de bagagens--porque abandonára definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda
regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S.
Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mãi
Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da
_Toca_. Depois de cear, ao fogão, acabando o charuto, relembrou
infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã
tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do
marquez, as longas cavaqueiras ao café com as janellas abertas e as
borboletas voando em torno aos candieiros... Fóra as cordas d'agua, sob
o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos
terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume.
--Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por
fim Carlos, já não havia uma unica folha nas arvores... Tu não sentes
sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
--Immensa! murmurou Ega lugubremente.
Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos,
ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio
acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que
se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de
gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de
boné agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba
d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapéo alto,
trazia o cesto em que viajára o reverendo Bonifacio.
Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia
gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraços, a sua robustez de
patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde
o fim do verão vertigens, um cansaço vago...
--Vocês é que estão excellentes, acrescentou abraçando outra vez Carlos
e sorrindo ao Ega. E que ingratidão foi essa tua, John, mettido aqui
todo um verão sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que têm vocês
feito?
--Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos
sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educação superior
que vamos montar com uma força de mil cavallos!... Emfim logo se lhe
conta tudo ao almoço.
E ao almoço, com effeito, para justificarem as suas occupações em
Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella já estivesse organisada e os
artigos a imprimir na officina--tanta foi a precisão com que lhe
descreveram as tendencias, a feição critica, as linhas de pensamento
sobre que ella devia rolar... Ega já preparára um trabalho para o
primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma série
d'_ensaios_ á ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre nós o
systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas
bellas ambições de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio
capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer
á arena, lançar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia.
Então o velho riu. O quê! compôr prosa, elle, que hesitava para traçar
uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como
fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em
tres phrases: aos politicos--«menos liberalismo e mais caracter»; aos
homens de letras--«menos eloquencia e mais ideia»; aos cidadãos em
geral--«menos progresso e mais moral».
Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feições
da reforma espiritual que a _Revista_ devia prégar! Era necessario
tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no
frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na
capa. E então a conversação desviou para o exterior da _Revista_--Carlos
pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascença, Ega exigindo uma
cópia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais côr de
canario. E, levados pela sua imaginação de meridionaes, já não era só
para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fórma áquelle
confuso plano.
Carlos exclamava para o Ega, com os olhos já apaixonados:
--Isto agora é sério. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a
redacção!
Ega bracejava:
--Pudera! E moveis! E machinas!
Toda a manhã, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis,
se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas já as
difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos
desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico
e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel
modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem
querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de
linha e o fato mal feito...
Uma coisa porém ficou decidida: a casa da redacção. Devia ser mobilada
luxuosamente, com sofás do consultorio de Carlos e algum _bric-à-brac_
da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-portão de libré) a
taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a
ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na alegria de Maria ao
saber esta decisão que o lançava, como era o desejo d'ella, na
actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a
brochura côr de canario aos montões nas vitrines dos livreiros,
discutida nas _soirées_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto
pelos politicos...
--Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle
atirando um gesto immenso até ao tecto.
E o mais contente era o velho.
Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua de S.
Francisco (onde Maria se installára n'essa manhã) levarem a nova da
grande obra. Mas encontraram á porta uma carroça descarregando malas; e
a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda
jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa,
Ega não quiz subir.
--Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e
fallar-lhe da _Revista_.
Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois á
esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot,
offereceu-lhe uma «senhasinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do
_Hotel Alliança_:
--Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem
vende?...
Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gaz do
Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que
atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flôr no paletot.
--Que é isto?
--Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por
senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha você d'ahi
ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No
perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando
solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo
prohibido_. Então Craft propôz «botequim e genebra».
--E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se intrigára
desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira
tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em
casa do presidente do conselho, o Sá Nunes, que terminára por dar um
murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal d'Azambuja!»
--Canalha! rosnou Ega com odio.
Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reapparição de
Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa
com fogões, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.
Taveira acudiu com o olho brilhante:
--Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua
de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai
receber.
Craft não sabia mesmo que ella já tivesse recolhido da _Toca_.
--Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a conhece?... Encantadora.
--Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar
tão sympathico!
--Encantadora! repetiu Ega.
Mas o _Fructo prohibido_ findára, os homens enchiam o peristylo, n'um
rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira
com a genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da Alvim.
Mal erguera porém a cortina e assestára o monoculo--avistou defronte, na
primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas
brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face
d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha
risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, já
esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios,
correndo os dedos tremulos pelo bigode.
No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na
plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho do Ega:
outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permissão a s.
exc.^a Elle não escutava, não percebia: os seus olhos, um momento
errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e não se
desviaram de lá, n'uma emoção que o empallidecia.
Não a tornára a encontrar desde Cintra, onde só a via de longe, com
vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em
cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu
collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_
Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava
do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao tabique, saturado
de felicidade. Lá tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro.
Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos
pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como então os
seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia
solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o
afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de
recordações que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos
beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa á borda do sofá, e
a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente,
coberta de véos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do
quarto, cantarolando a _Traviata_...
--V. exc.^a dá licença, snr. Ega?
Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira.
Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno
subira. Á borda da rampa um lacaio, piscando o olho á Plateia, fazia
confidencias sobre a patrôa, de espanejador debaixo do braço. E Cohen,
agora de pé, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um
correr lento da mão bem tratada, onde reluzia um diamante.
Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença, cravou o monoculo no
palco. O lacaio abalára espavorido, a um repique furioso de sineta; e
uma megera azeda, de roupão verde e touca á banda, rompera de dentro,
meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida
que batia o tacão, se esganiçava: «Pois hei de amal-o sempre! hei de
amal-o sempre!»
Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e
o Damaso, com as cabeças chegadas como em Cintra, cochichavam n'um
sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao
Damaso! Collado á umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de
subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
E não desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho
general, gottoso e resmungão, sacudia um jornal, gritava pela sua
tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se
debruçára no camarote com as mãos de fóra, calçadas de _gris-perle_,
descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho
petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um
insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrára ás mãos,
tremendo todo, a gritar «que o salvasse!...»
Subitamente, com uma idéa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na
vespera guardára a carta do Damaso... «Eu t'arranjo!» murmurou elle. E
abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que
rola, enfiou, ao fundo da praça de Camões, n'um grande portão que uma
lanterna alumiava. Era a redacção da _Tarde_.
Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem
luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em
cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fôra,
havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e
desde esse verão alegre em que o Neves lhe ficára sempre devendo tres
moedas, os dois tratavam-se por _tu_.
Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo,
sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapéo para a
nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de
pé, n'um respeito de crentes. N'um vão de janella, com dois homens
d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquetão de cheviote claro e uma
cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava
como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito já calvo
rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
Ao vêr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacção, n'aquella noite
de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos tão curiosos, tão
inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
--Nada de politica, negocio particular... Não te interrompas. Depois
fallaremos.
O outro findou a injuria que estava lançando ao José Bento, «essa grande
besta que fôra metter tudo no bico da amiga do Sousa e Sá, o par do
reino»--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braço do Ega
arrastando-o para um canto:
--Então que é?
--É isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um
sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na
_Corneta do Diabo_, por uma questão de cavallos... O Maia pediu-lhe
explicações. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que
vocês publiquem.
A curiosidade do Neves flammejou:
--Quem é?
--O Damaso.
O Neves recuou d'assombro:
--O Damaso!? Ora essa! Isso é extraordinario! Ainda esta tarde jantei
com elle! Que diz a carta?
--Tudo. Pede perdão, declara que estava bebedo, que é de profissão um
bebedo...
O Neves agitou as mãos com indignação:
--E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo
politico!... E que não fosse, não é questão de partido, é de decencia!
Eu faço lá isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa,
explicações dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo!
Tu estás a mangar!
Ega, já furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na
face, teve ainda uma revolta áquella idéa do Damaso se declarar bebedo!
--Isso não póde ser! É absurdo! Ahi ha historia... Deixa vêr a carta.
E, mal relanceára os olhos ao papel, á larga assignatura floreada,
rompeu n'um alarido:
--Isto não é o Damaso nem é letra do Damaso!... «Salcede»! Quem diabo é
«Salcede»? Nunca foi o _meu_ Damaso!
--É o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
O outro atirou os braços ao ar:
--O meu é o Guedes, homem, o Damaso Guedes! Não ha outro! Que diabo,
quando se diz o Damaso é o Guedes!...
Respirou com grande allivio:
--Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas
de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se é o Salcede,
bem, acabou-se! Espera lá... Não é um gordalhufo, um janota que tem uma
propriedade em Cintra? Isso! Um maganão que nos entalou na eleição
passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis...
Perfeitamente, ás ordens... Ó Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi
uma carta para sahir ámanhã, na primeira pagina, typo largo...
O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a
«Reforma das Pautas».
--Vai depois! gritou o Neves. As questões de honra antes de tudo!
E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho,
saltou para a borda da mesa, lançou logo o seu vozeirão de chefe,
affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos
que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise
arrastára a Lisboa, arrancára á quietação das villas e das quintas. O
mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face
a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de
porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha
um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito
morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar,
conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia,
perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ás
noites, áquelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns
com esperanças de empregos, outros por interesses de terriola, alguns
por ociosidade. Para todos o Neves era um «robusto talento»;
admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas
lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas,
através d'essa admiração e do prazer de roçar por elle, percebia-se-lhes
um vago medo que aquelle «robusto talento» lhes pedisse, n'um vão de
janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho
como orador. Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses
historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas não havia outro
para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do
touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabêl-a ferrar!
--Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou
elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquetão claro.
O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu
o pescoço magro n'um collarinho muito decotado, lançou de lá:
--A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada!
A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da «do trapezio».
Fôra na Camara dos Pares, na reforma da instrucção. Estava fallando o
Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e
queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe
esta:
«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal sahirá para sempre da
senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nós
fôrmos ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio!»
--Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
E no murmurio de admiração que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz
mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota
na bochecha côr de tomate:
--Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um grandissimo
carola!
E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes
e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado á cruz.
Mas já o Neves, de pé, bravejava:
--Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho
carola! Está claro que tem toda a orientação mental do seculo, é um
racionalista, um positivista... Mas a questão aqui é a réplica, a
tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de lá com a
descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão atheu como
Renan, zás! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto é que é a
estrategia parlamentar! Pois não é assim, Ega?
Ega murmurou, através do fumo do charuto:
--Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se
espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr.
João da Ega--que fallasse á gente e guardasse o seu dinheiro...
Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão engraçado, tão
querido de todos:
--Então, na grande faina, Melchior?
--Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro do Craveiro, os
_Cantos da Serra_, e não me sae nada em termos... Não sei o que hei de
dizer!
Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o
Melchior:
--Nada! Vocês aqui são simples localistas, noticiaristas, annunciadores.
D'um livro como o do Craveiro têm só respeitosamente a dizer onde se
vende e quanto custa.
O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da
nuca:
--Então onde queria você que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
Não, nas Revistas Criticas: ou então nos jornaes--que fossem jornaes,
não papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em
estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez
por baixo e o resto cheio com «annos», despachos, parte de policia e
loteria da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes sérios
nem Revistas Criticas--que se não fallasse em parte nenhuma.
--Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece
pensar em nada...
E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio
provinha do natural desejo que têm os que são mediocres de que se não
alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha reles e rastejante!
Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provém sobretudo
d'elles terem abdicado todas as funcções elevadas d'estudo e de critica,
de se terem tornado folhas rasteiras d'informação caseira, e de sentirem
por isso a sua incompetencia...
--Está claro, não fallo por você, Melchior, que é dos nossos e de
primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem
incompetentes...
O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente:
--Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem se importa...
Ega protestou, já excitado. O Publico não se importava!? Essa era
curiosa! O Publico então não se importa que lhe fallem de livros que
elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a
população de Portugal, caramba, é igual aos grandes successos de Paris e
de Londres... Não, Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda
mais claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós somos
incompetentes. Nós estamos bestialisados pela noticia do snr.
conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos
_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo
em descompostura e calão, por toda esta prosa chula em que nos
atolamos... Nós não sabemos, não podemos já fallar d'uma obra d'arte ou
d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello
livro de viagens. Não temos nem phrases nem idéas. Não somos talvez
cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito
alto--nós chafurdamos aqui muito em baixo...»
--E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do silencio dos jornaes,
o côro dos jornalistas!
Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz, como quem
goza uma bella ária. Depois com uma palmada na mesa:
--Caramba, ó Ega, muito bem falla você!... Você nunca pensou em ser
deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: «O Ega! O Ega é que era,
para atirar alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia Troia!»
E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o
charuto--Melchior arrebatou a penna:
--Você está em veia! Diga lá, dicte lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o
livro do Craveiro?
Ega quiz saber o que escrevera já o amigo Melchior. Apenas tres linhas:
«Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simão Craveiro. O
precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias
d'este prestigioso escriptor, é publicado pelos activos editores...» E
aqui o Melchior emperrára. Melchior não gostava d'aquelle frouxo
termo--_activos_. Ega então suggeriu--_emprehendedores_. Melchior
emendou, leu:
--«...publicado pelos emprehendedores editores...» Ora sêbo, rima!
Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não estava em _verve_. E além
d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera...
--Fica para ámanhã... O peor é que já ando n'isto ha cinco dias! Irra!
Você tem razão, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é lá pelo
livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e
demais a mais pertence cá ao partido!