os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só
perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se
tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e
decoração.
A _capa_ conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha
antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita
com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por
consequencia, não havia capas ricamente decoradas.
A _alva_ era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca.
Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas _albae
purae_ ou _simplices_, e as alvas guarnecidas, _albae paratae_ ou
_frisiatae_. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de
segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero,
especialmente nos grandes dias de festa.
A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em
volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além
de duas orlas parallelas verticaes que lembram as _augusti clavi_ dos
Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas
costas.
O _cinto_ era geralmente ornamentado com grande luxo.
Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma
d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se
mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e
placas de metal cinzeladas e esmaltadas.
O _amicto_ é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que
o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz
descer sobre o pescoço.
Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os
havia de seda, e de fio d'ouro.
No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou
em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de--_parura
plaga_--e tambem, ás vezes o de--_praetextae_. Este adorno consistia, no
seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr
brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em
torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do
sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a
dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras
preciosas.
A _dalmatica_ é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente
ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman,
regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e
uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de
côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até
ao bordo inferior.
Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até
uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em
volta do pescoço, e nos canhões das mangas.
O _pallium_ constituia entre os antigos o principal paramento de vestir
por cima.
Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte
principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi supprimido, e
apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe
applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em fórma de Y,
da mesma maneira que as _listae_ em certas casulas.
Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do _pallium_ com
pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio,
foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se contavam
muitas sobre toda a extensão das faixas.
*Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos*
Desde o VIII seculo que se começaram a levantar estabelecimentos
religiosos, compostos de numerosas construcções edificadas e dispostas
com arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos
frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os
estrangeiros, celleiros, jardins, edificações destinadas aos
aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas para as corporações
d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu serviço.
Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente
modificados com o correr dos seculos.
Examinaremos as suas disposições interiores, quando tratarmos do plano
das abbadias do periodo ogival.
A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade
como os religiosos.
Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das
abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque a exposição
ao sol do meio dia é a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude.
Por estas razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios
episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das
egrejas, para edificarem os seus claustros.
Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos de claustros
tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas
excepções á regra geral são devidas a differentes causas, taes como a
presença de ruas ou de construcções que era impossivel supprimir, e, nos
paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja.
Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes,
compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado
de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos
conegos.
Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle
separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham
assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contínua.
Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentação com
as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento
só era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes
alpendres substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das
quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.
Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas
descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas duplas,
cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas
alternam com columnas duplas.
Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias,
rodeados de edificações indispensaveis para a vida commum dos conegos.
Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do
dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao
serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada
pelos capitulos, as habitações privadas dos conegos occuparam, em torno
das galerias, o logar d'estes differentes edificios.
A iconographia, isto é, a _sciencia das imagens_, occupa-se das
representações figuradas devidas á esculptura e, em geral, a todas as
outras artes de modelar.
_A gloria, o nimbo e a auréola_. A gloria é um ornamento symbolisando
uma nuvem luminosa, que os artistas da idade média põem em torno da
cabeça ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do
poder. Quando ella não rodeia senão a cabeça, dá-se-lhe o nome de
_nimbo_; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se _auréola_.
O nimbo derivado da palavra latina (_nimbus_) é um adorno circular, e
tambem ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam
adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas divinas, os
santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer
ecclesiastica. É costume collocal-o verticalmente na parte posterior da
cabeça. Assim como a corôa é o signal da realeza, assim o nimbo é o da
santidade ou da auctoridade.
O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo de Deus, dos anjos e
dos Santos; comtudo, quando circumda a cabeça d'alguma das pessoas
divinas, o disco é regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas
se vêem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo
crucifero deve ser vertical, e não inclinada como a cruz de Santo André
X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra
esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo caracteristico
das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras
symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo do Pae Eterno, o
cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito
Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.
Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante compridos e mais
largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz é o symbolo dos
anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do
Velho Testamento têem o nimbo, mas no Occidente não se segue essa
pratica. As personificações das virtudes, das provincias e das cidades
têem tambem o nimbo. Elle é egualmente concedido aos Papas, aos
imperadores, aos reis, e aos padres quando são representados
administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham
n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema.
Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem
adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é muitas vezes
substituido pela corôa que se dá ás imagens esculpidas do Salvador
crucificado ou da Virgem com seu Filho.
_Origem do nimbo_. Os pagãos já faziam uso do nimbo, para ornamentar os
seus deuses e imperadores.
Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o
Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que época
indicará a introducção do nimbo na iconographia christã? O nimbo parece
só ter sido empregado pelos christãos depois da conversão de
Constantino. Até este tempo não se conhece monumento algum authentico
dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos
adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada,
em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, são
os mosaicos de Roma e de Ravêna.
Ora foi da comparação d'estes differentes monumentos entre si que se
conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram
nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus
symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso
Senhor começaram a ter nimbo desde o principio do IV seculo; até ao VI
seculo se vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima
Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros annos do
seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os
Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no começo do
seculo seguinte.
Auréola (palavra derivada do latim _aura_, _vento suave_, _sôpro
luminoso_) é uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se
fôsse o nimbo do corpo inteiro.
Os artistas da edade média dão auréola ás tres Pessoas Divinas e á
Santissima Virgem e tambem ás almas dos Santos e principalmente á do
pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente nú. A alma é
assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador.
Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem auréola.
Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na auréola, os
seus pés assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco
similhante.
Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro por um
escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a
auréola mais recente do que o nimbo, caíu comtudo em desuso
primeiramente do que este ultimo.
_Representações da Santissima Trindade_. Durante o periodo roman eram as
pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos.
1.^o--Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens,
representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. Ás vezes
tambem o Deus Filho se representa nos pés ou nas mãos, e o Espirito
Santo é representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando
se representam com fórmas humanas, têem sempre nús os pés.
2.^o--Tambem empregavam a representação do baptismo do Senhor nas aguas
do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.
3.^o--Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima
Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um
arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está crucificado o Salvador;
o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bôca do
Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro.
Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo até aos XVI e XVII
seculos.
Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da
procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no braço da cruz
ou no hombro do Pae.
_Representações das tres Pessoas Divinas_. _Deus Pae_. Até ao seculo XI,
nunca se attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua presença era
apenas indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão symbolica,
primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero,
encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo
que Deus Pae começou a ser representado sob fórmas humanas.
_Deus Filho_. Quando tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos
que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o Salvador,
debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas historicas. Já no IV seculo
se encontram imagens isoladas do Salvador. Até ao X seculo, Christo
representa-se muitas vezes com as feições d'um mancebo de quinze a vinte
annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade
Divina; só excepcionalmente Christo tem barba e parece não ter mais de
vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas dão-lhe uma
expressão mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter
trinta a trinta e cinco annos.
_Deus Espirito Santo_. Até meiado do X seculo foi sempre representado
com a fórma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser
figurado com a fórma humana.
*A cruz e a crucificação*
_Considerações geraes_. A historia da representação da crucificação póde
resumir-se dizendo que este assumpto não se encontra sobre os monumentos
christãos e outros objectos do culto anteriores á conversão de
Constantino; a cruz apresenta uma fórma dissimulada.
No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na iconographia christã. Desde
a conversão de Constantino foi então que appareceu sobre um grande
numero de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não tinha a imagem de
Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e ás vezes circumdada por
uma auréola.
No VI seculo começam então alguns artistas christãos, ainda que
timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente
servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes
maneiras com o signal da redempção. Tambem se vêem cruzes tendo ao
centro, e ás vezes nas extremidades dos braços, uns medalhões com o
Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante.
Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o
fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima idéa
de soffrimento ou d'opprobrio.
Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e
Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento.
Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou menos em
vista o symbolismo das épocas precedentes, esforçam-se por patentear
realmente os soffrimentos do Divino Crucificado.
Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da realidade
constitue por assim dizer a unica preoccupação do artista, que, dominado
pela idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar um corpo morto
ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo.
A historia das representações da cruz e do crucifixo comprehende, pois,
duas épocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo
inclusive, tem por caracter distinctivo a representação glorificada do
instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se tivesse
prestado voluntariamente; a segunda, que começa no XIII seculo e termina
no XIX, é caracterisada pela expressão dos soffrimentos do Divino
Salvador.
A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do
renascimento.
No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um monogramma
inscripto em uma corôa. Quando não tem o referido monogramma, (o que se
dá principalmente desde o V seculo) ou tem os braços eguaes e mais
largos nos extremos, ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de
flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha todo o cuidado de
apresentar na cruz qualquer idéa d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não
é o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento
da Redempção do genero humano.
Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se até muito antes do
periodo Roman.
Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do
Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o Cruxifixo
encontra-se uma série de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz
associada ao Cordeiro symbolico.
Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao
crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do
VII seculo.
Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado á
cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes são a miniatura do
celebre manuscripto syriaco de Florença, do anno 586, e muitos objectos
enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos
e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos
mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como
os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos
martyres, não fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a
cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador
Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos
têem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual
se acha o busto do Salvador entre as personificações do Sol e da Lua;
aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois ladrões, a Santissima
Virgem e S. João; inferiormente está figurado o Anjo e as Santas
mulheres ao pé do tumulo de Christo.
No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do gargalo uma
cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto
n'uma corôa folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas
analogas: está Nosso Senhor em pé entre os dois ladrões, tendo os braços
estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que não se vê na face
principal, é comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um
arco de triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas em
medalhões circulares e formando uma especie de corôa. Conclue-se, pois,
que o artista christão foi obrigado primeiramente a não representar a
menor idéa de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a
cruz tornando-a de braços eguaes, ornando-a de folhagens e
metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcançado
com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a
Resurreição e Ascensão do Salvador.
Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca Christo esculpido em alto
relevo.
Christo está vestido com um _colobium_ ou tunica, ordinariamente sem
mangas, que chega até aos pés. O uso d'esta longa veste serviu
exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo.
N'esta época foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do
Salvador.
Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente inclinada para a
direita e os braços estendidos e perfeitamente horisontaes. Os pés estão
pregados separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados
sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem
supprimidos os cravos com a intenção manifesta de significar que o
Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a
redempção dos homens.
Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da crucifixão é muitas vezes
acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade
historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma
maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu
que empunha a lança e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a
resurreição do Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios,
com excepção do bom e do mau ladrão, se encontram ainda representados
nos crucifixos do seculo VIII.
O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do seculo IX até ao XII,
apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os pés
conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes
geralmente em um--_suppedaneum_.
Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando
Christo com os pés _sobre-postos_.
Christo poucas vezes se encontra vestido com o _colobium_; apenas em
geral tem á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe
cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos seculos XI e XII,
esta toalha tem muitas vezes a configuração d'uma pequena saia que se
chama--_perizonium_.
A Cruz tem geralmente quatro ramos.
Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção alguma; outras, nem
mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de
madeira rectangular. As inscripções costumam ser variadissimas.
Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a
Cruz, são historicos, isto é, a sua presença é justificada pela narração
dos proprios Evangelistas. No IX seculo começaram então a apparecer os
crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as
personificações da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar
successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representações,
começando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam
desde o VI seculo.
*Personagens e accessorios historicos*
_A Santissima Virgem e S. João_.--Santa Maria está á direita e por
debaixo da Cruz, e o Apostolo em posição analoga, mas á esquerda do
Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado direito, como
succede na miniatura de Florença.
Ordinariamente estão como que erguendo os braços ao Salvador ou occultam
o rosto em signal de dôr com a mão núa ou escondida na ponta do manto. A
Santissima Virgem tem a cabeça envolvida em um veu e os pés calçados, em
quanto que S. João, de cabeça descoberta e com os pés descalços, tem nas
mãos um livro.
_O phariseu que empunha a lança e segura a esponja_.--Ha uma piedosa
tradição, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o
Salvador com uma lançada, era um pagão chamado _Longino_, que mais tarde
se fizera christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.
Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino
representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o
phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre
parece ser um judeu.
_O Sol e a Lua_.--No seculo VI, tambem estes astros começaram a ser
representados no sacrificio da crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a
Lua á esquerda do Senhor.
A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por
fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se
deram em seguida á morte do Salvador.
No seculo IX, a significação, ainda limitada e puramente historica
d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta
epocha. O Sol e a Lua não alludem sómente á obscuridade que envolveu a
terra por occasião da morte de Christo, simulam tambem o firmamento
assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador.
N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre personificados e
representados por um homem e uma mulher. A personificação do Sol tem
regularmente a cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em geral
encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes um facho.