como na Belgica o progresso do novo estylo foi rapido, tendo
apparecido quasi ao mesmo tempo.
O retrocesso tão rapido e tão universal para as fórmas da arte classica,
foi motivado em grande parte por um desejo de novidade, e por uma
reacção contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, que em
architectura, mais que em qualquer outra arte, o gosto é sempre movido
para a variedade; e é isto que explica como se póde dizer com verdade,
que a historia da architectura offerece uma continuação de transições
sem repouso. A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas causas
secundarias, taes como a reacção que se operou nos XV e XVI seculos, a
protecção aos estudos gregos e latinos, e a invenção da imprensa, que
concorreu tão admiravelmente para a diffusão das obras primas da
litteratura e da arte antiga, pelas quaes se tinham apaixonado.
Até ao meiado do XVIII seculo, a renovação das fórmas antigas fez-se
exclusivamente conforme os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos
quasi todos não satisfazendo a respeito da conformidade artistica. Foi
sómente n'esta epocha que se principiou a estudar os monumentos da
melhor epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia.
Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, um periodo de
transição, durante o qual se notou muitas vezes, no mesmo monumento, uma
mistura, uma fusão de fórmas particulares a cada estylo. Portanto
encontram-se edificios, os quaes, entre os detalhes melhor
caracterisados do estylo ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes
como medalhões, folhagens e arabescos, copiados dos monumentos da Roma
antiga. Outras vezes, janellas em ogiva são compostas de pinasios com os
perfis no gosto da renascença. Finalmente, ás vezes as abobadas
pendentes, os pinaculos e os campanariosinhos estão cheios de ornatos
imitados dos edificios da antiguidade.
*Caracteres da architectura da Renascença*
_Comêço_. A architectura da renascença seguiu os mesmos principios
fundamentaes que a architectura classica, isto é, as cinco ordens
greco-romanas.