--Não, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o

teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar...

Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das

tuas lagrimas?

Uma indignação ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente

seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez.

--Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas

supplicas são fingidas? Que finjo tudo para te reter, para não te

perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?...

Elle balbuciou:

--Não, não! Não é isso!

--E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e

com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar

n'essa grande paixão que me juravas? O que é que tu amavas então em mim?

Dize lá! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as

_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu

amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braços são

os mesmos, este peito é o mesmo... Só uma coisa é differente: a minha

paixão! Essa é maior, desgraçadamente, infinitamente maior.

--Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mãos.

N'um instante Maria estava cahida a seus pés, com os braços abertos para

elle.

--Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te

doidamente, absurdamente, até á morte!

Carlos tremia. Todo o seu sêr pendia para ella; e era um impulso

irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus

pés, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez

a idéia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os

punhos á cabeça, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa

pequenina e indestructivel que não queria sumir-se, e que se interpunha

como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina!

Ella ficára ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete.

Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e

tremula:

--Tens razão, acabou-se! Tu não me acreditas, tudo se acabou!... É

melhor que te vás embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo

para mim, não tenho ninguem mais no mundo... Ámanhã sáio d'aqui,

deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de

fazer, vou-me embora!

E não pôde mais, tombou para o chão, com os braços estirados, perdida de

chôro.

Carlos voltou-se, ferido no coração. Com o seu vestido escuro, para alli

cahida e abandonada, parecia já uma pobre creatura, arremessada para

fóra de todo o lar, sósinha a um canto, entre a inclemencia do mundo...

Então respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi

levado como por um grande vento de piedade. Viu só, offuscando todas as

fragilidades, a sua belleza, a sua dôr, a sua alma sublimemente amante.

Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se á sua paixão. E,

debruçando-se, disse-lhe baixo, com os braços abertos:

--Maria, queres casar commigo?

Ella ergueu a cabeça, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas

Carlos tinha os braços abertos; e estava esperando para a fechar dentro

d'elles outra vez, como sua e para sempre... Então levantou-se,

tropeçando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de

beijos, entre soluços e risos, tonta, n'um deslumbramento:

--Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre

comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e

adorar-te, e ser só tua? E a pobre Rosa tambem... Não, não cases

commigo, não é possivel, não valho nada! Mas se tu queres, porque

não?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coração! E has

de ser nosso amigo, meu e d'ella, que não temos ninguem no mundo... Oh!

meu Deus, meu Deus!...

Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braços d'elle,

desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o chão, tocados

pela luz de tons d'ouro.

V

Maria Eduarda e Carlos, que ficára essa noite nos Olivaes na sua

casinhola, acabavam de almoçar. O Domingos servira o café, e antes de

sahir deixára ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As

duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da

manhã encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que

morria ao longe nos campos. No banco de cortiça, sob as arvores, miss

Sarah costurava preguiçosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E

Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de

sêda e um jaquetão de flanella, chegou então a cadeira para junto de

Maria, tomou-lhe a mão, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta

caricia:

--Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir?

N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostrára o

desejo enternecido de não alterar o plano da Italia e d'um ninho

romantico entre as flôres d'Isola-bella: sómente agora não iam esconder

a inquietação d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma

felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o

tinham agitado desde o dia em que cruzára Maria Eduarda no Aterro,

Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto

d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos:

--Eu por mim abalava ámanhã. Estou sôfrego de paz. Estou até sôfrego de

preguiça... Mas tu, dize, quando queres?

Maria não respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e

apaixonado. Depois, sem retirar a mão que a longa caricia de Carlos

ainda prendia, chamou Rosa através da janella.

--Mamã, espera, já vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes

que ainda não almoçaram...

--Não, vem cá.

Quando ella appareceu á porta, toda de branco, córada, com uma das

ultimas rosas de verão mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre

elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do

cabello, perguntou, muito séria, muito commovida, se ella gostaria que

Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos

da pequena encheram-se de surpreza e de riso:

--O quê! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E

ter aqui as suas malas, as suas coisas?...

Ambos murmuraram--«sim».

Rosa então pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse

já, já, buscar as suas malas e as suas coisas...

--Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos.

E gostavas que elle fosse como o papá, e que andasse sempre comnosco, e

que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ?

Rosa ergueu para a mãe uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso

se apagára.

--Mas eu não posso gostar mais d'elle do que gósto!...

Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E

Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruçando-se sobre

ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o

seu amigo, depois para a mãi. E pareceu comprehender tudo; escorregou

dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice

humilde:

--Queres que te chame papá, só a ti?

--Só a mim, disse elle, fechando-a toda nos braços.

E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta,

com as mãos cheias de bolos para os pardaes.

Carlos levantou-se, tomou a cabeça de Maria entre as mãos, e

contemplando-a profundamente, até á alma, murmurou n'um enlevo:

--És perfeita!

Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adoração que a perturbava.

--Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos

para o nosso kiosque... Tu não tens nada que fazer, não? E que tenhas,

hoje és meu... Vou já ter comtigo. Leva as tuas cigarettes.

Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doçura velada do

céo cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e

triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada

cantava, e que tão favoravel era para que dois corações, desinteressados

do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contínuo

encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra.

--Vamos ter chuva, tio André, disse elle, passando junto do velho

jardineiro que aparava o buxo.

O tio André, atarantado, arrancou o chapéo. Ah! uma gota d'agua era bem

necessaria, depois da estiagem! O torrãosinho já estava com sêde! E em

casa todos bons? A senhora? A menina?

--Tudo bom, tio André, obrigado.

E no seu desejo de vêr todos em torno de si felizes como elle e como a

terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na mão do

tio André, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle

ouro extraordinario que reluziu.

Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para

o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas:

accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus pés, sobre o

tapete, como na humildade de uma confissão.

--Estás bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... Não?

Então ouve agora, quero-te contar tudo...

Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pensára mesmo em

lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira

antes tagarellar alli uma manhã inteira, aninhada aos seus pés.

--Estás bem, não estás?

Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer

revelações pungentes para o seu coração--e amargas para o seu orgulho.

Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a

conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no

fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam

pungir e que o deviam humilhar.

--Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize,

conta... Onde nasceste tu por fim?

Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de criança, quasi

nada sabia do papá, a não ser a sua grande nobreza e a sua grande

belleza. Tivera uma irmãsinha que morrera de dois annos e que se chamava

Heloisa. A mamã, mais tarde, quando ella era já rapariga, não tolerava

que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria

das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho

velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios

d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada

onde se dançava: ás vezes durante tempos ella ficava lá só com o avô, um

velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara

historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se

sómente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva,

embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras

memorias mais nitidas datavam de Paris; a mamã, já viuva, andava de luto

pelo avô; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manhãs,

com um arco e com uma pélla, brincar aos Campos Elyseos. A noite

costumava vêr a mamã decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e

um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sofás,

trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle

_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mamã mettera-a

n'um convento ao pé de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar já

ao piano as walsas da _Belle Helène_, ainda não sabia soletrar. Fôra nos

jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mamã se separára

d'ella n'uma paixão de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar

decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre

Superiora fallara com veneração.

A mamã ao principio vinha vêl-a todos os mezes, demorando-se em Tours

dois, tres dias; trazia-lhe uma profusão de presentes, bonecas, bonbons,

lenços bordados, vestidos ricos, que lhe não permittia usar a regra

severa do convento. Davam então passeios de carruagem pelos arredores de

Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e

tratavam a mamã por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora não

gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mamã viesse acordar os

corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sêdas; ao

mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mamã

era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo.

Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na

face e alludia risonhamente a _son excellente mère_. Depois a mamã

começou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem

escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto,

e ficou toda a manhã abraçada a ella a chorar.

Mas na visita seguinte vinha mais moça, mais brilhante, mais ligeira,

com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica á Terra

Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha então quasi dezeseis annos:

pela sua applicação, os seus modos dôces e graves, ganhára a affeição da

Madre Superiora--que ás vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o

cabello cahido em duas tranças segundo a regra, lhe mostrava o desejo de

a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera

bon à rien, mon enfant!_... Um dia, porém, appareceu para a levar para

Paris, para a mamã, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes

brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude.

O que ella chorára ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que

ia encontrar em Paris!

A casa da mamã, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas

recoberta de um luxo sério e fino. Os escudeiros tinham meias de sêda;

os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de França, conversavam de

corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo

armavam-se depois como uma distracção mais picante. Ella recolhia sempre

ao seu quarto ás dez horas: Madame de Chavigny, que ficára como sua dama

de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coupé estufo de

_douairière_. Pouco a pouco, porém, este grande verniz começou a

estalar. A pobre mamã cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem

perigoso pela sua seducção pessoal e por uma desoladora falta de honra e

de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e

ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do

convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sofás: no marmore

das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e

n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_

talhado á claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira

de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mamã

estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde,

alagada em lagrimas, «que tinha havido uma desgraça»...

Mudaram então para um terceiro andar da Chaussée-d'Antin. Ahi começou a

apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes

bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam

para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta

malta vinha algum _gentleman_--que não tirava o paletot, como n'um

café-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moço, Mac-Gren...

Madame de Champigny deixára-as desde que faltára o coupé severo,

acolchoado de setim; e ella, só com a mãi, insensivelmente, fatalmente,

fôra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_.

A mamã chamava a Mac-Gren o «bébé». Era com effeito uma criança

estouvada e feliz. Namorára-se d'ella logo com o ardor, a effusão, o

impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se

emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das

liberalidades de uma avó excentrica e rica que o adorava, e que habitava

a Provença n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto

induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vêr entre

aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para

Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre,

e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil

libras de renda. Decerto, era uma situação falsa: mas preferivel a

permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante

córava... A esse tempo a mamã parcela ir perdendo todo o senso,

desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes

estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne «_pour

s'étourdir_». Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes

empenhára as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes

d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar á

pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo!

Mr. de Trevernnes começava a olhar para ella d'um modo que a

assustava...

--Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as mãos.

Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos

d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam:

--Ahi estão as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado

sempre para me justificar a mim mesma, se me é possivel... Pede-me em

todas que vá para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas

juntos iremos ajoelhar-nos diante da avó, obter a sua indulgencia... Mil

promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mamã uma manhã

partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris só, n'um hotel... Tinha

um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu só! Estava tão

transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi

Mac-Gren.

E partira com elle, sem precipitação, como sua esposa, levando todas as

suas malas. A mamã de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada

e tragica, amaldiçoando Mac-Gren, ameaçando-o com a prisão de Mazas,

querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bébé,

agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mamã terminou por os

apertar a ambos contra o coração, já rendida, perdoando tudo,

chamando-lhes «filhos da sua alma». Passou o dia em Fontainebleau,

radiante, contando «a patuscada de Baden», já com o plano de vir

installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e

nobre de avósinha... Era em maio; Mac-Gren, á noite, deitou um «fogo

preso» no jardim.

Começou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mamã

vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava

pensativa, dizia: «Tens razão, veremos!» Depois remergulhava no

torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manhã, n'um _fiacre_,

estremunhada e afflicta, com uma rica pelliça sobre uma velha saia, a

pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade

desde então fôra legitimar a sua união. Mas Mac-Gren adiava,

levianamente, com um medo pueril da avó. Era um perfeito bébé!

Entretinha as manhãs a caçar passaros com visco! E ao mesmo tempo

terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito.

No começo da primavera a mamã um dia appareceu em Fontainebleau com as

suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes.

Mas quasi immediatamente se consolou: e começou d'ahi a adorar Mac-Gren

com uma tão larga effusão de caricias, e achando-o tão lindo, que era ás

vezes embaraçadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac,

jogando o _bezigue_.

De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e

apesar das supplicas d'ellas, corrêra a alistar-se no batalhão de Zuavos

de Charette; a avó de resto approvára este rasgo d'amor pela França, e

fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma

larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella,

sem lhe largar o leito, mal attendia ás noticias da guerra. Sabia apenas

confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manhã a

mamã rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitulára

em Sédan, o imperador estava prisioneiro! «É o fim de tudo, é o fim de

tudo!» dizia a mamã espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de

Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um portão, diante do

tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em

torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um

cache-nez escarlate ao pescoço. E um sujeito ao lado, aterrado,

disse-lhe que o povo fôra buscar Rochefort á prisão e que estava,

proclamada a Republica.

Nada soubera de Mac-Gren. Começaram então dias d'infinito sobresalto.

Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mamã causava dó, envelhecida de

repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: «É o fim

de tudo, é o fim de tudo!» E parecia na verdade o fim da França. Cada

dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado,

internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos

marchando sobre Paris... Não podiam permanecer em Fontainebleau; o duro

inverno começava; e com o que venderam á pressa, com o dinheiro que

Mac-Gren deixára, partiram para Londres.

Fôra uma exigencia da mamã. E em Londres ella, desorientada na enorme e

estranha cidade, doente tambem, deixára-se levar pelas tontas idéas da

mãe. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao pé

de Mayfair. A mamã fallava em organisar alli o centro de resistencia dos

bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraçada pensava em crear uma

casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas,

sem imperio, não jogavam já o _baccarat_. E ellas em breve, sem

rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa

casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo

d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milhão de

prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, até

as pelliças. Alugaram então, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal

mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria

tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carvões

humidos fumegando mal na chaminé; e para jantar um pouco de carneiro

frio e cerveja da esquina. Por fim faltára mesmo o escasso shilling para

pagar o _lodging_. A mamã não sahia do catre, doente, succumbida,

chorando. Ella ás vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava

ao _prégo_ embrulhos de roupa (até roupa branca, até camisas!) para que

ao menos não faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a

mamã escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_

ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel,

alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um

sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mamã,

perdera-se, errára na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de

frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a

alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a

casa. Mas não tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patrôa roncava

no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo

na porta rompeu a chorar. Então o cocheiro desceu da almofada,

commovido, offereceu-se para a levar de graça ao _prégo_, onde

ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem só aceitou um _schilling_;

até mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos,

e teimou em lhe offerecer uma bebida.

Ella no emtanto procurava uma occupação qualquer costura, bordados,

traducções, cópias de manuscriptos... Não achava nada. N'aquelle duro

inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multidão de

francezes, pobres como ella, luctando pelo pão... A mamã não cessava de

chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as

suas allusões constantes á facilidade de se ter em Londres dinheiro,

conforto e luxo, quando se é nova e se é bonita...

--Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as mãos

amargamente.

Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos.

--Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cêrco

acabou. Paris estava de novo aberto... Sómente a difficuldade era

voltar.

--Como voltaste?

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 37 / 53 段