d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de
duas aguas. Compõem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas
segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa
são adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos.
Merecem attenção as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de
execução especial.
Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as cabeças e as mãos ou
sómente as cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente
gravadas, são incrustadas de esmalte.
D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa muito a
desejar com relação a correcção.
A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em
fórma de crista.
Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.
Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de
madeira.
_Estatuêtas_, _bustos_, _braços_, _pés_, etc. No seculo X, começou-se a
collocar as reliquias em estatuêtas, bustos, ou relicarios de metal
ricamente ornamentados e imitando a fórma do corpo humano a que ellas
haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou
d'um braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer d'estes dois
modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos
seguintes, tornando-se bastante vulgares.
_Urnas de marfim_. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das
egrejas e nas collecções d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos
de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos
religiosos ou alguns signaes de symbolismo christão, e que por
consequencia foram executadas para o serviço do culto, são extremamente
raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos,
por exemplo, para guarda joias. No entanto não é para admirar que se
encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras
artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no
Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de
Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram
encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preço no Egypto, na
Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas
musulmanas ou indianas, são regularmente cobertos de figuras
geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes
d'inscripções Orientaes.
_Frascos de crystal de rocha_. D'entre os varios objectos de que os
cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o
Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de
crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez
centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'animaes phantasticos.
Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos
de ouro ou de prata.
_Diversos relicarios_. Ha-os com diversas fórmas architecturaes
imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas
romans, e até mesmo as dos edificios civis.
_Corôas suspensas nos altares_. Estas corôas conhecidas com o nome de
_votivas_ eram por devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em
cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo latino; como
então, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes
adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande
numero d'estas corôas directamente para o serviço dos altares; todavia
os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas
por reis e principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles
precedentemente cingiam como insignia de realeza.
_Corôas para luzes_. As corôas para luzes continuaram a usar-se durante
o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou são d'esta
época.
Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir á
visão de que falla S. João no capitulo XXI do Apocalypse. _Deus me
mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por
Deus..._ representada por uma alta muralha, franqueada por dôze portas;
vendo-se a estas portas dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze
tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres
ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se
achavam gravados os nomes dos dôze Apostolos.
Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar e tambem no ponto de
intersecção da nave com o transepte, quando eram muito grandes.
A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia;
é composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam
angulos reintrantes. Estes angulos são guarnecidos de lanternas em fórma
de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo,
uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres
vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a
corôa póde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas
inscripções latinas se lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a
data do XII seculo em que foi dada á egreja de Aix-la-Chapelle pelo
imperador Frederico Barba-rôxa.
_Cruzes d'altar e para as procissões_. Até ao final do XV seculo, não
havia distincção alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou
estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se
sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na
extremidade d'uma vara comprida.
As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo
d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as mais antigas são de
fórma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais
tarde, no XI e no XII seculos, são então compostas com a imagem de
Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, isto é, deixam
de ter a fórma Trina.
Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho adornado
com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se de simples laminas
de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino
crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes são formadas de
madeira, tendo as duas faces ou só a principal revestidas com placas
esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em
alto-relevo. O _perizonium_, que cobre os rins e a corôa que cinge a
cabeça do Salvador, são ordinariamente esmaltados e os olhos
representados por fragmentos de vidro azul.
No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as
collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas
eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em
cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista
escrevendo textos relativos á vida ou á morte do Salvador. Queria-se
d'este modo symbolisar a diffusão, pela prédica do Evangelho, da Fé em
Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.
_Candelabros_. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua
parte superior por uma dirandella ponteaguda. A fórma d'estes
candelabros do XII seculo, varía pouco; consta em geral de um pé assente
sobre tres patas de leão ou em tres corpos de dragão; um nó de folhagens
ou de dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada
por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos
dragões ou aos lagartos com azas.
O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os
que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte
maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal altura que
obrigaram a substituir as antigas velas de cêra por um cirial simulado e
accrescentado com uma vela. Não devemos esquecer que os ciriaes se
accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que
portanto não devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se,
pois, a razão por que um candelabro d'altar é maior e mais monumental
que outro qualquer de sala.
_Candelabros para o Cirio Pascal_. Tinham uma altura bastante
consideravel.
A ornamentação d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio
Pascal, era analoga á dos candelabros d'altar. N'elles se encontram,
tanto no pé como na dirandella, os dragões e os lagartos com azas
(geralmente no numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns,
tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos
nas facetas do pé.
_Candelabros de sete braços_. Estes candelabros sempre de bronze,
usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida,
a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito
elevados. O pé, o nó e os ramos eram ordinariamente ornados.
Os braços estão collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado
da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel.
_Evangeliarios_. Durante o periodo roman, trataram, como até ali, de
reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram
do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro
sobre velino branco ou côr de purpura.
As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os manuscriptos em que
se encerra o texto dos quatro Evangelhos, são em geral ornados com um
grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do
Novo e Velho Testamentos, e até mesmo alguns factos legendarios.
Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustrações é
geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com
frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do
Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro.
Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os
Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em
arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás quatro, sob um arco
commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lêem-se
series de numeros collocados uns debaixo dos outros.
Estas columnatas formam o que se chamam os _canhões d'Euzebio_ ou de
_concordancia Evangelica_. Foram compostas por Euzebio de Cezaréa para
facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros
que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal
em duas ou mais arcadas, as citações dos Evangelhos com relação ao mesmo
objecto.
São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro
Evangelhos; o segundo, os que se não lêem senão em S. Matheus, S. Marcos
e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. Matheus, S. Lucas e S.
João; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S.
João; o quinto, o accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S.
Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o oitavo, de
S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. João; emfim o decimo,
sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular.
Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem numerica, a
indicação de todos os versos que o compõem; e inferiormente a cada verso
está notado a encarnado o numero do canhão a que se tem de recorrer para
encontrar a concordancia.
_Capas evangeliarias_. Durante o periodo roman as capas dos livros
lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado
da largura. Comtudo já havia n'essa epoca encadernações que se
approximavam sensivelmente da fórma quadrada, que foi a que mais tarde
prevaleceu.
As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; acontecendo
muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de
caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos
metallicos.
Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos
evangelhos são: 1.^o O Salvador, sentado ou de pé, lançando a benção e
collocado n'uma aureola oval; 2.^o A crucificação de Christo; 3.^o A
Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.^o Scenas tiradas da historia do
Novo Testamento.
Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das
capas.
Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como
capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares,
fabricadas em Limoges, representando a crucificação do Senhor, com as
figuras accessorias.
_Thuribulos_. É provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos
com grande diametro e um peso consideravel.
Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas
pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.
São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos os que se lhes
seguiram, a fórma espheroidal.
No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.
_Caldeirinhas d'agua benta portateis_. Estas caldeirinhas serviam para
levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens
no momento em que entravam na egreja. Têem a fórma d'um cóne troncado e
invertido.
Geralmente são de pequenas dimensões, não excedendo 20 centimetros em
altura.
Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem
exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo,
representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.
_Pentes lithurgicos_. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a
barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos
existiu até ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na
Sagração dos Bispos.
_Os pentes lithurgicos_ são geralmente d'osso ou de marfim e tambem
algumas vezes de madeira.
Uns são maiores do que outros; os maiores são guarnecidos com duas
ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O
espaço comprehendido entre as duas ordens de dentes é em geral
esculpido. Os pentes de menores dimensões têem apenas uma ordem de
dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.
_Cadeiras_. O uso da cadeira, _cathedra_, foi durante, muito tempo
considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos
temporaes.
No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, eram por
vezes feitas á imitação da cadeira _curúl_ dos Romanos, a qual era
formada de duas dobradiças em fórma de X, entre as quaes assentava um
coxim. Os ramos das dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são
ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças d'animaes e
inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras
curúes mais ricamente esculpidas.
As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um cofre rectangular, não
tendo costas nem tão pouco braços. Adornavam-nas com incrustações de
marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos
brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas são raras.
_Baculos pastoraes_. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam
o bastão pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este
privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.
Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas fórmas diversas: havia o
bastão em fórma de muleta e o bastão em _voluta_. O primeiro, pela sua
similhança com a letra T (a que os gregos chamavam _tau_) é conhecido
pelo nome de _bastão_ ou baculo em fórma de _tau_. O cabo ou travessa
ordinariamente de marfim é todo esculpido.
Os baculos de _voluta_ que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A
fórma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas
e miniaturas.
Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos
cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.
No seculo XII e até mesmo já durante a ultima metade do seculo XI, é que
se começaram a usar os _baculos de voluta_. São tambem d'esta epocha os
_bastões de metal_ ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas.
A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabeça
de serpente ou de dragão encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino
Cordeiro armado com o signal da redempção. As volutas terminando em
florão são por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas
que têem representadas scenas historicas.
Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas
differentes partes, uma significação symbolica. O baculo representa o
bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu
mosteiro. A haste é recta para recordar ao Prelado a rectidão da
governação; a ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que
deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como
as almas são attrahidas para o bem pelas consolações. A voluta do baculo
voltada para o peito, indica a jurisdicção interna dos Abbades; voltada
para fóra, mostra a auctoridade dos Prelados.
_Sapatos lithurgicos_. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos são
considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades,
tinham o nome de sandalias, _sandalia_, e eram em geral de fórma
identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de
dois quartos.
A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma
especie de lingueta, _lingua_, e quatro appendices, _ligulae_, em fórma
de orelhas atravez das quaes passavam os cordões. As seis chanfraduras,
formadas por estas orelhas, fizeram dar á gaspea o nome de _coiro
fenestrado_, _corium fenestratum_, por affectarem a fórma de aberturas
dos rotulos de janellas.
Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os
quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significação
symbolica.
As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e
superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque
os pés dos prégadores devem ser resguardados inferiormente para se não
sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor--_Sacudi o
pó de vossos pés_--; são descobertos pela parte superior para que lhes
seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas
palavras do propheta: «Desvendae-me os olhos e considerarei as
maravilhas da tua Lei».
A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e até
mesmo de pedras preciosas.
_Mitras_. As mitras de dois bicos eram desconhecidas até ao fim do XI
seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de
laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um
barrete pouco elevado ou um pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas
extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente
sobre as costas.
No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da corôa
tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca
ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois
duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de
metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades
fluctuantes do pedaço de tela por duas fachas compridas e estreitas, que
se chamam _fanons_.
_Alfaias preciosas_. _Tecidos_. Durante os primeiros seculos da éra
christã, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente.
Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos
preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.
Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda
no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a pequena cidade de
Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do
Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos
productos da Europa eram procurados.
Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as
fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o
commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e
prospero, graças aos intelligentes esforços do rei normando Roger,
secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta
d'uma expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre
manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de _Hotel de
Tiraz_, foram os mais estimados durante toda a edade média.
Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, são uns
lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas,
flôres e fructos, empregados apenas como decoração, sem a menor intenção
de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham
tambem ás vezes inscripções arabes; aquelles cujas decorações consistiam
em assumptos biblicos ou symbolos christãos, fabricavam-se em
Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.
_Bordados_. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem
assumptos religiosos quer em medalhões quer sobre umas fitas que
applicavam ás velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de
bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman.
Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada á
agulha «_acula pictae_» no XI e XII seculos.
Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em
seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela fina.
_Paramentos sacerdotaes_. No principio do periodo roman eram ainda
desconhecidas as côres lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX
seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo
tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a vermelha foram as
primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura,
servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos
que não morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da
caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao
Pentecostes, festas por excellencia do amor.
No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que já se usavam: o
verde, symbolo da esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de
semana em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo
que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o
Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa
e para os officios funebres.
A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; porém
desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII,
tornou-se obrigatorio.
Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, symbolisando
_penitencia_, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.
A _casula_ conservou, durante o periodo roman a mesma fórma que até ali
havia tido, isto é, a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente
á roda do corpo.
As _casulas_ mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e
bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas,
flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos
espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario,
apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas
_praetestae_, _listae_ ou _augusti clavi_; regularmente são duas, uma na
frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas
tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas
costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas,
egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas
bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e
atraz, uma Cruz em fórma de Y.
Ha _casulas_ antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre
os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas
vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com
muitas ramificações.
As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de
seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou
outros tecidos mais baratos.
A _estola_ consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou
de tela, medindo em geral 2^{m},70 de comprimento sobre 6 a 7
centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta
fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.
As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal
cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.