outro irlandez, que muitas vezes jantára com elles em Fontainebleau.
Veio vêl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de chá aguado, dos
ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, começou, como
bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de
sangue. Depois offereceu, com os beiços já a tremer, toda a sua
dedicação. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa
pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de
todos os seus ardis, a conquistar através de Londres o pouco que ellas
necessitavam para recolher a França. Com effeito appareceu n'essa mesma
noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma
garrafa de _champagne_. A mamã ao vêr, depois de tantos mezes de chá
preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuçada de ouro--quasi desmaiou, de
enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estação de
_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo
os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de
Saint-Privat...
--Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar
trabalho. Mas tudo estava ainda em confusão... Quasi immediatamente veio
a Communa... Pódes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim já
não era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris,
soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. Já não parecia tão
terrivel... Com todas estas privações a pobre Rosa começava a
definhar... Era um supplicio vêl-a perder as côres, tristinha, mal
vestida, mettida n'uma trapeira... A mamã já se queixava da doença de
coração que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos
apenas para a renda da casa, e para não morrer absolutamente de
necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei
ainda. A mamã fazia dó. E Rosa morria se não tivesse outro regimen, bom
ar, algum conforto... Conheci então Castro Gomes em casa d'uma antiga
amiga da mamã, que não perdera nada com a guerra, nem com os prussianos,
e que me dava trabalhos de costura... E o resto sábel-o... Nem eu me
lembro... Fui levada... Via ás vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um
chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela
de sopas, e ainda com fome...
Não pôde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos.
E elle na sua emoção só lhe podia dizer, passando-lhe as mãos tremulas
pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias
passadas...
--Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha só uma coisa
mais que te quero dizer. E é a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa!
É que n'estas duas relações que tive o meu coração conservou-se
adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada,
até que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa...
Um momento hesitou, coberta de rubor. Passára os braços em torno de
Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi
mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confissão de todo o
seu sêr:
--Além de ter o coração adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio,
frio como um marmore...
Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados
muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoção nova e quasi
virginal, a communhão perfeita das suas almas.
D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos
Olivaes, em caminho da _Toca_.
Toda essa manhã, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o
impulso de paixão que o lançára de novo e para sempre, como esposo, nos
braços de Maria; e, na confiança absoluta que o prendia ao Ega,
revelára-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e
justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as
sopas á _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim
começou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante
as longas confidencias de Carlos: «É prodigioso!... Que estranha coisa,
a vida!»
E agora pela estrada, na aragem dôce do rio, Carlos fallava ainda de
Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do coração muito cheio o
interminavel cantico da sua felicidade.
--É facto, Egasinho, conheço quasi a felicidade perfeita!
--E cá na _Toca_ ainda ninguem sabe nada?
Ninguem--a não ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda
alteração que se fizera nas suas relações: e tinham assentado que miss
Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam
régiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles
partissem para Italia.
--E ides então casar a Roma?...
--Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso não
falta em Italia... E é então, Ega, que reapparece o espinho de toda esta
felicidade. É por isso que eu disse «quasi.» O terrivel espinho, o avô!
--É verdade, o velho Affonso. Tu não tens idéa como lhe has de fazer
conhecer esse caso?...
Carlos não tinha idéa nenhuma. Sentia só que lhe faltava absolutamente a
coragem de dizer ao avô: «esta mulher, com quem vou casar, teve na sua
vida estes erros»... E além d'isso, já reflectira, era inutil. O avô
nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que
tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o avô veria alli
um romance confuso e fragil, antipathico á sua natureza forte e candida.
A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e não lhe deixaria
apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber
este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de
fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que
o do avô... O velho Affonso era um bloco de granito: não se podiam
esperar d'elle as subtis discriminações d'um casuista moderno. Da
existencia de Maria só veria o facto tangivel:--cahira successivamente
nos braços de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de
chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma
confissão, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e
uma irreparavel separação domestica?...
--Pois não te parece, Ega?
--Falla mais baixo, olha o cocheiro.
--Não percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois não te
parece?
Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava:
--Sim, o velho Affonso é granitico...
Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder
ao avô o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria.
Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S.
Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avô
a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren.
Para o prender logo lá estavam os encantos de Maria, todas as graças
d'um interior delicado e sério, jantarinhos perfeitos, idéas justas,
Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem tão
enternecidamente adorava crianças, lá estava Rosa... Emfim, quando o avô
estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manhã,
dizia-lhe francamente: «Esta creatura superior e adoravel teve uma quéda
no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como é, não fiz bem,
apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?» E o avô, perante esta
terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua
indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a
pensar que, se esse casamento não era o melhor segundo as regras do
mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coração...
--Pois não te parece, Ega?
Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em
resumo, adoptára para com o avô a complicada combinação que Maria
Eduarda tentára para com elle--e imitava sem o sentir os subtis
raciocinios d'ella.
--E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar
tudo, bravo! dá-se uma grande festa no Ramalhete... Senão, foi-se!
passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a
superioridade de duas coisas excellentes: o avô as tradições do sangue,
eu os direitos do coração.
E, vendo o Ega ainda silencioso:
--Que te parece? Dize lá. Tu andas tão falto de idéas, homem!
O outro sacudiu a cabeça, como despertando.
--Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nós
somos dois homens fallando como homens!... Então aqui está: teu avô tem
quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... É
doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dôr que eu, mas teu avô ha de
morrer... Pois bem, espera até lá. Não cases. Suppõe que ella tem um pae
muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a
sua barba em bico. Espera; continúa a vir á _Toca_, na tipoia do Mulato;
e deixa teu avô acabar a sua velhice calma, sem desillusões e sem
desgostos...
Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca,
n'esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil!
Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda
a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a
conversão do amante no marido pelo laço d'estola que tudo purifica e
nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração
legal--que não fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, tão recta
e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar
aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e
pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento
estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas
diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações...
--Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens
immensamente razão! Essa idéa é genial! Devo esperar... E emquanto
espero?...
--Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso não é
commigo!
E mais sério:
--Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre.
Installas tua mulher, porque desde hoje é tua mulher, aqui nos Olivaes
ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a
tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que façaes essa viagem nupcial
á Italia... Voltas, continúas a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te
ir. Este é o bom senso: é assim que pensaria o grande Sancho Pansa...
Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira tão bem?
--Um ananaz... Pois é isso, querido: esperar, deixar-me ir. É uma idéa!
Uma idéa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com
effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso
de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moço; o
mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. Não tinha senão
a deixar-se ir.
--Tens razão, Ega! E Maria é a primeira a achar isto cheio de senso e
d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installação da
minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avô seja
feliz... E para celebrar o advento d'esta idéa, Deus queira que Maria
nos tenha um bom jantar!
Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro
com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella não
poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a
sua vida, as suas miserias, as suas relações com Castro Gomes. Por isso
hesitára em vir á _Toca_. Mas tambem, não apparecer mais a Maria Eduarda
seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de não
molestar o seu pudor... Por isso decidira «dar o mergulho d'uma vez».
Quem, senão elle, deveria ser o mais apressado em estender a mão á noiva
de Carlos?... Além d'isso tinha uma infinita curiosidade de vêr no seu
interior, á sua mesa, essa creatura tão bella, com a sua graça nobre de
Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraçado.
Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava,
sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, córou toda, com
effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o
aperto de mão que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente,
desembrulhára o ananaz--e na admiração d'elle todo o constrangimento se
dissipou.
--Oh! é magnifico!
--Que côr, que luxo de tons!
--E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.
Ega não voltára á _Toca_ desde a noite fatal da _soirée_ dos Cohens em
que elle alli tanto bebera e delirára tanto. E lembrou logo a Carlos a
jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a
ceia de perú...
--Já aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!...
--Por causa de Margarida?
--Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora,
senão por Margarida ou por Fausto?
Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi
já com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que só
viesse assim á _Toca_ no fim do verão e no fim das flôres. Ega
extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e
triste de museu! Já alli se podia palrar livremente!
--Isto é um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror á
arte! É um Ibero, é um Semita...
Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo não
podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade
sorumbatica de antepassados com cabelleira...
--Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito
lembram antes a ligeireza, o espirito, a graça de maneiras...
--V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses
enramalhetados, esses rococós lembram-me uma vivacidade estouvada e
sirigaita... Nada! nós vivemos n'uma Democracia! E não ha para exprimir
a alegria simples, sólida e bonacheirona da Democracia, como largas
poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!...
Assim n'uma risonha, ligeira discussão sobre bric-à-brac, desceram ao
jardim.
Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado
na mão. Ega, que conhecia já os seus ardores nocturnos, cravou-lhe
sôfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaixára a cortar um
geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admiração por aquelle
beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois,
ao fundo, junto do caramanchão, encontraram Rosa que se balouçava. Ega
pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia
branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito séria, que elle
tirasse o vidro do olho.
--Mas é para te vêr melhor! é para te vêr melhor!...
--Então porque não trazes um em cada olho? Assim só me vês metade...
Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena
espevitada e impudente. Maria resplandecia.
E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo á sopa,
fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em
Cintra, nos Capuchos, dissera--«quando nos casarmos». E Ega alludiu a
esse futuro do modo mais grato ao coração de Maria. Agora que Carlos se
installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era
necessario trabalhar! E relembrou então a sua velha idéa do Cenaculo,
representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o
gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisação, remoçasse o
carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (até
pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direcção d'este
movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia!
Maria escutava, presa e séria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida
toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente
aquella união mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora.
--Tem razão, tem bem razão! exclamava ella com ardor.
--Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de nós! Como muito
bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz não tem
pessoal... Como ha de tel-o, se nós, que possuimos as aptidões, nos
contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos
atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa
biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo é absurdo. Clamamos
por ahi, em botequins e livros, «que o paiz é uma choldra». Mas que
diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso
gosto e pelo molde perfeito das nossas idéas?... V. exc.^a não conhece
este paiz, minha senhora. É admiravel! É uma pouca de cera inerte de
primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a
cera tem estado em mãos brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... É
necessario pôl-a em mãos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um
_bijou_!...
Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e
vinho da Madeira. Mas Maria não queria que elle risse. A idéa do Ega
parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos,
dizia ella, d'aquella preguiça de Carlos. E agora, que ia ser cercado de
affeição serena, queria-o vêr trabalhar, mostrar-se, dominar...
--Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance
findou. E agora...
Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de
enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!
--Como fazes tu isto? Com Madeira...
--E genio! exclamou Carlos. Delicioso, não é verdade? Ora digam-me se
tudo o que eu pudesse fazer pela civilisação valeria este prato de
ananaz! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer
civilisação...
--Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flôres d'essa planta da
civilisação que a multidão rega com o seu suor! No fundo tambem eu,
menino!
Não, não! Maria não queria que fallassem assim!
--Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos,
devia inspiral-o...
Ega protestou requebrando o olho, já languido. Se Carlos necessitava uma
musa inspiradora e benefica--não podia ser elle, bicho com barbas e
bacharel em leis... A musa estava _toute trouvée_!
--Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idéas se
não podem produzir n'um paraiso d'estes!...
E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietação dos
arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um
nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos á porta do
jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o começo do jantar,
estava com idéas de casar!... Realmente não havia nada como o casamento,
o interior, o ninho...
--Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto,
que quasi todo um anno da minha vida foi dado áquella israelita devassa
que gosta de levar bordoada...
--Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos.
--Ensopa-se na crapula. Não ha a menor duvida que dá todo o seu coração
ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _coração_...
Viste já immundicie igual? É simplesmente obscena!
--E tu adóral-a, disse Carlos.
O outro não respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e
do romantismo, entoou louvores sonoros á familia, ao trabalho, aos altos
deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. Á meia noite, ao sahir,
tropeçou duas vezes na rua d'acacias, já vago, citando Proudhon. E
quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta
para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe
fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude
viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, já estirado no
assento, tirando o chapéo á aragem da noite:
--E outra coisa, Carlinhos. Vê se me arranjas a ingleza... Ha vicios
deliciosos n'aquellas pestanas baixas... Vê se m'a arranjas... Vá lá,
bate lá, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!
Carlos ficára encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_.
Elle tencionava não apresentar Maria aos seus intimos senão depois de
casado e á volta de Italia. Mas agora a «união legal» estava já no seu
pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega,
devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle não poderiam
isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns
amigos em redor. Por isso uma manhã, encontrando o Cruges, que fôra o
visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da «lady ingleza»,
pediu-lhe para vir jantar á _Toca_ no domingo.
O maestro appareceu n'uma tipoia, á tardinha, de laço branco e de
casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega
começaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, além das Lolas e
Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, «com o seu porte de
_grande-dame_», como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou
diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das
algibeiras. Antes de jantar, por lembrança de Carlos, foram-lhe mostrar
a quinta. O pobre maestro, roçando a casaca mal feita pela folhagem dos
arbustos, fazia esforços anciosos por murmurar algum elogio «á belleza
do sitio»; mas escapavam-lhe então inexplicavelmente coisas reles, em
calão: «vista catita»! «é pitada»! Depois ficava furioso, coberto de
suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos
abominaveis, tão contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se
sentou á mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma
controversia que Maria arranjára caridosamente para elle sobre Wagner e
Verdi pôde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou
envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle
procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achára uma matrona obesa,
de bigode, de cãosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas
a cada exclamação de Carlos--«Lembras-te, Cruges?», «Não é verdade,
Cruges?»--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por
estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o
jantar.
Combinára-se para depois do café um passeio pelos arredores, n'um break.
E Carlos já tomára as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as
luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break,
correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de
cavallo na estrada--e appareceu o marquez.
Foi uma surpreza para Carlos, que o não vira durante esse verão. O
marquez parou logo, tirando profundamente, ao vêr Maria, o seu largo
chapéo desabado.
--Imaginava-o pela Gollegã! exclamou Carlos. Foi até o Cruges que me
disse... Quando chegou vossê?
Chegára na vespera. Lá fôra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos
Olivaes vêr um dos Vargas que tinha casado, se installára alli perto, a
passar o noivado...
--Quem, o gordo, o das corridas?
--Não, o magro, o das regatas.
Carlos, debruçado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena,
bem estampada, d'um baio escuro e bonito.
--Isso é novo?
--Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossê comprar? Sou já um pouco
pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart...
--Dê lá uma volta.
O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos
achou-lhe «boas acções». Maria murmurou--«Muito bonita, uma cabeça
fina...» Então Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame
Mac-Gren. Elle chegou a egoa á roda, descoberto, para apertar a mão a
Maria: e á espera do Ega que se eternisava lá dentro, ficaram fallando
do verão, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o
marquez alli não passava! A ultima vez fôra victima da excentricidade do
Craft...
--Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me
convida a almoçar. Venho, e o hortelão diz-me que o snr. Craft, criado e
cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixára um
cartaz na sala... Vou á sala, e vejo dependurado ao pescoço d'um idolo
japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: «O
deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo
ausente, a passar á sala de jantar onde encontrará, n'um aparador,
queijo e vinho, que é o almoço que basta ao homem forte.» E foi com
effeito o meu almoço... Para não estar só, partilhei-o com o hortelão.
--Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo.