na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa,
nem de Portugal. Lembra-me até uma occasião em casa da Clemence, que eu
alludi a um cavallo lazão, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella
costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei só
do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como
uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embêtez avec ces histoires de
l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do
outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella
mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim
até bebia... Mas acabou-se! Tinha grande coração, e portou-se muito bem
com a Clemence. _Parce sepultis!_
--É horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapéo, correndo a mão
tremula pela testa.
E agora o seu unico desejo era a accumulação incessante de provas, de
detalhes. Fallou então d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr.
Guimarães não sabia o que elles continham; e não se admiraria se fossem
apenas contas de modista, ou pedaços velhos do _Figaro_ em que se
fallava d'ella...
--É uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para
Londres com a filha. Era no tempo da guerra... Já a Maria vivia com o
irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos
aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em
Marselha. Foi então que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes,
creio que para não morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas não vi mais
a Monforte, que já estava muito doente... Á Maria, collada então a essa
besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquouère_ mesmo a calhar para
a guilhotina, não tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um
comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v.
exc.^a e com o irmão... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a
fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais
d'elles. E agora ahi estão, ás ordens da familia.
--Se isso não fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava
agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo...
--Incommodo nenhum! Estamos em caminho, é negocio que fica feito!
Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabára. Um bater de
carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas
senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr.
Guimarães tirára lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para
raspar um phosphoro:
--Então a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella?
Como foi isso?
Ega, que caminhava com a cabeça cahida, estremeceu como se acordasse. E
começou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo córava na
sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fôra o procurador que
descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os
Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como
filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella,
Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...
E de repente indignou-se com estas invenções por onde arrastava já o
nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:
--Emfim, nem eu sei, um horror!
--Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimarães.
E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento
emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.
Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céo n'um desabafo mudo d'aquella
angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua
unica sensação, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do
Guimarães, tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse
e se fizesse cahir aos pedaços. O homem conhecera Maria Monforte em
Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazão;
encontrára-a em Paris já fugida, depois da morte do primeiro amante,
vivendo com outros; andára então ao collo com Maria Eduarda a quem se
davam bonecas... E desde então não deixára mais de vêr Maria Eduarda, de
a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o
irlandez; nos braços de Castro Gomes; n'uma tipoia de praça emfim com
elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodré! Tudo isto se
encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de
tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irmã!
Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma
janella aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E
agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta
catastrophe de dramalhão. Era acaso verosimil que tal se passasse, com
um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada á mãi Cruges?...
Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no
tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem
escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis,
com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não
podia ser! Não! Não estava no feitio da vida contemporanea que duas
crianças separadas por uma loucura da mãi, depois de dormirem um
instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem,
descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para quê? Para virem
tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! Não
era possivel. Taes coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como
invenções subtis da arte, para dar á alma humana um terror novo...
Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimarães
decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porém esse homem com a
sua historia--em que não havia uma discordancia por onde ella pudesse
ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto,
parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraça, aclaral-a toda,
mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provavel no fundo!
Essa criança, filha d'uma senhora que a levára comsigo, cresce, é amante
d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive
outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, é um homem.
Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e
pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela
Laferrière, flôr d'uma civilisação superior, faz relêvo n'esta multidão
de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde
todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho
pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella
fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecção barata da loja da
America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapéo côco, nunca se
notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o
conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr.
Guimarães passa, a verdade terrivel estala!
A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimarães adiantou-se, de boné
de sêda na cabeça, com o embrulho na mão.
--Não podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a É sempre assim
quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!
--Perfeitamente, perfeitamente...
Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhára n'um
velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e
immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse vã,
estendeu a mão ao snr. Guimarães. Mas o outro insistiu em o acompanhar
até á esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de boné. A noite, para
quem vinha de Paris, tinha uma doçura oriental--e elle, com os seus
habitos de jornalista, nunca se deitava senão tarde, ás duas, tres horas
da madrugada...
E então, caminhando devagar, com as mãos nos bolsos e o charuto entre os
dentes, o snr. Guimarães voltou á politica e ao sarau. A poesia do
Alencar (de que esperára muito por causa do titulo, _A Democracia_)
sahira-lhe consideravelmente chôcha.
--Muita flôr, muita farofia, muita liberdade, mas não havia alli um
ataque em fórma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia
e da côrte... Pois não é verdade?
--Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperança
d'uma tipoia.
--É como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada,
senhores, tudo uma balofice!... É o que eu lhes digo a elles:--«Ó almas
do diabo, atacai as questões sociaes!»
Felizmente um trem avançava, rolando devagar, do lado do Terreiro do
Paço. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mão ao democrata,
desejou-lhe uma «boa viagem», atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete.
Mas o snr. Guimarães ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao
Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o
apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! Não era cá a
grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se
ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação do mundo, tudo era
alegria e fraternidade e espirito a rodos...
--E a minha adresse, na redacção do _Rappel_! Bem conhecida no mundo!
Emquanto ao embrulhosinho fico descançado...
--Póde v. exc.^a ficar descançado!
--Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos á snr.^a D. Maria!
Na carruagem, através do Aterro, a anciosa interrogação do Ega a si
mesmo foi--«que hei de fazer?» Que faria, santo Deus, com aquelle
segredo terrivel que possuia, de que só elle era senhor, agora que o
Guimarães partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas
as angustias em que essa revelação ia lançar o homem que mais estimava
no mundo--a sua instinctiva idéa foi guardar para sempre o segredo,
deixal-o morrer dentro em si. Não diria nada; o Guimarães sumia-se em
Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... Não crearia assim uma
crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a
sua parte d'essas afflicções. Que coisa mais impiedosa, de resto, que
estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes
á face uma prova de incesto!...
Mas, a esta idéa de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio
lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro
diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida
dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir á rua de S. Francisco,
sentar-se-lhes alegremente á mesa, entrevêr através do reposteiro a cama
em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do
seu silencio? Não podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao
outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--«Olha que tu és
amante de tua irmã?»
A carruagem parára no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada
particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua
palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns
passos timidos no tapete, que pareceram já soar tristemente. Um reflexo
d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o
leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sêda.
Então a idéa que Carlos estava áquella hora na rua de S. Francisco,
dormindo com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel
nitidez, n'uma imagem material, tão viva e real, que elle viu-os
claramente, de braços enlaçados, e em camisa... Toda a belleza de Maria,
todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam só dois animaes,
nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o
impulso bruto do cio!
Correu para o seu quarto, fugindo áquella visão a que o escuro do
corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relêvo.
Aferrolhou a porta; accendeu á pressa sobre o toucador, uma depois da
outra, com a mão agitada, as seis velas dos candelabros. E agora
apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a
Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo
para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com
uma revelação d'incesto. Não podia! Outro que lh'o dissesse! Elle lá
estava depois para o consolar, tomar metade da sua dôr, carinhoso e
fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos não viria de palavras
cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idéas
passavam na sua pobre cabeça, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que
fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a
detalhada historia do Guimarães... E esta confusão, esta anciedade ia-se
resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimarães. Para que fallára
áquelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para
que lh'o apresentára o Alencar? Ah! se não fosse a carta do Damaso...
Tudo provinha do maldito Damaso!
Agitando-se pelo quarto, ainda de chapéo, os seus olhos cahiram n'um
sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do
Villaça. E nem a abriu... Uma idéa sulcára-o de repente. Contar tudo ao
Villaça!... Porque não? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle
houvera segredos n'aquella casa. E esta complicação singular d'uma
senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a
quem a pertencia aclarar senão ao fiel procurador, ao velho confidente,
ao homem que, por herança e por destino, recebera sempre todos os
segredos e partilhára todos os interesses domesticos?... E sem pensar,
sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decisão salvadora,--que ao
menos o socegava, lhe tirava já do coração um peso de ferro, suffocante
e intoleravel...
Devia acordar cedo, procurar Villaça em casa. Escreveu n'uma folha de
papel--«Acorda-me ás sete». E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra
onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do
escudeiro.
Quando subiu, mais calmo,--abriu então a carta do Villaça. Era uma curta
linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no
Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias...
--Sêbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada
para o chão.
VII
Pontual, ás sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle
sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da
vespera, Carlos, a irmã, a felicidade d'aquella casa acabada para
sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A
portada da varanda ficára aberta; um ar silencioso e livido de madrugada
clareava através do transparente de fazenda branca. Durante um momento
Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou
nos lençoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchêgo antes d'ir
affrontar fóra as amarguras do dia.
E pouco a pouco, sob o tepido conchêgo dos cobertores em que se
atabafára, começou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa
correria estremunhada a casa do Villaça... De que servia procurar o
Villaça? Não se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de
legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era
apenas introduzir um burguez mais n'um segredo tão terrivelmente
delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a
roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: «É uma tolice ir
ao Villaça!»
De resto não poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar
tudo a Carlos, logo, n'essa manhã, claramente, virilmente? Era por fim
aquelle caso tão pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel
desabamento d'uma vida de homem?... Ao pé da quinta da mãe, em Celorico,
no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmãos que
innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para
os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias «embatucados», como dizia o
padre Seraphim; mas por fim já riam, muito amigos, muito divertidos,
quando se tratavam de «manos». O noivo, um rapagão bonito, contava
depois «que ia havendo uma mixordia na familia». Aqui o engano seguira
mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus
corações permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente.
Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A
inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que
lhe podia, na realidade, vir a definitiva dôr? Sómente do prazer ter
findado. Era então como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz
do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso!
De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando:
--Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Baptista...
É aventura? duello?
Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a
gravata branca da vespera; e decerto chegára da rua de S. Francisco na
tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calçada.
Elle sentára-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os
cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na véspera
combinára uma ida a Cintra com o Taveira... Por precaução mandára-se
chamar... Mas não sabia, acordára cansado...
--Que tal está o dia?
Justamente Carlos fôra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de
trabalho, collocada em plena luz, ficára a caixa da Monforte embrulhada
no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--«Se elle repara, se pergunta,
digo tudo!»--O seu pobre coração pôz-se a bater anciosamente no terror
d'aquella decisão. Mas o transparente um pouco pêrro subiu, uma facha de
sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso
allivio para o Ega.
--Então, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. Com effeito
não é má idéa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a
Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a
quatro!
E olhava já o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria.
--O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo,
é que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas...
Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres
para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, vá... Mas á
luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...
Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo á ponta
do lençol. Não eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras,
raparigas sérias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com
uma d'ellas, filha d'um Simões, um estofador que fallira... Gente muito
séria!...
Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da
idéa de Cintra.
--Bem, acabou-se!... Vou então tomar banho e depois a negocios... E tu,
se fôres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!...
Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braços desanimado, descorçoado,
sentindo bem que não teria coragem nunca de «dizer tudo». Que havia de
fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idéa de procurar o
Villaça, entregar-lhe o cofre da Monforte. Não havia homem mais honesto,
nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez,
quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixão e sem nervos?...
E esta _falta de nervos_ do Villaça fixou-o definitivamente.
Saltou então da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto
o criado não entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o
cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos,
embrulhada n'um papel de dobras já sujas e gastas, com marcas de lacre
onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro
amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher
mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, à Paris_. Ao sentir os passos do
criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma
cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta,
mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manhã, fino e
fresco, que elle tão raras vezes gozava.
Começou por uma contrariedade. Villaça já sahira: e a criada não sabia
bem se elle fôra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega
largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. Villaça ainda não
viera...
--E a que horas virá?
O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete
uma corrente de coral, balbuciou que o snr. Villaça não devia tardar, se
não tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu
desesperado.
--Bem, gritou ao cocheiro, vai ao café Tavares...
No Tavares, ainda solitario áquella hora, um moço areava o sobrado. E
emquanto esperava o almoço Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do
sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde,
sobre esse brilhante torneio artistico. Só a _Gazeta Illustrada_ se
alargava, com phrases sérias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges
de _esperançoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta;
ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as
aspirações ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, são
realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de tão formosas
imagens, de tão inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente
bradava--«bravo! bravo!» Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois
seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto,
entre as quaes «destacava com o seu monoculo o fino perfil de João da
Ega, sempre brilhante de _verve_.» Ega sorriu, cofiando o bigode.
Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro.
Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: «Não é nada mal feito,
este jornal!»
O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dôce
de ananaz, d'um café forte, Ega sentiu adelgaçar-se emfim aquelle
negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle,
accendendo o charuto e lançando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre
praticamente encarado só havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E
essa perda, que agora o angustiava, não traria depois compensações? O
futuro de Carlos até ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento
que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito
interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes...
A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse
encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... Não seria por fim
aquella descoberta do Guimarães uma libertação providencial? D'ahi a
annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e
livre, e rico, com o largo mundo diante de si!
O relogio do café deu dez horas. «Bem, vamos a isto», pensou Ega.
De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. Villaça ainda não
viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. Villaça fôra ao
Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo
descorçoado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na
mão foi andando pela rua do Ouro, depois até ao Rocio, parando
distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e além a capa d'um livro
na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento
adelgaçado, recahia-lhe n'alma mais denso. Já não via as «libertações»
nem as «compensações». Só sentia em torno de si, como fluctuando no ar,
aquelle horror--Carlos a dormir com a irmã.
Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e
logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Villaça que
sahia, atarefado, calçando as luvas.
--Homem, até que emfim!
--Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que
está o visconde do Torral á minha espera...
Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito
urgente, muito séria! Mas o outro não se arredava da porta, acabando de
calçar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa.
--O amigo bem vê... Está o homem á espera! É um _rendez-vous_ para as
onze!
Ega, já furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto á face,
tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte!
Então o Villaça, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o
escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um
corredor, com um canapé de palhinha, uma mesa onde os livros tinham pó,
e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapéo para a nuca:
--Então que é?
Ega, com um gesto, indicou fóra o escrevente que podia escutar. O
procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel
Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia
hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamação
anciosa:
--Então que é?
--É um horror, Villaça, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de
começar.
Villaça, já muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa.
--É duello?