Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fôra

na vespera á tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle já

conhecia o papelucho, já privára mesmo com o proprietario e redactor--o

Palma, chamado Palma _Cavallão_ para se distinguir d'outro benemerito

chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do

Palma a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de

Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... Não era

natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que só lhe

podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fôra-lhe

simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre

quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o

Palma _Cavallão_ no seu antro.

--Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.

--Tanto não... Fui perguntar á secretaria da Justiça a um sujeito que

esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_...

Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas dispostas pelas mãos habeis

d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis

numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras,

desmanchára-se. Além d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro

que lhe encommendára o artigo, por divergencia na seriissima questão de

pecunia. De sorte que apenas elle propôz comprar a tiragem do jornal--o

jornalista estendeu logo a mão larga, d'unhas roídas, tremendo de

reconhecimento e de esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a

promessa de mais dez...

--É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, não

regateei bastante... E emquanto a dizer quem é o cavalheiro que

encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga

hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa,

que Lisboa está carissima, que a litteratura n'este desgraçado paiz...

--Quanto quer elle?

--Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez desça a quarenta.

--Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem

te parece que seja?

Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E

mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_

devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua

de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por

ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia

a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...

--Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.

Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão:

--Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos averigual-o com certeza,

porque, para terminar a negociação, fiquei de me ir encontrar com o

Palma ás tres horas no _Lisbonense_... E o melhor é vires tambem. Trazes

tu dinheiro?

--Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.

E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao

escriptorio do Villaça. O procurador fôra a Mafra, a um baptisado.

Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avô.

Quando perto das quatro horas se apearam á entrada do _Lisbonense_, no

largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquetão de velludo

coçado e calça de casimira clara collada á côxa, accendia um cigarro.

Estendeu logo rasgadamente a mão a Carlos--que lhe não tocou. E Palma

_Cavallão_, sem se offender, com a mão abandonada no ar, declarou que ia

justamente sahir, cançado já de esperar em cima diante d'um _grog_ frio.

De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli...

--Eu arranjava cá o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se

os senhores querem, vamos lá p'ra cima para um gabinete, que se está

mais á vontade, e toma-se outra bebida.

Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter já visto aquella

luneta de vidros grossos, aquella cara balofa côr de cidra... Sim, fôra

em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle

farejára pelas estradas silenciosas, como um cão abandonado, procurando

Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram

n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja

de saguão. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns

pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma

bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxão ás

calças:

--Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu já disse cá

ao amigo Ega, em todo este negocio...

Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da

bengala na borda da mesa.

--Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem

lhe encommendou o artigo da _Corneta_?

--Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na

parede uma gravura onde havia mulheres núas á beira d'agua. Não nos

basta o nome... O amigo Palma, está claro, é de toda a confiança... Mas

emfim, que diabo, não é natural que nós acreditassemos se o amigo nos

dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragança!

Palma encolheu os hombros. Está visto que havia de dar provas. Elle

podia ter outros defeitos, trapalhão não! Em negocios era todo franqueza

e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas

que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a

carta do amigo que lhe encommendára a piada: a lista das pessoas a quem

se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis...

--Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.

O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos

molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e então o

redactor da _Corneta_ offereceu a «bebida» rasgadamente, puxou mesmo

cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de

pé junto da mesa onde terminára por pousar a bengala, Ega passando a

outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado

sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:

--Cem mil reis são uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe

offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da

_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam á grilheta!... Está claro,

este caso é outro, vossê não teve intenção d'offender; mas levam á

grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no

porãosinho d'um navio, com ração de marujo e chibatadas. Desagradavel,

muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre

cavalheiros, e em amizade.

Palma, com a cabeça baixa, desfazia torrões de assucar dentro do copo de

genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser

entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...

Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de

libras, que começou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um

prato. E Palma _Cavallão_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo

o jaquetão, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de

prata sob uma enorme corôa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim

desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o

monoculo sôfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do

Damaso!

Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma,

curta e em calão, remettendo o artigo, recommendando-lhe «que o

apimentasse». Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo

Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas

que deviam receber a _Corneta_: vinha lá a Gouvarinho, o ministro do

Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o

Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna...

Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao

prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de

relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos:

--Recolha o bago, amigo Palma! Negocios são negocios, e o baguinho está

ahi a arrefecer!

Então, ao palpar o ouro, Palma _Cavallão_ commoveu-se. Palavra, caramba,

se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia não tinha

aceitado o artigo! Mas então!... Fôra o Eusebio Silveira, rapaz amigo,

que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lérias, e que

era uma brincadeira, e que o Maia não se importava, e isto e aquillo, e

muita promessa... Emfim deixára-se tentar. E tanto o Salcede como o

Silveira se tinham portado pulhamente.

--Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Senão estava agora

entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas

acabou-se! O mal não foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca

da vida.

Vivamente, com um olhar, recontára o dinheiro na palma da mão: depois

esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guardára as

cartas do Damaso, levantava já o fecho da porta. Mas voltou-se ainda,

n'uma derradeira averiguação:

--Então esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?...

O snr. Palma, muito lealmente, afiançou que o Eusebio lhe fallára apenas

em nome do Damaso!

--O Eusebio, coitado, veio só como embaixador... Que o Damaso e eu não

vamos muito na mesma bola. Ficámos exquisitos, desde uma péga em casa da

Biscainha. Aqui p'ra nós, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle

embuchou. Passados tempos tornámos a fallar, quando eu fazia o

_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do

conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile

d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra

piadita. Elle pagou a ceia, ficámos mais calhados... Mas é traste... E

lá o Eusebiosinho, coitado, veio só d'embaixador.

Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o

cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabeça para a porta;

depois, sem se offender, voltou alegremente á genebra, dando outro puxão

ás calças. Ega no emtanto accendia devagar o charuto.

--Vossê agora é que redige o jornal todo, Palma?

--O Silvestre, tambem...

--Que Silvestre?

--O que está com a _Pingada_. Vossê não conhece, creio eu. Um rapazola

magro, que não é feio... Semsaborão, escreve uma palhada... Mas sabe

coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que

elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre ás vezes tem graça! E

sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigações,

pulhices... Vossê nunca leu nada d'elle? Chôcho. Tenho sempre de lhe

arranjar o estylo... N'este numero é que havia um folhetimzito meu,

catita, cá á moderna, como eu gósto, alli com a piadinha realista a

bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe

agradeço. Quando quizer, eu e a _Corneta_ ás ordens!

Ega estendeu-lhe a mão:

--Obrigado, digno Palma! E _adiós_!

--Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito

homem com infinito _salero_.

Em baixo Carlos esperava, dentro do coupé.

--E agora? perguntou Ega, á portinhola.

--Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...

Carlos já esboçára summariamente o plano d'essa liquidação. Queria

mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal

que o injuriava. O duello devia ser á espada ou ao florete, um d'esses

ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o

Damaso. Se contra toda a verosimilhança elle se batesse, Carlos

fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse

mezes na cama. Senão a unica explicação que Carlos aceitaria do snr.

Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples:

«Eu abaixo assignado declaro que sou um infame.» E para estes serviços

Carlos contava com o Ega.

--Agradeço! agradeço! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mãos,

faiscando de jubilo.

No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e

lembrou o Cruges, moço passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar

o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino

Victorino não estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de lá um

bilhete chamando o Cruges--«para um caso urgente d'amizade e d'arte».

--Com quê, dizia o Ega continuando a esfregar as mãos emquanto a tipoia

trotava para a rua de S. Francisco, com quê, demolir o nosso Damaso?

--Sim, é necessario acabar com esta perseguição. Chega a ser ridiculo...

E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por

algum tempo. Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os

termos d'uma carta forte...

--Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.

No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por

elle na sala das _Illustrações_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken

conversavam de pé, no vão d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro

da Filandia abriu os braços para o _cher Maia_, que elle não vira desde

a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega

risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se formára

n'esse verão, em Cintra: mas o aperto de mão a Carlos foi sêcco e curto.

Já dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurára de

leve e de passagem «um como está, Maia?» em que se sentia arrefecimento.

Ah! já não eram essas effusões, essas palmadas enternecidas pelos

hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na

cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonára a snr.^a

condessa de Gouvarinho, a rua de S. Marçal e o commodo sofá em que ella

cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como

abandonado tambem.

--Tenho tido saudade das nossas bellas discussões em Cintra! disse elle,

dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao

Maia. Tivemol-as de primeira ordem!

Eram realmente «pégas tremendas» no pateo do Victor sobre litteratura,

sobre religião, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por

causa da divindade de Jesus.

--É verdade! acudiu o Ega. Vossê n'essa noite parecia ter ás costas uma

opa de irmão do Senhor dos Passos!

O conde sorriu. Irmão do Senhor dos Passos não, graças a Deus! Ninguem

melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho

reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para

consolar a alma humana. É o que elle objectára n'essa noite ao amigo

Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a

mãi que chora? Não. Então...

--Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o

relogio. E, eu confesso, uma discussão elevada sobre religião, sobre

metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me

á philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.

Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho

d'alecrim ao peito, tomára as mãos de Carlos:

--Mais vous êtes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia,

toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet

hiver?

E immediatamente lamentou não ter visitado Santa Olavia. Mas quê! a

familia real installára-se em Cintra; elle fôra forçado a acompanhal-a,

fazer a sua côrte... Depois necessitára ir de fugida a Inglaterra d'onde

acabava de chegar, havia dias.

Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_...

--Vous avez lu ça? Oh oui, on a été très aimable, très aimable pour moi

à la _Gazette_...

Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de

amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada

esta affeição sincera que liga Portugal e a Filandia... «Mais enfin on

avait été charmant, charmant!...»

--Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para

o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'étais venu

de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis

embarqué à Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai même pensé à écrire à

Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garçon...

Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: «Mon Dieu, on va croire que je veux

donner une leçon d'exactitude à la _Gazette_, c'est très grave...»

Alors, voilà, très prudemment, j'ai gardé le silence... Mais enfin c'est

une erreur: je me suis embarqué à Bordeaux.

Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse

facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia

desejar, por polidez, que a Historia se não incommodasse. E então o

Gouvarinho, que accendêra o charuto, espreitára outra vez o relogio,

perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da

crise.

Foi uma surpreza para ambos, que não tinham lido os jornaes... Mas,

exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em pleno remanso, com as

camaras fechadas, tudo contente, um tão lindo tempo d'outono?

O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, á

noitinha, uma reunião de ministros; n'essa manhã o presidente do

conselho fôra ao paço, fardado, determinado a «largar o poder»... Não

sabia mais. Não conferenciára com os seus amigos, nem mesmo fôra ao seu

Centro. Como n'outras occasiões de crise, conservára-se retirado,

calado, esperando... Alli estivera toda a manhã, com o seu charuto, e a

_Revista dos Dois Mundos_.

Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco patriotica...

--Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...

--Exactamente por isso, acudiu o conde com uma côr viva na face, não

desejo pôr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o

ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome são

necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham

pedir-m'os...

Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas

coisas politicas, começou logo a retrahir-se para o fundo da janella,

limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetravel, no grande

recato neutral que competia á Filandia. Ega no emtanto não sahia do seu

espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas

camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benção da Igreja, a

protecção do _Comptoir d'Escompte_?...

O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razão:

--O ministerio estava gasto.

--Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.

O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia

obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento.

Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...

--Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. É extraordinario!

N'este abençoado paiz todos os politicos têm _immenso talento_. A

opposição confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias,

têm, á parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_!

Por outro lado a maioria admitte que a opposição, a quem ella

constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de

_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz é

uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz

governado _com immenso talento_, que é de todos na Europa, segundo o

consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a

vêr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os

imbecis!

O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de

phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o

charuto no d'elle:

--Que pasta preferiria você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A

dos Estrangeiros, está claro...

O conde fez um largo gesto d'abnegação. Era pouco natural que os seus

amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornára-se

sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Além d'isso não sabia bem se

as occupações da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam

tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos

Estrangeiros não o tentava...

--Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar

d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessario ter por

traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos.

Nós, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para

que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «ha de ser assim», não

estou!... Pois não acha, Steinbroken?

O ministro tossiu, balbuciou:

--Certainement... C'est très grave... C'est excessivement grave...

Ega então affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse

geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador,

original, rasgado...

Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.

--Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as

coisas bellas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os

escravos; deu-se-lhes já uma sufficiente noção da moral christã;

organisaram-se já os serviços aduaneiros... Emfim o melhor está feito.

Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por

exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque

mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal

como elemento civilisador!

N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges

estava em baixo, no portal, á espera. Immediatamente os dois amigos

desceram.

--Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.

--E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, é um dos

melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa

branca em linha de conta, este é talvez o melhor!

Acharam o Cruges á porta, de jaquetão claro, embrulhando um cigarro. E

Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta.

O maestro arregalava os olhos.

--É jantar?

--É enterro.

E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso

publicára n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham

supprimido, não sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um

artigo em que a coisa mais dôce que se chamava a Carlos era _pulha_.

Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a

vida.

--Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas

não entendo.

--Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o

sobr'olho. Depois vir commigo; não dizer nada; tratar o Damaso por «v.

exc.^a»; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o

sobr'olho nem despir a sobrecasaca...

Sem outra observação, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro.

Mas no meio da rua retrocedeu:

--Ó Carlos, olha que eu fallei lá em casa. Os quartos do primeiro andar

estão livres, e forrados de papel novo...

--Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!...

O maestro abalára, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma

caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mão no fecho

da portinhola, gritou aos dois amigos:

--O Gouvarinho? está lá em cima?

--Está... Novidade fresca?

--Os homens cahiram. Foi chamado o Sá Nunes!

E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar até ao

portão do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem

cortinas. Carlos, erguendo para lá os olhos, pensava n'essa tarde das

corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vêr aquellas

janellas: ia então escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira

uma luz, elle contemplára-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo

passa!

Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se

á pressa para dentro da caleche que esperára. Ega parou, deixou cahir os

braços:

--Lá vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama

das Camelias_ no sertão! Deus se amerceie de nós!

Mas o Cruges appareceu emfim de chapéo alto, entalado n'uma sobrecasaca

solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia

estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria

ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado

«do chinfrin», no jardim da Estrella, junto ao coreto.

--Sêde rapidos e medonhos!

A casa do Damaso, velha e d'um andar só, tinha um enorme portão verde,

com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de

convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse,

arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre

de Carlos e das suas pompas) já não trazia torturado em botins crueis de

verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal,

que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.

O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma

escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a môfo.

Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade

d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de lá:

--Ó Ega, é você? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a

vestir...

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 40 / 53 段