O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se

então notaveis progressos na execução material. Os fios vieram a ser

cada vez mais finos, a proporção da seda e do ouro augmentaram

consideravelmente, os tintureiros inventaram graduação de côres novas,

emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres com tal habilidade que

não podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os

mais estimados e por isso muito procurados.

_Vestimentas sagradas_. Durante toda a idade média, as vestimentas

sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de

tecido de lã, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda

empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas.

A _casula_ conserva, até ao meado do XV seculo, a fórma que tinha

durante o periodo Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido á

roda do collo, cobrindo inteiramente os braços e caindo negligentemente

de todos os lados á roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente,

quasi sempre as estolas com bordaduras são comprimidas e estreitas,

representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e

no meio dia de França, estas estolas são geralmente em numero de duas

postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de

diante fica com o feitio de um _tau_ T. Na Belgica, na Hollanda, na

Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito

passam sobre os hombros e vão ter ao meio das costas, formando assim,

pela sua combinação com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braços

ficam levantados com o feitio de Y.

As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa até ao XV

seculo, epocha na qual uma mudança notavel se operou na fórma e

disposição das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais

largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braços levantados

havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula,

uma cruz latina [Símbolo], e sobre a frente uma columna.

No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas

com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decoração.

Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes

imagens ou assumptos religiosos.

_A estola e o manipulo_ consistiam, durante o periodo ogival, em faxas

compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco

mais largas.

As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram

feitos de linho, de lã ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os

de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa

analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam.

As suas extremidades não tinham ornatos com bordados symbolicos, que só

se usaram depois da primeira metade do XV seculo.

No principio o _pluvial_, em latim _coppa_, isto é, capote para

resguardo da chuva (_pluvia_) era usado sómente pelo clero inferior,

principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando

uma parte na celebração do culto. Foi sómente no XIII seculo que veiu a

ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo

mesmo o pontifice.

Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda hoje, nas procissões e em

todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de

vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; sómente, em logar de ser,

como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, é

aberto na frente desde os pés até ao collo.

O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito

comprida, com a qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos as

orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, estão cobertas de

faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente

no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com

bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da

mesma época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como

as faxas, ornada.

_Colchete do pluvial_. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande

colchete coberto de medalhões em metal precioso, ornado de esmaltes ou

delicadamente cinzelado. Estes _medalhões colchetes_, em latim

_fibulae_, _morsus_, _monilia_ ou _pectoralia_, teem muitas vezes a

fórma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados.

São geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de

santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e

os brazões do doador.

A _alva_ e o _amicto_ conservaram as fórmas primitivas durante o periodo

ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou

brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo

de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no

meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das

mangas á roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior

proximo dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito.

A _cintura_, da qual o sacerdote se serve para arregaçar a alva,

prende-se á estola em cruz sobre o peito; não teve nunca na idade média

a fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa época geralmente

consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros

e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. Dá-se-lhe algumas

vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.

A _dalmatica_ é a vestimenta decima do diacono, a _tunicella_, a do

sub-diacono. Não existe, ha muito differença entre estas duas

vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas

e era mais comprida, porém menos ornada que a dalmatica.

Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia

em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura

para passar a cabeça. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas

verticaes com recamo de ouro ou de côr, descendo até a orla inferior.

Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais

largas desde o XIV seculo.

No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta nos dois lados da orla

inferior até quasi á quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV

seculos, estas aberturas augmentaram até meia altura do vestuario; tendo

então, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de

faxas de côr ou as superiores de recamo de ouro.

_Mitras_. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha

generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII

seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras

modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre

0,20 a 0,25 centimetros.

As differentes partes de que se compõem as mitras são: 1.^o as peças

triangulares formando pela sua reunião o barrete; 2.^o as duas fitas

pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando

prezas por detraz da mitra.

Havia na idade média duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com

bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media

pelo nome _mitrae auriphry giatae_. Sobre estas ultimas as bordaduras

recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.^o verticalmente ou,

como dizem os livros lithurgicos, _en titre in titulo_; 2.^o

horisontalmente ou _in circulo_; 3.^o em titulo e em circulo juntamente.

No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra são maiores. A maior parte

das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros

de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte.

N'esta ultima época tambem as orlas dos bicos são algumas vezes

guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de

renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes

vegetaes.

*Abbadias e Mosteiros*

_Observações preliminares_. As partes principaes de que se compõem as

abbadias e os mosteiros da idade media são a egreja, o claustro, o

refeitorio, a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o abbade e

para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a prisão e as casas de

arrecadações. Estas differentes partes ficavam geralmente da mesma

maneira, principalmente nos conventos que observavam a mesma regra.

A egreja era sempre _orientada_, isto é, ficando a capella mór voltada

para o Oriente. No lado meridional da nave fica encostado o claustro, do

qual se entra para a egreja por duas portas collocadas nas extremidades

da galeria encostada á parede lateral da egreja: uma junto do alpendre,

outra na proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que fórma o lado

meridional do claustro, dá entrada para o refeitorio. A sala do capitulo

e o parlatorio occupam o rez-do-chão ao longo da galeria oriental, que

se liga por uma extremidade com o cruzeiro; no andar por cima está o

dormitorio, o qual communica com a egreja por uma escada conduzindo do

dormitorio ao transepte. As construcções do occidente do claustro

serviram primitivamente aos irmãos conversos, os quaes eram em grande

numero nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. Porém, quando mais

tarde se supprimiu esta instituição, e se limitaram os irmãos conversos

ao numero estrictamente necessario para o serviço dos religiosos, ellas

foram destinadas para outros usos. Muitas vezes serviram para aposentos

dos hospedes, e uma parte foi transformada em celleiros e armazens.

As differentes Ordens religiosas distinguem-se na escolha do local;

quando pretendiam fundar uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos

sitios de mais predilecção. Os Benedictinos escolhiam geralmente os

sitios altos e as montanhas; os Bernardos, pelo contrario, gostavam de

se estabelecer nos valles sobre as margens dos ribeiros, como exprimem

estes dois versos:

_Bernardus valles, montes Benedictus amabat,

Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes_.

A similhança que apresentam a maior parte das abbadias cistercienses na

disposição das suas differentes fórmas é bastante notavel; quasi todas,

quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, por assim

dizer, servilmente o plano das abbadias primitivas da Ordem de Cister;

plano typo adoptado para a construcção d'estas abbadias na Europa

occidental do XII e XIII seculos.

A egreja era muito vasta; a sua nave meridional ficava encostada ao

claustro, com as suas galerias para passeiar; a Leste do claustro está a

casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto onde se reuniam os

monges; no andar sobre este lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a

cozinha do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-chão era

destinado para reuniões durante o dia, e o andar superior para as de

noite; como se dizia na idade média, _domus conversorum_. O rio ou

ribeiro passava por baixo do refeitorio ou cozinha para levar o lixo de

toda a qualidade. Defronte dos aposentos dos irmãos conversos, havia um

grande pateo murado, no qual estava, na direcção de sudoeste, a porta da

entrada principal da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo na

antiga abbadia de Alcobaça.

As outras grandes ordens religiosas adoptaram muitas vezes, para os seus

mosteiros, disposições analogas.

As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas ambas no principio do

XIII seculo, estabeleciam-se regularmente nos grandes centros da

povoação, onde não achavam sempre espaço bastante vasto para se poderem

desenvolver á vontade e dispôr as differentes partes dos seus mosteiros

seguindo dados uniformes. É por esta razão que, em muitos casos, o plano

dos seus conventos differe sensivelmente da disposição tradicional

observada escrupulosamente pelos monges de Cister, mesmo, porém, com

mais liberdade pelos Benedictinos.

_Egrejas_. A planta das egrejas monasticas apresenta geralmente, como a

das cathedraes e das collegiadas, a fórma de uma cruz Latina. Muitas

vezes a capella-mór não é muito comprida. Foi então no XIII seculo que

na Europa occidental e central se pozeram as cadeiras no côro para os

frades, não sómente na capella-mór, mas tambem no cruzeiro, e mesmo em

uma parte da nave principal, como existia na egreja de Alcobaça.

As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos não tinham

ordinariamente nem cruzeiro nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos,

construiram em Paris, Augsbourg, Dresde e outras muitas cidades, egrejas

com esta disposição excepcional, ficando divididas por duas naves com um

unico renque de columnas. Encontra-se tambem esta disposição, porém,

raramente, nas egrejas das outras Ordens religiosas.

_Claustros_. Durante o periodo ogival, os claustros eram geralmente

construidos de abobada de barrete com nervuras, e communicando com o

pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e separadas umas das

outras por contrafortes. Nas arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV

seculos, trabalhos rendilhados em cantaria, similhantes aos feitios que

se viam nas janellas contemporaneas; e de que temos exemplos nos

edificios religiosos da Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos

de pedra não tinham vidros; todavia, principalmente no Norte e Oeste da

Europa, vedavam os tympanos com vidros brancos ou de côres, a fim de dar

abrigo contra os rigores da temperatura a quem passeasse pelas galerias

do claustro.

Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes no XV seculo, substituiram

nos claustros, as arcadas ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios

de pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que se veem nos peitoris

das janellas inferiores nas egrejas do ultimo periodo ogival.

Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes tinham antigamente

um claustro, porque, do mesmo modo que os frades, os conegos viviam a

principio em communidade. Este uso, que principiou a não se seguir desde

o XIII seculo, persistiu não obstante em muitas partes até ao fim do

periodo ogival.

Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, construidos na idade

média, possuiam um _lavabo_, _lavadouro_, tendo uma pia com uma fonte. A

fonte occupava, no principio, o centro do pateo do convento. Mais tarde

approximaram-a da galeria do refeitorio; ficando então collocada em

frente da entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da galeria ao

longo d'elle. Os frades voltando do trabalho da lavoura, lavavam ahi as

mãos antes de se pôrem á mesa ou ir ás rezas.

_Refeitorio_. O refeitorio estava geralmente situado ao correr da

galeria meridional do claustro. Como já referimos, compunha-se d'uma

vasta sala traçada sobre um plano rectangular, abobadada em geral ou por

vãos descançando sobre um fuste de columnas. Por cima do claustro, havia

muitas vezes um andar pouco alto, servindo de celleiro para

abastecimento no inverno, com alimentos e fructas passadas.

Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era sempre dividido em

duas naves por um renque de columnas, collocadas ao meio longitudinal;

além d'isto, ficava este renque perpendicular á galeria proxima do

claustro. No refeitorio dos frades de S. Bento, e em geral, em todas as

outras abbadias, o grande eixo corria parallelo á galeria do claustro, e

o renque das columnas muitas vezes não é representado.

Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a oeste d'elle, ficava a

cosinha, geralmente com uma grande chaminé quadrada.

_Casa do Capitulo_. No rez-do-chão ao correr da galeria oriental do

claustro era a casa do Capitulo, a casa para as visitas e a sala dos

frades. O dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada conduzindo

directamente do andar superior ao cruzeiro do lado do sul, facilitava

aos frades descerem á egreja para os officios nocturnos sem se expôrem

ao ar exterior.

A casa do Capitulo, isto é, o logar onde os frades se reuniam sob a

presidencia do abbade, afim de tratarem dos negocios espirituaes e

temporaes do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado ou

rectangular com um ou muitos renques de pilares sustentando as abobadas

e as suas nervuras, dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra

guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra dá-se frequentemente ao

plano das casas de capitulo a fórma circular ou polygona; e n'este caso,

uma unica columna central sustenta a abobada e as suas nervuras, como ha

em Westminster e em Lincoln.

_Parlatorio_. O parlatorio, _collocutorium_, era uma pequena casa entre

a do capitulo e a escada conduzindo ao dormitorio. Ali os frades tinham

licença de conversarem em voz baixa, quando relações indispensaveis da

vida commum o exigissem. Em todas as outras partes do mosteiro se devia

guardar o maior silencio.

Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia um corredor pelo qual se

podia passar para o grande claustro e annexos da abbadia perto do côro

da egreja.

_Casa e dormitório dos frades_. A casa onde os frades passavam o dia,

que os _antigos_ designavam _domus fratrum_ e que os inglezes designam

ainda sob o nome de _fratres_, isto é, logar onde vivem os frades,

consistia n'um vasto espaço abobadado e occupava sempre o rez-do-chão,

na extremidade Sul do lado Oriental do mosteiro.

No andar da casa de que acabamos de fallar, encontrava-se o dormitorio

commum dos frades, pois a regra de S. Bento determinava que os frades

dormissem n'uma só casa, mas em camas separadas: _Monachi singuli, per

singula lecta dormiant; si potest fieri, omnes in uno loco dormiant_.

O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros desde o XII

seculo, não veiu a ser commum senão na epocha do renascimento.

_Aposento dos irmãos leigos_. Todas as grandes abbadias benedictinas e

cistercienses tinham, no XII e no XIII seculos, um numero consideravel,

chegando a ter 300 a 400 leigos, designados nos necrologios com o nome

de _conversi_ ou _fratres ad succurrendum_. Estes irmãos, que não

entravam nas ordens sagradas, mas faziam profissão de religiosos,

destinavam-se, sob a direcção dos frades, aos trabalhos da agricultura e

ao exercicio de diversos officios. Habitavam o lado occidental dos

edificios monasticos, designados por esta razão casa dos leigos, _domus

conversorum_, e prolongava-se muitas vezes desde o portico da egreja até

muito álem do grande refeitorio.

Nos edificios cistercienses, a habitação dos leigos compunha-se

regularmente, no rez-do-chão, d'uma só e vasta casa abobadada, dividida

em duas naves por um renque de columnas; e no andar por cima, de uma

casa do mesmo tamanho da inferior, coberta as mais das vezes por um

telhado tendo o madeiramento visivel na parte interna.

_Casa abbacial_. Originariamente o aposento do padre abbade consistia

n'uma simples cella. D'ahi a pouco, todavia, o aposento do chefe do

mosteiro veiu a ser uma construcção importante; e viam-se muito

raramente, na idade média, os abbades contentarem-se com o dormitorio

commum ou uma simples cella. A começar do XIV seculo, e principalmente

na epocha do renascimento, as casas abbaciaes vieram a ser muitas vezes

verdadeiros palacios, constando d'uma capella particular, grandes salas,

pateos, cavallariças, jardins com terraços, etc.

_Aposentos para hospedes_. Todas as abbadias tinham uma habitação

reservada ou uma parte do proprio edificio para hospedar as pessoas que

visitavam os frades. No principio, esta habitação estava sempre a pouca

distancia da porta principal afim de evitar distracção para os frades do

convento: como ha um bello exemplo no extincto mosteiro de Alcobaça.

As abbadias, que foram em todos os tempos casas de caridade, possuiam

tambem suas esmolerias destinadas a dar habitação e sustento aos pobres

e peregrinos. Eram situadas na visinhança da entrada do convento.

_Celleiros_. Nos seculos XI e XII, as abbadias applicaram-se activamente

ao surribamento dos terrenos incultos; os trabalhos campestres eram de

certo modo, a sua occupação principal. Foram as Ordens de Cister e de S.

Bernardo que prestaram assignalados serviços á agricultura.

As abbadias não faziam colheita sómente do producto das suas proprias

explorações agricolas; cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e

recebiam em genero o pagamento dos rendeiros. Precisavam portanto vastos

celleiros e armazens muito grandes para recolher, no tempo da ceifa, os

cereaes que recebiam por esses differentes titulos.

Nos conventos cistercienses o celleiro formava, no principio do periodo

ogival, um edificio muito vasto, edificado sob um plano rectangular. Era

algumas vezes abobadado e dividia-se em duas naves por um renque de

columnas para maior solidez, servindo o andar para os cereaes. Outras

vezes compunha-se de tres naves separadas por dois renques de pilares ou

prumos de madeira para sustentar o madeiramento sem precisão de

abobadas.

_Officinas_. Nos XII e XIII seculos havia em cada abbadia, alguns leigos

ajudados muitas vezes por seculares exercendo os officios necessarios

para a conservação do edificio e para o fabríco dos pannos, couros e

instrumentos aratorios. Empregavam um certo numero de alveneos,

ferreiros, carpinteiros, fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as

officinas estavam geralmente collocadas aos dois lados do pateo situado

entre a porta da entrada principal do convento e a habitação dos leigos.

A maior parte das abbadias possuiam tambem seu moinho e fabrica de

cerveja.

O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos religiosos durante

as suas culturas e explorações ruraes motivou a construcção de curraes

espaçosos. Encontravam-se tambem em todas as abbadias pateos para aves.

Em propriedades importantes situadas a alguma distancia da abbadia,

estabeleciam-se muitas vezes grandes herdades, sendo a sua exploração

confiada a alguns leigos sob a direcção d'um frade. Compunham-se d'um

corpo de casas situadas em roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham

communicação só do lado d'elle. Além d'esta habitação, curraes, celleiro

e outros edificios necessarios para o serviço da exploração, havia

n'estas herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos officios

religiosos.

_Celleiros_. Dá-se o nome de celleiro aos armazens onde se conservam os

mantimentos de todo o genero. O frade encarregado de vigiar o

abastecimento tinha o nome de _celleiro_, _cellerarius_ e _collarius_,

mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas, no de _procurador_,

_procurator_. Este logar passava por um dos mais importantes nas

abbadias.

_Prisões_. Na idade média, as abbadias, universidades e algumas vezes os

cabidos possuiam prisões para encarcerar os membros da communidade que

se tivessem tornado criminosos de delictos ou insubordinação para com os

superiores.

Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades e cabidos gosavam,

nos territorios que lhe pertenciam, o poder superior de justiça, e

tinham prisões para encarcerar os seus subditos seculares criminosos. As

prisões das abbadias ficavam a uma certa distancia dos edificios da

habitação dos religiosos.

_Cartuchas_. As cartuchas, cuja origem vem dos ultimos annos do XI

seculo, apresentam disposições notavelmente differentes das cellas das

abbadias. As principaes differenças que se observam, são: grandissimo

comprimento dos claustros; numerosas habitações inteiramente separadas,

para uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre de dois ou tres

quartos e d'um pequeno jardim, com uma porta dando entrada para a

galeria do claustro.

Quasí todas as cartuchas tinham dois claustros unidos.

_Mosteiros para mulheres_. As disposições das differentes partes dos

mosteiros para mulheres apresentam a maior analogia com os das abbadias

para homens. Á roda do claustro ergue-se a egreja, a casa do capitulo

com dormitorio no andar superior, o refeitorio e os outros aposentos. As

escolas exteriores, que havia ás vezes nos conventos de homens, como por

exemplo dos frades Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos e

viajantes, faltavam nos conventos das mulheres, porque toda a relação

com o exterior lhe era prohibida.

Resumo elementar de archeologia christã · 第 20 / 23 段