elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos
do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras.
Comtudo a leveza não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas
ogivaes são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos
anteriores, posto que sejam muito menos massiças.
_Estabilidade e plano das abobadas_. Já explicámos que a estabilidade
das abobadas não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do
periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos tão
importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas
construcções das abobadas.
Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como
são construidas as abobadas ogivaes, causam um esforço lateral que tende
a desviar para fóra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes
ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforço
lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, quer um
obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas
verticaes. É caso particularmente para notar, porque constitue
egualmente uma differença essencial do systema de construcção dos
antigos, esses obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias
para preencher o fim ao qual são destinados.
Esta neutralisação dos esforços lateraes não se obtem da mesma maneira
nos edificios religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta
do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual
altura.
_Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras
lateraes_. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos
constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das
differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o
arco-duplo da abobada principal á parede mestra, o arco butante, o
contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral
do seu arco-duplo, formavam um triplo esforço motivado pelo arco-duplo
da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender
para fóra a parede mestra do edificio. A este esforço, o constructor da
edade média oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede
mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço
triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se
quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu
peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a
columna que sepára as duas naves; por ambas as forças reunidas,
tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo
esforço exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras
proximas da mesma nave. O esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas
nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte.
_Egrejas em que as naves ficam na mesma altura_. N'estas egrejas os
esforços lateraes que a abobada da nave principal opéra sobre os seus
pontos de apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores
d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes,
geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um obstaculo rigido,
que produz o equilibrio das abobadas.
_Abobadas de feitio de tecido_. As abobadas sobre plano _quadrado
longo_, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram
geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então
as abobadas em _tecido_, designadas tambem pelos archeologos, abobadas
_com divisões prismaticas_. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se,
ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um
verdadeiro tecido, como está representado na surprehendente abobada do
cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de
intersecção das nervuras estão regularmente ornados de esculpturas.
_Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes_. As nervuras ou arcos ogivaes
das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas
vezes em um grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro tóros de
menos vulto. Os arcos-duplos da mesma época, muito mais massiços que as
nervuras, apresentam secções quadradas ou rectangulares, e teem os
angulos das partes concavas da abobada talhadas em tóro. Desde o
principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepções,
os mesmos perfis que os arcos ogivaes.
Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda arcos-duplos e
arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans.
Todavia não tardou a adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco
depois, a parte redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva.
Esta fórma teve logar em França desde o final do XII seculo, e na
Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em França ao
principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva
é substituida por um filete, que ficou adoptado até ao final do periodo
ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tóros
secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no começo do
XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de
molduras concavas e redondas.
Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que
os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as
dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis não se fez sem motivo: os
constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um
arco ou de uma nervura está em razão directa da altura da peça de voltas
e não em razão da sua largura.
_Fecho da abobada_. No XII seculo, tinham principiado a ornar com
esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos
representavam Jesus Christo deitando a benção, o Cordeiro Divino, Nossa
Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e
muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos
edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um
simples florão ou entrelaços.
No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a
ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus Christo, o
Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos
religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentação distingue-se
por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na
primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma
decoração que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os
caracteres proprios da ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV
seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são esculpidos
frequentemente sobre os fechos da abobada.
No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um
appendice que recebeu o nome de _pendente_, que ficou em uso durante uma
parte do XVI seculo, imitando stalactites que estão suspensas ás
superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um
florão ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua
pegada á abobada.
Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco circular,
para se poder içar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como
havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando não sómente
essa applicação, mas que o edificio _deveria ter duas torres_: todavia,
construiram modernamente um torreão colossal, que esmaga aquelle
monumento, e não respeitaram o que fôra projectado na sua primitiva
edificação!
_Arcos butantes_. Chama-se _arcos butantes_ aos arcos destinados a
transportar até aos contrafortes exteriores o esforço lateral das
abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e
apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde
vão confinar os resultantes dos _encostes_ dos arcos ogivaes e dos
arcos-duplos.
Já explicámos os dois systemas empregados durante o periodo roman para
contramurar o esforço lateral produzido pelas abobadas superiores sobre
as paredes altas das egrejas em que a abobada principal é muito mais
alta que as outras das naves inferiores, e notámos os inconvenientes que
resultavam de uma e de outra applicação. Estes dois systemas foram em
pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava
sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo
logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes
precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o
encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores
dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e
do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em berço
contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o
fim de neutralisar o esforço lateral das abobadas altas, não era
necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo resultado
applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar
a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior:
foi esta combinação que deu origem aos arcos-butantes.
Para que satisfaça á sua applicação deve o arco-butante: 1.^o, ter as
juntas das peças de sua construcção _normaes_ ou perpendiculares á curva
por elle descripta; 2.^o, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no
ponto onde passe a resultante do esforço da abobada. Esse ponto acha-se
entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da
altura da abobada. Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia
na prática é preciso que a summidade ou cabeça do arco-butante seja
larga; primeiro porque é impossivel, na execução, determinar de uma
maneira exacta a direcção da resultante dos differentes esforços das
abobadas; depois porque a direcção d'esta linha póde facilmente
desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes,
effeito que acontece frequentemente nas grandes construcções medievaes
cujos pontos de apoio são delgados e supportam uma pesada carga.
Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no seu _extradoz_, por um
encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este encosto
é muitas vezes ornatado de _crochets_.
Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os
arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos
religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os
mais antigos são geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a
curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta.
Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo,
arcos-butantes _duplos_, isto é, dois arcos-butantes collocados um por
cima do outro.
Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia
eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos
monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, julgavam-se
sufficientes os contrafortes muito massiços e salientes para diminuir o
esforço das abobadas.
Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento
um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado
principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto
sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos
contrafortes, e eram depois lançadas fóra por gargulas, caindo afastadas
da base do monumento. As infiltrações causadas pela passagem das aguas
sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes,
produziram damnos tão consideraveis nas construcções que ficou em pouco
tempo abandonado este systema de dar escoante ás aguas da chuva.
_Contrafortes_. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os
contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados
e tiveram bases bastante salientes; á proporção que se elevavam assim,
iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre
cada uma das faces.
No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares,
erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade superior, e não
apresentam já por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante
pequenos e sómente sobre a face principal.
Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter até á
cornija, e muitas vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados
ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes
limitavam-se algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces
lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.
No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a
ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como
d'antes, quer em pinaculos e fórma abahulada, quer ficando os pinaculos
assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas
pyramidaes, cujas arestas estão ornadas de cróchets.
Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois
seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia,
diminuição de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e são
ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentação no gosto da época.
Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas
vezes a sua disposição; regularmente deixaram subsistir a base quadrada
ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes
perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa distancia acima do
solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela á
parede, passa a ser angular; mesmo ás vezes se vêem contrafortes cuja
face anterior fica angular á parede desde a base do edificio. Estes
contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um
plano inclinado, platafórma ou espigão de feitio abahulado, ou por um
pinaculo bastante ornado.
No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de
intersecção de paredes que se encontram em angulo recto, são sempre em
numero de dois. No XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico
contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes
contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta época.
Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os seus pontos
de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com
base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo
ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente
livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos
edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores,
que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente
disfarçando os contrafortes. Para esse fim recuáram até á parede mestra
a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte
interna do monumento o espaço de um rectangulo que communicava com a
extremidade da nave lateral e servia ás vezes de capella.
Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro do tecto, de
madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes.
_Gargulas_. Dá-se o nome de _gargulas_ aos canaes salientes pelos quaes
as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das
paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes
monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se,
n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar
duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes
apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz
bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na
capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura
humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do
telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus
que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura
de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o
seu sexo. Eram de proporções curtas e solidas no principio da sua
applicação; vieram a ser mais compridas e com melhores fórmas desde o
final do XIII seculo.
_Nichos e doceis_. Dá-se o nome de _nicho_ a qualquer espaço aberto,
mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou
contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou
qualquer objecto de decoração. Os nichos apparecem poucas vezes nos
monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa época as estatuas, com as quaes
ornavam ás vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas
salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.
No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se bastantes
vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e
nos tympanos dos portaes.
Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos ornamentados de
esculpturas, ficando collocados por cima da cabeça das estatuas, são
muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos,
esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas,
e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não havia
ainda n'esta época, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que
em certas partes do centro da França, as tiveram desde o meiado do XIII
seculo, sendo terminadas por _clochetons_. As fórmas architectonicas dos
edificios representadas pelos doceis são muitas vezes anteriores á época
em que foram esculpidos; é por isso que no XIII seculo apparecem n'elles
zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia não se vêem já nos
monumentos contemporaneos.
No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de
arcaduras com ornamentação e com outros detalhes imitados da
architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes
vasados.
No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no seculo
precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis contornados
demasiadamente, e a sua ornamentação feita com muita delicadeza.
_Madeiramentos_. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas
especies principaes de madeiramentos: os que não ficavam apparentes,
porque não revestiam as construcções abobadadas, e os apparentes que se
empregavam nos edificios que não tivessem abobadas, sendo estes que
interessam sobretudo os archeologos.
Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis no interior
do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de fórma de
berço. Este berço é algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se
encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, são
traçados por tres centros. _Ripas_ de carvalho, ou de qualquer outra
especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, são pregadas sobre as
_cambotas_, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e _varedo_.
Tendo pinturas por decoração, e algumas vezes as extremidades das peças
de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com
escudos ou phylacterias, cabeças de gente, figuras de cocoras com
carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as
_franquias_ ficam parallelas ás nervuras das _asnas_, porém sendo mais
estreitas, estão pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as
ripas. Estas nervuras são cobertas com vivas côres ou com elegantes
entrelaçados.
Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as nervuras que se
encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas
de cantaria.
As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos
modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente
desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham
não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do
madeiramento apparente, que se ornava tão artisticamente quanto fosse
possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulações, fingimentos
architecturaes, onde as _ripas_ appareciam a imitar a cantaria com a
capa desprezivel de gesso ou de argamassa! Não se esquecia n'esta época,
que a verdade é a condição essencial da existencia da arte; esta deve
engrandecer o espirito, encantar a vista, e não enganal-a.
_Telhados_. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes
inclinações nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto
nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava
nos telhados da antiguidade e no periodo roman.
Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. Ás
grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de
chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua
superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura.
_Cumieira e cimeira_. Dá-se o nome de _cumieira_ ao remate do espigão de
um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi
sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As _cimeiras_ são
telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.
O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham d'antes por
remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando
quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os edificios do XIII e
XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras
de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa época)
não ha já vestigios: a oxydação do metal e muitas outras causas de
destruição as teem feito desapparecer.
Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como,
por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de
uma continuação de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado.
Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras
para se tornarem menos permeaveis á humidade.
Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no
meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero
de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam á sua
destruição. As mais antigas apresentam enlaçamentos e figuras
geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de
ornamentação com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem.
_Torres e campanarios_. Do mesmo modo que no periodo roman os
campanarios da época ogival são compostos de dois ou mais andares
sobrepostos. A separação dos differentes andares é indicada, no
exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuição
de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares não teem
já, como precedentemente, a mesma altura: são baixos ou altos, conforme
as disposições internas dos campanarios. O rez-do-chão das torres é
geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no
segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da flecha o
plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, que ficam livres nos
angulos do quadrado, pela passagem da fórma de quadrado para octogono,
apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetões.
As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas
estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas
ou reunidas em tres vãos.