sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um
marmore. E fugiu.
--Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.
Foi só na rua do Ouro que começou a serenar, tirando o chapéo,
respirando largamente. E ia então repetindo a si mesmo todas as
consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o
seu peccado fôra inconsciente; o tempo acalma toda a dôr; e em breve, já
resignada, encontrar-se-hia com uma familia séria, uma larga fortuna,
n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil
francos, têm sempre um reinado seguro...
--É uma situação de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no
coupé. Ha peor na vida.
Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do
dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a escrever a longa carta
que promettera a Carlos. Villaça já lá estava installado, com um boné de
velludilho na cabeça, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando
as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala
Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma
carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria,
alguma resolução desesperada. Villaça ainda teve a esperança d'ella
trazer alguma nova revelação, que tudo mudasse, salvasse da «bolada»...
Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praça, abafada n'uma
grande _ulster_, com uma carta de Madame.
Á luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cartão
branco, com estas palavras a lapis: «Decidi partir ámanhã para Paris.»
Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo
as escadas: e seguido de Villaça, que ficára na ante-camara á espreita,
correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado
de luto dizia-lhe (além de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-salão
estava tomado até Paris, e que elle teria a honra de a vêr em Santa
Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um
embaraço. Devia pôr «Madame Mac-Gren» ou «D. Maria Eduarda da Maia?»
Villaça achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda
não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem já não era
Mac-Gren...
--Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a
no regalo. E, debruçada á portinhola, entristecendo a voz, desejou
saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avô do senhor...
Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella
curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma
indicação. Era nos Prazeres, á direita, ao fundo, onde havia um anjo com
uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs.
Villaças.
--Merci, monsieur, bien le bonsoir.
--Bonsoir, Melanie!
No dia seguinte, na estação de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o
Villaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou
Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta n'uma
grande pelliça escura, com um véo dobrado, espesso como uma mascara: e a
mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laço
sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraçava
um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos,
segurava um rôlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que
levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a
pelo braço, em silencio, ao wagon-salão que tinha todas as cortinas
cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda,
estendeu-lhe a mão.
--Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o
Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vêr sumir-se n'aquella
carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia tão
bella, d'ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a
portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu
d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
--Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, já
muito adiante, tragicamente:
--Cleopatra!
O politico, furioso, ficou rosnando: «Que asno!...» Ega abalára. Junto
do seu compartimento Villaça esperava, ainda deslumbrado com aquella
figura de Maria Eduarda, tão melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E
parecia-lhe uma rainha de romance.
--Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bella mulher! Dá-nos uma
bolada, mas é uma soberba praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de côres
sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda
furioso, vendo o Ega á portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente,
um gesto obsceno.
No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salão que se conservava
fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um
canto, com a cabeça n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou.
--Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
--Não, obrigada...
Ficaram calados, emquanto Ega com o pé no estribo tirava lentamente a
charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados
em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina
resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com
olhares curiosos e já languidos para aquella magnifica mulher, tão grave
e sombria, envolta na sua pelliça negra.
--Vai para o Porto? murmurou ella.
--Para Santa Olavia...
--Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
--Adeus!
Ella apertou-lhe a mão com muita força, em silencio, suffocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a
tiracollo que corriam a beber á cantina. Á porta do buffete voltou-se
ainda, ergueu o chapéo. Ella, de pé, moveu de leve o braço n'um lento
adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria
Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, á portinhola d'aquelle
wagon que para sempre a levava.
VIII
Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_
trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: « O distincto e
brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e
collaborador João da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguirão
em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua
interessante viagem até ao Japão. Numerosos amigos foram a bordo do
_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os
snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella,
conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da
Gama, Cruges, Taveira, Villaça, general Sequeira, o glorioso poeta
Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador João da Ega
fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas
cartas com as suas impressões do Japão, esse delicioso paiz d'onde nos
vem o sol e a moda! É uma boa nova para todos os que prezam a observação
e o espirito. _Au revoir!_»
Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collaborára) as
primeiras noticias dos «viajantes» vieram, n'uma carta do Ega para o
Villaça, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um
_post-scriptum_ com o titulo de _Informações geraes para os amigos_.
Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza
de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E
acrescentava ainda: «Está-se apossando de nós a embriaguez das viagens,
decididos a trilhar este estreito Universo até que _cancem as nossas
tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a
Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela
Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo;
subir depois a Athenas, lançar sobre a Acropole uma saudação a Minerva;
passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao
comprido em Santa Olavia lá para os meados de 79 a descançar os membros
fatigados. Não escrevinho mais porque é tarde, e vamos á Opera vêr a
Patti no _Barbeiro_. Larga distribuição d'abraços a todos os amigos
queridos»
Villaça copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos
fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admiração, tão bellas,
aventurosas jornadas. Só Cruges, aterrado com aquella vastidão do
Universo, murmurou tristemente: «Não voltam cá!»
Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de março, Ega reappareceu no
Chiado. E foi uma sensação! Vinha esplendido, mais forte, mais
trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de
historias e de aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou
poesia que não fosse do Japão ou da China, e annunciando um grande
livro, o «seu livro», sob este titulo grave de chronica
heroica--_Jornadas da Asia_.
--E Carlos?...
--Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos
Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da
Renascença...
Ao Villaça porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficára
ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas lá no
fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memoria da «semana
terrivel».
--Todavia os annos vão passando, Villaça, acrescentou elle. E com os
annos, a não ser a China, tudo na terra passa...
E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram,
arvoredos murcharam. Outros annos passaram.
Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa
d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade
dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega
annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao
velho Portugal vêr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da
Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega:
e se elle já ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o
Villaça, comer o porco a Santa Olavia.
--Vae casar! pensou Ega.
Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle não via
Carlos. Infelizmente não pôde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto
do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida
com que celebrára no Silva a noite de Reis. Villaça, porém, levou a
Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina,
lhe supplicava que se não retardasse com o porco n'esses penhascos do
Douro, e que voasse á grande Capital a trazer a grande nova.
Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e
macia manhã de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoçavam
n'um salão do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio.
Ega, já curado, radiante, n'uma excitação que não se calmava,
alagando-se de café, entalava a cada instante o monoculo para admirar
Carlos e a sua «immutabilidade».
--Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso é
Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto!
Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na
face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que
começára havia dois annos, alastrára, já reluzia no alto.
--Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a
calva! Transformam-se as civilisações, a calva fica!... Já tem tons de
bola de bilhar, não é verdade?... De que será?
--É a ociosidade, lembrou Carlos rindo.
--A ociosidade!... E tu, então?
De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando voltára de França,
ultimamente, pensára em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a
_blague_: e agora que a mamã, coitada, lá estava no seu grande jazigo em
Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que
consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra fórma da ociosidade,
passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria
insignificancia. Antes o Chiado!
E como Carlos lembrava a Politica, occupação dos inuteis, Ega trovejou.
A politica! Isso tornára-se moralmente e physicamente nojento, desde que
o negocio atacára o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos
hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam attitudes
porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis...
Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas
qual! Ahi é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras,
não se lavavam, não limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em
paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro
salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fôr, largamente,
excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras têm
nôjo_!
--Olha o Gouvarinho! Vê lá se elle recebe ás terças-feiras os seus
correligionarios...
Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na
cadeira:
--É verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?
Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa
herdára uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa
Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre ás
terças-feiras. Mas soffria uma doença qualquer, grave, no figado ou no
pulmão. Ainda elegante todavia, muito séria, uma terrivel flôr de
_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador,
escrevinhador, politicote, impertigadote, já grisalho, duas vezes
ministro, e coberto de gran-cruzes...
--Tu não os viste em Paris, ultimamente?
--Não. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na
vespera para Vichy...
A porta abriu-se, um brado cavo resoou:
--Até que emfim, meu rapaz!
--Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.
E foi um infinito abraço, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um
beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega
arrastára uma cadeira, berrava pelo escudeiro:
--Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curaçáo? Em todo o caso café! Mais café!
Muito forte, para o snr. Alencar!
O poeta, no emtanto, abysmado na contemplação de Carlos, agarrára-o
pelas mãos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais
estragados. Achava-o magnifico, varão soberbo, honra da raça... Ah!
Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva...
--E Lisboa arraza! acudiu Ega. Já cá tive essa phrase. Vá, abanca, ahi
tens o cafésinho e a bebida!
Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais
bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e
aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela
tumultuosa passagem das emoções...
--Estás typico, Alencar! Estás a preceito para a gravura e para a
estatua!...
O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes
romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarellára. Que diabo,
algumas compensações havia de ter a velhice!... Em todo o caso o
estomago não era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de
coração.
--O que não impede, meu Carlos, que isto por cá esteja cada vez peor!
Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, é habito humano.
Já Horacio se queixava. E vocês, intelligencias superiores, sabeis bem,
filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, é claro, na quéda da
republica, n'aquelle desabamento das velhas instituições... Emfim
deixemos lá os Romanos! Que está alli n'aquella garrafa? Chablis... Não
desgosto, no outono, com as ostras. Pois vá lá o Chablis. E á tua
chegada, meu Carlos! e á tua, meu João, e que Deus vos dê as glorias que
mereceis, meus rapazes!...
Bebeu. Rosnou: «bom Chablis, _bouquet_ fino». E acabou por abancar,
ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.
--Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mão no hombro com carinho.
Não ha outro, é unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e
depois quebrou a fôrma.
Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os tão bons como elle.
A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do
mesmo macaco como affirmava o Darwin...
--Que, lá essas coisas d'evolução, origem das especies, desenvolvimento
da cellula, cá para mim... Está claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o
Claudio Bernard, o Littré, tudo isso, é gente de primeira ordem. Mas
acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova
sublimemente que tem alma!
--Toma o cafésinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena.
Toma o cafésinho!
--Obrigado!... E é verdade, João, lá dei a tua boneca á pequena. Começou
logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mãi,
aquelle _quid_ divino... É uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem
mãi, coitadinha, lá a tenho, lá vou tratando de fazer d'ella uma
mulher... Has de vêl-a. Quero que vocês lá vão jantar um dia, para vos
dar umas perdizes á hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?
--Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.
--Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac.
Isto ainda não é tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse
céo, para esse rio, homem!
--Com effeito é encantador!
Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do
rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o céo, esplendidamente
coberto de sol.
--E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta.
Abandonaste a lingua divina?
Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a lingua divina? O
novo Portugal só comprehendia a lingua da libra, da «massa». Agora,
filho, tudo eram syndicatos!
--Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por dentro, o velho homem
estremece... Tu não viste nos jornaes?... Está claro, não lês cá esses
trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada
aqui ao João. Ora eu t'a digo se me lembrar...
Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou a estrophe n'um tom de
lamento:
Luz d'esperança, luz d'amor,
Que vento vos desfolhou?
Que a alma que vos seguia
Nunca mais vos encontrou!
Carlos murmurou: «Lindo!» Ega murmurou: «Muito fino!» E o poeta,
aquecendo, já commovido, esboçou um movimento d'aza que foge:
Minh'alma em tempos d'outr'ora,
Quando nascia o luar,
Como um rouxinol que acorda
Punha-se logo a cantar.
Pensamentos eram flôres,
Que a aragem lenta de Maio...
--O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta.
Carlos ergueu os braços. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro,
abandonou-se á effusão de Carlos, balbuciando:
--Eu só hontem é que soube. Queria-te ir esperar, mas não me
acordaram...
--Então continúa o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca
te acordam?
Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella
longa separação. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado,
enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais
agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot.
--E deixa-me dar-te os parabens! Lá soube pelos jornaes, o triumpho, a
linda opera-comica, a _Flôr de Sevilha_...
--_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, não
desgostaram.
--Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica
toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas já lhe tenho
dito: «Deixa lá a opereta, rapaz, vôa mais alto, faze uma grande
symphonia historica!» Ainda ha dias lhe dei uma idéa. A partida de D.
Sebastião para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chôro do
povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, põe-se-me lá com castanholas...
Emfim, acabou-se, tem muito talento, e é como se fosse meu filho porque
me sujou muita calça!...
Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou
a Carlos que não se podia demorar, tinha um _rendez-vous_...
--D'amor?
--Não... É o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo.
--Com a lyra na mão?
--Não, respondeu o maestro, muito sério. Com a batuta... E estou de
casaca.
E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois
coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura
do collete.
--Estás magnifico! affirmou Carlos. Então outra coisa, vem cá jantar
logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com
socego... Ás seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho á
portugueza que encommendei de manhã, com cozido, arroz de forno, grão de
bico, etc., para matar saudades...
Alencar lançou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do
_Braganza_, francelhote miseravel, estaria á altura d'esses nobres
petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual ás seis para
uma grande saude ao seu Carlos!
--Vocês vão sahir, rapazes?
Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casarão.
O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Então elle partia
com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas...
Moço de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de côr, tudo por
acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca.
--E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E não
era só o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... Já não ha d'isso,
já lá vai tudo. Emfim, acabou-se, ás seis!
--Ás seis, em ponto, sem falhar!
Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi
a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de braço
dado, muito lentamente.
Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecêra,
havia quatro annos, quando lá passára um tão alegre inverno nos
appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o
curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray,
morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada
com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido,
desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento
do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E
outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris!
--Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa,
simples, pacata, corredia, é infinitamente preferivel.
Estavam no Loreto; e Carlos parára, olhando, reentrando na intimidade
d'aquelle velho coração da capital. Nada mudára. A mesma sentinella
somnolenta rondava em torno á estatua triste de Camões. Os mesmos
reposteiros vermelhos, com brazões ecclesiasticos, pendiam nas portas
das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e
deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapéo á faia
fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra á cabeça, meneavam os
quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos
fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros
vadios, de sobrecasaca, politicando.
--Isto é horrivel quando se vem de fóra! exclamou Carlos. Não é a
cidade, é a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles,
amarellada, acabrunhada!...
--Todavia Lisboa faz differença, affirmou Ega, muito sério. Oh, faz
muita differença! Has de vêr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar
uma volta á Avenida.
Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no
chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados ás
mesmas portas, sujeitos que lá deixára havia dez annos, já assim
encostados, já assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá
estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com
collarinhos á moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo,
tocou no braço de Carlos:
--Olha quem alli está, á porta do Baltresqui!
Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flôr ao peito,
mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente
embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois
velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar,
refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente,
achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha,
que se lhe esbrazeára.
--Olá, por cá!... Que grande surpreza!
Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e
esquecido.