As côres de que o pintor de vidros dispunha na idade média eram

numerosas e variadas, porque a maior parte das operações chimicas

empregadas para obter vidros de côr, eram empiricas e por consequencia,

davam muitas vezes resultados imprevistos.

Esta gamma de côres extensissima póde comtudo ser reduzida a cinco tons

principaes: azul, vermelho, amarello, verde e côr de purpura.

Para exprimir as carnações, isto é as partes apparentes das carnes, taes

como as cabeças, as mãos e os pés, usavam nos seculos XII e XIII, d'um

vidro d'uma leve côr de violeta, e mais tarde d'um vidro esbranquiçado;

os traços sobre estes vidros eram d'uma côr parda, applicada com um

pincel e em seguida fixada com a cozedura.

Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se

principalmente, na composição do cartão, da harmonia das côres. Para o

obter elles não hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos

côres que a natureza lhes não deu; é assim que se encontram nas vidraças

antigas, cavallos verdes e arvores com folhas de muitas côres

diferentes. Como o vermelho, e sobre tudo o azul se prestam

admiravelmente a uma collocação vigorosa e alliam-se admiravelmente com

todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues são sómente empregados

nas vidraças de assumptos historicos ou legendarios.

Os vidros coloridos das vidraças, vistos a distancia, tomam, graças á

translucidez e á luz que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua

superficie maior do que na realidade é; este effeito chama-se

_rayonnement_.

As diversas côres translucidas têem _rayonnements_ de valôr muito

differente; assim, para não fallar senão das tres côres fundamentaes do

prisma; o azul é a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e depois o

amarello.

O _rayonnement_ de certas côres translucidas, a distancia, é tal que não

só faz parecer a sua superficie maior do que na realidade é, mas até

modifica mesmo a qualidade d'estas côres e das que lhe ficam proximas.

É d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um vermelho

augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os côr de violeta. Além

d'isso, este brilho faz ás vezes desapparecer totalmente os filetes de

chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do desenho fixado

sobre os vidros por meio do esmalte escuro.

Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida

differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz

atravessando côres translucidas actua sobre estas côres, e sobre as

combinações d'estas côres entre si, de maneira differente do que se

fossem opacas; a luz passando atravez d'um desenho modifica os contornos

d'este, facto que se não dá quando actúa sobre uma superficie opaca

desenhada.

A pintura sobre vidro só póde ser uma pintura de convenção muito

differente da pintura em quadro. N'esta procura-se illudir a vista do

espectador servindo-se de todos os recursos das sombras, do claro escuro

e da perspectiva linear e aérea. Na pintura sobre vidro, pelo contrario,

assim como na pintura monumental, o artista deve respeitar e deixar

parecer plana a superficie sobre que pinta; deve contentar-se em traçar

a silhueta dos personagens e dos objectos que entram na composição do

seu assumpto, fazer pouco caso da perspectiva, mesmo linear, traçar as

sombras d'uma maneira convencional, indicando as partes salientes por

claros e as rugas por tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando

muito, represental-os hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista

deve procurar grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem

uns dos outros afim de obter uma sèrie de planos, em quanto que na

pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as agglomerações

d'um grande numero de figuras, e esforçam-se por fazer apparecer o fundo

em torno de cada uma d'ellas.

As vidraças pintadas do XII seculo são sempre formadas de pequenos

medalhões circulares, quadrados ou apresentando outras fórmas simples e

regulares. Estes medalhões, nos quaes apparecem composições adornadas,

ficam dispostos symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de

vidro simples ou differentemente coloridos.

A côr _azul_ domina geralmente nos fundos das vidraças pintadas no XII

seculo; pouco empregam a côr encarnada; algumas vezes tem tambem o fundo

azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse fundo,

pequenos florões encarnados, ou pequenos traços que se encruzam e cobrem

o fundo azul de um tecido encarnado com divisões quadradas ou rhombos.

Em roda da vidraça e de cada medalhão ha cercaduras differentes, quasi

sempre bastante longas e compostas de florões, palmetas, folhagens e

enlaçadas com perolas.

As composições representadas nos medalhões são tiradas da vida de Jesus

Christo e de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento;

assim como da legenda dos Santos. A execução é d'uma grande simplicidade

e com muita ingenuidade. O desenho accusa as tradições bysantinas: o

emprego das figuras apparece, não obstante as roupas que o vestem, sendo

as prégas da roupagem estreitas e parallelas.

_As vidraças do XIII seculo_. As vidraças pintadas no XIII seculo têem

grande similhança com as do XII, porque a maneira de sua execução ficou

quasi a mesma. Nas janellas inferiores da capella mór e das naves

lateraes, as vidraças compunham-se, como precedentemente, de medalhões

historiados de differentes fórmas, dispostos uns por cima dos outros

sobre uma ou muitas fileiras. Nas janellas superiores da capella mór e

da nave principal, principiaram a representar, desde o final do XII

seculo, grandes figuras em pé, figurando veneraveis personagens do

antigo e novo Testamento.

As côres de que mais uso se fez para os fundos das vidraças pintadas no

XIII seculo foram o _azul_, o _encarnado_ e o _verde_; empregava-se

tambem, em certos casos, porém com moderação, o _amarello_ e o _roxo_.

Os fundos não são lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os

quaes vem assentar a composição dos assumptos. Esta tapeçaria se compõe

não sómente de _escamas_, _canniçal_ e de _xadrez_, mas, muitas vezes

tambem, de enlaçados, festões e folhagens, enrolamento, sobre os quaes

os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo que nas

composições com as grandes figuras, as tiras de chumbo indicam os

contornos principaes d'estas ornamentações.

No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram

completamente, porém por séries de transformações successivas. Desde a

metade do XII seculo, os artistas de vidraças pintadas, da mesma fórma

que os miniaturistas, os pintores, e os esculptores, tinham principiado

a abandonar pouco a pouco as tradicções da arte Byzantina, e a

manifestar uma direcção notavel para a imitação da natureza. Esta

direcção augmenta e se affirma cada vez mais no XIII seculo. Os pintores

das vidraças d'esta época não continuam a representar o nú das figuras

em desdem da inclinação natural dos vestuarios, estudam a natureza e

esforçam-se de a reproduzir tal qual se apresenta á sua vista:

reconhece-se facilmente este novo methodo pela maneira por que são

indicados os gestos das personagens, a physionomia das cabeças e as

prégas dos vestuarios: os gestos perdem a sua expressão archaïca, as

cabeças não são já desenhadas conforme os typos convencionaes, e os

trajes são os da epoca, fielmente imitados. A composição dos assumptos é

apresentada com animação; sendo evidente que os artistas do XIII seculo

se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um effeito

subito.

As vidraças pintadas do XIII seculo offerecem muito interesse para o

estudo do vestuario da idade média. Conforme o uso adoptado n'esta epoca

em todas as representações artisticas, sejam pintadas ou em esculptura,

o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram familiares; não

se preoccupando de nenhuma maneira da fidelidade historica, trajava as

suas figuras á moda do seu tempo.

A arte da pintura das vidraças não se conservou por muito tempo no

apogeu que havia alcançado no decurso de alguns annos. Desde o meiado do

XIII seculo principiou a declinar pouco a pouco. Em consequencia da sua

propensão notavel para os effeitos dramaticos, chega á affectação e ao

exquisito, occupando-se mais dos detalhes, perdendo facilmente a nobre

simplicidade que tanto caracterisava as suas obras no final do XII

seculo e no principio do XIII seculo.

Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave

principal e quasi todas da capella mór foram ornadas com figuras em pé,

representando santos do antigo ou do novo Testamento, não excedendo, em

tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo, dava-se a estas

figuras proporções mais colossaes, porque ficavam collocadas a uma

grande distancia do espectador. A disposição geral d'estas vidraças nas

cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame

reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraça superior do côro

da capella mór, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma

maneira, o altar mór, era dedicada ao Salvador soffrendo pela redempção

do genero humano; vê-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a

sua Divina Mãe e o discipulo querido, com os symbolos accessorios, que

na idade média acompanham sempre a scena da crucifixação. Nas outras

janellas superiores do côro estão em pé os Apostolos e os Santos

venerados na basilica; as janellas altas da nave principal são pintadas

com grandes imagens de outros Santos, taes como as dos patriarchas, reis

e prophetas do antigo Testamento. As vidraças pintadas á roda da capella

mór e das capellas da charola, formadas por medalhões, representam os

principaes factos da vida de Jesus Christo e de Nossa Senhora, ou as

legendas dos oragos da egreja; algumas vezes tambem, se representavam,

sob fórmas symbolicas, os principaes dogmas da Fé. As vidraças pintadas

das janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram

dedicadas ás legendas de devoção da localidade, e aos Santos ou Santas

de que a egreja possuia reliquias.

Nas vidraças pintadas do XII e XIII seculo, ás vezes reproduziam os

retratos dos doadores, mas sempre de tamanho menor.

Passemos agora a fallar das vidraças com pinturas de _grisalha_. Dá-se

este nome á composição do caixilho pintado de vidros brancos ou um pouco

esverdinhados, sobre os quaes são traçados, por meio do _esmalte pardo_,

desenhos e ornatos variados.

Nas _grisalhas_ da primeira metade do XIII seculo, o desenho é

desenvolvido com firmeza, vigorosamente modelado, e os vidros seguros

por filetes de chumbo que indicam os traços mais fortes dos ornatos ou

formam as principaes divisões do caixilho da vidraça pintada. Os vidros

são quasi opacos e completamente sem nenhuma parte colorida. Estes

vidros são geralmente grossos, esverdeados e muitas vezes apresentam

bolhas na superficie.

A começar da ultima metade do XIII seculo, as _grisalhas_ vieram a ser

menos opacas, deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior

dos edificios; ás vezes não são estes vidros sem ter colorido, porque se

lhe ajuntam vidros coloridos nos filetes que os dividem, ou nas pequenas

rosetas espalhadas na superficie.

*Vidraças pintadas do XIV seculo*

_As vidraças pintadas do XIV seculo_ apresentam aspecto differente das

dos seculos precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o

artista d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos

d'execução dos seus antecessores. Esta mudança total d'aspecto proveio

de muitas causas: pelas novas disposições da armação de ferro, assim

como pelo tom claro e brilhante que se deu ás vidraças, finalmente pelas

propensões exageradas para a imitação servil da natureza real.

Nas guarnições de ferro das vidraças do XII e do XIII seculo, desenhando

os contornos tão variados dos medalhões legendarios, foram levados a

seguir a fórma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes

divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando

angulo recto com essas hastes.

As côres mais empregadas nas vidraças do XIV seculo, eram o _azul_, o

_encarnado_ e o _amarello_; este ultimo tom, geralmente muito usado,

produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas claras,

frequentemente empregadas n'essa epoca. A côr _verde_ e o _roxo_ vão

sendo menos usadas.

O desenho continúa, durante o XIV seculo, a obter mais correcção; porém

o pintor de vidraças, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente

que não é e não podia ser uma simples pintura de conservação, procura já

produzir illusão para a vista do espectador; tenta de copiar a natureza,

e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade.

As vidraças _legendarias_ desapparecem quasi completamente no XIV

seculo, e nos raros exemplos que se encontram, os medalhões são quasi

sempre supprimidos e as representações das differentes scenas religiosas

sobre-postas uma ás outras, ficam sem molduras e sem separação. As

grandes figuras isoladas preferidas n'esta epoca, apparecem, não sómente

nas vidraças altas, mas tambem nas outras dos lados da nave e á roda da

capella-mór. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes pessoas ainda

existentes.

As figuras estão sempre postas debaixo de doceis cheios de ornamentação

tirada da architectura, taes como ridentes, pinaculos, clochetões,

rosaceas e arcos-butantes. Estes doceis parecem ficar sustentados por

pés-direitos com feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos,

nos quaes se collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras

e os doceis do remate das grandes figuras tomam ás vezes uma tão grande

importancia que occupam tanto e mesmo maior espaço, que as figuras que

elles adornam.

No principio do XIV seculo os fundos das vidraças sobre os quaes

sobresaem as grandes figuras são ás vezes lizos, outra de côr

_encarnada_ ou _azul_; vindo a ser depois quasi sempre de feitio

_adamascado_, isto é, cheias de desenhos differentes, similhantes aos

que se vêem na seda chamada _damasco_.

No XIV seculo, os brazões dos doadores apparecem muitas vezes nas

vidraças pintadas. Vêem-se tambem nos bordados, nas rosaceas do tympano

e nas almofadas inferiores das janellas, e inscripções que apparecem

frequentemente.

No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do _amarello de

prata_, fez obter aos pintores de vidraças um novo esmalte e

proporcionou-lhes grande facilidade no trabalho da pintura. O _amarello

de prata_, é um esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o

sulphureto de prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos

d'este mixto, separa-se a demão secca d'ocre; ficando depois sobre o

vidro um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente

translucido.

Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem,

durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores

que nos seculos precedentes.

A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do

vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das vidraças

pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos filetes de chumbo, e

simplificaram, por conseguinte, a armação da vidraça.

As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo

precedente. Todavia as grisalhas sem colorido são substituidas pouco a

pouco pelas que apresentam algum colorido. Além d'isso, depois do meiado

do XIV seculo, apparecem as grisalhas brancas, com o realce do amarello

de prata.

*Vidraças pintadas do XV seculo*

_No XV seculo_ uma unica côr tem applicação, posto que, de pouca

importancia, para servir de incarnação, vindo-se ajuntar á palheta do

artista aos dois esmaltes já conhecidos. Esta fraca tinta, que servia

para modelar as cabeças e as partes nuas do corpo humano, era provavel

fôsse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra calcinada. O pintor

de vidraças não tinha ainda á sua disposição senão tres côres para

pintar sobre o vidro: o _pardo_, o _amarello de prata_ e a _côr_ para a

incarnação; porém achou novo expediente para a sua arte no emprego de

_vidros duplicados_. Já explicámos como, desde o XII seculo, o vidro

encarnado era muitas vezes composto de duas laminas, uma sem côr e outra

encarnada, ficando sobrepostas durante a sua fabricação. Depois no final

do XIV seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros

encarnados, foi applicado ás outras côres. Sobrepondo duas ou mais

demãos de differentes côres, obtinham-se vidros de tintas muito

variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um vigor desconhecido

até então: obtinham-se vidros roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul

claro; verdes, sobrepondo o branco, amarello e o azul.

O colorifico que é resultado de se terem unido dois vidros de côres

differentes não póde ser confundido com o que se obtem pela applicação

d'uma côr d'esmalte sobre o vidro fabricado, e posto depois á recocção

do fogo.

Os pintores de vidraças do XV seculo, não empregavam sempre os recentes

aperfeiçoamentos introduzidos na sua arte com bastante cuidado e

intelligencia. É por isso que o emprego muito frequente e irracional da

pintura em grizalha sobre vidro branco constitue um dos caracteres

particulares das vidraças pintadas da ultima metade do XV seculo e do

principio do XVI seculo. Muitas vezes as roupas superiores das grandes

figuras em pé são brancas e o fôrro sómente de côr. Comprehende-se que

este abuso das grizalhas, nas roupagens e na maior parte dos

accessorios, dá necessariamente ás vidraças uma apparencia clara e

scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados

superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem

ainda unicamente um tom real com bastante colorido.

O maior numero d'estas vidraças tem emmoldurados de feitio

architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou

columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados

parecem suster os docéis, cujos lados inclinados da empena, sempre de

fórma ogival, são ornados de elegantes folhagens. Debaixo dos docéis

estão figuras em pé separadas pelas molduras das hombreiras, seja por

assumptos historicos ou legendarios, occupando toda a largura do vão.

Nas vidraças com assumptos não apparecem os filetes de ferro na

separação dos vidros. Quando se superpõem, como às vezes acontece,

muitas figuras e muitos assumptos em um só vão da janella, ficam

separados uns dos outros por sócos ornatados com decoração

architectonica da época, e apoiando-se sobre os docéis que formam o

remate do renque inferior.

Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura

opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde a

primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia sobre

a pintura translucida. Os pintores de vidraças, que quasi sempre eram

tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros, esqueciam

diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro é essencialmente

uma pintura de convenção. Não se contentavam de introduzir nas vidraças

pintadas um desenho mais correcto, procuravam ainda enganar a vista do

espectador tão completamente quanto fosse possivel; por outras palavras,

executavam sobre o vidro composições que só convinham para superficies

opacas.

No meiado do XV seculo, apparecem nas vidraças pintadas, como nos

quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua; estas

paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de

ameias, edificios de toda qualidade e apresentações dos trabalhos

agricolas.

No XII e no XIII seculo, as vidraças das egrejas compunham-se de

pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente, onde os ignorantes

e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos principaes dogmas da

Fé, na historia da religião e nos deveres do homem para com Deus e o

proximo. Esta missão sublime da arte religiosa começou a ser esquecida

durante o XIV seculo; em muitas vidraças d'esta época, as representações

exemplares e instructivas são substituidas por brazões e retratos em pé

dos doadores. No XV seculo, as propensões, cada vez mais profanas, se

manifestam na escolha dos assumptos reproduzidos nas vidraças pintadas.

Estas não serviam para instrucção do povo; muitas vezes os principaes

dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi

representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz

no segundo plano da pintura, emquanto os brazões de armas se repetem,

sob fórmas diversas, em todos os lados da vidraça.

*Vidraças pintadas no XVI seculo*

No XVI seculo, as vidraças pintadas apresentam um aspecto inteiramente

novo. Todavia o primeiro terço do seculo se passou sem que os processos

materiaes da pintura sobre o vidro se tivessem modificado; e se a

_renascença_ não tivesse, desde este momento principiado a influir nas

composições artisticas, seria difficil distinguir as vidraças dos

primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em

1540, uma nova côr teve applicação, o _encarnado de ferro_, que se

juntou na paleta do pintor de vidraças aos tres esmaltes conhecidos

então: o pardo, o amarello de prata, e a côr para encarnação. Alguns

annos depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as côres,

preparando-as com um liquefactivo (que não era outra coisa que o pó

vitreo), incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este genero

de pintura sobre vidro, que teve o nome de _pintura_ ou _apprèt_, deu

grandissimas facilidades para os pintores de vidraças, e fez mudar

completamente os processos da arte. O artista preparava primeiramente a

placa vitrea, pouco mais ou menos como a téla, para a pintura a oleo

pela maneira de tintas geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois

as figuras e objectos; finalmente traçava as sombras e alcançava o

effeito com os retoques de côres, emquanto fazia apparecer os pontos

luminosos, desfazendo com promptidão a tinta opaca afim de deixar ao

vidro toda a sua translucidez.

Cerca da mesma época descobria-se a propriedade que tem o diamante de

cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou a producção

dos filetes de chumbo para segurar os vidros, conseguindo-se tambem

executar placas de vidro de grande dimensão. Todos estes progressos nos

processos materiaes produziram uma revolução completa na arte da pintura

das vidraças, e tiveram por principal resultado o abandono quasi total

dos vidros tintos na massa.

O estylo das vidraças transforma-se inteiramente no XVI seculo sob a

influencia artistica do renascimento. Nos edificios religiosos dos

primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira substituiu

insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem appareceram, sobre

as vidraças pintadas, ornatos tirados do estylo classico, misturados com

florões e outras decorações que recordavam ainda a época ogival. Pouco a

pouco as idéas classicas fazem progressos e conseguem, depois de algum

tempo, obter a preferencia. Não se vê mais então ovanos, volutas, folhas

de acantho, festões de flores e fructas. O arco de triumpho ou portico,

imitado da architectura pagã, forma de ora ávante o moldurado proprio

das vidraças pintadas em que figuram as personagens e os assumptos. Até

metade do XVI seculo, o artista se satisfaz em desenvolver, na parte

inferior da vidraça o assumpto principal com o moldurado que o limita, e

reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os brazões

e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI seculo, em 1560, o

assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos enlaçamentos do

tympano, se todavia os quizerem respeitar, e não fazel-os desapparecer.

Os assumptos religiosos e symbolicos são raros sobre as vidraças

pintadas do XVI seculo: vêem-se as mais das vezes os retratos dos

doadores nas vidraças, onde apparecem representados geralmente de

joelhos sobre um genuflexorio, quer só, quer rodeados das pessoas de

suas familias. O orago do sanctuario os acompanha sempre, e os seus

brazões repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da

vidraça.

Resumo elementar de archeologia christã · 第 11 / 23 段