appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-portão disse-lhe que o
snr. marquez fôra para longe, e que não havia nem pão nem queijo...
Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de
Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vêr...
O deus Tchi lá estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos
convidou o marquez a revisitar n'essa noite, á volta da casa do Vargas,
o seu velho amigo Tchi.
O marquez veio, ás dez horas--e foi um serão encantador. Conseguiu
sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mão de ferro para
o piano; Maria cantou; palrou-se com graça; e aquelle escondrijo d'amor
ficou alumiado até tarde, na sua primeira festa de amizade.
Estas reuniões alegres foram ao principio, como dizia o Ega,
_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as
arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos
velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha
descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes
tradições, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias
d'um filho e outras desgraças tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto,
punha na composição dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de
vir á _Toca_ era considerado pelo marquez «dia de civilisação».
A mesa resplandecia; e as tapeçarias representando massas d'arvoredos
punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um
capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da
frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do céo
se grulhava com phantasia--menos de «politica portugueza», considerada
conversa indecorosa entre pessoas de gosto.
Rosa apparecia ao café, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos nús, dos
vestidos brancos tufados sobre as meias de sêda preta, um bom aroma de
flôr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em
casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o
marquez: achava o Ega «muito...»--e completava o seu pensamento com um
gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega «era muito
retorcido».
--Ahi está! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! É
a simplicidade não comprehendendo o requinte.
--Não, desgraçado! exclamavam do lado. É porque és impresso!... É a
natureza repellindo a convenção!...
Bebia-se á saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos
amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote
onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo.
Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos
repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os
seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem
aquelle santo d'aldeia, que fôra decerto em vida um caturra encantador,
cheio d'illusões e doçura... Mas de resto, acrescentou, não teria sido
n'um dia assim, fino e secco, sob um grande céo cheio de sol, que se
feriu a batalha das Thermopylas? Porque não se atiraria uma girandola de
foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola
pela eterna gloria de Sparta.
Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da
descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um balão que ardeu.
N'outra occasião o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia,
fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de
jantar, até tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os
ais mais tristes dos fados de Portugal.
Quando estavam sós, Carlos e Maria passavam as suas manhãs no kiosque
japonez--affeiçoados áquelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e
apertado, onde os seus corações batiam mais perto um do outro. Em logar
das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da
India, côr de palha e côr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle,
agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer
alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faiança, como noivo feliz que
aperfeiçôa o seu ninho.
Maria no emtanto não cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega:
queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho
intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do avô. Para a contentar
(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos
recomeçára a compôr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para
a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manhã. Trouxera para lá
rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e
moderna_. E por fim achára um grande encanto em estar alli, com um leve
casaco de sêda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de
arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado
bordava silenciosa. As suas idéas surgiam com mais originalidade, a sua
fórma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que
ella perfumava com a sua presença. Maria respeitava este trabalho como
coisa nobre e sagrada. De manhã, ella mesma espanejava os livros do leve
pó que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha
cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e
setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta
cadeira de couro lavrado.
Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado
com a letra d'ella, quasi comparavel á lendaria letra do Damaso,
occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um
trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dôce
creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim:
e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas considerações de
Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graça delicada d'uma
renda... Um beijo pagava-a de tudo.
Ás vezes Carlos dava lições a Rosa--ora de historia, contando-lh'a
familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a
pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm
entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria.
Séria, muda, cheia de religião, escutava aquelle sêr bem-amado ensinando
sua filha. Deixava escapar das mãos o trabalho--e o interesse de Carlos,
a enlevada attenção de Rosa sentada aos pés d'elle, bebendo aquellas
bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram á India,
fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes...
Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa
Olavia, retardada apenas por algumas obras que começára na parte velha
da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paixão de
edificar--sentindo-se remoçar, como elle dizia, no contacto das madeiras
novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em
abandonar os Olivaes. Carlos não poderia por dever domestico permanecer
alli installado desde que o avô recolhesse ao Ramalhete. Além d'isso
aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco
bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um
fogão unico no gabinete de cretones--além da sumptuosa chaminé da sala
de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma
fumaraça odiosa quando o Domingos a tentava accender.
N'uma d'essas manhãs, Carlos, que ficára até tarde com Maria, e depois
no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua
desencadeado de madrugada--ergueu-se ás nove horas, veio á _Toca_. As
janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manhã
clareára; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma
linda e silenciosa graça d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos
onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o
toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges,
perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o
andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir,
acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manhã, consistia apenas
n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle,
outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes».
Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera,
com a data «á noite, á pressa». E dizia: «--Lê, n'esse trapo que te
mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tacito. Mas não te
assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepção de
dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema
dos habitos constitucionaes!) para o Paço, para o chefe do Estado!...
Mas esse mesmo não chegará ao seu destino. Em todo o caso desconfio de
que esgôto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem já!
Espero-te até ás duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na
bolsa_.»
Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e
na impressão, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto,
todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas
cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu
salpicado com o seu nome. E leu isto: «--Ora viva, _sô_ Maia! Então já
se não vai ao consultorio, nem se vêem os doentes do bairro, _sô_
janota?--Esta piada era botada no Chiado, á porta da Havaneza, ao Maia,
ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota
por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa
occasião ouviu a seguinte _cornetada_:--É que o _sô_ Maia acha _que é
mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem é
brazileira nem é casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado
dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa
o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o
que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas _louras_... O
simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_,
o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma
senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no
fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim
descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um
brazileiro _já farto d'ella_ para a passar cá aos bellos lusitanos... E
cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _sô_ Maia só
apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, já antes d'elle se enfeitar,
tinha _pandegado á larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz
da fina, que se safou tambem, porque cá como nós só _aprecia a bella
hespanhola_. Mas não obsta a que o _sô_ Maia seja traste!--Pois se assim
é, dissemos nós, cautelinha, porque o diabo cá tem a sua _Corneta_
preparada para cornetear por esse mundo as façanhas do _Maia das
conquistas_. Ora viva, _sô_ Maia!»
Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mão, no espanto
furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa
chapada de lôdo! Não era a cólera de vêr o seu amor assim aviltado na
publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas
phrases em calão, pandilhas, afadistadas, como só Lisboa as póde crear,
pingando fetidamente, á maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o
esplendor da sua paixão... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idéa
surgia através da sua confusão--matar o bruto que escrevera aquillo.
Matal-o! Ega sustára a tiragem da folha, Ega pois conhecia o
folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mão,
fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse
espalhada nas praças n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada só a
elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousára
tinha de cahir, esmagado!
Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos á janella da cozinha areava
pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um
calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:
--V. exc.^a tem ás onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou
cá estar para ir a Lisboa...
Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planeára ir á
Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que
elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando
então com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se não
vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeçou a passear,
no tapete de relva, entre as nogueiras.
Sentou-se por fim no banco de cortiça, descintou a _Corneta_
sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse
numero que lhe fôra destinado a ella, todo aquelle calão lhe pareceu
mais ultrajante, intoleravel, punivel só com sangue. Era monstruoso, na
verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua
casa, alguem ousasse tão brutalmente arremessar esse lôdo ás mãos
cheias! E a sua indignação alargava-se do folliculario que babára
aquillo--até á sociedade que, na sua decomposição, produzira o
folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas só
Lisboa, só a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu
rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do
bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma _Corneta do
Diabo_.
E, no meio d'esta alta cólera de moralista, uma dôr perpassava, precisa
e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido
n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma
calumnia? Não. Era o passado de Maria, que ella arrancára de si como um
vestido rôto e sujo, que elle mesmo enterrára muito fundo, deitando-lhe
por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o
mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgões... E isto
agora ameaçava para sempre a sua vida como um terror sobre ella
suspenso. Debalde elle perdoára, debalde elle esquecera. O mundo em
redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam
refazer o artigo da _Corneta_.
Ergueu-se, abalado. E então alli, sob essas arvores desfolhadas, onde
durante o verão, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle
passeára com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez
primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos
homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem
lhe permittiam em verdade casar com ella...
Dedicar-lhe toda a sua affeição, toda a sua fortuna, certamente! Mas
casar... E se tivesse um filho? O seu filho, já homem, altivo e puro,
poderia um dia lêr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua mãi fôra amante d'um
brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe
viesse gritar, n'uma bella indignação, «é uma calumnia?»--elle teria de
baixar a cabeça, murmurar--«é uma verdade!» E seu filho veria para
sempre collada a si aquella mãi de quem o mundo ignorava os martyrios e
os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros.
E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razão, alta e tão recta,
mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do
Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella
mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no
Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo côr de cereja,
comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella
tornára, em todo o verão, a alludir a uma união differente d'essa em que
os seus corações viviam tão lealmente, tão confortavelmente. Não, Maria
não era uma devota, preoccupada «do peccado mortal»! Que lhe podia
importar a estola banal do padre?...
Sim; mas elle que lhe pedira essa consagração na hora mais commovida do
seu longo amor, iria dizer-lhe agora--«foi uma criancice, não pensemos
mais n'isso, desculpa?» Não; nem o seu coração o desejava! Antes pendia
todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais
generoso e mais quente--emquanto a sua razão assim arengava, cautelosa e
austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles
braços a sua voluptuosidade magnifica; fóra d'alli não havia felicidade;
a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais
forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E
assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a
omnipotencia, o reino unico da Paixão... Mas primeiro mataria o
folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos
se resolviam por fim em furia contra o infame que babára sobre o seu
amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e
tanto tormento!
Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e
bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo
justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo
as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonára um momento sob as
arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e
mudo, teve a humildade d'um perdão que se implora.
--Que tens tu, que estás tão sério?
Elle sorriu. Sério, no sentido de solemne, não estava. Talvez seccado.
Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicações do Ega. E
precisava ir a Lisboa, ficar lá naturalmente toda a noite...
--Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as
mãos sobre os hombros.
--Sim, é bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o
inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa?
--Agora, com mais razão... Se me queres.
--O dia está bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.
Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um
arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta.
--Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoço, minha
filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.
Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, através da relva
humida, foi ainda lentamente até ao renque baixo d'arbustos que
d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com
quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminé de fabrica que
fumegava: para além era o azul fino e frio do rio: depois os montes,
d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoação aninhada á
beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um
momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, tão
quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de
obscuridade, n'um canto assim do mundo, á beira d'agua, onde ninguem o
conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz
d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem
amava...
Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruçára a
apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam.
--Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, através da
relva.
--Lisboa é tambem muito linda, agora, havendo sol...
--Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas,
todos os horrores... A mim está-me positivamente a appetecer uma cubata
na Africa!
O almoço, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do
_Torto_ começou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite.
Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupé que trepava n'um
trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapéo branco
e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera
tambem a caleche da _Toca_, vinha já saltitando as lamas com longas
pernadas de cegonha, chamando por Carlos.
Ao vêr Maria ficou atrapalhado:
--Que bella surpreza! Eu ia para lá... Vi o dia tão bonito, disse
commigo...
--Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o
Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella
brusca chegada aos Olivaes.
Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraçado, sem
poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, começou, sob
os olhos de Carlos que o não deixavam, a fallar do inverno, das
inundações do Riba-Tejo... Maria lêra. Uma desgraça, duas crianças
afogadas nos berços, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos
não se conteve:
--Eu lá recebi a tua carta...
Ega acudiu:
--Arranja-se tudo! Está tudo combinado! E com effeito eu não vim senão
por um sentimento bucolico...
Muito discretamente Maria olhára para o rio. Ega fez então um gesto
rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro».
Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do
sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se «ia commetter»
no salão da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do
parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de
S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia
entrar em fogo_. Os reis assistiam, já se teciam grinaldas de camelias
para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fôra convidado para lêr
um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recusára-se, por modestia, por
não encontrar nas _Memorias_ nada tão sufficientemente palerma que
agradasse á capital. Mas lembrára o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou
arrulhar uma das suas _Meditações_. Além d'isso havia uma poesia social
pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia...
--E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... É summamente
pittoresco. Tinha v. exc.^a occasião de vêr todo o Portugal romantico e
liberal, _à la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem
n'alma!
--Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges
toca, se o Alencar recita, é uma festa nossa...
--Pois está claro! gritou Ega, procurando o monoculo, já excitado. Ha
duas coisas que é necessario vêr em Lisboa... Uma procissão do Senhor
dos Passos e um sarau poetico!
Rolavam então pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que
parasse no começo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de lá o
americano para o Ramalhete.
Mas a tipoia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente d'uma
loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calçando as
suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo
vestido de luto. Ao vêr Maria, que se inclinára á portinhola, o homem
pareceu assombrado; depois, com uma leve côr na face larga e pallida,
tirou gravemente o chapéo, um immenso chapéo de abas recurvas, á moda de
1830, carregado de crepe.
--Quem é? perguntou Carlos.
--É o tio do Damaso, o Guimarães, disse Maria, que córára tambem. É
curioso, elle aqui!
Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta!
Carlos recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no Price com
o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma
gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega entalára
vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que
ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando
a caleche já subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel
Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas
austeras de revolucionario...
--Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o conhece a
snr.^a D. Maria?
--De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A Maria já me
tinha fallado n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa
nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e
morre de fome...
--Mas então, o Damaso?
--O Damaso é um trapalhão. Vamos nós ao nosso caso... Essa immundicie
que me mandaste, a _Corneta_? Dize lá.