--Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra, vejam vocês

Danton!... Mas já não fallo emfim d'esses leões da Revolução. Vejam

vocês o Passos Manoel! Está claro, é necessario logica... Mas, tambem,

caramba, sêbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de

infinito!

Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão mais forte

que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. João de Castro e de

Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era

um maganão gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de mão

fechada no ar como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros

que nós portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e tão

formosas tradições de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do

indifferentismo, a sublime herança dos avós!...

--É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!

Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o

pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando na ponta dos

botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que,

agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o

convés d'uma caravella a ir levar o nome portuguez através dos mares

desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande

João de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancára todas as arvores

de fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?...

--Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.

Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com

aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão, n'um tedio

completo de «todas as nossas glorias». E Carlos, enervado, preso alli

pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao

botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia

a escada, enfiando á pressa um paletot alvadio. Não o encontrára mais

desde a infamia da _Corneta_, em que elle fôra «embaixador». E a cólera

que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel

de o espancar. Disse ao Ega:

--Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as

orelhas áquelle maroto!

--Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel!

Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo

uma violencia. Quando chegaram á porta, Eusebio mettera para os lados do

Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, áquella hora deserto,

mudo, com dois bicos de gaz mortiços. Ao vêr Carlos fender assim sobre

elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio,

encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...»

--Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então tambem andaste mettido

n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um!

Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mão de

forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa aversão

nunca apagada--que já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho,

esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então

abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre

viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de

luto que lhe rolára nas lages, dançava, escanifrado e desengonçado. Por

fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira.

--Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.

Já a mão de Carlos lhe empolgára as guelas. Mas Ega interveio:

--Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse...

Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de bruços,

Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de

Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma

sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo.

O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baços.

Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz

e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado

d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o pescoço e a

face, exclamando com o cansaço radiante d'um triumphador:

--Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!

Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com

effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de

duas velas.

Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta derramou

pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento:

e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de

tanta solemnidade.

--_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma

revelação.

Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois atirou para a

mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado e largo:

Era n'um parque. O luar

Sobre os vastos arvoredos,

Cheios de amor e segredos...

--Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É

sentimento... Aposto que é o festim!

E era com effeito o festim, já cantado na _Flôr de Martyrio_, festim

romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de

brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem

cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a

severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de

luar, tudo são «risos, brindes, lascivos murmurios»--fóra, junto ás

grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma

mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho

que pede pão... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava

porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que

servira então, desde Spartacus, o esforço desesperado dos homens para a

Justiça e para a Igualdade? De que servira então a cruz do grande

Martyr, erguida além na collina, onde, por entre os abetos

Os raios do sol se somem,

O vento triste se cala...

E as aguias revolteando

D'entre as nuvens estão olhando

Morrer o filho do Homem!

A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mãos tremendo

no ar, desolava-se de que todo o Genio das gerações fosse impotente para

esta coisa simples--dar pão á criança que chora!

Martyrio do coração!

Espanto da consciencia!

Que toda a humana sciencia

Não solva a negra questão!

Que os tempos passem e rolem

E nenhuma luz assome,

E eu veja d'um lado a fome

E do outro a indigestão!

Ega torcia-se, fungando dentro do lenço, jurando que rebentava. «_E do

outro a indigestão!_» Nunca, nas alturas lyricas, se gritára nada tão

extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle

_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestões já havia o

bi-carbonato de potassa.

--Quando não são das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que

alargava a fivela do collete.

Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapertára o

cache-nez, já excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes

humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achára a

solução do soffrimento humano! Fôra uma Voz que lh'a ensinára! Uma Voz

sahida do fundo dos seculos, e que através d'elles, sempre suffocada,

viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha até á

Bastilha! E então, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de

Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de

mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alçando a fronte

n'uma grande audacia á Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a

Republica!

Sim, a Republica! Não a do Terror e a do odio, mas a da mansidão e do

Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braços ao Operario!

Aquella que é Aurora, Consolação, Refugio, Estrella mystica e Pomba...

Pomba da Fraternidade,

Que estendendo as brancas azas

Por sobre os humanos lodos,

Envolve os seus filhos todos

Na mesma santa Igualdade!...

Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o

suffocar, sujeitos sérios lançaram, aqui e além: «Chut, silencio!» Então

Ega ergueu as mãos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:

--Bravo! Muito bem! Bravo!

E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os

lados:

--Aquella democracia é absurda... Mas que os burguezes se dêem ares

intolerantes, isso não! Então applaudo eu!

E as suas mãos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do

marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, não

se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de tão

grande linhagem, reforçaram os _bravos_ com calor. Já pela sala se

voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revolução. Mas um

silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que

inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes

iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da

Republica? Era o pão carinhoso dado á criança? Era a mão justa estendida

ao proletario? Era a esperança? Era a aurora?

Receaes a grande luz?

Tendes medo do Abecê?...

Então castigai quem lê,

Voltai á plebe soez!

Recuai sempre na Historia,

Apagai o gaz nas ruas,

Deixai as crianças nuas,

E venha a forca outra vez!

Palmas, mais numerosas, já sinceras, estalaram pela sala, que cedia

emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. Já não

importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e

claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob

aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braços abertos,

annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que

traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, não vermelha mas branca,

elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as

nações cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque

Alencar não queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o

Christianismo, como um lirio que se abraça a uma espiga, completavam-se,

estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da

Convenção! E para tão dôce ideal não se necessitavam cardeaes, nem

missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita só de pureza e de

fé, reza nos campos; a lua cheia é hostia; os rouxinoes entoam o _tantum

ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospéra, tudo refulge--ao mundo

do Conflicto substitue-se o mundo do Amor...

Á espada succede o arado,

A Justiça ri da Morte,

A escóla está livre e forte,

E a Bastilha derrocada.

Róla a tiára no lodo,

Brota o lirio da Igualdade,

E uma nova Humanidade

Planta a cruz na barricada!

Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz!

Era a paixão meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo

romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de

foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito,

levando chefes de repartição a berrarem, estirados por cima das damas,

no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando

Alencar, alçando os braços ao tecto, com modulações de _preghiera_ na

voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera

o vôo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um

enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras

amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao céo. No salão

abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um

murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim

cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia já se Essa, que se

invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das

Dôres.

Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. Já Ella tocava

com os seus pés divinos os valles humanos. Já do seu seio fecundo

trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:

As rosas têm mais aroma!

Os fructos têm mais doçura!

Brilha a alma clara e pura,

Solta de sombras e véos...

Foge a dôr espavorida,

Foi-se a fome, foi-se a guerra,

O homem canta na terra,

E Christo sorri nos céos!...

Uma acclamação rompeu, immensa e rouca, abalando os muros côr de

canario. Moços exaltados treparam ás cadeiras, dois lenços brancos

fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada até aos

braços que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava:

«filhos! rapazes!...» Quando Ega correu do fundo, com Carlos,

gritando--«Fôste extraordinario, Thomaz!»--as lagrimas saltaram dos

olhos do Alencar, quebrado todo d'emoção.

E ao longo da coxia a ovação continuou, feita de palmadinhas pelo

hombro, de _shake-hands_ da gente séria, de «muitos parabens a v.

exc.^a!» Pouco a pouco elle erguia a cabeça, n'um altivo sorriso que lhe

mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado,

ungido pelo triumpho, com a inesperada missão de libertar almas! D.

Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar,

encantada, que achára--«lindissimo, lindissimo». E o poeta, estonteado,

exclamou: «Maria, é necessario luz!» Telles da Gama veio bater-lhe nas

costas affirmando-lhe que «piára esplendidamente». E Alencar,

inteiramente perdido, balbuciou: «_Sursum corda_, meu Telles, _sursum

corda_!»

Ega no emtanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos que

desapparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que

Carlos passára para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o

snr. D. Carlos tomára uma tipoia e ia já virando o Chiado...

Ega ficou á porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento

o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braço, descia rapidamente, com a

face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a

chamar o coupé. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que

impressão lhes deixára o grande triumpho democratico do Alencar--a

profunda cólera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os

dentes cerrados:

--Versos admiraveis, mas indecentes!

O coupé avançou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente,

apertando a mão ao Ega:

--N'uma festa de sociedade, sob a protecção da rainha, diante d'um

ministro da corôa, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos ás

classes proletarias... É perfeitamente indecente!

Já a condessa enfiára a portinhola, apanhando a larga cauda de sêda. O

ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coupé. Junto ás

rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado.

Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabão d'Aveiro,

fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficára em cima a recitar

quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava

versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu

do botequim, abotoando o paletot. Então, perante essa debandada de todos

os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio

com o maestro.

Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da

Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem

estrellas, mas tão macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de

maio.

Passavam á porta do _Hotel Alliança_ quando Ega sentiu alguem, que se

apressava, chamar atraz: «Ó snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr.

Ega?...»--Parou, reconheceu o chapéo recurvo, as barbas brancas do snr.

Guimarães.

--V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer,

queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora ámanhã...

--Perfeitamente... Ó Cruges, vai andando, já te apanho!

O maestro estacionou á esquina do Chiado. O snr. Guimarães pedia de novo

desculpa. De resto eram duas curtas palavras...

--V. exc.^a, segundo me disseram, é o grande amigo do snr. Carlos da

Maia... São como irmãos...

--Sim, muito amigos...

A rua estava deserta, com alguns garotos apenas á porta alumiada da

Trindade. Na noite escura a alta fachada do _Alliança_ lançava sobre

elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimarães baixou a voz cautelosa:

--Aqui está o que é... V. exc.^a sabe, ou talvez não saiba, que eu fui

em Paris intimo da mãi do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e

não vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos

ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha

papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras

coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra,

porque v. exc.^a está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse

deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios

da herança de meu irmão... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei

a reflectir que o melhor era entregal-o á familia...

O Cruges mexeu-se impaciente:

--Ainda te demoras?

--Um instante! gritou Ega, já interessado por aquelles papeis e pelo

cofre. Vai andando.

Então o snr. Guimarães, á pressa, resumiu o pedido. Como sabia a

intimidade do snr. João da Ega e de Carlos da Maia, lembrára-se de lhe

entregar o cofresinho para que elle o restituisse á familia...

--Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no

Ramalhete.

--Ah, muito bem! Então v. exc.^a manda um criado de confiança ámanhã

buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor

ainda: levo-lh'o eu, não me dá incommodo nenhum, apesar de ser dia de

partida...

--Não, não, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mão ao

democrata.

Elle estreitou-lh'a com calor.

--Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe então um bilhete e v.

exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou á irmã.

Ega teve um movimento d'espanto:

--Á irmã!... A que irmã?

O snr. Guimarães considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe

lentamente a mão:

--A que irmã!? Á irmã d'elle, á unica que tem, á Maria!

Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:

--Bem, eu vou andando para o Gremio.

--Até logo!

O snr. Guimarães, no emtanto, passava os dedos calçados de pellica preta

pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforço de penetração. E

quando Ega lhe travou do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco

até ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão

desconfiada.

--Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nós estamos aqui

a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheço o Maia desde pequeno, vivo

até agora em casa d'elle, posso afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma...

Então o snr. Guimarães começou a rosnar umas desculpas embrulhadas que

mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimarães imaginava que não era

segredo, que todas essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que

houvera reconciliação...

--Como vi, ainda não ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irmã e

com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do Sodré...

--O quê! Aquella senhora! A que ia na carruagem?

--Sim! exclamou o snr. Guimarães irritado, farto emfim d'essa confusão

em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria

Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei

muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a

besta do Castro Gomes... Essa mesma!

Era ao meio do Loreto sob o lampeão de gaz. E o snr. Guimarães de

repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma

terrivel pallidez cobrir-lhe a face.

--V. exc.^a não sabia nada d'isto?

Ega respirou fortemente, arredando o chapéo da testa sem responder.

Então o outro, embaçado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que

tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios

alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fôra um

pesadêlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e

desejava ao snr. João da Ega muitissimo boas noites.

Ega, como a um clarão de relampago, entrevira toda a catastrophe: e

agarrou avidamente o braço do snr. Guimarães, n'um terror que elle

abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses

papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que

agora anciava. E através do Loreto, vagamente, foi balbuciando,

justificando a sua emoção, para tranquillisar o homem, poder lentamente

arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.

--O snr. Guimarães comprehende... Isto são coisas muito delicadas, que

eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei

embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas

com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nós, essa senhora não

passa em Lisboa por irmã de Carlos.

O snr. Guimarães atirou logo a mão n'um grande gesto. Ah, bem! Então era

jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza

eram coisas muito sérias, que necessitavam toda a sorte de véos... Elle

comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posição dos

Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora não era irmã que se

apresentasse.

--Mas a culpa não a teve ella, meu caro senhor! Foi a mãi, foi aquella

extraordinaria mãi que o Diabo lhe deu!...

Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de

febre:

--O snr. Guimarães conheceu muito essa senhora, a Monforte?

Intimamente! Já a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de

Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano.

Elle abalára tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma

costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e

desgraças, por lá ficára para sempre! Emfim, não era a sua vida que lhe

ia contar... Só mais tarde encontrára a Monforte, uma noite, no baile

Laborde: e d'ahi datavam as suas relações. A esse tempo já o italiano

morrera n'um duello, e o velho Monforte espichára da bexiga. Ella estava

então com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc

Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E não se envergonhava

de confessar que lhe devia obrigações! Quando essa rapariga, a Clemence,

que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flôres,

frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque lá

isso coração largo e generoso até alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha

então sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra

pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha

tambem! Mas morrera em Londres, essa...

--E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... Não

sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava,

dizia _Napoléon_... Era no bello tempo do Imperio, até as

desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella

estava em Tours, no convento, fui lá duas vezes com a mãi. Já então os

meus principios me não permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas

emfim fui acompanhar a mãi... E quando ella fugiu com o irlandez, o

Mac-Gren, foi commigo que a mãi veio ter, furiosa, a querer que eu

chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim

metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, lá fez as pazes, viviam

até juntos... Emfim uma série de trapalhadas.

Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos,

succumbido:

--E esta senhora, está claro, não sabia então de quem era filha...

O snr. Guimarães encolheu os hombros:

--Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte

dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella

casára na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia!

--É horrivel! murmurou Ega.

Mas, dizia o snr. Guimarães, que podia tambem fazer a Monforte? Que

diabo, era duro confessar á filha: «Olha que eu fugi a teu pai, e elle

por causa d'isso matou-se!» Não tanto pela questão de pudor; a rapariga

devia perceber que a mãi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos,

coitadinha, já tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue...

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 45 / 53 段