periodo ogival, uma fórma simples e positivamente symbolica. Em geral ou
era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura.
Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiçaes, e ás vezes
um tabernaculo para a conservação da Eucharistia. Outra maneira de
reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde
o XIII seculo, foi aquella cuja recordação se conservou n'um curioso
quadro do XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral
d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada
por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura,
tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura
da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de
uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o feitio de
torrinha.
Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas
romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, por detraz do
altar proximo do abside oriental da egreja.
Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de
modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham um docel.
_Frontaes_. São cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes
de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em
muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de _antependium_. Na
idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram
cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de
ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira
cobertas de pinturas.
Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e
Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII seculo, e pouco
a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival,
os frontaes com estofo fôram, por assim dizer, os unicos empregados. A
sua côr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por
conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de
veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras
preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e
legendarios.
_Baldaquino_. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de
veneração, foi bastante geral até ao XII seculo; mas ficou quasi
abandonado na Belgica e França durante o periodo ogival; na Europa
Occidental e Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta
epocha, como summidade dos reliquarios.
Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve
principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival.
Os mais notaveis são os de S. Paulo fóra dos muros, os de S. João, de
Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.
Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino,
suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo
de custo.
O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar
aos fieis o respeito e a veneração devida ao altar, symbolo do Salvador.
Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo,
preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com
elle, e conservando-lhe assim toda a sua significação symbolica. O
retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte
d'elle, desvia a attenção das pessoas para o accessorio com grande perda
do objecto principal, que é o altar apropriadamente assim chamado.
_Cortinas_. Chamam-se cortinas a armação suspensa nos dois lados do
altar, e por detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas,
da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas
vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos
bordados, ornamentação, figuras e objectos religiosos.
Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas vezes em quatro
ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de
anjos, tendo na mão luzes ou differentes instrumentos da paixão. A côr
das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões
do anno lithurgico.
Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de
duas outras especies de armação lithurgica. Eram: 1.^o a grande cortina
que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mór ou do
presbyterio, e que se designava _o véo do templo_; 2.^o os véos que
serviam na mesma occasião nos crucifixos, retabulos e imagens, eram
designados pelo nome _véos de quaresma_.
_Retabulos_. Como já indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no
final do XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das
reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados á tribuna
ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mór. Nas egrejas
matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mór ficava
quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em
França, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes
septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira
do bispo ou do abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades,
que até então ficavam por detraz do altar-mór ao correr da parede do
hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois
lados do côro, isto é, para o logar onde se vê presentemente nas egrejas
do Norte.
Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes
para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo
roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde
a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem
sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira
com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram
quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já
n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de
_trypticos_, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim
dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha.
As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo,
tiveram no principio ornamentação de esculptura na face interior, e
pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos compostos de
estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e
mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o
retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decoração
d'essas duas frentes das portas.
Os retabulos não apresentavam a mesma _fórma_ durante todo o periodo
ogival. Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca
grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes
comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima fórma,
principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns
paizes, até o meiado do XV seculo.
O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a
pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio,
tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos
retabulos pintados tendo portas, o nome de _tryptycos_ ou _polyptycos_,
conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices.
Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e
meridional já durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella
e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e
subdivisões se complicam cada vez mais, á proporção que se aproximam do
final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV
seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos
retabulos do XV seculo passam depois por transições com mistura de
linhas rectas e curvas para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos
unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero
que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; chegando
mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e
enlaçamentos do feitio de firmas.
Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo
se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos
triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre
maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha.
_Os assumptos representados sobre os retabulos_, eram tirados da
historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII
seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer
de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma
quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do
retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o
arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem senão poucas vezes;
quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series
verticaes e horizontaes com as divisões cheias de baixos relevos
sobrepostos uns aos outros. A representação da cruxificação com a Virgem
Nossa Senhora e S. José, com os dois ladrões e grupos de personagens,
occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e
por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores.
Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por frontaes
similhantes aos dos altares. Muitos _retabulos pintados_ do periodo
ogival se têem conservado até ao presente. Arrancados quasi todos ao
logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora
como paineis nos museus de pinturas ou estão dependurados nas paredes
internas das egrejas.
As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo,
não são como os antigos retabulos em forma de triptyco.
_Os retabulos esculpidos_ foram usados simultaneamente com os retabulos
pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os
primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo
numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou
collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros
paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental,
compõem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas
vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do
ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execução grosseira e
sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreço
artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse
periodo.
Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados
de côres. Convém advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem
frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não
apresentam commummente nenhuma significação, tendo sido ahi collocadas
unicamente com o fim decorativo.
No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um
sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar.
Esta base se designa _predella_, nome que se dá egualmente aos
degrausinhos para os castiçaes do throno dos altares modernos. O lado
superior, que corresponde á base do retabulo, é muitas vezes mais
comprido que o lado interior; n'este caso a differença de tamanho é
disfarçada por um arco de circulo saliente.
A _predella_ (banqueta) é muitas vezes ornada do busto do Redemptor e
dos doze apostolos.
Das observações precedentes resulta que, não obstante as dimensões por
vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou
até aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte
dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo
ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do
retabulo, a que dão impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a
verdadeira significação do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos,
muitas vezes de _madeira_, com côr de _pedra!!!_ compostos de socos,
arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os
baixos relevos são inteiramente supprimidos ou estão mesquinhamente
representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes
assumptos são executados apesar das regras da iconographia christã,
regras das quaes os architectos, esculptores e pintores _não teem
geralmente o incommodo de adquirir as noções as mais elementares_! É
tambem para lastimar, que nas restaurações das antigas egrejas, não
encarreguem os retabulos _triptycos_ ao talento dos pintores que se
occupam de trabalhos religiosos.
_Sacrarios_. Durante quasi todo o periodo ogival não se reservava,
depois da celebração da missa, senão a quantidade de hostias consagradas
e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e
para expor o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis.
Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar,
approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e recebiam _uma
parte das sacramentaes_ que o padre acabava de consagrar. Não se deve,
pois, estranhar que os vasos sagrados destinados á veneração da Santa
Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimensões
durante o XIII e o XIV seculos.
Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:
1.^o Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso
durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia
precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.
2.^o Em França e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa
serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira
indicada na pag. 272. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de
uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou
pequena tenda (_tabernaculum_) em estofos custozos, que se suspendiam,
por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata.
3.^o Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca,
relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no
sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.
4.^o No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e
terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos
detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos
tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na
Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.
5.^o No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva
Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente isolados e ao
lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na
Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este
ultimo paiz que são do XIV seculo.
O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre são de pedra;
encontram-se não obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de
metal.
Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na
parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, porém mais pequeno e
muito menos ornado.
Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar
sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que
deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que
guarnecem os lados da capella-mór ou da nave.
_Piscinas_. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da
Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na
epocha ogival.
No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram _geminadas_, isto é
compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica,
quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra do pavimento do
edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a
outra, as oblações das mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque,
ainda n'esta epocha, as oblações do calix eram lançadas nas piscinas, e
não bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas
_simples_, isto é tendo um unico orificio para sahir a agua.
As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo nicho, separado
por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras
fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas
arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta
entre as duas arcaduras forma a divisão dos dois nichos da piscina.
As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do seculo
precedente senão pelo genero da ornamentação architectonica e
esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são
gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua de que se
serve para fazer a oblação do calix.
No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras
e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem
completamente.
_Cadeiras de côro_. Estas cadeiras collocadas no côro das egrejas eram
destinadas ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios
religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de
pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira.
As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, tendo cada uma
um nome para a designar.
As separações de duas cadeiras são formadas por curvas elegantes com
ornamentação de obra de talha na sua parte superior, que lhes dão graça
e belleza. Os _arrimos_ são apoios horisontaes que limitam as cadeiras
na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com fórma
inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se facilmente.
Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto á _rampa curva_ da
divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se está
sentado. A taboa movediça servindo de assento gira sobre gonzos ou
eixos, e póde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma
misula que se chama _misericordia_ ou _paciencia_, sobre a qual se póde
sentar, _fingindo estar a pessoa de pé_, quando a taboa que pertence ao
assento está levantada.
No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras
ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do côro em duplo renque
e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais
baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregação.
O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima
do chão; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre
um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que
as debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam
muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas
cadeiras superiores; as costas d'estas são muitas vezes inteiramente
semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira
bastante alta e limitada por um remate em sacada com a fórma de um
docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o
chão com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em
distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão
de uma cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas cadeiras
mais altas; estas aberturas chamam-se _entradas_. Encontram-se tambem
cadeiras com genuflexorios.
As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis tanto pela sua singeleza
como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e
outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada divisão
d'estas cadeiras. As mais sumptuosas têem além d'isso, esculpturas sobre
as _misericordias_ e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem ás
columnasinhas servindo de apoio aos braços das cadeiras. Estas
ornamentações constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras
de animaes reaes ou phantasticos.
As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do
XIII seculo; só com a differença de maior ostentação na obra de talha.
Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do XIV seculo,
estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma
almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a
um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No
XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais
saliente, descança sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos
dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto,
sedas de côres, bordados e pannos de raz.
Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, mesmo quando
não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas,
representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma
decoração vegetal muito vistosa.
As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das
precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. São
cheias de bastante decoração e executadas com mais primor e delicadeza
que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compõem-se quasi
sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos
delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado
muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam
assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda;
successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora são representados
quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das
misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes
reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as
esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos.
Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e XVI
seculos.
Em França, as mais notaveis são as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e
d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm,
com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da Sé
Velha de Coimbra.
_Bancos e docéis dos celebrantes_. O banco dos officiantes era destinado
para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta
o _Gloria_, _Credo_, e _Dies irae_; servia ao mesmo fim as poltronas que
é costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do altar.
Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e
segunda ordem, estavam regularmente no _presbyterium_, do lado da
Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com
as cadeiras do côro. Conforme as prescripções lithurgicas, distinguia-se
por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivisões. Algumas
vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes
ás do côro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel
cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede
do côro, quando este não tinha naves lateraes ou sustentado por columnas
e de paredes mestras quando o côro estava rodeado de naves lateraes.
_Jubes, Screens[4] e Cruzes triumphales_. Antigamente chamava-se _Jube_
á tribuna (em latim _doxale_) especie de barreira com tres e mais
arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o côro das
naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com
_guarda-peito_, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral,
em cuja tribuna um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter
pronunciado a formula: _Jube, Domine, benedicere_.
D'ahi vem o nome _Jube_.
As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de
caixas rendilhadas com linda decoração.
Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava
tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo
portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposição
primitiva; na Belgica, por exemplo, na França e em certas partes da
Allemanha, a arcada central só ficou aberta com uma grade de pau ou de
ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes
encostando-lhe altares.
Na primeira metade do XIII seculo, os _Jubes_ eram raros. Foi sómente no
final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que
se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No
XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais
importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao presente: o
mais antigo é da era 1490.
O mais magestoso é o da cathedral de Milão.