--É verdade, Damaso... Como vai isso?

--Por aqui, n'esta semsaboria... E então com demora?

--Umas semanas.

--Estás no Ramalhete?

--No _Braganza_. Mas não te incommodes, eu ando sempre por fóra.

--Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no

_Continental_...

--Ah!... Bem, estimei vêr-te, até sempre!

--Adeus, rapazes. Tu estás bom, Carlos, estás com boa cara!

--É dos teus olhos, Damaso.

E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiração,

arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca,

o chapéo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo

supremo do seu querido _chic_, «uma d'essas coisas que só se vêem lá

fóra...»

--Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando

outra vez do braço de Carlos.

E foi um espanto para Carlos. O quê! O nosso Damaso! Casado!?... Sim,

casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um

rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo

Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava

agora os vestidos, das mais velhas.

--É bonita?

--Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico,

chamado Barroso.

--O quê, o Damaso, coitado!...

--Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vês, immensamente

ditoso, até tem engordado com a perfidia!

Carlos parára. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um

primeiro andar, recobertas, como em dia de procissão, de sanefas de pano

vermelho onde se entrelaçavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre

um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar

estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou

rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso:

--Se você for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra!

--Quem?

--A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapéo... Vá

depressa... O João Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a

fazendo estatelar no chão, foi uma scena... Vá depressa, homem!

Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, já

calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de

tão alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega,

no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:

--São rapazes do _Turf_. É um club novo, o antigo Jockey da travessa da

Palha. Faz-se lá uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E

como vês estão sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se

acaso passar por ahi o Senhor dos Passos.

Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda.

Fôra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes

depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil,

vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_

em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual

_virrsconde_? Ella não sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrrárra

no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda começa a

revelar-se um sêr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do

_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e

que é um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D.

Adosinda zanga-se, exclama que já fôra com elle a Cintra, que é um

perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_

empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E não cessou esta

gargalhada contínua, estrondosa, phrenetica, até ás cinco da manhã em

que D. Adosinda fôra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!

--Com effeito, disse Carlos rindo, é uma orgia grandiosa, lembra

Heliogabalo e o Conde d'Orsay...

Então Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na

Europa, em qualquer civilisação? Sempre queria vêr que se passasse uma

noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_,

ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O

que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada.

Ora na Europa o homem requintado já não ri,--sorri regeladamente,

lividamente. Só nós aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos

ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de

riso!...

--Que diabo estás tu a olhar?

Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela

taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Então

bruscamente os dois amigos recahiram nas recordações do passado. Que

estupidas horas Carlos alli arrastára, com a _Revista dos Dois Mundos_,

na espera vã dos doentes, cheio ainda de fé nas alegrias do trabalho!...

E a manhã em que o Ega lá apparecera com a sua esplendida pelliça,

preparando-se para transformar, n'um só inverno, todo o velho e

rotineiro Portugal!

--Em que tudo ficou!

--Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em

que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar

emfim o divan, movel de serralho?...

Carlos teve uma exclamação de saudade. Pobre marquez! Fôra uma das suas

fortes impressões, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez,

sabida de repente ao almoço, n'uma banal noticia de jornal!... E através

do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a

D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado

por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia

ao sahir dos cavallinhos...

--E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres?

--Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pé de

Richmond... Mas está muito avelhado, queixa-se muito do figado. E,

desgraçadamente, carrega de mais nos alcools. É uma pena!

Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha

agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre

apurado, já um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma

hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as

tardes na Havaneza, com um ar dôce e contente--«isto é um paiz perdido»!

Enfim um bom typosinho de lisboeta fino.

--E a besta do Steinbroken?

--Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!

E esta idéa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente.

Ega imaginava já o bom Steinbroken, têso nos seus altos collarinhos,

affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: «Oh, il est très fort,

il est excessivement fort!» Ou ainda, a proposito da batalha das

Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: «C'est très grave,

c'est excessivement grave!» Valia a pena ir á Grecia para vêr!

Subitamente Ega parou:

--Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... Já não é mau!

N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixára o Passeio Publico pacato

e frondoso--um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um

traço côr d'assucar na vibração fina da luz de inverno: e os largos

globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam,

transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.

Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos

e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde

negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e

preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos

renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora

se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa

«da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo

domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto

encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina

verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um

brusco remate campestre áquelle curto rompante de luxo barato--que

partira para transformar a velha cidade, e estacára logo, com o fôlego

curto, entre montões de cascalho.

Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a caliça; a divina

serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoçava. E os dois amigos

sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um

tanque esverdinhada e molle.

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flôres na

lapella, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro.

Era toda uma geração nova e miuda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega

murmurava um _ólá!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com

um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados áquelle vasto

espaço, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam

alli, ás horas de trabalho, aquelles moços tristes, de calça esguia? Não

havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de

lenço e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no

mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cãosinho felpudo. O

que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o

espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente

compridas, rompendo para fóra da calça collante com pontas aguçadas e

reviradas como prôas de barcos varinos...

--Isto é phantastico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples fôrma de

botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a

coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, á D. João VI, que tão

bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se á moderna:

mas sem originalidade, sem força, sem caracter para crear um feitio seu,

um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idéas, de

calças, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... Sómente, como lhe

falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia

de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo,

deforma-o, estraga-o até á caricatura. O figurino da bota que veio de

fóra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o

e aguça-o até ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor lê uma pagina

de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e

cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengonça a sua pobre

phrase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o

legislador ouve dizer que lá fóra se levanta o nivel da

instrucção;--immediatamente põe no programma dos exames de primeiras

letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a

chresmatica, a critica das religiões comparadas, e outros infinitos

terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e

profissões, desde o orador até ao photographo, desde o jurisconsulto até

ao _sportman_... É o que succede com os pretos já corrompidos de S.

Thomé, que vêem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste

ser civilisado e ser branco. Que fazem então? Na sua sofreguidão de

progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas,

claras, defumadas, até de côr. E assim andam pela cidade, de tanga, de

nariz no ar, aos tropeções, no desesperado e angustioso esforço de

equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e

immensamente brancos...

Carlos ria:

--De modo que isto está cada vez peor...

--Medonho! É d'um reles, d'um postiço! Sobretudo postiço! Já não ha nada

genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o pão que comemos!

Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento:

--Resta aquillo, que é genuino...

E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha,

com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do

sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as

atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e

pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades d'opa

atulhando os adros, herva dôce juncando as ruas, tremoço e fava-rica

apregoada ás esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto

ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o

castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado

em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a _bernarda_! E

abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes

decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazões nas

paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoção e a bisca,

arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa

fidalga!

Ega olhou um momento, pensativo:

--Sim, com effeito, é talvez mais genuino. Mas tão estupido, tão

sebento! Não sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos

para nós mesmos, ainda peor!

E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face:

--Espera... Olha quem ahi vem!

Era uma vittoria, bem posta e correcta, avançando com lentidão e estylo,

ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento.

Vinha lá sómente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com

uma pennugem no beiço, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com

um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou.

--Não conheces?

Carlos procurava, com uma recordação.

--O teu antigo doente! O Charlie!

O outro bateu as mãos. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia

velho!... E era bonitinho!

--Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre

com um velho... Mas elle vinha decerto com a mãi, estou convencido que

ella ficou por ahi a passear a pé. Vamos nós vêr?

Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o

Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o braço a uma

senhora muito forte, muito córada, que estalava n'um vestido de sêda cor

de pinhão. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido

e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da

sua sombra.

--Aquella aventesma é a mulher, contou Ega. Depois de varias paixões em

lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que é

dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe

uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, não o

tornei a vêr... Diz que a mulher que o derreia á pancada.

--Deus a conserve!

--Amen!

E então Carlos, que recordava a coça no Eusebio, o caso da _Corneta_,

quiz saber do Palma Cavallão. Ainda deshonrava o Universo com a sua

presença, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. Sómente

deixára a litteratura, e tornára-se _factotum_ do Carneiro, o que fôra

ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo braço; e era um bom

empenho em politica.

--Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da fórma que as coisas

vão, ainda ha de ser ministro... E isto está-se fazendo tarde,

Carlinhos. Vamos nós tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete?

Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha já um tom pallido.

Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou,

sacudiu ardentemente a mão no ar. E então Carlos exclamou, com uma

surpreza que já o assaltára essa manhã no _Braganza_:

--Ouve cá, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformação

foi essa?

Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em

primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o

unico portuguez genuino. Depois, através da contagiosa intrujice,

conservava uma honestidade resistente. Além d'isso havia n'elle

lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita

era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um

bocado de piteirice não lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no

estado a que descambára a litteratura, a versalhada do Alencar tomava

relevo pela correcção, pela simplicidade, por um resto de sincera

emoção. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel.

--E aqui tens tu, Carlinhos, a que nós chegamos! Não ha nada com efeito

que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos

trinta annos, do que este simples facto: tão profundamente tem baixado o

caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da

_Flôr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as proporções

d'um Genio e d'um Justo!

Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com

que commoção Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as

janellinhas abrigadas á beira do telhado, o grande ramo de girasoes

fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem,

Villaça appareceu á porta, calçando luvas amarellas. Estava mais gordo o

Villaça--e tudo na sua pessoa, desde o chapéo novo até ao castão de

prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi

directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa

dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a

mulher e o filho, guardando o casarão deserto. Depois felicitou-se de

vêr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar

no hombro de Carlos:

--Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um

banho ao Central e não me deitei. Olhe que é uma grande commodidade o

tal _sleeping-car_! Ah lá isso, em progresso, o nosso Portugal já não

está atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim?

--Não, obrigado, Villaça. Vamos dar uma volta pelas salas... Vá jantar

comnosco. Ás seis! Mas ás seis em ponto, que ha petiscos especiaes.

E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda lá se conservavam os

bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em

cima porém a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um

estofo, mostrando a cal lascada dos muros. Tapeçarias orientaes que

pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a

estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore,

ao metter o pésinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em

Paris: e outros caixões apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar,

levando as melhores faianças da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem

tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros

devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e além, sob a luz escassa,

um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma

friagem regelava. Ega levantára a gola do paletot.

No salão nobre os moveis de brocado côr de musgo estavam embrulhados em

lençoes d'algodão, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a

terebinthina e camphora. E no chão, na tela de Constable, encostada á

parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora

ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir

tambem, consummar a dispersão da sua raça...

--Vamos embora, exclamou Ega. Isto está lugubre!...

Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que

era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na

confusão das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric-à-brac_,

todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fogão, dominando

tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo

da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os

quatro Evangelistas prégando aos cantos, envoltos n'essas roupagens

violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos

immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que

entre trophéos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu pé de

cabra, outro perdera a sua frauta bucolica...

--Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte.

Um movel d'estes!...

Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto,

errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes,

bufetes da Renascença italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que

tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes

atirados em honra de Leonidas... Como tudo passára! De repente deu com o

pé n'uma caixa de chapéo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um véo,

luvas desirmanadas, uma meia de sêda, fitas, flôres artificiaes. Eram

objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados,

no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes

restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma

chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da

Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedaço solto de

tapeçaria. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as mãos,

ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinação, que lhe estragava a

alegria do dia.

--Vamos ao terraço! Dá-se um olhar ao jardim, e abalamos!

Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de

Affonso da Maia. A fechadura estava pêrra. No esforço de abrir a mão de

Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como

outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom côr de rosa, o lume

crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua

velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo

contra a palma da mão. A porta cedeu: e toda a emoção de repente findou,

na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar,

desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um pó vago que lhes

picava os olhos, os estonteava. Fôra o Villaça, que, seguindo uma

receita d'almanach, fizera espalhar ás mãos cheias, sobre os moveis,

sobre os lençoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta

branca! E estrangulados, sem vêr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois

continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os

desengonçavam.

Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma

janella. No terraço morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar

puro, alli ficaram de pé, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda

por um ou outro espirro retardado.

--Que infernal invenção! exclamou Carlos, indignado.

Ega, ao fugir com o lenço na face, tropeçára, batera contra um sofá,

coçava a canella:

--Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!...

Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os

largos sudarios brancos. E reconheceu que tropeçára na antiga almofada

de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fôra feito d'elle?

Carlos, que se sentára no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem

flôr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia,

resignado, e tão obeso que se não movia. E o Villaça, com uma idéa

poetica, a unica da sua vida de procurador, mandára-lhe fazer um

mausoléo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo

das janellas do quarto do avô.

Ega sentára-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio.

Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno,

tinha a melancolia de um retiro esquecido que já ninguem ama: uma

ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea;

o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e

mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a

gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela

marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do

Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um

tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado,

preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como já

devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho parára, transido

na larga friagem do ar; e nas janellas das casas á beira d'agua um raio

de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do

crepusculo, como um resto d'esperança n'uma face que se anuvia.

Então, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para

o longe, murmurou devagar:

--Mas tu d'esse casamento não tinhas a menor indicação, a menor

suspeita?

--Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha.

E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo

contára de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraços, em Santa

Apolonia. Maria Eduarda ia casar.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 52 / 53 段