As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por um _sol

radiante_ vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha,

eram extremamente raras, e sómente se conhecem pela noticia que se

encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV

seculo.

_Relicarios_. Os relicarios do periodo ogival apresentam fórmas tão

variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos;

occupar-nos-hemos dos principaes.

_Relicario da vera Cruz_. Como precedentemente dava-se muitas vezes a

estes relicarios a fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém

empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A

maior parte d'estas _cruzes-relicarios_, sobretudo as mais bellas, são

do XIII seculo.

Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios

da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se

geralmente da cruz com uma unica travessa.

Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos relicarios contendo

reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma só travessa.

No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena

cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo Roman,

encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira

e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma

especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.

_Relicario da corôa com espinhos_. Os espinhos da corôa trazida pelo

Redemptor durante a sua paixão, eram collocados regularmente em corôas

de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas corôas,

feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos

imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o

throno de Constantinopla.

A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros

cruzados em seguida ás suas conquistas no Oriente, ficou conservada

religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino até 1237,

epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos

commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da

quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades mais

urgentes das finanças imperiaes.

Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a felicidade

de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia

entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para

França por dois frades dominicanos.

O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas do mesmo feitio que

tinha a corôa real, e presenteou com ellas um certo numero de

estabelecimentos religiosos.

Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios

mais simples e d'um feitio differente.

Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII

seculo, isto é, teem a fórma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa

imitando um telhado com duas aguas.

Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira coberta com

chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado.

Quasi todos são rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa

das reliquias de Nossa Senhora de _Aix-la-Chapelle_, que se vê sobre os

seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja

tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes são ornadas de estatuasinhas

de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docéis

ou arcaduras. Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, só ou entre

dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois

pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por

Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario,

igualmente collocado entre dois santos.

Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de

compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes estão

inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam

docéis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros

santos assentados.

Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos representando

os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo

que encerra o relicario.

Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados

inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de esmerado lavor,

interrompidas de distancia a distancia, por castões.

As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os molduramentos e os

fustes das columnasinhas que sustentam os docéis estão bastantes vezes

cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente.

Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de

feretro ou cofre, como haviam tido até então; transformam-se pouco a

pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas.

Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente

caracterisada as fórmas architectonicas: representando rosaceas,

galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docéis e frontões

teem as inclinações dos contornos decorados de crochetes acabando no

feitio d'um florão.

O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam

servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo

a ser reproducções em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo

egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em

trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e

ás vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigão.

Usaram tambem, durante o periodo ogival, de _relicarios de madeira_

cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam

geralmente os principaes factos da vida do santo que contém o relicario.

O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de

suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no hospital de S. João em

Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do

pintor Hans Memlinc.

Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival.

Os relicarios não contém sempre os corpos inteiros dos santos, e são

tambem destinados a conservar reliquias diversas.

_Bustos, braços, pés, estatuasinhas_, etc. O uso de conservar as

reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente

ornados imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam já

no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e

encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento.

O maior _busto-relicario_ conhecido, pois mede 1^{m},62 centimetros de

altura e um dos mais magnificamente ornados, é o de S. Lamberto da

cathedral de Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e está posto

sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando

differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo está

paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas.

Os ossos dos braços e dos pés estão muitas vezes introduzidos nos

relicarios apresentando a fórma d'esses membros do corpo humano. Nos

relicarios de fórma de braço, a mão fica sempre representada _benzendo_

á maneira Latina.

No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com

a fórma de braços. Dois são do final do XIII ou principio do XIV seculo,

estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado

guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco são de madeira

pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, têem dois a

fórma d'um pé, e no terceiro, com a fórma de meia lua, guarda-se uma

costella do apostolo S. Pedro.

Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente

as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de crystal,

guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e

posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mão. Algumas vezes, posto

que raramente, estão fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito

ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha.

_Mostrador-relicario_. Estes relicarios compõem-se de vasos de crystal

ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de

ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em

pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos,

geralmente de fórma de cylindro ôco, põem-se muitas vezes n'uma posição

vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero

dos mostradores-relicarios são postos sobre pés similhantes aos dos

calices e das custodias; alguns são sustentados por anjos ou levitas;

finalmente ha os que ficam postos sobre um sóco; por vezes acontece não

terem essa base.

No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, os ourives, á

imitação das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios

de decoração para os mostradores-relicarios ás reliquias nos engastes

das joias, ás filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.

Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem fórmas architecturaes

e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os

feitios da decoração tirados até ali ao reino vegetal, dão logar para

formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando

delicadamente lavrados e executados, não pela imitação servil dos

edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue

todas as producções artisticas da idade media e que attendiam á natureza

da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as

fórmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria

impossivel, se fosse executada na pedra.

Quando o cylindro ficava na posição vertical, a fórma do

mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como já

referimos.

Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio

da decoração imitando a architectura, não tendo peanha.

Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição horisontal, é

geralmente executado em obra de ourivesaria de fórma de egreja com uma

ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por

arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro.

_Phylacteras_. Não podemos deixar de mencionar uma outra fórma de

relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos

compõem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre

dourado e esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em esmalte ou

relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma

cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas

vezes mesmo as representações dos assumptos, das figuras e symbolos

faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de

metal, são ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre

pequenas dimensões (o seu diametro não é de mais que dois a tres

decimetros), e fórma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com

quatro folhas. Alguns archeologos lhes dão o nome especial de

_phylacteras_, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do

grego, _guardar_, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e

deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os

relicarios.

Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de cylindro de

crystal, postas sobre um pé de metal com figuras de anjos ou de santos.

_Cofres-relicarios_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar

as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com

figuras em relevo. É bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas

historicas ou symbolos religiosos.

No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso não se

demorou a generalisar. Não devemos pois admirar-nos, se um grande numero

d'estes objectos curiosos têem sido conservados até ao presente. A maior

parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos

preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente

os que têem inscripções religiosas, como--AVE MARIA GRATIA PLENA e O

MATER DEI MEMENTO MEI.

Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados

d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o

qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de

ferro. O ferrolho tinha ás vezes a fórma d'um lagarto ou de salamandra.

A maior parte d'estes cofres eram cobertos de florões scintillantes, o

que faz vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar

á architectura as suas principaes fórmas de decoração.

Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os

relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até á epocha ogival

juntamente com os de madeira, de metal e de couro.

_Trombetas-relicarios_. Não é raro achar, nos thesouros de egrejas,

antigas trombetas de guerra e de caça transformadas em relicarios.

Durante a idade media, os christãos não receiavam empregar no culto

certos objectos profanos emquanto á sua origem e á sua ornamentação,

mais preciosos como materia ou como obra d'arte. Já assignalamos esta

pratica para os camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das

quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais

brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se

tambem nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos esmoleres

de que fallaremos depois.

Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e apresentam a mesma

fórma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. É

do nome d'este animal, que as trombetas de marfim têem tirado o de

_olifante_, pelos quaes são geralmente conhecidos. Na idade media o

_olifante_ era tanto se não fosse mais, um instrumento de guerra como

para a caça; servia principalmente para dar signal de commando, reunir

as tropas e annunciar a presença do inimigo.

Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de metal,

floreado com florões ou redentados que facilitam suspendel-os em

bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabeça de bezerro, estão

fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o

comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de

esculpturas em baixo-relevo, e então as virolas não têem ornatos.

As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as

de metal existiam durante a idade media no Norte de França,

principalmente em Abbeville e Paris.

Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo;

posto que guarnecidas pela mesma maneira que os _oliphantes_, são

todavia faceis de reconhecer, não sómente pela sua côr, mas ainda pela

sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um

semi-circulo.

_Esmoleres-relicarios_. Chama-se _esmoler_ a uma pequena bolsa com

cordões ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o

dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, que formavam

na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos,

eram de couro ou estofos de preço. Dava-se-lhes tambem o nome de

algibeira.

A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com dois cordões de correr

para fechar, e d'um outro cordão para suspender á cintura. Mais tarde

supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho uma parte do

estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mão no esmoler.

Não se tem conservado até ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de

couro não se encontram senão casualmente. Entre estes estofos uns são de

seda lavrada, outros têem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro

ou seda de differentes côres traçando simples ornamentos, symbolos e

mesmo algumas vezes assumptos.

Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as

reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo a esta

circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses

curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos

thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou

assumptos religiosos; no maior numero vêem-se simples ornamentos;

algumas vezes mesmo estão decorados com assumptos profanos.

_Relicarios diversos_. Além dos relicarios que acabamos de descrever por

classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo

infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas

de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos.

_Custodias_ d'Agnus Dei. Chama-se _Agnus Dei_ a pequenos medalhões de

cera branca, de fórma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com

a impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreição, estandarte e

tendo dois ou tres guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um

segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma

epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicação,

ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao

cordeiro collocado no reverso do medalhão, o brazão d'armas do papa ou

uma imagem. Em exergo lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI

CRIMINA TOLLIS.

Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no

domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente

para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis,

os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento

de devoção. É n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses

com as modificações accessorias, que se acha a origem da devoção dos

_Agnus Dei_. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos

fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhões em

forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões

eram já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e

ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente

excluidos da materia dos _Agnus Dei_, e serviram-se unicamente da cêra

sem nenhuma addição de substancias estranhas, que o soberano Pontifice

mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e

de balsamo puro.

Em todos os tempos os _Agnus Dei_ têem sido recebidos pelos fieis com

grande veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal

mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentação apresentam a maior

analogia com os dos relicarios. Estas bocetas têem geralmente uma argola

para se suspender; são circulares como os antigos _Agnus Dei_, trazendo

em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI

MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra oração. São muitas vezes

recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cêra. Os

espaços que occupam o metal são ora dispostos em simples cruz grega

tendo na intersecção dos ramos, um medalhão cinzelado, gravado ou

esmaltado, ora em relevo sob a fórma de cordeiro, imagens, ou simples

florão.

Os mais antigos _Agnus Dei_ conservados até ao presente não vão além do

principio do XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se

com bastante frequencia.

_Armarios para reliquias_. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros

do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em

armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras

vezes formavam construcções de pedra encostadas a uma parede; todavia as

mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado

trabalho.

No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis,

d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente

ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas

portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas

simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por

travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.

Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a

pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, empregadas

simultaneamente na decoração dos armarios das reliquias; algumas vezes

mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo

com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco

acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a

polychromia. As portas dos armarios não apresentam já, a contar d'esta

epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas.

Compõe-se então de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo

que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em

relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das

janellas, as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha

imitando folhas de pergaminho, como já explicámos. Uma cimeira recortada

e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão rematam

muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.

_Vasos para os santos oleos_. Na quinta feira de cada anno, o bispo

benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral,

tres especies de oleos, os quaes são depois distribuidos pelas egrejas

da diocese. São: 1.^o oleos para os cathecumenos; 2.^o, oleo para os

enfermos; e 3.^o, oleo para a chrisma.

Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo

ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia

de Quinta Feira Santa.

Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos quaes o bispo benzia os

oleos para toda uma diocese, ás vezes mesmo para muitas, havia

recipientes mais pequenos, que continham sómente os santos oleos para o

deão de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou

ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres

separações, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou

menos precioso, compõe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos

estando soldados ou simplesmente unidos.

Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em que dar os

sacramentos e nas differentes uncções de bençãos, são regularmente muito

mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em

duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo

as tres especies de oleos, são triplicados como os dos deões, os quaes

se differençam unicamente pela sua menor dimensão. Compõem-se quasi

sempre de tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda

d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns não têem pés,

outros mostram esse appendice.

Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras

differentes: I, designa o oleo para os enfermos, _oleum Infirmorum_; C,

o santo oleo, _chrisma_. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da

lettra S, _oleum Sacrum_, ora da lettra O, _oleum_, ou mesmo da lettra

E, do grego [Grego: Elaion], oleo. Como cada um d'estes oleos não serve

sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os

doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do nó central que os

reune.

A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende

aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os

enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e estão tapados com uma

tampa de fórma conica. Alguns teem pés, outros não.

_Corôas suspensas sobre o altar_. Estas corôas chamadas _votivas_,

estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e

conservavam a fórma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo

brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram

feitas de proposito para o serviço do altar; outras pertencentes aos

soberanos como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela

generosidade dos principes.

_Corôas com luzes_. As coroas de luzes do periodo ogival são ou

_suspensas_ ou sustidas em um _pedicello_.

As corôas _suspensas_, que estiveram em uso desde os primeiros seculos

do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII

seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e

as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente.

No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em

pouco tempo, e ficaram a substituir as corôas desde o principio do

periodo do renascimento.

Resumo elementar de archeologia christã · 第 18 / 23 段