que percebia a fórma e o calor suave, através da sêda leve: e alli
esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde
toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas
a sensação d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um
suspiro, um pequenino suspiro de criança, fugiu dos labios de Maria,
morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella,
que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado
na terra a seus pés. Ainda balbuciou: «não, não...» Mas ella estendeu os
braços, envolveu-lhe o pescoço, puxando-o para si, n'um murmurio que era
como a continuação do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e
tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle
cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um
beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a
furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paixão e n'um desespero que
fez tremer todo o leito.
A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o
cansaço o prostrára. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos até ao
escriptorio de Affonso.
Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar,
enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com
Steinbroken e com o Villaça: mas tão distrahido, tão confuso, que já
duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosnára que se a dôr de cabeça
assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho
levantou os olhos inquietos:
--O Carlos? Sahiu?...
--Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir
vêr o marquez.
Villaça, que baralhava com a sua lentidão meticulosa, deitou tambem para
o Ega um olhar curioso e vivo. Mas já D. Diogo batia com os dedos no
pano da mesa, resmungando:--«Vamos lá, vamos lá... Não se ganha nada em
saber dos outros!» Então Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos,
seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir
lêr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho
numero do _Panorama_.
Ao outro dia, á hora do almoço, entrou no quarto de Carlos. E ficou
pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando
desgosto--lhe disse que Carlos fôra para a Tapada, muito cedo, a
cavallo...
--Ora essa!... E não deixou ordens nenhumas, não fallou em ir para Santa
Olavia?...
Baptista olhou Ega, espantado:
--Para Santa Olavia!... Não senhor, não fallou em semelhante coisa. Mas
deixou uma carta para v. exc.^a vêr. Creio que é do snr. marquez. E diz
que lá apparecia depois, ás seis... Acho que é jantar.
N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia
era «o seu fausto natalicio», e esperava Carlos e o Ega ás seis, para
lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta.
--Bem, lá nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim.
Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos
jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida
facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fôra
á rua de S. Francisco. Justos céos! Que se teria lá passado? Subiu,
ouvindo a sineta do almoço. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso
da Maia tomára uma chavena de chá no quarto e ainda estava recolhido.
Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoçou solitariamente
na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_.
De tarde, ás seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoço enrolado
n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o
Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o
procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o
Telles n'uma partida de damas.
--Viste o avô? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a mão.
--Não, almocei só.
O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os
soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais
do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimação sombria a
uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre
falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim á
sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815.
Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a
cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma
«sorte de cabrão», como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a
sua ultima nota de vinte mil reis. Á meia noite porém, inexoravelmente,
o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marcára esse
limite «ao natalicio». Foi então um enfiar de paletots, em debandada,
por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem
sequer um troco para o «americano». Fez-se-lhes uma subscripção de
caridade, que elles recolheram nos chapéos, rosnando bênçãos aos
bemfeitores.
Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito
tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi já ao
meio do Aterro que Ega pareceu despertar:
--E então por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes?
Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de
cansaço:
--Talvez vá ámanhã... Ainda não disse nada, ainda não fiz nada... Decidi
dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... Não se póde
agora fallar com este barulho das rodas.
De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto.
Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se
exhausto e com uma intoleravel dôr de cabeça:
--Ámanhã fallamos, Ega... Boa noite, sim?
--Até ámanhã.
Alta noite Ega acordou com uma grande sêde. Saltára da cama, esvaziára a
garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de
Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos
lençoes. Mas espertára inteiramente, com uma idéa estranha, insensata,
que o assaltára sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o coração no
grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo
batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. Não podia
porém readormecer, ás voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella idéa
cravada na imaginação que o torturava. Então, desesperado, pulou da
cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a mão diante da
luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou,
tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperança de perceber
algum calmo rumor de respiração. O silencio era pesado e pleno. Ousou
entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira.
Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra
do lençol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora não
duvidava. Carlos fôra findar a noite á rua de S. Francisco!... Estava
lá, dormia lá! E só uma idéa surgia através do seu horror--fugir,
safar-se para Celorico, não ser testemunha d'aquella incomparavel
infamia!...
E o dia seguinte, terça-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado,
n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo,
esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladrão, foi almoçar ao
Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no
break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se não
encontrar só á mesa com o avô. Ega jantou melancolicamente no Universal.
Só entrou no Ramalhete ás nove horas, vestir-se para a _soirée_ da
Gouvarinho, que pela manhã no Loreto parára a carruagem para lhe lembrar
«que era a festa do Charlie». E foi já de paletot, de _claque_ na mão,
que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e
Carlos se installára n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber
se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho...
--Diverte-te!
--Sê faiscante!
--Eu lá appareço para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona
com o _Figaro_.
Eram duas horas da manhã quando Ega recolheu da _soirée_--onde por fim
se divertira n'uma desesperada flirtação com a baroneza d'Alvim, que á
ceia, depois do champagne, vencida por tanta graça e tanta audacia, lhe
tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela,
Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria lá? Mas teve
vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a
fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pôz
cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E começava a despir-se,
quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito
pesados, que se adiantavam, findaram á sua porta em suspensão e
silencio. Assustado, gritou: «Que é lá?» A porta rangeu. E appareceu
Afonso da Maia, pallido, com um jaquetão sobre a camisa de dormir, e um
castiçal onde a vela ia morrendo. Não entrou. N'uma voz enrouquecida,
que tremia:
--O Carlos? esteve lá?
Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. Não sabia... Estivera
apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido
mais tarde com o Taveira, para a ceia.
O velho cerrára os olhos, como se desfallecesse, estendendo a mão para
se apoiar. Ega correu para elle:
--Não se afflija, snr. Affonso da Maia!
--Que queres então que faça? Onde está elle? Lá mettido, com essa
mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso,
mas quiz acabar esta angustia... E esteve lá hontem até de manhã, está
lá a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou
viver até agora!
Teve um grande gesto de revolta e de dôr. De novo os seus passos, mais
pesados, mais lentos, se sumiram no corredor.
Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se
despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro
dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o
avô, e o forçava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a não
testemunhar por mais tempo.
Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da
cama, ás braçadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em
mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos
de cólera lembranças da _sóirée_ da vespera, certos olhares da Alvim,
certas esperanças que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol
dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraça, respirar, olhar o bello
azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E já Celorico, a
quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao
baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que
escarvava a calçada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia
sahir cedo--para não se encontrar com elle e com o avô!
N'um receio de o não apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos
aferrolhára-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro não tugiu. Por
fim Ega bateu, gritou através da porta, sem esconder a sua irritação:
--Tem a bondade d'escutar!... Então partes para Santa Olavia, ou quê?
Depois d'um instante, Carlos lançou de lá, entre um rumor d'agua que
cahia:
--Não sei... Talvez... Logo te digo...
O outro não se conteve mais:
--É que se não pôde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha
mãi... E se não partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico... É
absurdo! Já estamos n'isto ha tres dias!
E quasi se arrependia já da sua violencia, quando a voz de Carlos se
arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica:
--Por quem és, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te
digo...
N'uma d'aquellas subitas emoções de nervoso, que o sacudiam--os olhos do
Ega humedeceram. Balbuciou logo:
--Bem, bem! Eu fallei alto por ser através da porta... Não ha pressa!
E fugiu para o quarto, cheio só de compaixão e ternura, com uma grossa
lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos
se debatera, sob o despotismo d'uma paixão até ahi legitima, e que n'uma
hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu
encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle não pudera estacar
n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um
vendaval! Cedera, cedera, continuára a rolar áquelles braços, que
innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado,
escorraçado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos
seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar
olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre
Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dôr! Podia elle, hospede
querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraça
quebrára sobre essa casa, onde o acolhiam affeições mais largas que na
sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no
seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra
vez a roupa dentro da commoda, com a mesma cólera com que a desmanchára,
rosnando:
--Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!...
Quando desceu, já vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista,
tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto,
deteve-o para lhe murmurar:
--Tinha v. exc.^a razão... Partimos ámanhã para Santa Olavia e levamos
roupa para muito tempo... Este inverno começa mal!
N'essa madrugada, ás quatro horas, em plena escuridão, Carlos cerrára de
manso o portão da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se
d'elle, na frialdade da rua, o medo que já o roçára, ao vestir-se na
penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao
Ramalhete! Era esse medo que já na vespera o trouxera todo o dia por
fóra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges,
escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do avô, medo do Ega, medo
do Villaça; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava;
medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o
reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo...
Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite
fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separação tão alta
como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que
eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dôr da infamia em
que elle se despenhára. A sua vida moral estava estragada... Então, para
que partiria--abandonando a paixão, sem que por isso encontrasse a paz?
Não seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e
divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o
sempre abysmar-se n'esse crime que se tornára a sua sombria partilha na
terra?
Já assim pensára na vespera. Já assim pensára... Mas antevira então um
outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solidão onde se
sepultasse. Já lhe percebera mesmo a aproximação; já n'outra noite
recebera d'elle um arrepio; já n'essa noite, deitado junto de Maria, que
adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro
frio d'agonia.
Era, surgindo do fundo do seu sêr, ainda tenue mas já perceptivel, uma
saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!...
Uma repugnancia material, carnal, á flôr da pelle, que passava como um
arrepio. Fôra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava
entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava
tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se
encharcára em agua de Colonia para o dissipar. Fôra depois aquelle corpo
d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe
apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de
grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do
animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre tão macio, sentia agora
inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda
n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e
ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braços o
enlaçavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva,
ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas,
apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi começava
insensivelmente a recuar para a borda do colchão, com um susto estranho:
e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza,
esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma
casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua,
flôr de graça domestica, pequenina, timida, pudica, que não soltasse
aquelles gritos lascivos, e não usasse esse aroma tão quente! E
desgraçadamente agora já não duvidava... Se partisse com ella, seria
para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que
lhe restaria então, morta a paixão que fôra a desculpa do crime, ligado
para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... Só lhe restava
matar-se!
Mas, tendo por um só dia dormido com ella, na plena consciencia da
consanguinidade que os separava, poderia recomeçar a vida
tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e força para apagar dentro
em si essa memoria--ella não morreria no coração do avô, e do seu amigo.
Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando
tudo. A existencia d'ora ávante só lhe offerecia intoleravel amargôr...
Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o
podesse consolar! Quando chegou á porta de casa o seu desejo unico era
atirar-se aos pés d'um padre, aos pés d'um santo, abrir-lhe as miserias
do seu coração, implorar-lhe a doçura da sua misericordia! Mas ai! onde
havia um santo?
Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta.
Pé ante pé, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo côr de cereja. No
patamar tacteava, procurava a vela--quando, através do reposteiro
entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto.
Nervoso, recuou, parou no recanto. O clarão chegava, crescendo: passos
lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o
avô em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos não se
moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados,
cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o até
ás profundidades d'alma, lendo lá o seu segredo. Depois, sem uma
palavra, com a cabeça branca a tremer, Affonso atravessou o patamar,
onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos
perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais
sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!
Carlos entrou no quarto ás escuras, tropeçou n'um sofá. E alli se deixou
cahir, com a cabeça enterrada nos braços, sem pensar, sem sentir, vendo
o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma,
com a luz avermelhada na mão. Pouco a pouco foi-o tomando um cansaço,
uma inercia, uma infinita lassidão da vontade, onde um desejo apenas
transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar
algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao
pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque
não iria ao seu encontro? Alguns grãos de laudano n'essa noite e
penetrava na absoluta paz...
Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta idéa que lhe dava allivio e
consolo, como se, escorraçado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos
seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um
rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia.
Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou
na cama, enterrou a cabeça no travesseiro para recahir na doçura
d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e não sentir mais nas
horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra.
O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto:
--Ó snr. D. Carlos, ó meu menino! O avô achou-se mal no jardim, não dá
accordo!...
Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarrára. Na ante-camara
a governante, debruçada no corrimão, gritava, afflicta:--«Adiante, homem
de Deus, ao pé da padaria, o snr. dr. Azevedo!» E um moço que corria,
com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar:
--Ao fundo, ao pé da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!...
Affonso da Maia lá estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do
cedro, sentado no banco de cortiça, tombado por sobre a tosca mesa, com
a face cahida entre os braços. O chapéo desabado rolára para o chão; nas
costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em
volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, côr d'ouro,
o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha
o seu choro lento.
Arrebatadamente, Carlos levantára-lhe a face, já rigida, côr de cera,
com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de
neve. Depois cahiu de joelhos no chão humido, sacudia-lhe as mãos,
murmurando:--«Ó avô! ó avô!»--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua:
--Chamem alguem! chamem alguem!
Outra vez lhe palpava o coração... Mas estava morto. Estava morto, já
frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira tão
formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli
morrera solitariamente, já o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra
onde deixára pender a cabeça cansada.
Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no
robe-de-chambre. Carlos abraçou-se n'elle, tremendo todo, n'um chôro
despedaçado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante,
como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as mãos na cabeça:--«Ai
o meu rico senhor, ai o meu rico senhor!»
Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que
felizmente encontrára na rua. Era um rapaz, apenas sahido da Escóla,
magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em
redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos,
que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo
descalçado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentidão, uma
minuciosidade que exagerava, á medida que sentia em volta, mais anciosos
e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de
Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos
technicos... De resto, dizia, já o collega se teria compenetrado de que
tudo infelizmente findára. Elle sentia das véras da alma o desgosto...
Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer...
--Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos.
Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe
indicar a porta do jardim.
Carlos no emtanto ficára defronte do velho, sem chorar, perdido apenas
no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do avô, do avô vivo e forte,
cachimbando ao canto do fogão, regando de manhã as roseiras,
passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e
negra... E era então um desejo de findar tambem, encostar-se como elle
áquella mesa de pedra, e sem outro esforço, nenhuma outra dôr da vida,
cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos
grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os
passaros, um momento espantados, tinham recomeçado a chalrar. Ega veio a
Carlos, tocou-lhe no braço:
--É necessario leval-o para cima.
Carlos beijou a mão fria que pendia. E, devagar, com os beiços a tremer,
levantou o avô pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar;
Ega, embaraçado no seu largo roupão, segurava os pés do velho. Através
do jardim, do terraço cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona
esperava diante do lume accêso, foram-o transportando n'um silencio só
quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas,
acudiam quando Carlos, na sua perturbação, ou o Ega fraquejavam sob o
peso do grande corpo. A governante já estava no quarto d'Affonso com uma
colcha de sêda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E
alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sêda azul.