_As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador_.--Desde o VI até ao

XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a

approximação, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena,

Maria, mãe de S. Thiago, e Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou

outros vasos, e estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do sepulchro,

como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem

soldados desfallecidos ou adormecidos.

A reproducção d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pôr em

parallelo a humilhação e a glorificação do Salvador, a sua morte sobre a

Cruz e a sua resurreição gloriosa.

_A resurreição dos mortos e a sua sahida do tumulo_.--Durante o seculo

IX figurava-se muitas vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos mortos que

se deu por occasião da morte de Jesus Christo, segundo narra o

Evangelho.

Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de pequenos

edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um

frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se

prestasse a proclamar a victoria alçada contra a morte de Nosso Senhor

expirando sobre a Cruz, como a Resurreição dos mortos.

*Personagens e accessorios allegoricos*

_A Egreja e a Synagoga_. Desde o seculo IX até ao XII encontram-se,

sobre a maior parte das representações do Sacrificio da Cruz,

personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar

aos Christãos a reproducção do povo d'Israel e a vocação dos infieis á

Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre á direita da Cruz, é

representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o

sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A

Synagoga é representada por uma mulher com uma bandeira e tambem ás

vezes uma palma. Está collocada á esquerda do Salvador com as costas

voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lançando

olhares d'insulto e de cólera.

_O Oceano e a Terra_.--Os artistas romans collocavam frequentemente

sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no pé da Cruz ou

inferiormente a toda a composição, as personificações do Oceano e da

Terra tiradas da mythologia.

O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, é representado por

um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma

urna; tem na mão um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de

Neptuno, e na cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, ás

vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a fórma

d'uma mulher, semi-nua, segurando, e até amamentando creanças ou

serpentes, muito proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, vê-se

uma cornucopia.

As personificações do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz,

primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dôr que a Natureza

soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo

o Universo partilhou da Redempção operada pela morte do Salvador.

_A mão Divina e a pomba_. Muitas vezes vê-se na extremidade superior da

Cruz uma mão, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e

segurando uma corôa. Esta mão é o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que

a pomba, que se vê sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.

_Os Anjos_. Superiormente á travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol

e da Lua vêem-se ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de

adoração. Algumas vezes suspendem sobre a cabeça do Salvador uma corôa.

Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente

se vêem os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos nomes

de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo á morte

do Salvador.

_Os Evangelistas_.--Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam

os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro

extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem.

A razão d'isto é porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da

Cruz senão accessorios puramente historicos.

No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as

allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.

Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, com os anjos e

os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da

scena principal. Tambem ás vezes se encontram, tanto no IX como no XII

seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos.

_O Calix_. Encontram-se crucifixos em que o _suppedaneum_ é substituido

por um calix.

É muito provavel que este calix não seja mais que o _Santo Graal_,[3]

tão celebre na idade mèdia. O _Santo Graal_ diz-se que servira á Ceia;

foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio

sangue.

_Adão sahindo do tumulo_. Esta scena representa-se muitas vezes proximo

da Cruz, para significar que a resurreição da carne é uma consequencia

da morte de Christo.

O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os seus

accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza

Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do

Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga

reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente infernal esmagada, o

genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreição da

Carne.

_Os crucifixos dos seculos XI e XII_. Existem muitos d'estes crucifixos;

apresentam os seguintes caracteres:

A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre,

os olhos de vidro azul.

_O perisonium_, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os

quadris até aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas

orlas são ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos

de tunica comprida com mangas ou com o _perisonium_ em forma de saiote,

que lhe chega até aos pés, são extremamente raros.

_Nos crucifixos do XI seculo_, Christo está muitas vezes coroado com uma

especie de gorra ou corôa real. No XII seculo, já a gorra e a corôa se

tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.

_Os braços das cruzes_ que teem imagens de Christo, são geralmente

ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente

principal.

_Cruzes da Paixão e Cruzes da Resurreição_. A Cruz da Paixão é formada

por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as

proporções das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio.

_A Cruz da Resurreição_ é apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é

uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino

Cordeiro.

_A Santissima Virgem_. Durante os doze primeiros seculos da nossa era

representa-se a Virgem umas vezes sósinha e outras acompanhada do Divino

Filho.

_A Virgem sem o Menino Jesus_ tem ordinariamente os braços estendidos e

erguidos parecendo orar e perto da cabeça está inscripta a sigla MPOY,

isto é: Mãe de Deus. Este modo de representação, muito usado desde o IV

até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos

seguintes.

_A Virgem com o Menino Jesus_. Ha duas maneiras de representar a Virgem

com o Menino. Quando a scena é imaginada para prestar homenagem a Nossa

Senhora, diz-se que ella é _poetica_.

Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus presentes a Jesus

no collo da Santissima Mãe, a scena é puramente historica.

Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo

historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do

Senhor, principalmente na adoração dos reis Magos.

O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que

chamaremos _grego_ ou _bysantino_, consiste em representar a imagem da

Virgem com os braços erguidos como que orando, tendo diante de si o

Menino Jesus, lançando a benção, ao modo Grego, com as duas mãos, ou só

com a direita. Este typo já se encontra nas catacumbas.

Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos

ainda hoje se empregam.

_O Guia da pintura_ (manual iconographico, adoptado pelos antigos

pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se

represente Nossa Senhora com as mãos erguidas e Christo lançando a

benção para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito.

No outro typo do grupo _poetico_, a Santissima Virgem é representada

umas vezes de pé com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o

sobre os joelhos.

Dá-se a este typo o nome de Occidental, não porque elle fôsse

desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo

_bysantino_, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante

toda a idade média. Foi introduzido ou pelo menos generalisado

insensivelmente na iconographia christã depois da condemnação de

Nestorio pelo Concilio de Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha

negava que Nossa Senhora fôsse mãe de Deus.

Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora,

representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas vezes

acompanhada da inscripção [Grego: Ê AGIA OEOTOKO],isto é, _Santa

Deipara_, ou a _Santa Mãe de Deus_.

Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos,

lançando a benção, pelo menos, com uma das mãos.

Durante todo o periodo Roman estas representações de Nossa Senhora e do

seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento

como quasi se não encontra nos seculos seguintes.

A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus

completamente vestido, não estando entretido com sua Divina Mãe, mas sim

abençoando aquelles que lhe vêem prestar homenagem. Tem nas mãos uma

esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo, _volumen_, symbolo da

doutrina da nova Lei dada ao mundo.

Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem

ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas

occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a

começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes

uma especie de gorra.

_Os Anjos_. Os anjos têem figurado nos monumentos christãos desde o IV

seculo. Os primeiros não tinham azas. Só do V seculo em diante é que

começaram a tel-as bem como o nimbo. São representados com uma longa

tunica, orlada por duas faixas em fórma de _clavi_, e têem algumas vezes

na mão um longo sceptro ou _bastão_, terminado por um florão ou por uma

cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes são

representados.

Os Anjos têem sempre os pés descalços. Symbolisava-se d'esta maneira a

sua qualidade de mensageiros celestes.

_Os Evangelistas e seus symbolos_. O uso de representar os Evangelistas

sob a fórma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo.

Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em alguns mosaicos

antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos

evangeliarios. Estão regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo

na sua frente um pulpito chamado _scriptional_, sobre o qual está

desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras

palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalços e ás vezes

acompanhados do animal que lhes serve de symbolo.

Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes:

_Os quatro rios do Paraizo_. O modo de symbolisar os evangelistas pelos

quatro rios: Phisonte, Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito

remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem

já exemplos d'esta representação. O Salvador com a fórma humana ou com a

do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios,

emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna,

trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo.

_Os animaes symbolicos_. Os Evangelistas são muitas vezes symbolisados

por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro.

Estes symbolos devem a sua origem ás visões do propheta Ezequiel e do

Apostolo S. João. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do

Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leão; o segundo,

de um bezerro; o terceiro com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a

uma aguia em pleno vôo.

Os santos Padres consideraram estas visões como os seguintes symbolos: o

homem o de S. Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. Marcos e o

bezerro o de S. Lucas.

Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.^o, sobre as capas

dos evangeliarios; 2.^o, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar;

3.^o, nos quatro angulos da representação do Christo em sua Gloria, como

elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes

d'egreja do XI e XII seculos.

Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto

ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; são

regularmente acompanhados de Christo figurado com a fórma humana ou por

um symbolo.

É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte

commum, os quatro Evangelhos.

Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos

d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas

dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a _flabella_,

têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual

muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior

direito (á esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo;

o leão, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da

esquerda.

Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da Cruz, a aguia

acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leão no braço

direito e o bezerro no braço esquerdo da Cruz.

_Os Apostolos_. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante

o periodo Roman se representavam com um typo uniforme.

Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma

Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto que S. Paulo é

calvo. Até ao XIII seculo não se encontra nos outros Apostolos nenhum

attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um

rôlo ou livro na mão.

Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés descalços.

Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a

missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a

doutrina Evangelica.

_Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e

XII_. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, não eram muito

variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao

primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram

reproduzidos:

1.^o, a tentação dos nossos primeiros paes; 2.^o, o sacrificio

d'Abrahão; 3.^o, a Annunciação; 4.^o, a visitação da Santissima Virgem;

5.^o, o Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os

sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.^o, a

Adoração dos reis magos; 7.^o, a degolação dos innocentes; 8.^o, a

fugida para o Egypto; 9.^o, a exposição do Menino Jesus no Templo;

10.^o, o baptismo de Nosso Senhor; 11.^o, a sua entrada triumphal em

Jerusalem; 12.^o, a transfiguração; 13.^o, a ultima ceia; 14.^o, a

crucifixão; 15.^o, a descida da Cruz; 16.^o, a Resurreicão; 17.^o, as

Santas mulheres no tumulo; 18.^o, a Ascensão de Nosso Senhor.

_Representações symbolicas das virtudes e dos vicios_. Os artistas

christãos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes

como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a

figura de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na cabeça

uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre

qualquer objecto que conservam nas mãos; ás vezes teem mesmo um emblema.

As quatro Virtudes Cardeaes;--prudencia, justiça, força e

temperança--encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de

toda a especie.

Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e

mulheres entregues aos excessos de suas paixões; encontram-se muitas

vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes

são oppostas.

_Animaes phantasticos_. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a

representação de numerosos animaes reaes e phantasticos.

Indicaremos alguns d'estes ultimos.

1.^o O _basilisco_ é um animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda

semelhante á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha

chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.

2.^o A _aspide_ é uma especie de serpente que a lenda diz estar de

guarda á arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta

arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro

adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao

encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra,

espojando-se na lama. A _aspide_ representa os que voluntariamente

deixam de attender aos mandamentos do Senhor.

3.^o O _griffo_ é um quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o

demonio. Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e

XII.

4.^o A _sereia_ é um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A

parte superior do corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o corpo

até á cintura, tem a fórma humana; e o resto inferior é a cauda d'um

monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em

passaro e não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados

entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o

poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a

idade media a sereia foi o symbolo da seducção causada pelos attractivos

das pessoas.

Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco,

muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes

correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas

dos portaes principaes das egrejas.

_Doadores e doadoras_. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento

queriam conservar ás gerações futuras a lembrança do seu beneficio,

faziam-se representar em pequenissimas proporções, humildemente

prostrados aos pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros

Santos.

Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do

monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mãos um modelo

da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido.

CAPITULO V

/#

*Summario.*--Noções preliminares--Diversas fórmas de ogiva--Origem

da ogiva e do estylo ogival--Periodo de transição do estylo Roman

ao estylo Ogival--Caracteres d'Architectura Ogival--Observações

geraes--Plano e disposição das egrejas--Systema de

construcção--Materiaes e apparelhos de construcção--Esculptura

monumental--Fachadas--Adros--Portaes--Pinturas--Janellas--Rosaes--Caixilhos

de janellas e vidros--Vidraças pintadas--Pilares, columnas e

columnasinhas--Bases de columnas--Capiteis--Caxorros e

misulas--Arcadas e

arcaduras--Triforium--Cornijas--Platibandas--Abobadas--Arcos

butantes--Contrafortes--Gargulhas--Nichos e

Docel--Madeiramentos--Telhados--Torres e

campanarios--Pavimentos--Labyrintho--Pinturas das paredes--Cruzes

de consagração--Altares--Tabernaculos--Cadeiras de côro--Separação

do Altar-mór--Pulpito e confissonarios--Capellas funereas, tumulos,

campas, Cruzes de Cemiterio--Pias Baptismaes--Pias de agua

benta--Engradamentos--Orgãos--Alfaias religiosas--Calices e

patenas--Custodias--Thuribulos--Relicarios--Corôas para

luzes--Cruzes de altar e de

procissão--Castiçaes--Estantes--Instrumentos de paz--Moldes para

Hostias--Baculos--Mitras--Vestimentas sacerdotaes--Abbadias e

Mosteiros--Egrejas--Claustros e Refeitorios--Sala de

Capitulo--Dormitorios--Casa para

hospedes--Celleiros--Prisão--Cartuxa--Hospitaes--Iconographia--O

Nimbo--O Crucificado--Os Apostolos e os Evangelistas--O Dia de

Juizo--Sibyllas.

#/

*Periodo Ogival*

O estylo ogival, tambem chamado _gothico_, foi usado desde o meiado do

XII seculo até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de

todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da _ogiva_. Os

allemães chamam-lhe ás vezes--_estylo em arco bicudo_. As janellas, as

arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas são

regularmente terminadas por arcos em fórma de ogiva. Devemos acrescentar

que a denominação de _Gothico_, dada ao estylo da idade media, é uma

especie de ironia da época da renascença, pois que o estylo ogival nada

tem de commum com os _Gôdos_. Foi o italiano Vasari quem primeiro

empregou este epitheto como synonimo de _barbaro_!

_Diversas fórmas de ogiva_. Chama-se _ogiva_ toda a figura formada por

dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.

Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes fórmas da

ogiva:

_Ogiva obtusa_. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em

bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os

dois arcos que a formam, têem os centros muito proximos; algumas vezes

mesmo tão perto um do outro que é necessario um attento exame para

distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta

inteira.

A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos edificios do

principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, já no fim do

mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI.

_Ogiva aguda ou lanceta_. É formada por dois arcos cujos centros estão

situados além da corda que une as suas duas extremidades inferiores da

volta do berço.

Tem o nome de _Lanceta_ pela sua semelhança com o instrumento de

cirurgia d'este nome.

_Ogiva equilatera_. É aquella cujos centros se acham nos dois extremos

da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo

equilatero. Tambem se dá a esta ogiva o nome de ogiva traçada de

terceiro ponto.

_A ogiva alteada_ é aquella cujos arcos se prolongam inferiormente,

sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos

centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do côro das grandes egrejas.

As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os

seculos XII e XIII.

_A ogiva de terceiro ponto_ é a que tem os centros dos arcos situados no

terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres

partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso

que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de divisão da

corda.

É para notar que muitos auctores, aliás muito recommendaveis, não

mencionam a ogiva formada por arcos cujo centro se encontra a um terço

da corda; a razão d'isto é porque consideram a ogiva equilateral como de

terceiro ponto.

Esta ogiva começou a apparecer no fim do XIII seculo e generalisou-se

bastante nos seculos XIV e XV.

_A ogiva inflexa_ descreve-se por meio de raios partindo de quatro

pontos e produzindo duas curvas junto á corda e duas outras curvas em

sentido inverso no vertice.

O extradorso d'esta ogiva bem como o da fórma seguinte é convexo na

parte inferior e concavo na superior.

_A ogiva em fórma de chaveta_ apenas differe da precedente por ser mais

achatada.

Estas duas ultimas fórmas usaram-se durante os XV e XVI seculos.

A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro

ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a

segunda metade do seculo XV e principio do XVI.

A ogiva formada meia convexa e meia concava é traçada como a ogiva em

chaveta, com raios que partem de quatro centros differentes, mas

inversamente; o extradorso do arco é concavo inferiormente e convexo no

vertice. Encontra-se esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns

monumentos dos seculos XV e XVI.

_O arco Tudor_, assim chamado, porque tomou o nome dos reis, que estavam

no throno de Inglaterra na epoca em que o seu uso se generalisou n'este

paiz; é formado por quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do

espaço da ogiva. Ha uma fórma mais aguda, que é a que se vê em

monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a outra forma mais

abatida só foi empregada no fim do XV seculo, e no principio do XVI. Os

inglezes chamam á primeira, arco de quatro centros, e á segunda arco

abatido. Ha ainda muitas fórmas intermediarias entre estes dois

extremos.

Resumo elementar de archeologia christã · 第 8 / 23 段