E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza

da sua desgraça. O avô, testemunha do passado, nada sabia! Aquella

declaração, toda a historia do Guimarães ahi permaneciam inteiras,

irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto,

que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irmã!... E um

defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma

dôr--nascida da mesma idéa.

Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado á bengala, foi pousar

sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, ás

cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente,

passando a mão pela testa:

--Nada mais sei... Sempre pensamos que essa criança tinha morrido...

Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido

a filha, mostrou já não sei a quem um retrato...

--Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimarães

fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha já sete a oito

annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano

apparecera em Lisboa... Foi esta.

--Foi esta, murmurou o velho.

Teve um gesto vago de resignação, acrescentou, depois de respirar

fortemente:

--Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a

chamar o Villaça... Talvez seja necessario que elle vá a Paris... E

antes de tudo precisamos socegar... De resto não ha aqui morte

d'homem... Não ha aqui morte d'homem!

A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a mão a Carlos que lh'a

beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os

labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, tão lentos e

incertos que Ega correu para elle:

--Tome v. exc.^a o meu braço...

Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara

silenciosa onde a chuva contínua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu

o grande reposteiro com as armas dos Maias. E então Affonso, de repente,

soltando o braço do Ega, murmurou-lhe, junto á face, no desabafo de toda

a sua dôr:

--Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o

verão nos Olivaes... É a amante d'elle!

Ega ainda balbuciou: «Não, não, snr. Affonso da Maia!» Mas o velho pôz o

dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se,

todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel

destino que depois de o ter ferido na idade de força com a desgraça do

filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto.

Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomeçára

n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente

os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa,

Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de

marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e

de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle,

apertando desesperadamente as mãos:

--Estarem duas creaturas em pleno céo, passar um quidam, um idiota, um

Guimarães, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para

sempre duas existencias!... Olha que isto é horrivel, Ega!

Ega arriscou uma consolação banal:

--Era peor se ella morresse...

--Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o

motivo d'esta paixão, restava a dôr e a saudade, era outra coisa...

Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paixão que nos

unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella é minha irmã,

eu gósto menos d'ella do que gostava hontem, ou gósto d'um modo

differente? Está claro que não! O meu amor não se vai d'uma hora para a

outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade...

Nunca! Nem eu quero!

Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, não querendo morrer,

só porque as revelações d'um Guimarães e uma caixa de charutos cheia de

papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse!

Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se

enterrar ao canto do sofá. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda

aquella emoção, da noitada no Augusto, da estremunhada manhã na alcova

da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, á luz mais triste da tarde

d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa

o sacudiu outra exclamação de Carlos, que de novo, diante d'elle,

apertava as mãos com desespero:

--E o peor ainda não é isto, Ega! O peor é que temos de lhe dizer tudo,

de lhe contar tudo, a ella!...

Ega já pensára n'isso... E era necessario que se lhe dissesse

immediatamente, sem hesitações.

--Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos.

--Tu!?

--Pois quem, então? Querias que fosse o Villaça?...

Ega franzia a testa:

--O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir

para Santa Olavia. De lá contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro.

Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga:

--Sim, talvez, ámanhã, no comboio da noite... Já pensei n'isso, era o

melhor... Agora o que estou é muito cansado!

--Tambem eu, disse o Ega espreguiçando-se. E já não adiantamos nada,

atolamo-nos mais na confusão. O melhor é serenar... Eu vou-me estirar um

bocado na cama.

--Até logo!

Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso

cansaço bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era

Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a

campainha para o jantar.

--Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas

no toucador. Não termos um pretexto para irmos fóra, a uma taverna,

conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken.

Depois voltando-se:

--Ó Ega, tu achas que o avô sabe tudo?

O outro saltára da cama, e diante do lavatorio arregaçava as mangas:

--Eu te digo... Parece-me que teu avô desconfia... O caso fez-lhe a

impressão d'uma catastrophe... E, se não suspeitasse o que ha, devia-lhe

causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida.

Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar.

Em baixo encontraram, além de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que

viera «pedir as sopas». E em tôrno áquella mesa, sempre alegre, coberta

de flôres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde através

d'uma conversa dormente sobre doenças,--o Sequeira que tinha

rheumatismo, o pobre marquez peorára.

De resto Affonso, no escriptorio, queixára-se d'uma forte dôr de cabeça,

que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem

Steinbroken achára «má cara», explicou tambem que passára uma noite

abominavel. Então Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo

Steinbroken as suas impressões sobre o grande orador do sarau da

Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber

que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o

bocado da camisa a vêr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas,

não lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado:

--Mais cependant, cependant... Dans ce genre là, dans le genre sublime,

dans le genre de Demosthènes, il m'a paru très fort... Oh, il m'a paru

excessivement fort!

--E você, Craft?

Craft, no sarau, só gostára do Alencar. Ega encolheu violentamente os

hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia

romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco

como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft

justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria

sempre nas exhibições da litteratura portugueza? A escandalosa falta de

sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia jámais acreditar

n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fôra na

vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religião; nem o

homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem

mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo

contrafeito e postiço! Com o Alencar, que differença! Esse tinha uma fé

real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano,

na Democracia devota e coroada d'estrellas...

--Já deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava

bolinhas de pão entre os longos dedos pallidos.

Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio:

--O Alencar deve ter bons cincoenta annos.

Ega jurou pelo menos sessenta. Já em 1836 o Alencar publicava coisas

delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que

seduzira...

--Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar

d'esse homem!

D. Diogo, que levára os labios ao copo, voltou-se para Carlos:

--O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa

roda _distinguée_ d'então. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D.

João da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flôr, e

regulavam pela mesma idade... Já nada resta, já nada resta!

Carlos baixára os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza

passou entre as flôres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado,

cheio de sepulturas e dôres.

--E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir

aquella nevoa.

Craft achava o fiasco justo. Para que fôra elle dar Beethoven a uma

gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega não admittia esse

desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestações modernas do

scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de não saber

contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por

sustentar que nada havia em arte tão bello como o _fado_. E appellou

para Affonso, para o despertar.

--Pois não é verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem é como eu,

um dos fieis ao fado, á nossa grande creação nacional.

--Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a mão á testa, como a

justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no

fado...

Craft porém atacava o fado, as _malagueñas_, as _peteneras_--toda essa

musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo,

prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguiça. Elle,

por exemplo, ouvira uma noite uma _malagueña_, uma d'essas famosas

_malagueñas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era

em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora põe-se ao piano, rosna uma

coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que não

findava--_ã-ã-ã-ã-ã-ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para

outra sala, vê jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album,

discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, lá

estava ainda a senhora, de cravos na trança e olhos no tecto, a gemer o

mesmo--_ã-ã-ã-ã-ã-ah!_...

Todos riram. Ega protestou com impeto, já excitado. O Craft era um sêcco

inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de

comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle não

fallava das _malagueñas_. Não estava encarregado de defender a Hespanha.

Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante

pilheria e bastante navalha... A questão era o _fado_!

--Onde é que você tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com

effeito assim, concordo, é chôcho. Mas ouça-o você por tres ou quatro

guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no céo... Como nos

Olivaes este verão, quando o marquez lá levou o _Vira-vira_! Lembras-te,

Carlos?...

E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_

que levianamente evocára. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra

na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os

sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma

estranha desanimação amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dôces.

Então, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade

de leão saudoso que relembra um grande passado:

--Uma musica tambem muito _distinguée_ antigamente eram os _Sinos do

mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... Já não ha

d'isso!

O jantar terminava friamente. Steinbroken voltára áquella falta da

familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se

interessava pelo Paço. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa

historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro

trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada.

Ao fim do café, servido no bilhar, Steinbroken e Craft começaram uma

partida «ás cincoenta» e a quinze tostões para interessar. Affonso e D.

Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterrára-se no fundo d'uma

poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no

tapete, cerrou os olhos. Então Carlos, que passeava pensativamente

fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do

reposteiro.

Ia á rua de S. Francisco.

Mas não se apressava, a pé pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles,

acabando o charuto. A noite clareára, com um crescente de lua entre

farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino.

Fôra n'essa tarde, só no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a

Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de razão, que elle

descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar.

Nem ella nem elle eram duas crianças frouxas, necessitando que a crise

mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou

pelo Villaça: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e

o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da

dignidade e da razão n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a

existencia. Por isso elle, só elle, devia ir á rua de S. Francisco.

Decerto era terrivel tornar a vêl-a n'aquella sala, quente ainda do seu

amor, agora que a sabia sua irmã... Mas porque não? Havia acaso alli

dois devotos, possuidos da preoccupação do demonio, espavoridos pelo

peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos

por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do

outro? Não! Necessitavam elles acaso pôr immediatamente entre si as

compridas legoas que vão de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir

na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem

brilhando com a antiga chamma? Não! Ambos tinham em si bastante força

para enterrar o coração sob a razão, como sob uma fria e dura pedra, tão

completamente que não lhe sentissem mais nem a revolta nem o chôro. E

elle podia desafogadamente voltar áquella sala, toda quente ainda do seu

amor...

De resto, que precisavam appellar para a razão, para a sua coragem de

fortes?... Elle não ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria

Eduarda, dizer-lhe um «adeus!» pathetico, um adeus de theatro, affrontar

uma crise de paixão e dôr. Pelo contrario! Toda essa tarde, através do

seu proprio tormento, procurára anciosamente um meio de adoçar e graduar

áquella pobre creatura o horror da revelação que lhe devia. E achára um

por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que

por uma preparação lenta, caridosa, lhe pouparia uma dôr fulminante e

brutal. E esse meio justamente só era praticavel indo elle, com toda a

frieza, com todo o animo, á rua de S. Francisco.

Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia,

retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe

diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que

um negocio de casa, uma complicação de feitores o obrigava a partir para

Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de

correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar--«é um momento, não

tardo, até já.» Uma coisa o inquietava. Se ella lhe désse um beijo?...

Decidia então exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bôca, sem

mesmo pousar o chapéo... E sahia. Não voltava. Pobre d'ella, coitada,

que ia esperar até tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!...

Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a

ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma,

se vira forçado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--«volto

d'aqui a dois ou tres dias...» E ahi estava longe d'ella para sempre. De

Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de

documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles

um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, «á pressa». Por fim

n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declaração

da mãe; e mostrando a necessidade d'uma separação, emquanto se não

esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris.

Villaça ficava encarregado da questão de dinheiro, entregando-lhe logo

para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem

complicado, bem covarde! Mas só havia esse meio. E quem, senão elle, o

podia tentar com caridade e com tacto?

E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa

da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, através das

cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a

janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto

d'ella com os vasos de chrysantemos.

E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto,

uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente

penetrando da inquietação e desconfiança. Era um medo d'essa penumbra

molle que sentia lá dentro, toda cheia de calor e do perfume em que

havia jasmim. Não entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro,

pensando em certos detalhes da casa--o sofá largo e profundo com

almofadas de sêda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama

d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do

portão do Gremio; e foi para lá, machinalmente attrahido pela

simplicidade e segurança d'aquella entrada, lageada de pedra, com

grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes.

Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os

telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac.

Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as mãos nos bolsos

do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na terça-feira

aos Gouvarinhos.

--Talvez, murmurou Carlos.

--Então venha!... Eu ando a arrebanhar gente... São os annos do Charlie,

de mais a mais. Cae lá o peso do mundo, e ha ceia!...

O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de pé junto da mesa, remexendo

o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a

condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia

o sofá onde ella cahira com um rumor de sêdas amarrotadas... Como tudo

isto era já vago e remoto!

Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, não via

aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo

nos vidros. O portão ficára cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu,

sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do coração que o pousar

dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um

pouco cansada, se fôra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito,

parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o

bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo

orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour

de renda amarella.

Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietação

ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de

dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braços

abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: «Lá

vem a cabrita!...»

Mas então, quando a tinha assim suspensa, batendo os

pésinhos--atravessou-o a idéa de que aquella criança era sua sobrinha e

tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para

ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde

corria o seu sangue...

--Que estás tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com

as mãosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam.

Elle não sabia, parecia-lhe outra Rosa: e á sua perturbação misturava-se

uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame

Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem

balouçava na _Toca_ sob as acacias em flôr. Ella no emtanto sorria mais,

com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues,

vendo-o assim tão grave e tão mudo, pensando que elle ia brincar, fazer

«voz de Carlos Magno». Tinha o mesmo sorriso da mãi, com a mesma covinha

no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graça de Maria, todo o

encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braços, tão violentamente,

com beijos tão bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou,

assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de não ter sido

casto... Depois, muito sério:

--Onde está a mamã?

Rosa coçava o braço, com a testasinha franzida:

--Apre!... Magoaste-me.

Carlos passou-lhe pelos cabellos a mão que ainda tremia.

--Vá, não sejas piegas, a mamã não gosta. Onde está ella?

A pequena, aplacada, já contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos

de Carlos para que elle saltasse tambem...

--A mamã foi deitar-se... Diz que está muito cansada, depois chama-me a

mim preguiçosa... Vá, salta tambem. Não sejas mono!...

N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou:

--Mademoiselle!...

Rosa pôz o dedinho na bôca cheia de riso:

--Dize-lhe que não estou aqui! A vêr... Para a fazer zangar!... Dize!

Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida

por traz de Carlos, na pontinha dos pés, fazendo-se pequenina. Teve um

sorriso benevolo, murmurou «good night, sir». Depois lembrou que eram

quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia

recolher-se. Então Carlos puxou brandamente pelo braço de Rosa,

acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah.

Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traição.

--Tambem nunca fazes nada!... Semsaborão! Pois olha, nem te digo adeus!

Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repellão á governante que

sorria e lhe estendia a mão--e pelo corredor rompeu n'um chôro

despeitado e pêrro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era

a constipação que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mamã

não fazia aquillo, não!

--Good night, sir.

--Good night, miss Sarah...

Só, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedaço de

tapeçaria que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na

escuridão, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio

do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto.

--Maria!... Estás a dormir?

Não havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, através do transparente

erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o

leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada:

--Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas são?

Carlos não se movera, ainda com a mão na porta:

--É tarde, e eu preciso sahir já a procurar o Villaça ... Vinha dizer-te

que tenho talvez de ir a Santa Olavia, além d'ámanhã, por dois ou tres

dias...

Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito.

--Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente...

Entra!... Vem cá!

Então Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger

molle do leito. E já todo aquelle aroma d'ella que tão bem conhecia,

esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma

seducção inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas

ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o

Villaça.

--É uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas...

Tocou no leito; e sentou-se muito á beira, n'uma fadiga que de repente o

enleára, lhe tirava a força para continuar essas invenções d'aguas e de

feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover.

O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roupão branco de sêda,

movia-se, espreguiçava-se languidamente sobre o leito brando.

--Achei-me tão cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiça... Mas

então partires assim de repente!... Que sécca! Dá cá a mão!

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 48 / 53 段