do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de
cozinheiro na mão, ficára á porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio
de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo
quarto, com longos soluços que o sacudiam, voltava a cada instante,
n'uma derradeira e absurda esperança, palpar as mãos ou o coração do
velho. Com o jaquetão de velludilho, os seus grossos sapatos brancos,
Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito
estreito: entre o cabello de neve cortado á escovinha e a longa barba
desleixada, a pelle ganhára um tom de marfim velho, onde as rugas
tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de
pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim
descança; e ao deitarem-no uma das mãos ficára-lhe aberta e posta sobre
o coração, na simples e natural attitude de quem tanto pelo coração
vivêra!
Carlos perdia-se n'esta contemplação dolorosa. E o seu desespero era que
o avô assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um
adeus, uma dôce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado,
quando passára com a vela accêsa na mão. Já então elle ia andando para a
morte. O avô sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe
batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O avô sabia
tudo, d'isso morrera!
Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de
robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir:
--É necessario descer, é necessario vestir-nos.
Carlos balbuciou:
--Sim, vamo-nos vestir...
Mas não se arredava. Ega levou-o brandamente pelo braço. Elle caminhava
como um somnambulo, passando o lenço devagar pela testa e pela barba. E
de repente no corredor, apertando desesperadamente as mãos, outra vez
coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa:
--Ega, meu querido Ega! O avô viu-me esta manhã quando entrei! E passou,
não me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!...
Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal idéa. Que tolice! O avô tinha
quasi oitenta annos, e uma doença de coração... Desde a volta de Santa
Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era
absurdo ir agora fazer-se mais desgraçado com semelhante imaginação!
Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no
chão:
--Não! É estranho, não me faço mais desgraçado! Aceito isto como um
castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me só muito pequeno,
muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manhã pensava em
matar-me. E agora não! É o meu castigo viver, esmagado para sempre... O
que me custa é que elle não me tivesse dito _adeus_!!
De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero.
Ega levou-o para o quarto, como uma criança. E assim o deixou a um canto
do sofá, com o lenço sobre a face, n'um chôro contínuo e quieto, que lhe
ia lavando, alliviando o coração de todas as angustias confusas e sem
nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado.
Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Villaça lhe rompeu
pelo quarto de braços abertos.
--Então como foi isto, como foi isto?
Baptista mandára-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe
soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abraçára-o, coitadinho,
lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe só para se
entender em tudo com o Ega... E alli estava.
--Mas como foi, como foi, assim de repente?...
Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manhã no
jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas
tudo acabára!
Villaça levou as mãos á cabeça:
--Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi
appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! Não
foi mais nada! Foi isso!
Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no lenço:
--Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma
doença de coração.
Fallaram então do enterro, que devia ser simples como convinha áquelle
homem simples. Para depositar o corpo, emquanto não fosse trasladado
para Santa Olavia, Ega lembrára-se do jazigo do marquez.
Villaça coçava o queixo, hesitando:
--Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o
mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns
dias ficava lá perfeitamente. Assim não se pedia a ninguem, e eu tinha
n'isso muita honra...
Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de
chave do caixão. Por fim Villaça, olhando o relogio, ergueu-se com um
grande suspiro:
--Bem, vou dar esses tristes passos! E cá appareço logo, que o quero vêr
pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda
antes de hontem a jogar com elle... Até lhe ganhei tres mil reis,
coitadinho!
Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o lenço nos olhos.
Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado á escrivaninha,
diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna.
--Não posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras.
Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia:
«Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de
repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento,
Carlos nada mais póde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a
esta desgraçada noticia. Creia-me, etc.» Não o leu a Carlos. E como
Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoço n'uma
bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete á
rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega:
--É bom não esquecer as fardas de luto para os criados...
--O snr. Villaça já sabe.
Tomaram chá á pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes
a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas
horas quando chegaram os homens com o caixão para amortalhar o corpo.
Mas Carlos não permittiu que mãos mercenarias tocassem no avô. Foi elle
e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoção
sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre
de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura
de sua avó Runa. Á tarde, com auxilio de Villaça, que voltára «para dar
o ultimo olhar ao patrão», desceram-no ao escriptorio, que Ega não
quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as
estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto,
conservava a sua feição austera de paz estudiosa. Sómente, para depôr o
caixão, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de
velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima
o Christo de Rubens abria os braços sobre a vermelhidão do poente. Aos
lados ardiam doze castiçaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se
á cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco
de incenso em dois perfumadores de bronze.
Á noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne,
de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixão, só pôde
murmurar:--«E tinha menos sete mezes que eu!» O marquez veio já tarde,
abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flôres. Craft e o Cruges
nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a
primeira surpreza ao vêr fechado o portão do Ramalhete. O ultimo a
chegar foi o Sequeira, que passára o dia na quinta, e se abraçou em
Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos
injectados, balbuciando:--«Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem
não tardo!...»
E a noite de vigilia e pezames começou, lenta e silenciosa. As doze
chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os
amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco
a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalação das flôres forçaram o
Baptista a abrir uma das janellas do terraço. O céo estava cheio
d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim.
Já tarde Sequeira, que não se movera d'uma poltrona, com os braços
cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o á sala de jantar, a
reconfortal-o com um calice de cognac. Havia lá uma ceia fria, com
vinhos e dôces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a
desgraça na redacção da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um
pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o
passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas
emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo,
que balbuciou: «Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...»
Mexeu n'um prato, deu uma volta á mesa, sahiu. Assim vagamente foi até á
ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra
surgiu da escada. Dois braços enlaçaram-no. Era o Alencar.
--Nunca vim cá nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pés, como pela nave d'um
templo.
Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto
d'um divan ficára um grande cesto com uma corôa de flôres, sobre que
pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. Não lhe tocou, recolheu
ao escriptorio. Alencar, diante do caixão, com a mão pousada no hombro
do Ega, murmurava: «Foi-se uma alma de heroe!»
As velas iam-se consumindo. Um cansaço pesava. Baptista fez servir café
no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do
Cruges, do Taveira, do Villaça, rompeu a fallar tambem do passado, dos
tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'então:
--Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias,
almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este
desgraçado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Affonso da Maia!
Parece que o estou a vêr, á janella do palacio em Bemfica, com a sua
grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E
lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma
negra!
Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o
cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado
no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre
os braços cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve.
Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma
carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem
abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que,
no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o
passado, os companheiros desapparecidos:
--O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á
margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao
cemiterio. Adeus, não apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o
Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos,
onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O
conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de
violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila
que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as
janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os
cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas
carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos
de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia
com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a
friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O
correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a
rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do
Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando
papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava
uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as
mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o
_fumoir_ onde havia lume.
Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
--Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
--Não. Para que?... Para lhe dizer o que?
--Tudo.
Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brazas. E
Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
--Além d'isso, desejo que ella parta, que parta já para Paris... Seria
absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se não liquidar o que lhe pertence,
ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem
d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ámanhã,
para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
Ega murmurou:
--Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Villaça...
--Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer córar a pobre creatura
diante do Villaça?...
Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
--Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?...
--Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má
hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão á rua de S.
Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais
tarde era necessario trasladar para lá o corpo do avô...
--E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao Japão, vou fazer
esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_...
Encolheu os hombros, foi devagar até á janella, onde morria pallidamente
um raio de sol na tarde que clareára. Depois voltando para o Ega, que de
novo remexia os carvões:
--Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava
bem, mas não me atrevo!
Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos,
commovido:
--Atreve, que diabo... Porque não?
--Então vem!
Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na
face duas grandes lagrimas.
Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma
romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar á
mãi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante
para o luxo d'ambos», Ega atalhou muito sério:
--Não, não! Minha mãi tambem é rica. Uma viagem á America e ao Japão são
fórmas de educação. E a mamã tem o dever de completar a minha educação.
O que acceito, sim, é uma das tuas malas de couro...
Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaça, Carlos e Ega chegaram á
estação de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de
saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraçado
ás mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente
para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O
trem immediatamente rolou. Carlos debruçou-se á portinhola, gritando ao
Ega:--«Manda um telegramma ámanhã a dizer o que houve!»
Recolhendo ao Ramalhete com o Villaça, que ia n'essa noite colligir e
sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas
libras que elle devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda.
Villaça recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente,
entre amigos, não lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Além
d'isso Carlos fallára em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro
mil francos, cento e sessenta libras! Não achava tambem exagerado? Para
uma mulher, uma simples mulher...
Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
--Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem
ainda de ser muito estudado. Não fallemos n'isso. Eu nem gósto de fallar
d'isso!...
Depois como Ega alludia á fortuna que deixava Affonso da Maia--Villaça
deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. Só o que viera
da herança de Sebastião da Maia, representava bem quinze contos de
renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que lá fizera o pai
d'elle Villaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma
despeza. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado.
--Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfação, batendo no joelho do
Ega. E isto, amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo.
--Consola de muito, com effeito.
Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar
feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagára. Na
ante-camara, os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os
que se dão n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso
e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente.
--Já anda aqui um ar de ruina, Villaça.
--Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um
olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as mãos, arrepiado da
friagem da noite.
Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram
aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove
horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e
morreu. Villaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que
ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final
de dois annos de mocidade...
Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo,
no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza
infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se,
gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim,
reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de
luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão
tremula.
Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso,
arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o,
furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fôfa a
roçar o chão: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas
pernas do Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o
d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e
que não tornára a apparecer.
Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse essa noite no
Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do
gato a chorar. Deixára o montão de papeis sobre a mesa, voltára a
aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se
sentára, ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de D.
Diogo, murmurou devagar, gravemente:
--Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras
obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes
aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros
e lendas... Pois fataes foram!
No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e
libras que Villaça lhe entregára á porta do Banco de Portugal, Ega, com
o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise
serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos,
de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da
sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da
Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro,
estendendo-lhe as mãos ambas.
--Então Carlos?
Ega balbuciou:
--Como v. exc.^a póde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel,
assim de surpreza...
Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não conhecia o snr.
Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por
sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o
avô!
--Foi de repente, não?
Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que ella mandára.
Contou os gemidos, a afflicção do pobre Bonifacio...
--E Carlos? repetiu ella.
--Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa
Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a
mais, diante d'aquella partida tão arrebatada, quasi parecida com um
abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança
que não sentia:
--Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos outros...
Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dôr, tão
humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os
dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim
ergueu-se, foi á janella, voltou, abriu os braços diante d'ella n'uma
afflicção:
--Não, não é isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra
coisa! Tem sido para nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma
toda suspensa.
Ega respirou fortemente:
--V. exc.^a lembra-se d'um Guimarães, que vive em Paris, um tio do
Damaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
--Esse Guimarães era muito conhecido da mãi de v. exc.^a, não é verdade?
Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava
ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o dilacerava:
--Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu...
Deus sabe o que me custa!... E é horrivel, nem sei por onde hei de
começar...
Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia:
--Pelo amor de Deus!
E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do
reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braços. A mãi teve
um grito impaciente:
--Vai lá p'ra dentro! deixa-me!
Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente
cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande
chôro magoado.
Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar.
--V. exc.^a conhece a letra de sua mãi, não é verdade?... Pois bem! Eu
trago aqui uma declaração d'ella a seu respeito... Esse Guimarães é que
tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas
vesperas da guerra... Elle conservou-os até agora, e queria
restituir-lh'os, mas não sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma
carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro, v. exc.^a
deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois
bem! o Guimarães veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe
esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras
palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que
v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
Atabalhoára esta historia de pé, quasi d'um fôlego, com bruscos gestos
de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. Só
pôde murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo emmudeceu,
assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruçado sobre o sofá,
desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou
para ella com um papel na mão, atropellando as palavras n'uma debandada:
--A mãi de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave...
Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim
brutalmente, perdôe-me v. exc.^a, mas não é o momento de attenuar as
coisas... Aqui está! V. exc.^a conhece a letra de sua mãi. É d'ella esta
letra, não é verdade?
--É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
--Perdão! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho!
E v. exc.^a não se póde inteirar de tudo isto emquanto eu não sahir
d'aqui.
Fôra uma inspiração providencial, que o salvava de testemunhar o choque
terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe
alli todos os papeis que eram de sua mãi. Ella lería, quando elle
sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os
dois pesados rôlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre
Paris, pôz tudo em cima da mesa, com a declaração da Monforte.
--Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve
fazer já é partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha
de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora é a
sua... N'este masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para as
despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou já um wagon-salão.
Quando v. exc.^a decidir partir, peço-lhe que mande um recado ao
Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que é tudo. E agora devo
deixal-a...
Agarrára rapidamente o chapéo, veio tomar-lhe a mão inerte e fria:
--Tudo é uma fatalidade! V. exc.^a é nova, ainda lhe resta muita coisa
na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais
nada!