compõe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical
ornada de um ou muitos nós. No alto d'esta haste estão postos em
diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma de polygonos
de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem
vellas. Os circulos são movediços e podem girar em roda da hastea que os
sustenta; esta disposição permitte aos devotos puxar para si as
dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por promessa.
Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham
venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas corôas
tendo pé não vão além do XV seculo.
_Cruz de altar e de procissão_. Já dissemos, que até o fim do XV seculo
não houve distincção entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes
ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o
altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procissão no cimo
de uma comprida hastea.
No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade.
Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos
braços havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo.
No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas architecturaes,
e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era ôco servindo
para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um pé.
Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as
capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento
extraordinario da fundação de missas, introduziu-se o uso das cruzes do
altar, isto é, assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar
principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas
procissões.
_Castiçaes_. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes
de castiçaes: os castiçaes do _altar_, os castiçaes de _elevação_, e os
castiçaes _paschoaes_ aos quaes se podem ajuntar os _tocheiros_
collocados aos lados dos catafalcos.
_Castiçaes de altar_. O uso de collocar _dois castiçaes sobre o altar_
foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser
geral no XIII seculo.
Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhança
com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se
regularmente de um pé descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um
prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por isso, que
apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou
dragão de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiçaes romans.
No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem pouca altura,
sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia,
porém muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com
dois ou tres nós quasi 50 centimetros de alto.
O uso de não pôr sobre o altar mais de dois castiçaes pequenos durou até
ao XVII seculo.
Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos por virólas,
sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no
XIV seculo, onde a hastea tem uma unica viróla.
No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiçaes têem
muitas vezes os nós, o pé e o prato com relevos do feitio de meias
perolas e a hastea torcida em espiral.
_Castiçaes de elevação_. Este nome foi dado aos castiçaes destinados
para terem as vellas accesas antes da elevação da Hostia, e que se
apagam depois da communhão do padre. Estes castiçaes, regularmente em
numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos
que os castiçaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros
de alto.
_Castiçaes paschoaes_. Assenta-se geralmente a hastea do _castiçal
paschoal_ n'uma estante vasada, onde se põe o livro para o canto do
_Exultet_. Muitas vezes se collocam dois ou mais braços destinados a ter
pequenas vellas; ha-os de latão e de ferro forjado.
No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são ornados muito simplesmente
imitando na ornamentação o reino vegetal.
No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão ornados muito
modestamente.
Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda muito mais simples.
_Os castiçaes postos aos lados do catafalco_. Estes castiçaes geralmente
muito simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com
polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero
se têem conservado. Algumas vezes estes castiçaes eram tambem de
madeira.
Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes
substituidos por um _candieiro-triangular_ de pau ou metal composto de
um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois pés.
Esta alfaia é tambem designada, principalmente nos antigos inventarios,
_cabide_, _rastrum_ e _rastrellum_.
Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem ainda hoje em
muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz,
proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de França, em memoria
dos reis seus predecessores.
_Braços com vellas e dirandellas_. Os candieiros com braços e as
dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Têem
geralmente o mesmo feitio que os braços do candieiro paschoal com o
prato adentado. São postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte
de uma imagem. O maior numero são de latão; os de ferro forjado
encontram-se raras vezes.
_Estantes para o côro_. Chama-se _estante do côro_ a uma estante de
madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para facilitar as
leituras lithurgicas.
As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; são de duas
especies: estantes _fixas_, collocadas geralmente no meio da capella-mór
e chumbadas no pavimento, ou com um pé tão pesado que se não poderia
facilmente mudar para outra parte, e estantes _portateis_. As primeiras
serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono
e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lições sagradas.
_Observações preliminares_. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o
periodo roman, fizeram algumas vezes as _estantes fixas_ independentes
da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente,
eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio
do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um
sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. João, era
acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas.
_Estantes fixas collocadas no meio do côro_. As estantes do côro
destinadas aos chantres, são ordinariamente de latão e compõem-se d'uma
aguia assente sobre um pé em fórma de pilar ou de columna. Este pé
algumas vezes é consolidado por arcos-butantes, os quaes estão ornados
de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos
que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes.
Nos antigos documentos a estante do côro é designada _aguia_, em latim
_aquila_, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival
como da renascença, têem a forma d'uma aguia. Muitas _estantes-aguias_
do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso.
Algumas vezes a aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e
anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do
periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.
_As estantes moveis_. Estas estantes facilmente transportaveis, foram
empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e
da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de
ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente
formadas d'uma dupla dobradiça com o feitio d'um _X_, cujas extremidades
superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a
qual se põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas
estantes moveis de madeira, que elle não é formado d'uma cobertura de
couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro
extremidades superiores da dobradiça da estante.
_Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos_. Continuou-se, durante
o periodo ogival, a _illuminar_ os textos dos livros santos.
No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva tomou o logar da
_volta inteira_, fez-se uma revolução completa na arte de pintura. Os
miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das
vidraças e esculptores libertaram-se das tradicções byzantinas e romans,
para se applicarem principalmente á imitação da natureza. Este novo
genero nascido em França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos
os paizes proximos.
A escola dos _miniaturistas_ do XIII seculo dilatou a carreira de suas
obras. Até esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos
psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas;
depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os
romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustrações
calligraphicas.
Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a pintura em
geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao
primor do desenho que traça os principaes contornos, esforçou-se o
pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos
tons e na opposição das sombras e da luz. A começar d'esta epocha, o
colorido deu á figura, não sómente a côr, mas ainda a fórma e o relevo.
No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao
mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmãos Hubert e
João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling;
em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios
mestres não desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos
manuscriptos. O rei Filippe--o Bom--1419-1467--, tinha uma predilecção
notavel pela ornamentação dos manuscriptos, como tambem em Portugal
el-rei D. João II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o
desenvolvimento d'este genero de trabalho.
Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se
colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de
alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados;
diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da
natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproducção do
feitio e côr dos objectos.
_Capas dos livros dos Evangelhos_. Até ao IX seculo serviram-se
bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava
misturado ao metal e ás pedras preciosas. Durante o periodo ogival,
abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal só ornado com riqueza,
sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas
das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras
excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de
madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6].
_Thuribulos e naveta para incenso_. Os thuribulos do XIII seculo
compõem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas
semi-espheras ôcas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera
inferior tem um pé que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o
incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que
serve de tampa, está crivada de muitos orificíos para sahir o fumo do
incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a
figura de homem ou de animal, é movediça: sóbe e desce ao correr de tres
ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra
parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate,
e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.
A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é conhecida, não sómente
pelos raros especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem
pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vêem anjos
ou clerigos thuriferarios.
Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas
vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio de diversas curvas;
tomando a fórma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O
metal de que geralmente se serviam, era o latão; para os de melhor
qualidade empregavam a prata.
_Gomís_ ou _aquamaniles_. Os gomís designados tambem _aquamaniles_ (de
_aqua_, agua, e _manile_, vaso para deitar agua nas mãos) faziam parte
das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as abluções das mãos,
durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para
a lavagem das mãos antes e depois das refeições. No fim do periodo roman
e durante todo o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias
fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a
agua é geralmente introduzida no gomíl pelo cimo, na cabeça do animal,
servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer
pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um
dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está posta diante da
figura. Os animaes representados mais vezes são o leão, o cavallo, o
veado, o gallo, o dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos
os _aquamaniles_ são de latão ou de cobre.
Alguns gomís de metal têem a fórma do busto de homem, de mulher e de
creança. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a
fórma d'um prato côvo, não sendo diverso da bacia que servia senão para
pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as
mãos.
No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das
sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando mais ou menos
uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs),
compunham-se de vasos de bronze ou latão, de pequenas dimensões, tendo
uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mãos,
abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso
durou até ao XV seculo.
_Pratos para offerendas_. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos
ou bacias de latão estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos,
symbolos, brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos
designados _bacias de offerenda_, porque serviam e servem ainda para
receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as
missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas
dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É preciso
advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo,
apresentam os caracteres da decoração ogival, e que as do XVI e XVII
seculos apresentam ornatos do estylo da renascença.
Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato,
mais raramente sobre a borda do prato, são quasi sempre religiosos:
todavia vê-se tambem algumas vezes com o busto de _Cicero_, de sereias,
veados, cães, escudos com brazões, etc.
Inscripções ou legendas estão gravadas dentro d'um ou dois circulos
concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco
vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um
sentido facil de interpretar, por exemplo: _Got sei met vus, hiff Got
aves not, hiff Th_ (esu) _vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt
sonder Gost, eh wart_ (ou _gich wart_) _der in fridt, ch_ (ou _ich_)
_bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus_;
outros pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes)
compõem-se de lettras, as quaes reunidas não apresentam nenhum sentido;
taes são as seguintes: _rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf_ ou
_lifevrmto_.
Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente
indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas
palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se
executavam estas bacias para offerendas.
_Representação da patena_. Em vez de se beijar a patena, recommendava o
apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um abraço fraternal. No XIII
seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas
partes, pelo uso d'um _osculatorium_ o abraço porque julgaram então não
se poder praticar sem detrimento para a moral e distincção das
dignidades.
As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam nem a fórma
nem a representação. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da
cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a fórma que
prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimação,
taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado,
esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este
pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior.
_Moldes ou ferros para hostias_. Serviam-se desde muito tempo, e
servem-se ainda hoje de ferros para coser o pão que symbolisa a
Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem
regularmente a fórma circular. Muitas vezes os moldes representam
crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens
de santos e symbolos.
_Insignias e medalhas dos peregrinos_. As insignias de _romaria_
compõem-se, durante toda a idade média, de pequenas chapas
rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e
de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeiçoada ao
buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella
foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero),
cosiam-se sobre o ornato pertencente á cabeça e sobre o vestuario; as
outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do
peregrino.
Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas ornadas, nas duas
faces, com imagem de santos e inscripções; muitas vezes são acompanhadas
de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas
quer no vestuario, quer nos objectos de devoção, como são os rosarios,
etc.
_Pequenos altares domesticos_. Encontram-se muitas vezes, nos museus
publicos e nas collecções particulares, pequenos _triptycos_ e
_polyptycos_ de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou
esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas
habitações para satisfazer a sua devoção, teem muitas vezes a fórma de
um retabulo com portas, porém, de grandes proporções; sendo como os
outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.
_Baculos_. Como já explicamos, a voluta do maior numero dos baculos
romans era terminado por uma cabeça de serpente ou de dragão;
completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do
triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo sacrificio do
Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem
duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabeça de dragão
ou serpente, mas essa cabeça fica inteiramente separada ou invez já não
ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um
grande numero de baculos a cabeça da serpente é substituida por um ramo
de folhagens ou por uma flôr aberta.
Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura
substituiram-se as peças de ourivesaria, e a decoração foi buscar aos
reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram
egualmente de aspecto. Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas,
flechas e pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram
sobrecarregados com estes ornatos.
_Estofos preciosos_. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes,
para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos
da decoração eram feitos, _juntamente_ com o tecido mesmo, por meio de
uma trama de differentes côres, sendo depois urdido pela applicação de
bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decoração das
egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo.
_Tecidos_. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia
no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os
tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV são geralmente
copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os
assumptos pertencentes á historia do antigo e novo Testamento, que se
acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do
meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com
cercadura, ou não tendo este enfeite.
No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais
a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a Belgica, que possuíam,
depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricação da seda,
do veludo, e do setim, viram então os seus teares a multiplicar-se e
tomar consideravel incremento.
Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, bastante
fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram
fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de
preço fabricado em Flandres era o setim de _Bruges_.
_Bordados_. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e
esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as
tradicções byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expressão
archaica, as cabeças não são delineadas conforme typos convencionaes, as
pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, são
executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a
presença curvada.
Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito
distinctamente na idade média _pintura com a agulha, acupictura_,
attingiu a um subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez
mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV
seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo
talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a _Belgica_, a
_Prussia rhenal_ e a _Bourgogne_. Os dois principaes centros de
manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em
_Flandres_ e em _Cologne_; a estas duas cidades se póde ajuntar em
segundo logar _Malines_, _Liége_, _Tournai_ e _Reims_.
_Pannos de Raz_. Chama-se panno de raz a _um tecido no qual os fios de
côr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz
corpo juntamente, e produz combinações de linhas e tons similhantes aos
de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de
marmore ou de esmalte_. O panno de raz distingue-se do bordado em que as
figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados são
simplesmente sobrepostos sobre um tecido já feito. Distingue-se por
outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre
um trabalho manual, e não é obtido por um mechanismo representando sem
fim o mesmo padrão. Cada uma das producções do _panno de raz_ é uma obra
original.
Os fios com que o tecelão delinea as sua composições, seus symbolos e
ornatos, são o ouro, prata, seda e lã.
A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. Antes do anno
1025, havia, em _Potiers_, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos
tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de França. Os productos d'estas
officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras
de animaes, assim como de assumptos da biblia.
No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no
desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.
No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o
mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as
outras artes.
Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de
alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida
em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo
os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua
reputação á perfeição dos seus tecidos e á sua tintura. Desde esta
epocha, os pannos de raz de alto-liço foram designados, principalmente
pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de
_finos pontos de Arrhaz, e arazzi_.