Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta effusão, Ega ergueu a

voz da sombra do corredor, gravemente:

--Não tem duvida, nós esperamos...

O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os

suspensorios:

--Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho vergonha, já estou de

calças!

--Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.

A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era

exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor

abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos

a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em faiança: uma das colchas

da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano,

arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol,

debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso

comprára no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto

de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia

d'amor...»

Sob estes retoques de _chic_, dados á pressa sob a influencia do Maia,

impertigava-se a sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul;

a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana

acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no

caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de

convites para _soirées_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando

os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a

perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapé de velludo, teso, commodo,

com o seu chapéo alto na mão.

Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma sobrecasaca azul,

florida por um botão de camelia, atirou risonhamente os braços ao ar:

--Então esta é que é a pessoa de ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E

eu a pôr sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de

Christo!...

Ega atalhou, muito sério:

--O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz é delicado

e grave, Damaso.

Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos

seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou, todo o

sorriso se lhe apagou na face.

--Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês...

A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda d'uma poltrona baixa, junto

d'uma mesa coberta d'encadernações ricas, com as mãos nos joelhos, ficou

esperando, n'uma anciedade.

--Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...

Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso até á

risca do cabello encaracolado a ferro. E não achou uma palavra,

attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.

Ega proseguiu, lento, direito no canapé:

--O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou

fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma

senhora das relações d'elle na _Corneta do Diabo_...

--Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca

escrevi em jornaes, graças a Deus! Ora essa, a _Corneta_!...

Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio

collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico

volume da _Biblia_ de Doré.

--Aqui está a sua carta remettendo ao Palma Cavallão o rascunho do

artigo... Aqui está, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a

quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei até á Fancelli... Além

d'isso nós temos as declarações do Palma. O Damaso é não só o

inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos

da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparação pelas armas...

Damaso deu um salto da poltrona, tão arrebatado--que involuntariamente

Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas já o Damaso estava no meio

da sala, esgazeado, com os braços tremulos no ar:

--Então o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim

é que me pregou uma partida!... Foi elle, vocês sabem perfeitamente que

foi elle!...

E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao

peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fôra Carlos, Carlos, que o

desfeitiára a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o

perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito

_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como

era, promettia, dizia: «Deixa estar, eu te apresento!» Pois, senhores,

que faz Carlos? Aproveita uma occasião sagrada, um momento de luto,

quando elle Damaso fôra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se

dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre

senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do

marido, intimo de _tu_! Caramba, elle é que devia mandar desafiar

Carlos! Mas não! fôra prudente, evitára o escandalo por causa do snr.

Affonso da Maia... Queixára-se de Carlos, é verdade... Mas no Gremio, na

Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos préga-lhe uma

d'estas!

--Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...

Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mão, observou placidamente que

se desviavam do ponto vivo da questão. O Damaso concebera, rascunhára,

pagára o artigo da _Corneta_. Isso não o negava, nem o podia negar: as

provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham além d'isso a

declaração do Palma...

--Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada

d'indignação que o fez redemoinhar, estonteado, tropeçando nos moveis.

Esse descarado do Palma! Com esse é que eu me quero vêr!... Lá a questão

com o Carlos não vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com

o Palma é que é! Esse traidor é que eu quero rachar! Um homem a quem eu

tenho dado ás meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um

ladrão que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e

pôl-o no prégo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde

é que você o viu, Ega? Diga lá, homem! Que quero ir procural-o, hoje

mesmo, correl-o a chicotadas... Traições não, não admitto a ninguem!

Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prêsa certa, lembrou

de novo a inutilidade d'aquellas divagações:

--Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto é este: o Damaso

injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou

dá uma reparação pelas armas...

Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que

se não movera do sofá de velludo, esfregando, um contra o outro, com um

ar arripiado e de dôr, os dois sapatos novos de verniz.

--Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que

fazia de mim tudo! Até lhe copiava coisas... Você bem viu, Cruges. Diga!

Falle, homem! Não sejam vocês todos contra mim!... Até ás vezes ia á

alfandega despachar-lhe caixotes...

O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega,

por fim, já farto, lançou uma intimação derradeira:

--Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?

--Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforço

de dignidade, a tremer todo. E de quê? Ora essa! É boa! Eu sou lá homem

que me desdiga!

--Perfeitamente, então bate-se...

Damaso cambaleou para traz, desvairado:

--Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu cá é a sôcco. Que venha

para cá, não tenho medo d'elle, arrombo-o...

Dava pulinhos curtos de gordo, através do tapete, com os punhos fechados

e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! Não lhe faltava mais

senão bater-se... E então duellos em Portugal, que acabavam sempre por

troça!

Ega no emtanto, como se a sua missão estivesse finda, abotoára a

sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois,

serenamente, fez a ultima declaração de que fôra incumbido. Como o snr.

Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparação

pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o

encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe

escarraria na face...

--Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro já

viesse no ar.

E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre

o Ega, agarrando-lhe as mãos, n'uma agonia:

--Ó João, ó João, tu, que és meu amigo, por quem és, livra-me d'esta

entaladella!

Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a

poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou

que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o

enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava só o camarada, como

no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um

conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera

publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fôra

invenção falsa e gratuita. Só isto o salvava. D'outro modo, Carlos um

dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse

desastre, Damasosinho, a não querer ser apontado em Lisboa como um

incomparavel cobarde, tinha de se bater á espada ou á pistola...

--Ora, em qualquer d'esses casos, você era um homem morto.

O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a

face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braços, murmurou da

profundidade do seu terror:

--Pois sim, eu assigno, João, eu assigno...

--É o que lhe convém... Arranje então papel. Você está perturbado, eu

mesmo redijo.

Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago

por sobre os moveis:

--Papel de carta? É para carta?

--Sim, está claro, uma carta ao Carlos!

Os passos do desgraçado perderam-se emfim no corredor, pesados e

succumbidos.

--Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a

mão aos sapatos.

Ega lançou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso

papel de monogramma e corôa. Para envolver em silencio e segredo aquelle

transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo,

desdobrando-se, mostrou o brazão de Salcede, onde havia um leão, uma

torre, um braço armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel

divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa,

abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso...

--Eu faço o rascunho, você depois copía...

--Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o lenço

pelo pescoço e pela face.

Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle

silencio, que o embaraçava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando

até ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho,

bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os

documentos do _chic a valer_ que era a paixão da sua vida: bilhetes com

titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada

no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey

Club, de membro do Tiro aos Pombos:--até pedaços cortados de jornaes

annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, «um dos

nossos mais distinctos _sportmen_».

Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava,

ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que

eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha

bastaria:--«Meu querido Carlos, não te zangues, desculpa, foi

brincadeira.» Mas não! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas!

Já mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem

escorrer sem cessar coisas humilhadoras! Não se conteve, estendeu a face

por sobre a mesa, até o papel:

--Ó Ega, isso não é para publicar, pois não é verdade?

Ega reflectiu, com a penna no ar:

--Talvez não... Estou certo que não. Naturalmente Carlos, vendo o seu

arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta.

Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente

entre amigos! Que lá isso, mostrar o seu arrependimento, até elle

desejava! Com effeito o artigo fôra uma tolice... Mas então! Em questões

de mulheres era assim, assomado, um leão...

Abanou-se com o lenço, desanuviado, recomeçando a achar sabôr á vida.

Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se

do Cruges--que, coxeando através das curiosidades da sala, encalhára

sobre o piano e sobre os livros de musica, com o pé dorido no ar.

--Então tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?

Cruges, muito vermelho, resmungou que não tinha feito nada.

Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um

olhar inquieto á mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou,

sobre o hombro do maestro:

--Uma entaladella assim! Eu é por causa da gente conhecida... Senão não

me importava! Mas veja você tambem se arranja as coisas e se o Carlos

deixa aquillo na gaveta...

Justamente Ega erguera-se com o papel na mão e caminhava para o piano,

devagar, relendo baixo.

--Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fórma de carta ao

Carlos, é mais correcto. Você depois copía e assigna. Ouça lá:

«Exc.^{mo} snr....» Está claro, você dá-lhe excellencia, porque é um

documento d'honra... «Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermédio

dos seus amigos João da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignação

que lhe causára um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi

o rascunho e de que promovi a publicação, venho declarar francamente a

v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheço, não continha senão

falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica está em que o

compuz e enviei á redacção da _Corneta_ no momento de me achar no mais

completo estado d'embriaguez...»

Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixára pender os braços,

rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu,

entalando o monoculo:

--Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica

maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.

E desenvolveu a sua idéa, mostrando quanto era generosa e

habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos

nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica)

declarasse «que calumniára por ser calumniador». Era necessario, pois,

dar á calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a

responsabilidade ás acções. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano

e femeeiro, do que estar bebedo?... Não era vergonha para ninguem

embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de

honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma

hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em

Inglaterra era tão _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na

Camara dos communs senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo!

Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de

piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra

ficava salva. Era um homem de bem que apanhára uma carraspana e que

commettera uma indiscrição... Nada mais!

--Pois não te parece, Cruges?

--Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.

--Pois não lhe parece a você, francamente, Damaso?

--Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraçado.

Immediatamente Ega retomou a leitura: «Agora que voltei a mim reconheço,

como sempre reconheci e proclamei, que é v. exc.^a um caracter

absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento

d'embriaguez ousei salpicar de lama, são-me só merecedoras de veneração

e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu

alguma palavra offensiva para v. exc.^a, não lhe devia dar v. exc.^a, ou

aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se dá a uma

involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que

reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em

estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc....» Rodou

sobre os tacões, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao

lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinára

áquella confissão de bebedeira incorrigivel e palreira. Fôra ainda o

desejo de garantir a tranquillidade do «nosso Damaso». Attribuindo todas

as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperança

hereditaria, de que tinha tão pouca culpa como de ser baixo e gordo, o

Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocações de Carlos...

--Você, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio,

sem querer, na cavaqueira depois do theatro, lá lhe escapa uma palavra

contra Carlos... Sem esta precaução, ahi recomeça a questão, o escarro,

o duello... Assim já Carlos não se póde queixar. Lá tem a explicação que

tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice

hereditaria... Você alcança d'este modo a coisa que mais se appetece

n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua

familia não é vergonha, porque você não tem familia. Em resumo,

convem-lhe?

O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas

roncantes phrases sobre «a hereditariedade», sobre «o seculo XIX». E um

unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz

pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem

força:

--Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.

E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em

que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta na sua

maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aço.

Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava

em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que traçava a mão

applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um

momento atravessou-o um susto... Damaso parára, com a penna indecisa.

Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um

resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alçou para elle os

olhos embaciados:

--Embriaguez é com _n_ ou com _m_?

--Com um _m_, um _m_ só, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito

bem... Que linda letra você tem, caramba!

E o infeliz sorriu á sua propria letra--pondo a cabeça de lado, no

orgulho sincero d'aquella soberba prenda.

Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a pontuação. Era

necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito.

--Quem é o seu tabellião, Damaso?

--O Nunes, na rua do Ouro... Porque?

--Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera

ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, está

d'appetite a cartinha!

Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou Forte»,

sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o

chapéo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgazã e

leve:

--Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra de portas,

n'uma poça de sangue! Assim é uma delicia. E adeus... Não se incommode

você. Então o grande sarau sempre é na segunda-feira? Vai lá tudo, hein!

Não venha cá, homem... Adeus!

Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no

patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação que o assaltára:

--Isso não se mostra a ninguem, não é verdade, Ega?

Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim

Carlos era tão bom rapaz, tão generoso!

Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:

--E chamei eu áquelle homem _meu amigo_!

--Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a observação do Ega,

saltando alegremente os degraus.

Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já esperava ao

portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_.

Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que

voasse ao Loreto.

--E então, meus senhores, temos sangue?

--Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o

enveloppe.

Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:

--Isto é incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!

--O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu?

Que elle se batesse?

--Não sei, corta o coração... Que se ha de fazer a isto?

Segundo o Ega não se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo

em torno do artigo da _Corneta_ que custára trinta libras a suffocar.

Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça pairando sobre o Damaso,

tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.

--Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: é obra

tua, usa-o como quizeres...

Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro,

queria saber como elle se portára n'aquelle lance d'honra...

--Pessimamente! gritou Ega. Com expressões de compaixão; sem linha

nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mão no sapato...

--Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocês dizem-me que me ponha

de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde

n'um tormento!

E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho

suspiro de consolação.

No dia seguinte, depois do almoço, emquanto uma chuva grossa alagava os

vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma

poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a

pouco subia n'elle a mágoa de que esse colossal documento de cobardia

humana, tão interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para

sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo

effeito se aquella confissão do «nosso distincto _sportman_» surgisse um

dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do

_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que lição, que

meritorio acto de justiça social!

Todo esse verão, Ega detestára o Damaso, certo, desde Cintra, de que

elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas

nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manhãs na

colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que

lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que

lhe tornára o Damaso intoleravel--fôra a sua farofia radiante de homem

preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas

estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha

sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acênosinho desdenhoso, com um

dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era

odioso! Odiava-o: e através d'esse odio ruminára sempre o desejo d'uma

vingança--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos

olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balão furado...

E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente

se declarava bebedo. «Sou um bebedo, estou sempre bebedo»! Assim o

dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil

de cão gôso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer

pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar tão

decisivo documento no fundo d'um gavetão?

Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ não podia, infelizmente,

por interesse de Carlos. Mas porque o não mostraria «em segredo», como

uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao

Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia ao Taveira

que, resentido eternamente da questão com o Damaso em casa da Lola

Gorda, correria a lêl-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do

Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a

snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coração

era por confissão propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!

Tão delicioso que não hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta

do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma

de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete.

Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 41 / 53 段