XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV seculos que
vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam bastante
analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que é muitas
vezes difficil distinguir de repente, se o objecto que está presente
serviria na primitiva de pia para agua benta ou de pia baptismal, pela
sua grandeza. A capacidade limitada do reservatorio e a falta do
orificio destinado para dar sahida ás aguas baptismaes, dão algumas
vezes um indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua
benta e não uma pia baptismal.
O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que
existem, ainda são de pedra. Havia tambem em outro tempo um certo numero
d'ellas de bronze e de latão. A memoria de algumas d'estas pias de metal
nos foi conservada, quer por desenhos e gravuras, quer por testemunhos
de escriptores antigos. Encontram-se mesmo raros especimens que
escaparam á destruição vandalica.
As pias para agua benta _portateis_ são vasos com azas, destinados a
conter a agua benta. Como já referimos, serviam durante o periodo Roman,
para apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos
personagens, na occasião da sua entrada na egreja. Serviam tambem n'esta
epocha, para a agua com que se faziam as aspersões prescriptas pela
liturgia. O costume de principiar a missa solemne do domingo por uma
procissão dentro da egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua
benta, remonta aos primeiros seculos do christianismo. As capitulares de
Carlos Magno confirmam já este costume, e no Concilio reunido em Nantes
em 911 determina aos curas que benzam a agua ao domingo, em um vaso
limpo e apropriado, para que o povo seja aspergido, e o sacerdote possa
leval-a aos enfermos, aspergil-os e á sua habitação.
As mais antigas pias para agua benta portateis são de marfim. As pias
para agua benta em metal, já conhecidas durante o periodo Roman, vieram
a ser muito communs no XIII e XIV seculos. Todas as pias para a agua
benta portateis são, comparativamente ás em uso desde o XV seculo, de
muito pequena dimensão: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou menos
de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.
Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal
vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimensões maiores. Todavia
encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que são muito pequenas.
Quasi todas as pias para agua benta antigas têem a fórma d'um balde;
algumas apresentam um engrossamento consideravel sobre a borda superior,
diminuindo sensivelmente para a base. Vêem-se com uma inscripção
mostrando como as das pias fixas, assim como a allusão ao symbolismo de
agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.
*Grades e barreiras*
_Grades de ferro_. As grades do XIV seculo apresentam mais ou menos o
aspecto geral que as do periodo Roman. Como antecedentemente, têem os
prumos verticaes com um caixilho de ferro a que ficam reunidos por
ornatos em fórma de _X_ composto por barrinhas de ferro com secção
differente; e todavia, quando as grades são destinadas para as
cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das
extremidades simplesmente enroscadas não têem por ornato senão algumas
hastes verticaes. A suppressão das couceiras póde ter logar sem
inconveniente nos vãos de pequena largura, de pouco peso e fórmas
delicadas, mas para grades maiores e expostas aos encontrões da
multidão, o systema de almofadas com ornato entre as couceiras e as
travessas é o unico modo que dará a solidez precisa sem obstar ao
aspecto de leveza.
Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os
reliquarios expostos publicamente á veneração dos fieis e os armarios
dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante
trabalho de mão d'obra. Estas grades ornadas geralmente por barrinhas
estampadas do lado externo sómente estão por vezes armadas com grandes
pontas e ganchos de ferro que impossibilitam o assalto.
Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as
travessas continúam a ser empregadas; porém as barrinhas torcidas e
estampadas das grades do XIII seculo ficaram substituidas por ornatos
obtidos, servindo-se de chapas de ferro batido, recortadas em florões ou
folhagens. Depois, em logar de ficarem seguros como precedentemente os
prumos por bracedeiras, não soldados, esses ornatos estão fixos por
cavilhas arrebitadas. Os caixilhos de ferro são muitas vezes
supprimidos, e a esses prumos depois de lhe assentar na extremidade
remates mais ou menos vistosos, compostos de flôres de liz ou florões de
folha de ferro soldadas.
As grades que se não abrem, que assentam na frente das janellas, nos
thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do archivo, casas
nobres e mesmo nas casas particulares, estão muitas vezes guarnecidas de
pontas de ferro dispostas em espigas nas duas extremidades das
couceiras. Algumas vezes as grades com espigas têem, álem d'isso, as
suas couceiras e travessas reunidas de maneira impossivel para fazer
mover as couceiras nos olhaes das travessas ou nos olhaes das couceiras;
estes olhaes estão alternativamente feitos nas travessas e nas
couceiras.
_Barreiras de madeira_. Em logar de grades de ferro, tambem se serviam
de barreiras de madeira, a fim de separar as capellas. Estas barreiras
são geralmente tapadas até á altura quasi d'um metro, não ficando
interrompida a vista na parte superior. Quasi todas são feitas com
madeira de carvalho, devendo a sua duração não sómente ao bem feito da
obra, como á excellente qualidade do material empregado. A começar do
XIV seculo, a parte inferior tapada é formada de duas ou muitas ordens
sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas.
Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando pinasios dos
caixilhos, ou folhas de pergaminho dobradas. A parte superior d'estas
barreiras compõe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a
vista entre os prumos em que se dividem.
*Orgãos e caixas para elles*
Os primeiros orgãos de que os chronistas occidentaes fazem menção, são
os que o rei Pepin recebeu de presente da côrte imperial de
Constantinopla no meiado do VIII seculo, e que fez collocar no seu
palacio de _Compiègne_. Carlos Magno tambem no principio do seculo
seguinte mandou fabricar orgãos, conforme o modelo byzantino para ornar
a sua egreja de _Aix-la-Chapelle_. Depois de Carlos Magno, o uso dos
orgãos para o acompanhamento de certas partes cantadas do officio
divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o final do X
seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de primeira
ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes
continuaram a generalisar-se.
Os orgãos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande singeleza,
como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.
Durante o periodo ogival a predilecção pelos orgãos tomou novos
desenvolvimentos, e, no final do XV seculo, todas as egrejas de alguma
importancia e mesmo as capellas tinham o seu orgão. No XIII seculo,
começaram já, em alguns logares, a multiplicar o numero dos orgãos em
uma só e mesma egreja. Ao principio contentavam-se com dois d'estes
instrumentos; porém no XIV e XV seculos tinham tres, quatro e até cinco.
Na egreja do convento de Mafra, el-rei D. João V mandou collocar quatro
grandiosos orgãos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.
_Até ao XV seculo_, diz o insigne architecto Violet-le-Duc, _não parece
que os grandes orgãos estivessem em uso. Serviam-se apenas de
instrumentos de mediocres dimensões e que podiam ficar dentro d'um movel
assentes na capella-mór, nos jubés ou sobre tribunas mais ou menos
espaçosas, destinadas não sómente aos orgãos, mas ainda aos cantores e
musicos. Foi no final do XV e principio do XVI seculo que houve a ideia
de dar aos orgãos, dimensões extraordinarias_ desconhecidas até então,
tendo uma _grande força de som e exigindo, caixas collossaes_. Todavia
esses orgãos não são nada em comparação com os instrumentos que se
fizeram depois no XVII seculo.
No fim do periodo ogival, a fórma das caixas dos orgãos era determinada
pela disposição que tinha esse instrumento. A obra de entalhador para as
caixas dos orgãos do XV e XVI seculos, e mesmo de alguns orgãos do XVII
seculo era independente do instrumento e servia para o resguardar,
cobrindo-o. O mechanismo e os folles ficam inteiramente mettidos entre
as almofadas macissas dos sócos; as almofadas recortadas enchem os
espaços rotos existentes entre a extremidade superior dos canudos e os
tectos, afim de facilitar a emissão do som. A marceneria ornada de
esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados e
dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria quando
tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo menos na
parte interna, com pinturas historicas que se viam quando servia o
instrumento. Os orgãos e as caixas, anteriores ao XVI seculo, são
muitissimo raros.
*Alfaias religiosas*
_Ourivesaria e esmaltadores_. No XIII seculo, a arte de ourives
transformou-se completamente sob a influencia do novo estylo
architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo durante a primeira
metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os objectos do culto
apresentavam ainda, é verdade, as mesmas fórmas geraes que durante o
periodo Roman; porém o systema da decoração teve modificações
importantes. O artista, fosse quem fosse, esculptor, pintor ou ourives,
ia procurar as suas inspirações, jamais como precedentemente aos
objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu
paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se
interpretal-os artisticamente.
As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de
filigrana, ficam geralmente em uso até ao meiado do XIII seculo;
continuando a dar o principal modelo de decoração para os objectos de
grandes dimensões, taes como os reliquarios e os frontaes dos altares.
Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de côres desappareceu
mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel do seculo
XIII, encontra-se, sobre as margens do _Lambre_, uma escola de ourives
tendo em pratica principios inteiramente novos. Á frente d'esta escola e
ao impulso artistico que produz, apparece o irmão Hugo, frade Agostinho
do priorado de _Oignies_. Este humilde religioso executou durante o
primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de
1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda não foram
imitadas, algumas das quaes teem resistido aos estragos dos tempos, e
guardam-se devotamente no thesouro das freiras de Nossa Senhora em
_Nemours_, produzindo a admiração de todos os entendedores. Desprezando
o emprego dos esmaltes com muitas côres, elle procurou o principal
effeito de decoração n'um trabalho original, que consiste em cobrir os
objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens formadas de
cachos, de flôrsinhas e pequenas folhas estampadas, reunidas pela
soldadura a delicados pés. A estas folhagens ajuntava figuras de veados,
cães e caçadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito unido
que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado sobre
as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os
contornos.
Hugo empregou ainda as joias; mas ás vezes, em logar de dispôl-as sobre
chapas rectangulares e ligal-as pela filigrana, as dispunha
artisticamente entre as suas delicadas folhagens. Além d'isto, seguindo
o exemplo dos seus antecessores, não empregava camafeus e com gravuras
concavas á maneira antiga, todas as vezes que não tinha joias novas para
o seu trabalho.
Quanto ás massas coloridas embutidas no metal, Hugo não conserva quasi o
negro do buril que serve para traçar as inscripções, ornamentos e tambem
as figuras.
Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria principiaram
pouco a pouco por imitar na sua fórma e aspecto geral os monumentos de
architectura: os relicarios, que antes eram cofres, sarcophagos,
remedando o feitio dos edificios religiosos, vieram a ser pequeninas
egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham enfeites, por vezes
remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e bastantes arcos; em uma
palavra, as fórmas elegantes e graciosas da architectura ogival foram
copiadas nos objectos do culto. A cinzelura tambem faz cada vez mais
progresso; e vê-se mesmo a maior parte das vezes pequenos objectos
apresentarem as esculpturas e altos relevos, o que não se fazia antes,
excepto nos grandes objectos de ourivesaria.
Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV
seculo, as fórmas que tinham precedentemente, isto é, imitam o aspecto
dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, são decorados com certos
detalhes architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na Belgica,
os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto
relevo, grupos e imitações de membros de corpo humano, ou outros
objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os
vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade
do estylo grave da época precedente.
No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differençavam pouco,
quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas fórmas
patenteavam todavia as modificações successivas que teve a architectura
n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas
composições, menos elegancia nas fórmas, porém o seu trabalho é
geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes até á
exaggeração pelo acabamento e perfeição dos pequenos detalhes.
Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro e a prata,
os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo,
indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham
depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado
produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por
uma delicada gravura, cujos traços refaziam o desenho dos contornos das
figuras; emfim, abaixavam o fundo á roda das figuras e enchiam-no de um
esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composição.
Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura delicada ficavam
geralmente vasios; era só excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas,
no começo d'esta época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou
pardo-escuro.
_Dinanderie_. Dá-se o nome de _dinanderie_ a um objecto de cobre ou
latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos.
Esta palavra tira a sua origem da cidade de _Dinant_ sobre o _Meuse_, a
qual tinha adquirido, na edade média, uma grande fama pela execução de
objectos de latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns
archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo--Dinan_te_rie, em
logar de Dinan_de_rie.
A arte de _dinanderie_ estava prospera desde o fim do XI seculo nos
Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre
obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a
exportação dos productos de sua industria para Allemanha, França,
Inglaterra e todo o norte da Europa.
As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e
as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.
_Calices e Patenas_. A communhão sob a especie de vinho tendo sido
abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices _ministraes_
com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricação
ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de
origem occidental são anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no
Oriente, pelo contrario, onde a communhão se dava ainda aos seculares
sob as especies de pão e vinho, o uso dos calices ministraes
conservou-se até ao presente.
_Os calices vulgares_, isto é, os de uso do sacerdote que celebra a
missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos
precedentes, a taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de grande
diametro; a tige está ornada de um nó grosso, composto muitas vezes de
arestas salientes, mas raramente de medalhões circulares.
No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se deu na
fórma dos calices. A taça estreitou-se, e de hemispherica, como era
antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto é, similhando-se a um
funil. A fórma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo,
veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea,
que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente
cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis
faces. Os lados do nó foram mudados para botões redondos, quadrados ou
rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de
esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botões estão algumas vezes
inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então:
IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de
gravuras a traço representando imagens, e mesmo composição completa;
estes lobulos correspondem ás faces da hastea e aos botões do nó. O sóco
do pé está recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu
diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante
uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os calices do
XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura,
mas o diametro da taça e do pé é muito menor.
A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco mais ou menos a mesma dos
calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na
Belgica, observa-se que os lobulos do pé, as faces das hasteas e os
botões do nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta
mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.
A _patena_ do periodo ogival tem como a do periodo roman, a fórma de uma
pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da
salva traz muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo,
circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola que symbolisa
a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma
pequena cruz sobre a borda da salva.
_Galhetas_. Existem raros especimens de galhetas da época ogival.
Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnição de prata
cinzelada e algumas de prata dourada com guarnições gravadas.
Durante a edade média serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas
de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos
d'esta especie escaparam da destruição.
_Custodias Eucharisticas_. Em alguns paizes, particularmente em França,
a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada,
como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior
parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas
custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no
baculo de metal.
No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as
pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno
tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam sómente
para conservar o numero necessario de hostias de que havia precisão para
a communhão dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir
aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da
communhão do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa,
sendo distribuidas servindo-se da patena.
Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e
cobre não apparecem senão excepcionalmente.
_As pyxides sem pé_, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas
caixas cylindricas, tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso
pelo menos até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o
Viatico aos enfermos.
Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos
valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua conservação a esta
circumstancia, que depois da introducção das grandes pyxides
aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar
chancelladas no altar no momento da consagração: portanto, não é raro
encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos.
As pyxides _pediculares_, isto é, tendo um pé, que eram raras antes,
vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a
ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do
baculo, teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a tampa bastante
grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola
ôca, geralmente um pouco achatada.
No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do
altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um pé mais
alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava
collocar sobre um pé as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado;
depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos,
vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a
taça e o pé circular.
No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma hexagonal, isto é, seis
faces, e o pé divide-se em seis lobulos.
Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides
pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes;
os angulos formados pela intersecção dos seis lados da taça, sendo
flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com
ou sem estatuasinhas.
Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior
numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão aos fieis,
mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides tiveram dimensões muito
maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe fórmas architecturaes, porém
essas fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais
complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e ás arcaduras
com as quaes já as ornavam precedentemente. Em França e na Belgica,
appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja
fórma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é raro, além
d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios.
Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras excepções, todas as
pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo.
_Custodias_. A solemnidade do _Corpus Domini_, ou festa do Corpo de
Deus, instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja Universal,
dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expôr
publicamente o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. Foi este uso
que deu origem ao vaso chamado _custodia_, ou _apresentação_ nome
derivado dos verbos latinos _ostendere_ e _monstrare_, significam, um e
outro, _mostrar_.
No principio, parece que o _Santissimo Sacramento_, estava exposto
publicamente nas pyxides _transparentes_ com cruzes e torrinhas cheias
de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as
custodias.
Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os
relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios de metal, com
recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com
aberturas, as mais das vezes sob a fórma de janella ogival.
As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de
_cylindro_, assim designadas porque são formadas d'um cylindro de
crystal ou de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI
seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos
flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do
XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não são usados. A hostia
colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou
mais anjos. O pé e o nó d'estas custodias apresentam a maior similhança
com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do pé é
geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.