construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevação, tendo a fórma
de uma pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as arestas das
flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono estão por
vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV
seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas
aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com florão. No
XV seculo, essas ornamentações são substituidas por feitios de chammas e
por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no
principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os
campanarios com flechas rendilhadas.
Muitos campanarios mais importantes, de grandes proporções, ficaram por
concluir desde a base da flecha projectada, e ás vezes ainda mais
abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construcção,
depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado
pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos,
que não teem nada de commum com as lindas pyramides da época ogival.
No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma
platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.
A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham
campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito é agradavel
e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios
empregados para a execução. Estes campanarios, sem nenhum ornato,
compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior só tinha as
quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo
para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.
Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo nos
edificios de menor importancia, as combinações geraes mais simples eram
as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.
Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um grande numero
de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a
attenção dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito
bellos até nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios,
construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios
d'este paiz, são geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de
tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as
arestas da flecha e dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets
egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos
são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra
particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima,
é inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser um facto
intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos
d'este quadrante que sopram com extrema violencia á beira mar.
Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um
campanario collocado quer na extremidade da capella mór, quer em um dos
dois angulos formados pela intersecção da capella mór e o cruzeiro. Esta
disposição é bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria.
As abbadias preferiam esta collocação afim de que os frades incumbidos
de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não fossem
obrigados a afastar-se da egreja.
Os constructores romans construíam muitas vezes um campanario no logar
da intersecção da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia,
estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por
toda parte, fóra d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes
foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica,
encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porém de
resumida dimensão, nos edificios do periodo de transição.
As _escadas dos campanarios_ e tambem as que servem em outras partes dos
monumentos para subirem aos madeiramentos, são geralmente de caracol com
centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no
exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos
contrafortes, nunca são dissimuladas, mas visiveis, facilitando as
seteiras que estão abertas darem luz á escada.
Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre _cruzes de ferro
batido_ no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigão
do côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espigões do
cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composição de
bastante trabalho. As cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas
por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno
encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos
apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos
prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as
horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a
aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a
cantar, dando ás azas.
_Pavimentos_. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos
paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores
differentes. Tanto em França como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e
Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e
com embutido egualmente de côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos
gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios
ogivaes na Europa Occidental e Septentrional.
Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos.
Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos;
em geral, não se adoptou este genero de decoração senão para a capella
mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas
as pessoas são admittidas indistinctamente, o roçar do calçado em pouco
tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.
Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro são as côres preferidas
no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste
da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a côr
verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o
amarello para os embutidos. As côres carregadas e escuras deixaram de
ser usadas nos pavimentos.
Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas dimensões, como havia
no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaça, cujos
ladrilhos estão agora _escondidos por baixo de simples lagedo_, na
profundidade de _0^{m},34 centimetros_!
Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só ladrilho,
ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos,
formam regularmente figuras geometricas, brazões, florões, animaes
existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com
duas cabeças, é o que mais frequentemente se vê.
No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram algumas vezes
representadas pela reunião de um certo numero de ladrilhos pintados.
Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de
letreiros, empregados nas campas de cantaria.
Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi
o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e não teem o vigor
das côres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV
seculo, as ornamentações são muitas vezes substituidas por firmas,
letras, inscripções, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo
apparecem os tons verdes e azues-claros.
Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas
abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o
periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes
côres, sem nenhum ornato.
Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados,
apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito raros, porque
não se podiam fazer senão com barro muito rijo, para que os relevos não
ficassem em pouco tempo gastos.
_Lages gravadas e com embutidos_. Desde o XII seculo, empregaram-se
algumas vezes, para cobrir o chão das egrejas, lages de pedra e de
marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados
em parte pelos espaços conservados da propria lage, ou por um betume
colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este
genero não foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua
destruição! Um dos mais bellos e mais completos é o que ornava a capella
mór da cathedral de _Saint-Omer_ (França), e do qual bastantes
fragmentos se têem conservado até ao presente. Os fundos dos arabescos
são de côr castanho-escuro, assim como a inscripção; os traços do
contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim como está
representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composição,
que é do meiado do XIII seculo.
_Labyrinthos_. Na antiguidade pagã designavam-se com o nome de
_labyrinthos_, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em
cima do solo, com ramificações em grande numero e complicadas. Todos
sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia,
o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade média o nome de
labyrintho foi dado a uma disposição particular que se vê no pavimento
de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposição,
divisão e côr das lages, formam, pelas suas combinações, linhas sinuosas
com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os
Gregos representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em
mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitações. Os
labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christãs,
por exemplo, na de S. João Vidal de Ravana (Italia), que é do VI seculo,
acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios
pagãos. A presença da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se vê
no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia
e em Luca, dão uma prova evidente d'esta affirmação. Os christãos
introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significação
symbolica. Seria comtudo difficil, por não dizer impossivel, determinar
de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas
egrejas christãs.
Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da
viagem á terra Santa, ou, segundo outras opiniões, o transito doloroso
de Jesus Christo desde a casa de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias
eram concedidas ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as
orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados
com o nome de _dedalo_, _meandro_, _caminhos de Jerusalem_.
A fórma dos labyrinthos não é sempre a mesma, O de _Chartres_ é
circular; o de _Saint-Quentin_, octogono; taes eram tambem os de
_Arrhas_, _Amiens_ e _Reims_. Na egreja de _Saint-Bertin_ em
_Saint-Omer_, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e
aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto
relativo á construcção do edificio. Em _Amiens_, por exemplo, a pedra
central representava os architectos da egreja e o bispo _Évrard_, seu
fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção,
gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.
_Pinturas das paredes_. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na
época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de
uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.
Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do
estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de
construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel
motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções
ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o
espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura
multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem
custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho
da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies
das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços
divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das
janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras
estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a
multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas,
diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço
de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe
caracteres novos.
O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso
que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram
quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali,
em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos
da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que
esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada
do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista
uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura
historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e
parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das
vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram,
onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da
coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia,
maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a
unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a
luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como
peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um
aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois
a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da
pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que
as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes.
D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem
ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado,
ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o
permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos
decorativos e desenho dos detalhes.
Não é pois para estranhar que as _pinturas historicas e legendarias_
tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante
raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo
dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas
superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse
espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos
compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as
archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas
representam muitas vezes personagens isolados.
A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é
manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII
seculo se observa no _desenho_ uma tendencia a abandonar os typos
byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das
pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas
muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se
observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao
estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas
tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser
mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais
individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as
situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o
começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.
Na _colorisação_ succederam, tanto como no desenho, transformações
successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo
roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave.
No XIII seculo, a colorisação teve, na _pintura decorativa_, as mesmas
transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios
romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as
mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco
dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons
brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os
vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente
coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela
intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado,
entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um
aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por
exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons
claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso
necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes,
fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para
terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com
traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos
das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com
vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas
servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante
todo o tempo do periodo ogival.
No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de
decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes
representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes
sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos
caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo
colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma
egreja de Bruxellas.
Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da
regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de
pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras
de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de
côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos,
representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com
ornamentação.
Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de
decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava
nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as,
por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e
aerea. São principalmente as pinturas representando as formas
architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não
ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o
que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por
nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo,
apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se
de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos
monumentos.
Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas
pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do
systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela
esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil
quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris.
A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da
decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos
têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e
polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e
as pinturas a fresco das paredes.
A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria,
data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o
principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não
vão além do XVI seculo.
_Cruz de consagração_. O Pontifical romano prescreve que, para a
dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre
as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado
consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o
periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que
geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo
roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no
oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da
epocha ogival debaixo de grossas _camadas de cal_ na parte interna das
egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento.
Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.
Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV
seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em
esculptura.
*Altares, tabernaculos, piscinas, cadeiras do côro, bancos para os
celebrantes, tribunas e separações da capella-mór*
_Altares_. Como já explicámos, o altar verdadeiramente designado é uma
mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar
não existe; ella e só ella, forma, todo o altar. Esta mesa é de pedra,
porque o altar é a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa.
Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz,
pela veneração por este famoso symbolismo, que o altar ficasse
inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o
mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia
eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leão IV
permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos.
Quando o altar é formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar
muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram
cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou
ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos
preciosos.
Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava
collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre
as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, que se corriam
durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista
dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos
_retabulos_.
Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de
maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar.
Explicaremos successivamente, o _altar_ com _a sua verdadeira fórma_, os
_frontaes_ dos altares, _baldaquino_, os _cortinados_ e os _retabulos_
do periodo ogival.
_O altar assim designado_. Como os do periodo roman, os altares da epoca
ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de
alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentação pintada
ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas côres
mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porém poucas, se
decoravam os lados nús d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos
arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as
arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e
baixos relevos.
Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram
formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos
traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a
pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira.
Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira.
Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não havia então
as _pedras aras_, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um
altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.