directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos
relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos
paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar
sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se então com um
retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as
urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras
primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por
detraz do altar. Construia-se então por cima da urna uma especie de
tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central
do lado triangular, com um retabulo de metal precioso.
O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que não possuiam
grandes reliquias, só veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII
como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os
altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes
retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo collocar em cima
nem crucifixos, nem candeeiros.
_Altares portateis_.--Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo
Latino, a fórma de um parallelogrammo rectangular, e são compostos de
uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e
guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar
visivel senão a parte superior da placa.
A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de
jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até mesmo de
ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente
como recordação historica que a ella estava ligada, por exemplo, um
fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery.
As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o altar, encontram-se
entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas
vezes era este concavo em fórma de recipiente. Em geral os altares
portateis são de pequena altura, apenas alguns têem a fórma de um
pequeno cofre sustentado por pés pouco elevados. As laminas de metal que
constituem os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de
pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.
Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII.
_Piscinas_.--A ablução das mãos, tanto antes como depois do sacrificio
da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas
piscinas não sò a agua de que o padre se servia para a ablução das mãos,
mas até mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os
calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á communhão do padre
e dos fieis.
N'esta época o padre não tomava as abluções do mesmo modo que
actualmente.
Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem apenas uma abertura ou
concavidade para dar passagem á agua; ha porém outras que têem duas, uma
para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as abluções
das mãos.
As primeiras chamam-se _piscinas simples_, e as segundas _duplas_. As
mais antigas são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas
constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia
junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena
columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que são
sustentadas por columnas chamam-se _pediculadas_.
No XII seculo começou-se a collocar _piscinas_ em nichos abertos nas
paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo
appareceram.
_Doceis_.--Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis.
Em geral consistem n'uma especie de cúpula quadrada ou polygonal, de
marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes têem um leão sentado
entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cúpula é quasi
sempre munida de uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor
collocava o livro sagrado.
Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma aguia, symbolo do
Evangelista S. João; e algumas vezes na de um homem munido de azas,
emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabeça de
aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam
tambem, ás vezes, representados nos angulos da base da cúpula.
Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era revestida de
oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas
sobre marfim.
_Cadeiras episcopaes ou do clero_.--A cadeira episcopal nas cathedraes,
ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no
periodo Latino, no fundo do abside do côro, contiguo á muralha; e aos
lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta
disposição, que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas
romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes,
como collegiaes e parochiaes.
Havia, já o dissemos, algumas excepções a esta regra, como succedia com
certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do côro,
e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as
cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por
causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar
convenientemente na curvatura do côro.
Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de
marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou _fórmas_,
_formulae_, de madeira, foram raras até ao fim do XII seculo; apenas se
encontram algumas que escaparam á destruição. Vê-se perfeitamente que
estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia
exactamente as antigas de pedra.
*Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares*
_Capellas funerarias_.--Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e
na proximidade das egrejas, capellas funebres, de fórma circular ou
polygonal, á similhança da rotunda construida pelo imperador Constantino
sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de Theodorico em Ravenna
(Italia).
_Tumulos_.--O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das
pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa até ao XII seculo,
e nos paizes meridionaes, isto é, no Sul da França, na Italia e na
Hespanha existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam,
como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore,
muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e fechados por uma
tampa convexa ou em fórma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com
ornatos e symbolos; florões, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns
assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos
pilares grossos, ou sobre columnas curtas só com o fim de os isolar do
solo.
Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos _cenotaphios_ que
consistem em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas,
assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago
simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do sóco ou do macisso
d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes
são unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que corôa
o sóco é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios
começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e
ás vezes até mesmo gravada ao traço ou representada em esmalte. O
personagem é geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas
as insignias da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o báculo
pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a corôa. Estas
estatuas deitadas não apresentam o aspecto d'um morto; porque têem os
olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas.
Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre
que assenta a cabeça do personagem.
_Tumulos não apparentes_. Consistem, como os do periodo anterior, em
cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos
pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre
encontra-se algumas vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um
espaço circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns têem no
fundo dois regos, no prolongamento dos quaes está feita uma abertura
destinada a dar vasão ás materias viscosas.
_Pedras tumulares_. O uso das pedras tumulares continuou durante o
periodo roman. Em geral têem a fórma d'um trapezio; algumas tambem, as
mais antigas, são rectangulares. A sua decoração em geral consiste em
figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se
lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.
_Pias baptismaes_. As pias baptismaes eram de grandes dimensões durante
todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo
por immersão até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo
algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e especialmente na
Inglaterra tambem as havia de chumbo.
As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas similhantes a
uma vasilha.
O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o
XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde conservar-se na
vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental.
Com a applicação do _esmalte_, os objectos d'ourivesaria mudaram
completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a accumulação das
pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo
d'ornamentação dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as
laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas
esmaltadas. Estas encontram-se não só nas grandes peças d'ourivesaria,
taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas até nos menores
objectos.
Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e
prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda
metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se
douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustação do
esmalte. Foi a começar no XI seculo que em algumas localidades
substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em
separação.
Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é apparente nos
esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os
esmaltadores allemães imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou
menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu
proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da
origem Bysantina da arte allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes
em separação, e até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em
rebaixos, as carnações são substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do
que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das
margens do Rheno não tardaram em gravar sobre metal reservado, as
figuras de pequenas dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram
ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só se
serviam da gravura para as carnações. No final do XII seculo, para
proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar
figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi
que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes
grandes e profundos da gravura.
Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII,
continuaram a servir-se exclusivamente, para a decoração das suas obras,
de placas cinzeladas ou até simplesmente estampadas, e d'applicações de
pedrarias ligadas com filigranas. Até 1145 os ourives francezes
ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio
d'esse anno, _Suger_, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris,
quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas
sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu
auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram
o trabalho de terminar esta obra em dois annos.
As producções dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes
analogias com as dos allemães do Rheno, que vieram ensinar a arte de
esmaltar, em França.
Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi
augmentando em França, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma
celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em Limoges.
Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus
esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras inteiras,
até as proprias carnações, com côres d'esmalte; só aproveitavam o metal
para lhe fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo,
para mais rapida e mais barata producção, renunciaram a este processo e
principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar
_apenas_ o fundo. Muitas vezes até substituiam as partes gravadas por
figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de
Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao
fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples
decoração dos fundos, operação que se tornava pouco difficil.
Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de Limoges. Os
esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Mósa, em Liêge,
Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux têem os caracteres da
escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia,
constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As
differenças que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges,
os do Rheno e os do Mósa são estas: nos primeiros predominam as côres
azul e verde claros, em quanto que nos outros são o verde e o azul
carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Mósa servem-se d'algumas
côres que lhes são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de
leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais
harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na França.
Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem scenas em que toma parte um
grande numero de personagens, com inscripções latinas em verso, gravadas
e encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram inscripções a
não ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavôres que os
esmaltadores do Rheno e do Mósa executavam sobre o cobre e com as
incrustações de esmalte, são notaveis pelo bom gosto e variedade de
assumptos, qualidade que se não encontra entre os de Limoges.
Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Mósa ou do
Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se não observa na
ourivesaria franceza contemporanea. Têem, além das placas esmaltadas,
filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e
inscripções douradas sobre campo brunido ou vice-versa.
_Calices e patênas_. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos
calices ordinarios e ministeriaes.
Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os
do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á
taça por um simples nó sem haste.
No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma
espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas
dimensões que nos precedentes.
Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó
bastante grosso e a haste curta quando a têem.
Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da
taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de
filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço
semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a
communhão.
Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua
crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de
reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a
taça e o pé dos calices.
Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste
cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns
cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.
Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios
circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões,
folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se
assumptos legendarios ou historicos.
_Grades_. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na
Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas
grades.
Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle
que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação
meridional.
Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes
verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de
barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em
geral em curvas entrelaçadas.
*Alfaias religiosas*
No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no
Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas
invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e
mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do
Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde
Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção
generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os
primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se
na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as
egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para
isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar
os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a
vir trabalhar no Occidente.
Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome,
pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio,
e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com
mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o
edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle,
teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam
formado na Italia, particularmente em Ravenna.
Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter
desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na
Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos
esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.
No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos
estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde
na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.
A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas
bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X
seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento,
no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados
pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus
Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o
primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da
restauração artistica na Allemanha.
Os _calices ministeriaes_ conservaram, durante o periodo roman, a mesma
fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos
calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de
dragões e d'outros animaes phantasticos.
Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador;
nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia
do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as
personificações dos quatro rios do Paraizo.
As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um
pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso,
com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou
gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo
algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as
esculpturas.
_Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios_. Desde o XI seculo que as
pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja
origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome _pyxides_ a
pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre
esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se,
debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então
collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.
Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim
empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.
Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas
vezes no exterior esculpturas em relevo.
As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e
esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma
tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas
d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.
As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas
como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para
guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado
Viatico aos doentes em perigo de vida.
Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a
tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.
_Relicarios_. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos
mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato;
considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados
por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande
respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista
d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão
grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes
preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis.
_Relicarios da verdadeira Cruz_. A maior parte dos relicarios que
contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época
das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São
ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a
fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou
de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a
inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços
seja simplesmente o _titulo_ da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes
sempre tiveram especial veneração.
Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma
cruz com uma simples travessa.
As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes
com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa
metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes
relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um
triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes,
filigranas e pedras preciosas.
Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a
fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios
em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com
uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a
dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes
de madeira ou de pedra com a mesma fórma.
_Urnas_. A urna é uma especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as
reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI
seculo. Ha-as _grandes_ e _pequenas_. As grandes urnas têem o feitio
d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de duas
vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma
egreja com as suas paredes exteriores.
Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com filigranas,
esmaltes e pedrarias. Christo lançando a benção, sentado ou em pé, só ou
no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e
na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a
urna encerra. As faces lateraes são divididas por arcadas de volta
inteira ou abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos
ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitação de telhado são
decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos
differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das
arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.