Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles
surgiu a face chupada e nervosa do Gonçalo, com a sua gaforinha
perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.
--Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
--Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande
phrase do Gouvarinho...
O Gonçalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio
esperto.
--A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella:
--É necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha
outra deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que sabe! É uma coisa
da Liberdade conduzindo á mão o corcel do Progresso... O quer que seja
assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calções de jockey, o
Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle
Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Você não foi á camara quando
se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi
de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia,
estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim não é
peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no
universo!
--Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
--Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tróço por
gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o paiz--esse
immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli
estava o amigo Gonçalo, como homem de intelligencia, considerando o
Gouvarinho um imbecil...
--Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
--Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa cavalgadura
para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella
rinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida:
--É necessario, homem! Razões de disciplina e de solidariedade
partidaria... Ha uns compromissos... O paço quer, gosta d'elle...
Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
--Ha ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de concessões em
Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito--o outro, faiscando
todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
--Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente! Nós fizemos
como vocês os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginação, a
phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o facto
positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal tambem se lançou
na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Historicos a
politica era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrorio... Nós
mudamos tudo isso. Hoje é o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o
bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino
dinheiro!
E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito
de «dinheiro! dinheiro!» parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz,
com a prolongação de um toque de rebate acordando as cubiças, chamando
ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns
enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos
jornaes sobre a mesa. E o Gonçalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou
nos tacões, desappareceu tambem, abraçando ao passar um dos padres a
quem tratou de «malandro!»
Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, já
mais calmo, começou logo a reflectir que o resultado da publicação da
carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A «questão
de cavallos» com que o Neves se contentára promptamente, distrahido e
absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O
Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de
Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que
deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentações, desesperos que
elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao
Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega
decidia correr depois d'almoço á redacção da _Tarde_, suster a
publicação da carta.
Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por
uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroça de
bois, sobre um enxergão onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha
de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem
pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das
rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a
consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os
moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado
que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba,
sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os céos!
Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cólera contra o Damaso resurgiu,
mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Além d'isso chovia. E decidiu
não voltar á _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto,
o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma
bem pago.--E quem jámais acreditaria n'um homem que nos jornaes se
declara calumniador e bebedo?
E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoço, Ega lhe contou a
sua resolução da vespera ao vêr o Damaso no camarote, d'olho trocista
posto n'elle, a segredar com os Cohens...
--Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da
snr.^a D. Maria, de nós todos, contando horrores... E então acabou-se,
não hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiça de Deus! Não
tinhamos paz emquanto o não aniquilassemos!
Sim, concordou Carlos, talvez. Sómente receava que o avô, sabendo o
escandalo, se desgostasse de vêr o seu nome misturado a toda aquella
sordidez de _Corneta_ e de bebedeira...
--Elle não lê a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, é já vago e
desfigurado.
Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltára no
Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarára depois
n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinião do velho
foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria
injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaração revelava extrema
lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
--Por esta não esperavamos nós! exclamou depois Ega no quarto de Carlos.
O Damaso torna-se um justo!
De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_,
approvavam a aniquilação do Damaso. Só o Craft sustentou que Carlos lhe
devia ter antes dado «bengaladas secretas»; e o Taveira achou cruel que
se dissesse ao desgraçado, com um florete ao peito--«ou a dignidade ou a
vida!»
Mas dias depois não se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas
interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fôra formado,
finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas.
Já os jornaes do governo cahido começavam, segundo a pratica
constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao
rei com azedume... E o derradeiro, esvaído echo da carta do Damaso foi,
na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde
ella fôra publicada, n'estas amaveis palavras:
--«O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente
para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_
todas as prosperidades na sua bella excursão ao paiz do canto e das
artes.»
VI
Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorára no
corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na
sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:
--Então, definitivamente, v. exc.^a não vem ao sarau da Trindade?...
Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa lenta que
lhe cantava entre os dedos:
--Não me interessa, estou muito cançada...
--É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se
estirára consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides no Egypto. E no
emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias póde um
christão trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia...
Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vêr por dez tostões uma coisa
tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao
mesmo tempo nua e de casaca.
--Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho!
Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.
--Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino... Vamos lá,
Carlos, mexe-te!
Mas Carlos implorou clemencia:
--Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_.
Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam mais
tarde...
Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel,
enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção d'_Ophelia_, de
que Maria já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
Pâle et blonde,
Dort sous l'eau profonde...
Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava
Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha n'essa
noite modelava-a com a perfeição d'um marmore: e entre as velas do
piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons d'ouro
esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em
esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E
quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da
sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos!
Em torno d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente,
d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só
tinha o numero d'inimigos que é necessario para confirmar uma
superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante
para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o
irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!
--Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés
pelo tapete, quando Maria findou a canção d'_Ophelia_.
Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
--É esse grande orador de que fallavam na _Toca_?
Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente,
homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera
grande, deputado por Monção, e sublime n'essa arte, antigamente nacional
e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de
theatro e de papo, combinações sonoras de palavras...
--Detesto isso! rosnou Carlos.
Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas, como
um passaro n'um galho d'arvore...
--É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de
Strauss tambem não tem idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala, é
deliciosa...
Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a
palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar
fórma ás idéas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma
marcha a uma criança, ella ri-se e salta no collo...
--E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho
secca-se e berra!
--Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos
costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista,
que não tenha um fraco pela força, pelos athletas, pelo _sport_, pelos
musculos de ferro. E nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do
palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes,
um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica.
E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot,
voar á _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino.
Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:
--Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven;
nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se
te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia
d'ideal!...
--E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
--Melhores poetas, affirmou Carlos.
--Bons charutos!
--Bom cognac!
Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi está como se pervertia um
cidadão, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas
perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle não tinha só uma
razão litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
_Meditações d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges.
--Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me
o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos.
E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao piano, os
dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, tão clara e
dôce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou
para olhar as janellas alumiadas.
--Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do Ega, em ter
deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado
de cavaco e de litteratura...
Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto
ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter
um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho
sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... Além d'isso havia a
lançar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto
annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso.
--E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação ao paiz. Positivamente,
menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!...
--Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja
aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia
de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com
um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois
amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
--É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
--E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.
Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos, que
dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse o Cruges...
--Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica!
E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao
ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés,
segredando--sentiram logo um vozeirão tumido, garganteado, provinciano,
de vogaes arrastadas em canto, invocando lá do fundo, do estrado, «a
alma religiosa de Lamartine!...»
--É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que não
passára da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro,
foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se
cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de
palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéos de senhoras
picados por manchas claras de plumas ou flôres. Em volta, de pé,
encostados aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos
espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das
Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o
snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face
escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua gaforinha ao
vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sêda branca; e, n'um
grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendonça, o
Pinheiro, assistindo áquelle _sport_ da eloquencia com uma mistura
d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria
outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por
traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o
novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com um botão de camelia na
casaca mal feita.
O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom
desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além uma
tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenço.
E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com
sanefas de velludo côr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado
permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate.
No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito
trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo, «o _Anjo da
Esmola_ que elle entrevira, além no azul, batendo as azas de setim...»
Ega não comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que
pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim não se
conteve:--«Sobre que está elle a fallar?» E foi o padre que o informou,
com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo:
--Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
Infelizmente está a acabar!
Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino arrebatára o lenço,
limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado,
voltando-se para as cadeiras reaes com um tão ardente gesto
d'inspiração--que o collete repuxado descobriu o começo da ceroula. Foi
então que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que
dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio
d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola
que deslumbrava o Rufino--porque elle, «como todos os homens educados
pela philosophia e que têm a verdadeira orientação mental do seu tempo,
via nos grandes factos da historia não só a sua belleza poetica, mas a
sua influencia social. A multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada,
para a incomparavel poesia da mão calçada de fina luva que se estende
para o pobre. Elle porém, philosopho, antevia já, sahindo d'esses
delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O
quê, meus senhores? O renascimento da Fé!»
De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando em baixo um
berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoção. Um
commissario do sarau, D. José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do
tablado, com o seu laçarote de sêda vermelha na casaca, dardejando
severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos
risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam «_chut,
silencio,_ _fóra!_» E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial
do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando
duramente... Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim
mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas
vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de
Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molhára lentamente os
labios no copo, avançou um passo, sorrindo, com o lenço branco na mão:
--Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental d'este seculo...
Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão de que o
padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou para traz, para
desabafar com Carlos.
--Tu imaginavas uma besta assim?
--Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?
Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.
--E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, d'azul... Hei de querer vêr
logo esse encontro!
Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente
«_bonsoir, messieurs_...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de
casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E immediatamente
Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...
--Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré que la
reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute
cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est très
ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé?
--Merci...
Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça n'uma
tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma aldeia, a aldeia
em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se,
enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Então Steinbroken,
subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande
orador de que lhe tinham fallado...
Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
--Em qual génerro?...
--Genero sublime, genero de Demosthenes!
Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, fallou em filandez ao
seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques
debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os
dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime.
Ruffino, no entanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade
de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a
violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus
irrefutavelmente,--elle fôra dilacerado pelo espinho da descrença! Sim,
quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre
choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle
passára junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de
lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!...
Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam
murmurar «_muito bem, muito bem_...»
Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um
grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a
Natureza que atacava seus filhos!--E lançando os braços, como quem se
debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um
casal, ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar
choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando
um botão de rosa e um berço!...
Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em
torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para
os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: «Que
rajadas!... Caramba!... Sublime!...»
Rufino sorria, bebendo esta commoção, que era a obra do seu verbo.
Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e
vazias...
Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos
para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvação,
para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre
elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus
senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiração da caridade?
d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia?
dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega
covardemente a alma? das sêccas escólas de philosophia que fazem de
Jesus um precursor de Robespierre? Não! Elle ousára interrogar o anjo,
submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaço
divino, murmurára: «Venho d'além!»
Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os
estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um
estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras.
E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores!
Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que o sol, este
radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as
ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um
Littré e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia
alli, com a mão sobre o coração, affirmar a todos bem alto--havia um
céo!
--Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das
Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mãos,
affirmaram soberbamente o céo!
O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera. Era o
Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os
bigodes.
--Que te parece, Thomaz?
--Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.