caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos
pelos recortes das travessas apresentam fórmas mais variadas e em
harmonia com a ornamentação Roman; compõem-se quasi sempre de figuras
geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados até ao seculo XVI,
na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente.
Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com
vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X,
reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros,
differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual
ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.
O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens pintados,
começou provavelmente no final do seculo X.
Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os braços do transepto
terminam por um abside semi-circular ou polygonal.
O abside está ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um
tecto quasi sempre mais baixo que o do côro.
As paredes exteriores dos absides são a maior parte das vezes ornadas
d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena
saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos
de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, são
abertas debaixo das arcadas.
Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno
apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de
pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas.
Estes absides receberam o nome de absides _rhenanos_. Serviam outr'ora,
e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposição das reliquias.
Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e
principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito
simples, de secção circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI,
tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos
reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os
constructores Lombardos se serviam já no seculo VIII.
As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas
vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por
ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem
parte do capitel.
Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes
das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em
figuras geometricas, espiraes, torçaes, galões, botões, folhagens,
cordões, animaes e mesmo representações de assumptos historicos ou
legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul da Europa.
No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as columnas são
_anneladas_, isto é, formadas d'uma especie de tóro á roda do fuste.
As columnas _anneladas_ constituem um dos caracteres dos monumentos da
transição do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram
d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo _XII_, as columnas
são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas.
As bases das columnas são variadissimas.
Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se ás
bases Lombardas, mas sem ter garras.
As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, são
raras nos paizes do Norte.
Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, áquem dos Alpes, o
ornato chamado _garra_, que os lombardos já tinham usado muito tempo
antes.
A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha applicada sobre o tóro
inferior da base no angulo do plintho, e tambem ás vezes, a d'uma
carranca ou d'um animal phantastico.
Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma
do tóro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco
mais tarde apparece entre os tóros das bases, a moldura concava,
bastante profunda, que fórma um dos caracteres distinctivos dos
monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII.
Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns que apenas
se compõem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o
capitel toscano ou dorico.
A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um ábaco
saliente, e outras baixa, tendo um ábaco que não resalta o fuste da
columna.
Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados _cubicos_,
porque têem a configuração d'um cubo. Estes capiteis são algumas vezes
chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte
inferior.
A parte inferior do capitel cubico _Rhenano_, do seculo XII, era muitas
vezes dividida em quatro porções de esphera, formando assim um grupo de
quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi ainda
augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este modo os capiteis
cubicos _canellados_ ou com resaltos redondos, que se encontram
principalmente na Inglaterra e no Noroeste da França.
No tempo da formação do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi
totalmente perdida áquem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o
cinzel esforçaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos
que tinham á vista; as producções d'estes artistas improvisados são
imperfeitas e grosseiras.
Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja
ornamentação, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas
applicadas sobre o açafate, e algumas vezes contornadas em voluta
debaixo dos angulos do ábaco.
Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII,
são decorados de esculpturas ou de pinturas de côres carregadas. Os
ornatos consistem em galões imitando perolas, folhagens encrespadas,
florões artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes
phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da
historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos.
O capitel de _crochets_ usou-se na Belgica e em algumas partes da
Allemanha desde o fim do periodo Roman. Dá-se o nome de _crochets_ e
algumas vezes tambem o de _baculo vegetal_, ás folhas mais ou menos
compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade.
Chama-se _arcada_ toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma
archi-volta; e _arcadura_, uma arcada de pequenas dimensões.
Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou
formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos
extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, começam a apparecer novas
formas d'arcos: 1.^o, o arco _elevado_, cujos dois ramos descendentes se
prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.^o, o arco em fórma
de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o
semi-circulo; 3.^o o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado
por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção do eixo maior; 4.^o, o
arco de tres lóbulos cujo intradoz é composto de tres lóbulos.
As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas
capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras
sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no pé-direito
e firmadas sobre um sócco de pedra collocado em roda de todo o edificio.
As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior dos
edificios, para a decoração das fachadas. Encontram-se egualmente sobre
as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas
extremidades assentam sobre modilhões muitas vezes executados apenas de
feitio chanfrado, e ainda ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns
casos foram os modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas.
As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das
paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as
platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes.
Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram
principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e
d'algumas partes da França.
Chamam-se _Triforiums_ as galerias mais ou menos largas, que ficam por
cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por
cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares
contiguos.
Encontram-se _Triforiums_, que abrangem todo o comprimento do corpo da
egreja, nos edificios Lombardos.
Os _Triforiums_ estreitos são posteriores ao seculo XII, e só durante o
periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego.
A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das
paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos
materiaes de que dispomos.
A cornija é sustentada por consólas ou modilhões collocados regularmente
por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhões
têem a fórma d'um curvo ou d'um florão. Chama-se _curvo_ um modilhão
simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que
tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede;
e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem
parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses
florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras
grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.
A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão
no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes
ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta
com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas
egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.
Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas,
eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas
lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes
lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão
obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela
abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.
Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes
quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a
curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas
semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta
sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se
contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua
abobada.
Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de
duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e
apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman,
e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem
regularmente o feitio de tóros.
As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas
vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da
época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em
certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As
nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das
Ogivaes.
Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o
nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras
geometricas.
Chamam-se _contrafortes_ aos pilares embebidos nas paredes exteriores
dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das
abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios
correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas)
aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios
abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos
duplos e das nervuras das abobadas.
Nas construcções de architectura Roman, especialmente nas mais antigas,
os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma
pilastra semi-cylindrica.
No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes
variadissimas fórmas. Uns são muito largos na base, e diminuem
successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais
delgados, têem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e
parallelas, e não diminuem senão na face exterior, em que essa
diminuição se faz successivamente em diversas partes na sua total
elevação. Alguns ha que têem sempre as mesmas dimensões em todas as
faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio até á
cornija.
Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman são raros.
Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo XII uma
pequenissima inclinação.
É só no meiado d'este seculo, e até mesmo mais tarde, que se encontram
declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade
média.
As _Torres_, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao
seculo XI, são em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas
ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de
quatro abas de fórma concava, formando uma pyramide obtusa.
Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais elevados e
ornamentados que os dos seculos precedentes. Compõem-se de dois e mais
pavimentos, que se sobrepõem, e cujas dimensões vão muitas vezes
diminuindo successivamente. A sua fórma e aspecto geral variam de um
paiz para outro.
Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente proprios da
Italia, distinguem-se por mais duas especies.
Ha uns construidos no ponto de intersecção do transepte com a nave
principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as
extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro
grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus
quatro lados; ou são sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e
até mesmo tres das suas faces.
Os campanarios centraes têem em geral differentes fórmas. Ha-os
quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem
tambem alguns em fórma de cúpula.
Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro ou dos
transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais variadas que os
centraes. Os mais simples são quadrados e divididos tanto interior como
exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma
base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no
primeiro ou segundo andar, tendo em geral a fórma octogonal.
No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio
de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes,
eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base
quadrada eram ás vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates
de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos gêlos, e depois
substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias.
Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas,
terminando por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por
este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival.
Os pavimentos em _opus alexandrinum_ continuaram a usar-se na Italia e
em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na França e na
Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou
de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. Até ao fim do
seculo XII cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que se
encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a preta, cinzenta,
vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas
predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII.
No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e
symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na
Europa Occidental.
Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas fórmas que
tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, não podia
tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse
certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria
natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a
vontade do artista.
Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da architectura até nas mais
delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o
mosaico. Desde os primeiros seculos até á época da Renascença, a pintura
das paredes pôde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o
tom e a harmonia das côres empregadas, seguindo o progressivo
desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada á
architectura.
A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um
painel.
Um painel, no sentido moderno da palavra, não é mais do que uma scena
mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A
pintura monumental, pelo contrario, é uma arte convencional na qual a
imitação da natureza, a reproducção das suas fórmas e dos phenomenos
atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer não existem.
A figura humana e as composições em que esta apparece em grupos são
geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; só
muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a
parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres
tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o
periodo de que nos occupamos.
As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista
apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a
composição do assumpto de que trata. As côres são applicadas com tintas
eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de
fórma que é muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o
artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes
dos corpos são regularmente indicadas por traços finos, e os contornos
são representados com linhas cheias.
A pintura a _fresco_, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis,
foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A
_encaustica_ foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e
a harmonia dos tons que resultam do emprego da cêra, a possibilidade de
nos occuparmos indefinidamente do trabalho já começado fizeram com que
muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito até mesmo a
pintura a oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade média eram
preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons
baços, evitavam o reflexo tão desagradavel na pintura das paredes.
Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos edificios
religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripção. A sua
collocação era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um
dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a
collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construcção.
Tambem muitas vezes se serviam de inscripções lapidares para conservar a
memoria da fundação do edificio e o nome do architecto ou do mestre da
obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando
a data da consagração, os nomes dos santos cujas reliquias se acham
depositadas no altar, e até mesmo o nome do orago da egreja.
Os altares eram uns fixos e outros portateis.
_Altares fixos_.--As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore
ou de pedra, e de fórma quadrada ou rectangular, continuaram até meiado
do seculo XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se usára no
periodo Latino.
O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base
cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e algumas vezes tendo em
roda uma inscripção e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se
estes altares com alfaias de lã e seda ou de outros tecidos preciosos.
Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas columnas.
Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de
prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e
pinturas.
A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida
em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos ricamente
decoradas. Jesus Christo lançando a benção, de pé ou sentado, occupa
ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais elevada, ou
com a fórma de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas arcadas
lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que
se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos
das arcadas.
O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no
periodo Latino, encimado por um _ciborium_, e o mesmo acontecia com
alguns dos altares lateraes.
No final do XI seculo começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis
ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente
ditos. O retabulo não constitue por si só uma parte essencial do altar,
mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim é promover a
devoção entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a
elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo
cinzel, esculptura, pintura, etc.
A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do
periodo ogival e na época da Renascença.
Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias:
Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do centro, tendo
imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda,
em arcadas lateraes, ou em medalhões de diversas fórmas, collocados em
redor da imagem do Salvador.
A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre
doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor
numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes
ultimos só se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da
época ogival.
A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios
quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os
seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros
que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das
abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposição interior
das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos
durante a celebração do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres,
que d'antes occupavam o proprio côro do abside, foram transportadas para
o transepte, e desciam ordinariamente até á segunda ou terceira arcada
da nave principal, como na egreja d'Alcobaça.
Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, elevava-se o
altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos
mortaes dos Santos, que até ali se tinbam conservado religiosamente nas
cryptas das egrejas.
Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e
collocadas no interior do altar.
Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo;
mas não é facil actualmente determinar se esta exposição era permanente
ou temporaria, isto é, durante certas solemnidades religiosas
extraordinarias.
Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume de se
conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco
se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta
exposição se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado
pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados
triangulares sobre o proprio altar, ou então sobre um retabulo de pedra,
collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma
consola ou um grupo de columnas junto á parede absidal ou interior da
egreja.