--Não... É isto... Você sabia que o Carlos tinha relações com uma snr.^a

Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?...

Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que passára o verão nos

Olivaes?... Sim, Villaça sabia. Fallára até n'isso com o Eusebiosinho.

--Ah, com o Eusebio?... Pois não é brazileira! É portugueza, e é irmã

d'elle!

Villaça cahiu para o canapé, batendo as mãos n'um assombro.

--Irmã do Eusebio!

--Qual do Eusebio, homem!... Irmã de Carlos!

Villaça ficára mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente

arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: «irmã!

irmã legítima!» Ega por fim sentou-se no canapé de palhinha; e baixo,

muito baixo, apesar da solidão do escriptorio, contou o seu encontro com

o Guimarães no sarau, e como a verdade terrivel estalára casualmente,

n'uma palavra, á esquina do _Alliança_... Mas quando fallou dos papeis,

entregues pela Monforte ao Guimarães, ha tantos annos guardados, nunca

reclamados, e que o democrata agora, tão de repente, tão urgentemente,

queria restituir á familia--Villaça, até ahi esmagado e como

emparvecido, despertou, teve uma explosão:

--Ahi ha marosca! Tudo isso é para apanhar dinheiro!...

--Apanhar dinheiro! Quem?

--Quem!? exclamou Villaça de pé, arrebatadamente. Essa senhora, esse

Guimarães, essa tropa!... É que o amigo não percebe! Se apparecer uma

irmã do Maia, legitima e authentica, são quatrocentos contos e pico que

cabem á irmã do Maia!...

Então os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impressão

d'aquella idéa inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o

procurador, tremulo, voltava á grande somma de quatrocentos contos,

lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os

hombros:

--Isso não tem verosimilhança nenhuma! Ella é incapaz, absolutamente

incapaz, de semelhante intriga. Além d'isso, se é uma questão de

dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irmã desde que

Carlos lhe promettera casar com ella?

Casar com ella! Villaça erguia as mãos, não queria acreditar. O quê! o

snr. Carlos da Maia dar a sua mão, o seu nome, a essa creatura amigada

com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E através do assombro

recrescia-lhe a desconfiança, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_.

--Não senhor, Villaça, não senhor! insistiu Ega, já impaciente. Se a

questão é de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados,

apresentava-os logo, não ia primeiro dormir com o irmão!

Villaça baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o

diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade,

empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava

que de resto a questão não era de documentos, nem de legalidade, nem de

fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada:

--Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano!

--E então?... Vem a dar na mesma.

--Alto lá! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. Não tem

direito á legitima do pai, e não apanha um real d'esta casa!... Irra,

ahi é que está o ponto!

Ega teve um gesto desolado. Não, nem isso, desgraçadamente! Esta era a

filha do Pedro da Maia. O Guimarães conhecia-a de a trazer ao collo, de

lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia

quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com

uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina.

Villaça recahiu no canapé, succumbido.

--Quatrocentos contos, que bolada!

Então Ega resumiu. Se não existia ainda uma certeza legal, havia já uma

forte suspeita. E desde logo não se podia deixar o pobre Carlos,

innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel

revelar tudo a Carlos n'essa noite...

--E você, Villaça, é que tem de lh'o dizer.

Villaça deu um salto que fez bater o canapé contra a parede.

--Eu!?

--Você, que é o procurador da casa!

Que havia alli, senão uma questão de filiação, portanto de legitima? A

quem pertenciam esses detalhes legaes senão ao procurador?

Villaça murmurou com todo o sangue na face:

--Homem, o amigo mette-me n'uma!...

Não. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o Villaça, como procurador,

logicamente e profissionalmente devia estar.

O outro protestou, tão perturbado que gaguejava. Que diabo! Não era

esquivar-se aos seus deveres! Mas é que elle não sabia nada! Que podia

dizer ao snr. Carlos da Maia? «O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe

contou um tal Guimarães hontem á noite no Loreto...» Não tinha a dizer

mais nada...

--Pois diga isso.

O outro encarou Ega com olhos que chammejavam:

--Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, é necessario ter topete!

Deu um puxão desesperado ao collete, foi bufando até ao fundo do

cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega:

--Não se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde estão

as provas?...

--Ó Villaça, desculpe, você está obtuso!... A que vim eu aqui senão

trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou más, a historia do Guimarães,

essa caixa com os papeis da Monforte?...

Villaça, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mãos,

decifrando o mote do sinete _Pro amore_.

--Então, abrimol-a?

Já Ega puxára uma cadeira para a mesa. Villaça cortou o papel, gasto nos

cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa

de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maços

apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que

tinham o monogramma da Monforte sob uma corôa de marquez. Ega

desembrulhou o primeiro maço. Eram cartas em allemão, que elle não

percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe.

--Bem, isto não nos diz nada... Adiante!

Outro embrulho, a que Villaça cuidadosamente desapertou o nó côr de

rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e

suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca.

Villaça achou a pintura «linda».

--Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _Ça marche_.

Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em

reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas

pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o Villaça--que

percorria os _items_, espantado dos preços, das infinitas invenções do

luxo. Contas de seis mil francos! Um só vestido, dois mil francos!...

Outro maço trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda á mãi,

escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho,

com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas

Irmãs; e n'estas composições, virtuosas e frias como themas, o sincero

coração da rapariga só transparecia n'alguma florzinha, agora sêcca,

pregada no alto do papel com um alfinete.

--Isto põe-se de parte, murmurou Villaça.

Então Ega, já impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou

os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande

sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha

filha Maria Eduarda_. Foi Villaça que lançou os olhos rapidamente á

enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o

monogramma d'ouro sob a corôa de marquez. Quando o passou em silencio

para a mão do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas.

Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--«Como a Maria teve a pequena e anda

muito fraca, e eu tambem me não sinto nada boa com umas pontadas,

parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma

declaração que te pertence a ti, minha querida filha, e que só sabe o

padre Talloux (_Mr. l'abbé Talloux, coadjuteur à Saint-Roch_) porque

lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E é o seguinte:

Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria

Calzaski, por suppôr ser esse o nome de seu pai, é portugueza e filha de

meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a

commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de

Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu

marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e

tambem em Santa Olavia ao pé do rio Douro. O que tudo se póde verificar

em Lisboa pois devem lá estar os papeis; e os meus erros de que vejo

agora as consequencias não devem impedir que tu, minha querida filha,

tenhas a posição e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro

tudo isto que assigno, no caso que o não possa fazer diante d'um

tabellião, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier

a morrer, o que Deus não permitta, peço perdão a minha filha. E assigno

com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_.»

Ega ficou a olhar para o Villaça. O procurador só pôde murmurar, com as

mãos cruzadas sobre a mesa:

--Que bolada! Que bolada!

Então Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a

entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaça

coçava a cabeça, retomado por uma duvida:

--Eu não sei se este papelinho faria fé em juizo...

--Qual fé, qual juizo! exclamou Ega violentamente. É o bastante para que

elle não torne a dormir com ella!...

Uma pancada timida na porta do cubiculo fêl-o estacar, inquieto.

Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou através da frincha:

--O snr. Carlos da Maia ficou agora lá em baixo no carrinho quando eu

entrei, perguntou pelo snr. Villaça.

Houve um pânico! Ega, atarantado, agarrára o chapéo do Villaça. O

procurador atirava ás mãos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da

Monforte.

--É talvez melhor dizer que não está, lembrou o escrevente.

--Sim, que não está! foi o grito abafado de ambos.

Ficaram á escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calçada;

os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de não terem

mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillações nem

pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis

bem abertos. E estava saltado o barranco!

--Homem, dizia o Villaça passando o lenço pela testa, as coisas

querem-se devagar, com methodo. É necessario preparar-se a gente,

respirar para dar bem o mergulho...

Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros

papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confissão da

Monforte. Só restava que Villaça apparecesse á noite no Ramalhete ás

oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S.

Francisco.

--Mas o amigo ha de lá estar! exclamou o procurador, já aterrado.

Ega prometteu. Villaça teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde

viera acompanhar o outro:

--Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, tão contente, a jantar no

Ramalhete...

--E eu, com elles, na rua de S. Francisco!...

--Emfim, até á noite!

--Até á noite.

Ega não se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de

Carlos, a vêr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraça que

descia sobre elle á maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao

marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada.

Depois, ás oito e meia, quando calculou que Villaça devia estar já no

Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhára com o capellão n'uma

partida de damas.

Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findára n'uma chuvinha miuda que

transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, já

terrivelmente nervoso, quando avistou Villaça no portal, de guardachuva

sob o braço, arregaçando as calças para sahir.

--Então? gritou-lhe o Ega.

Villaça abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:

--Não foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que não me podia

ouvir.

Ega bateu o pé, desesperado:

--Oh homem!

--Que quer o amigo? Havia de o agarrar á força? Ficou para ámanhã...

Tenho de cá estar ámanhã ás onze horas.

Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: «Irra! não sahimos

d'esta!» Foi até ao escriptorio de Affonso. Mas não entrou. Através

d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala

apparecia, quente e cheio de conchêgo, no dôce tom côr de rosa da luz

cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sofá

bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os

bigodes. E, travadas n'alguma questão, a voz do Craft, que perpassou de

cachimbo na mão, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua

poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava

furiosamente:--«Mas se ámanhã houvesse uma bernarda, esse exercito com

que os senhores querem acabar por ser uma escóla de vadiagem é que lhes

havia de guardar as costas... É bom fallar, ter muita philosophia! Mas

quando ellas chegam, se não ha meia duzia de baionetas promptas, então

são as cólicas!...»

Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas

serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista

disse-lhe que o snr. D. Carlos «sahira havia dez minutos». Fôra para a

rua de S. Francisco! Ia lá dormir! Então enervado, com a longa e triste

noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma

excitação forte as idéas que o torturavam. Não despedira a tipoia,

abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e

duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o

champagne. Ás quatro da manhã estava bebedo, estatelado sobre o sofá,

gemendo sentimentalmente, só para si, as estrophes de Musset á

Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o

seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de

gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o

collete embrulhado já n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na

borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz:

Señor Alcalde mayor,

No prenda usted los ladrones...

Acordou ao outro dia ás nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um

quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia

da escura manhã de chuva. E, emquanto não vinha a tipoia fechada que a

servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua

pastosa, os pés nús sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha só

uma idéa clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem

fresco, onde se purificasse d'uma sensação viscosa de Carmen e d'orgia

que o arrepiava.

Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar

com Carlos e com Villaça ás onze horas já lavado e preparado. Mas

precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o

Baptista, voára a buscar ao Ramalhete: depois almoçou: e já batera meio

dia quando se apeou á porta particular dos quartos de Carlos, com a

roupa suja n'uma trouxa.

Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um açafate.

--O Villaça já veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de pés.

--O snr. Villaça já lá está dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa

branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre dá mais

frescura...

--Obrigado, Baptista, obrigado!

E Ega pensava:--«Bem, Carlos já sabe tudo, o barranco está passado!» Mas

demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentidão cobarde.

Por fim, sentindo bater alto o coração, puxou o reposteiro de velludo.

Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta

envidraçada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa.

Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias.

--Ah! és tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns

papeis na mão.

Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe

rebrilhavam, com um fulgor sêcco, anciosos e mais largos na pallidez que

o cobria. Villaça, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa,

n'um movimento cansado, o lenço de sêda da India. Sobre a mesa

alastravam-se os papeis da Monforte.

--Que diabo de embrulhada é esta que me vem contar o Villaça? rompeu

Carlos, cruzando os braços diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve

tremia.

Ega balbuciou:

--Eu não tive coragem de te dizer...

--Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem?

Villaça ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho

timido que é rendido n'um posto arriscado, pediu licença, se não

precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto

preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da

snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado

encontrava-o na rua da Prata ou em casa...

--E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas mãos o lenço

de sêda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como

amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opinião do nosso Ega...

--Perfeitamente, Villaça, obrigado! acudiu Carlos. Se fôr necessario lá

mando...

O procurador, com o lenço na mão, lançou em redor um olhar lento. Depois

espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia

com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto,

procurando...

--Que é, homem?

--O meu chapéo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou lá

fóra... Bem, se fôr necessario alguma coisa...

Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos

fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo

pesadamente n'uma cadeira:

--Dize lá!

Ega, sentado no sofá, começou por contar o encontro com o snr.

Guimarães, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o

Rufino. O homem queria explicações sobre a carta do Damaso, sobre a

bebedeira hereditaria... Tudo se aclarára, ficando d'ahi entre elles um

começo de familiaridade...

Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do Villaça:

--Peço desculpa, mas é o meu chapéo... Não o acho, havia de jurar que o

deixei aqui...

Carlos conteve uma praga. Então Ega procurou tambem, por traz do sofá,

no vão da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vêr entre os

cortinados da cama. E Villaça, escarlate, afflicto, esquadrinhava até a

alcova do banho...

--Um sumiço assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou

vêr outra vez... O que peço é desculpa.

Os dois ficaram sós. E Ega recomeçou, detalhando como Guimarães, duas ou

tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do

sarau, de politica, do papá Hugo, etc. Depois elle procurára Carlos para

irem um bocado ao Gremio. Terminára por sahir com o Cruges. E passavam

defronte do Alliança...

Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdão a suas

excellencias:

--É o snr. Villaça que não acha o chapéo, diz que o deixou aqui...

Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para

despedaçar o Baptista.

--Vai para o diabo tu e o snr. Villaça!... Que sáia sem chapéo! Dá-lhe

um chapéo meu! Irra!

Baptista recuou, muito grave.

--Vá, acaba lá! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido.

E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o

Guimarães, desde o momento em que o homem por acaso, já ao despedir-se,

já ao estender-lhe a mão, fallára da «irmã do Maia». Depois

entregára-lhe os papeis da Monforte á porta do _Hotel de Paris_, no

Pelourinho...

--E aqui está, não sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas

não tive coragem de te dizer. Fui ao Villaça... Fui ao Villaça com a

esperança sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que

atirasse por terra toda esta historia do Guimarães... Não tinha nada,

não sabia nada. Ficou tão aniquilado como eu!

No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo

do jardim, cantou nas vidraças. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma

revolta de todo o sêr:

--E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um

homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, ólho

para ella, conheço-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do

mundo, essa justamente ha de ser minha irmã! É impossivel... Não ha

Guimarães, não ha papeis, não ha documentos que me convençam!

E como Ega permanecia mudo, a um canto do sofá, com os olhos no chão:

--Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. Duvída tambem, homem, duvída

commigo!... É extraordinario! Todos vocês acreditam, como se isto fosse

a coisa mais natural do mundo, e não houvesse por essa cidade fóra senão

irmãos a dormir juntos!

Ega murmurou:

--Já ia succedendo um caso assim, lá ao pé da quinta, em Celorico...

E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia

appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado á bengala, sorrindo

todo com alguma idéa que decerto o divertia. Era ainda o chapéo do

Villaça.

--Que diabo fizeram vocês ao chapéo do Villaça? O pobre homem andou por

ahi afflicto... Teve de levar um chapéo meu. Cahia-lhe pela cabeça

abaixo, enchumaçaram-lh'o com lenços...

Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na

atarantação do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente

d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo

lento:

--Que é isso, que têm vocês?... Ha alguma coisa?

Então Carlos, no ardente egoismo da sua paixão, sem pensar no abalo

cruel que ia dar ao pobre velho, cheio só de esperança que elle, seu

avô, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma

certeza contraria a toda essa historia do Guimarães, a todos esses

papeis da Monforte--veio para elle, desabafou:

--Ha uma coisa extraordinaria, avô! O avô talvez saiba... O avô deve

saber alguma coisa que nos tire d'esta afflicção!... Aqui está, em duas

palavras. Eu conheço ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora

na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que é minha irmã

legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis...

Os papeis ahi estão. São cartas, uma declaração de minha mãe... Emfim

uma trapalhada, um montão de provas... Que significa tudo isto? Essa

minha irmã, a que foi levada em pequena, não morreu?... O avô deve

saber!

Affonso da Maia, que um tremor tomára, agarrou-se um momento com força á

bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro.

E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo.

--Esse homem, exclamou Carlos, é um Guimarães, um tio do Damaso...

Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao avô,

Ega, conta tu do começo!

Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer

que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimarães, que não

tinha interesse em mentir e só por acaso, puramente por acaso, fallára

em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de

Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a

crescer em Paris, andára com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visitára-a

com a mãi no convento. Frequentára a casa que ella habitava em

Fontainebleau, como casada...

--Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem,

commigo e com o Ega... Que lhe parece, avô?

O velho murmurou, n'um grande esforço, como se as palavras sahindo lhe

rasgassem o coração:

--Essa senhora, está claro, não sabe nada...

Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--«Não sabe nada!» Segundo affirmava

o Guimarães, a mãi escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha

d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski...

Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mão:

--Aqui tem o avô a declaração de minha mãi.

O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete

com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar,

empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar

deixou cahir sobre os joelhos as mãos, que ainda agarravam o papel,

ficou como esmagado e sem força. As palavras por fim vieram-lhe

apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava,

elle não o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era

talvez na verdade sua neta... Não sabia mais...

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 47 / 53 段