saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia «_minha
adorada_», pela mulher que se não chamava ainda Mac-Gren, que era
perfeita, e que uma paixão indomavel, superior á razão, entontecera e
vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se
transformára na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior
infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por
uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se
ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afundára,
outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais
delicado a cercaria, para a compensar das affeições domesticas que ella
deixasse de merecer! Que veneração maior lhe consagraria--para supprir o
respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha
tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graça, a
intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel
gosto... E com todas estas qualidades dôces e fortes--era apenas uma
intrujona!
Mas porque? porque? Porque entrára ella n'esta longa fraude, tramada dia
a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia até ao nome que usava!
Apertava a cabeça entre as mãos, achava a vida intoleravel. Se ella
mentia--onde havia então a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles
olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traição muda.
Punha-se um mólho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste!
Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaçal! E para
que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira,
tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma
acção de santidade--lhe tivesse dito que não era esposa do snr. Castro
Gomes, mas só amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paixão sido menos
viva, menos profunda? Não era a estola do padre que dava belleza ao seu
corpo e valor ás suas caricias... Para que fôra então essa mentira
tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppôr agora que eram imposturas os
seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este
longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um
corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta
mulher, tarifada ás horas como as caleches da Companhia, elle ia
amarguarar a velhice do avô, estragar irreparavelmente o seu destino,
cortar a sua livre acção de homem!
Mas porque? Porque fôra esta farça banal, arrastada por todos os palcos
de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera
ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doçura de mãi? Por
interesse? Não. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente
lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens...
Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta
e prompta outra bolsa rica? Então mais simples teria sido dizer-lhe: «eu
sou livre, gósto de ti, toma-me livremente, como eu me dou.» Não! Havia
alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a
conhecer!
E então pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes...
Sim, não lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao
regaço um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua
plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o
segredo d'aquella torpe farça... Só isso amansaria o seu incomparavel
tormento. Queria entrar outra vez na _Tóca_, vêr como era aquella outra
mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem
violencia, sem recriminações, muito calmo, sorrindo! Só para que ella
lhe dissesse qual fôra a razão d'aquella mentira tão laboriosa, tão
vã... Só para lhe perguntar serenamente: «Minha rica senhora para quer
foi toda esta intrujice?» E depois vêl-a chorar... Sim, tinha esta
anciedade cheia d'amor de a vêr chorar. A agonia que elle sentira no
salão côr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria
vêl-a repetida n'esse seio, onde elle até ahi dormira tão dôcemente,
esquecido de tudo, e que era bello, tão divinamente bello!...
Bruscamente, decidido, deu um puxão á campainha. Baptista appareceu todo
abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a
ser util n'aquella crise que adivinhava...
--Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se já entrou o snr. Castro
Gomes!... Não, escuta... Põe-te á porta do Central, e espera até que
entre aquelle sujeito que aqui esteve... Não, é melhor perguntar!...
Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou está no hotel. E
apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, á desfilada, n'uma
tipoia... Um batedor seguro, que é para me levar depois aos Olivaes!...
Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era já um allivio immenso não
ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam
dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas
libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, não lh'o
atirava romanticamente ao regaço... Deixal-o-hia sobre uma mesa,
sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaixão
por ella. Via-a já, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas,
lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se
humedeceram.
N'esse momento Ega, de fóra, perguntou se era importuno.
--Entra! gritou.
E continuou passeando, calado, com as mãos nos bolsos: o outro, em
silencio tambem, foi encostar-se á janella sobre o jardim.
--Preciso escrever ao avô a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por
fim, parando junto da mesa.
--Dá-lhe recados meus.
Carlos sentára-se, tomára languidamente a penna: mas bem depressa a
arremessou: cruzou as mãos por detraz da cabeça no espaldar da cadeira,
cerrou os olhos, como exhausto.
--Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da
janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso!
Carlos olhou para elle:
--Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser?
--Não foi mais ninguem, menino. foi o Damaso!
Carlos então recordou o que lhe contára o Taveira--as allusões
mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que
elle devia receber na cabeça... O Damaso, portanto, tinha como certa a
vinda do brazileiro, depois um duello...
--É necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso.
Não ha segurança, não ha paz na nossa vida emquanto esse bandido
viver!...
Carlos não respondeu. E o outro proseguia, transtornado, já todo
pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados:
--Eu não o mato porque não tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto,
uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!...
Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto não póde ficar assim! Não póde!
É necessario sangue... Vê tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a
nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques
do snr. Damaso. Não póde ser. Eu o que tenho pena é de não ter um
pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o!
Carlos encolheu vagamente os hombros:
--Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente só tem sido
velhaco commigo por causa das minhas relações com essa senhora; e como
isso é um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem.
_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha razão, quando dizia que
ella era uma intrujona...
Atirou uma punhada á mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um
tedio infinito de tudo:
--Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha razão!...
Toda a sua cólera revivera, mais aspera, a esta idéa. Olhou o relogio.
Tinha pressa de a vêr, tinha pressa de a injuriar!...
--Escreveste-lhe? perguntou o Ega.
--Não, vou lá eu mesmo.
Ega pareceu espantado. Depois recomeçou a passear, calado, com os olhos
no tapete.
Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se
no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o
menino aos Olivaes, esperava em baixo.
--Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas.
--Não jantas?
--Não.
D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. Já se accendera o gaz. E
inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que
não fumava, soffria já a perturbação d'aquelle encontro difficil e
doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por «minha
senhora», se por «minha boa amiga», com uma superior indifferença. E ao
mesmo tempo sentia por ella uma compaixão indefinida, que o amollecia.
Diante d'estes seus modos regelados, via-a já toda pallida, a tremer,
com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que
estava tão perto de as vêr correr, enchiam-no só de commoção e de dó...
Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais
digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e
seccamente! Poderia não lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem
rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de
phantasia, e amára-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais
digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido,
incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a
dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonára _por paixão_, estava
decidido a não sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe
cedera _por profissão_. Era mais simples, era terminante... E depois não
a via, não teria de supportar a tortura das explicações e das lagrimas.
Então veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar,
reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O
cocheiro não ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada
escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, á maneira
que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes
passára com o coração em festa, quando a sua paixão estava em flôr, uma
cólera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra
essa _mentira_ que fôra obra d'ella, e que vinha estragar
irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que
agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso
enorme, feia e côr de ferro, esmagando-lhe o coração. Oh! Se não fosse
_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um
indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus
braços, senão com a mesma crença pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do
outro ou amante do outro--no fim que importava? Não era por faltar aos
beijos que lhe dera esse a consagração d'um padre, rosnada em latim--que
a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura?
Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que
fôra á rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava
estragando tudo d'ahi por diante, dôces conversas, silencios, passeios,
sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os
cortinados côr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella
_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos
olhos limpidos...
Abafava. Ia a descer a vidraça que faltava a correia--quando a tipoia
parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher
com um chale pela cabeça fallava ao cocheiro.
--Melanie!
--Ah, monsieur!
Carlos saltou precipitadamente. Era já proximo da quinta, na volta
d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes
de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que
seguisse e esperasse no portão da quinta. E ficou alli, no escuro, com
Melanie encolhida no seu chale.
Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que
vinha procurar á villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a
Lisboa, ao Ramalhete... Ella julgára a tipoia vazia.
E apertava as mãos, dando as graças, com um immenso allivio. Ah! que
felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta,
nem jantára, perdida de chôro. O snr. Castro Gomes apparecera lá
inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer!
Então Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o
outro? que dissera? como se despedira?... Melanie não ouvira nada. O
Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sós no pavilhão japonez.
Á sahida é que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito
socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa,
parecia como morta, tão pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um
desmaio.
Estavam proximo do portão da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando
fortemente, com o chapéo na mão. E agora todo o seu orgulho se ia
sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava,
deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixão... Dites toujours,
Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no
Ramalhete, lhe confessára tudo?...
Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem
repetira á senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga
d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o
dito, até já nos Olivaes!
Carlos curvava a cabeça na escuridão do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_!
Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que
andava presa a sua vida! E aquellas revelações de Melanie, que suspirava
com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaços d'esse sonho, que
elle erguera tão alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em
estilhaços, no lodo immundo.
Um momento, com o coração cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa.
Mas para além d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chôro,
querendo morrer... E lentamente recomeçou a caminhar para o portão.
E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais
intimas a Melanie. Porque é que Maria Eduarda não lhe dissera a verdade?
Melanie encolheu os hombros. Não sabia: nem a senhora sabia! Estivera no
Central como madame Gomes; alugára a casa da rua de S. Francisco como
madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixára ir,
insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os
Olivaes... E depois era tarde, já não se atrevera a confessar, toda
enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto...
Mas, exclamava Carlos, nunca imaginára ella que fatalmente tudo se
descobriria um dia?
--Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a
chorar.
Depois eram outras curiosidades. Ella não esperava Castro Gomes? não
suppunha que elle voltasse? não costumava fallar d'elle?...
--Oh non, monsieur, oh non!
Madame, desde que o senhor começára a ir todos os dias á rua de S.
Francisco, considerára-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes,
nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina
chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora não lhe chamava
nada. Tinham-lhe dito que já não havia _petit ami_...
--Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia...
Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora
levára o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes,
nunca mais gastára um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro
Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas,
entregara-lh'as n'essa tarde... Não se lembrava elle de a ter encontrado
uma manhã á porta do Monte-Pio? Pois bem! Fôra lá, com uma amiga
franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora
vivia agora das suas joias; tinha já outras no prégo.
Carlos parára, commovido. Mas então para que tinha ella mentido?
--Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime
bien, allez!
Estavam defronte do portão. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua
d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor,
frouxa e triste. Carlos julgou vêr mesmo a figura de Maria Eduarda,
embrulhada n'uma capa escura, de chapéo, atravessar n'essa claridade...
Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua!
--Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no
sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coração. Subiu os tres
degraus de pedra--que lhe pareciam já d'uma casa estranha. Dentro, o
corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as
panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mão, veio
dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeçarias...
Carlos entrou.
Lá estava, ainda de capa, esperando de pé, palida, com toda a alma
concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para
elle, arrebatou-lhe as mãos, sem poder fallar, soluçando, tremendo toda.
Na sua terrivel perturbação, Carlos achava só esta palavra,
melancolicamente estupida:
--Não sei porque chora, não sei, não há razão para chorar...
Ella pôde emfim balbuciar:
--Escuta-me, pelo amor de Deus! não digas nada, deixa contar-te... Eu ia
lá, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vêr-te... Nunca tive a
coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, não digas nada
ainda, perdôa, que eu não tenho culpa!
De novo os soluços a suffocaram. E cahiu ao canto do sofá, n'um chôro
brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros
os cabellos mal atados.
Carlos ficára diante d'ella, immovel. O seu coração parecia parado de
surpreza e de duvida, sem força para desafogar. Apenas agora sentia
quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e
que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou
com um grande esforço:
--Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, são tantas coisas, são
tantas coisas!... Tu não te vaes já embora, senta-te, escuta...
Carlos puxou uma cadeira, lentamente.
--Não, aqui ao pé de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem és, tem
pena, faze-me isso!
Elle cedeu á supplicação humilde e enternecedora dos seus olhos
arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sofá, afastado d'ella,
n'uma desconsolação infinita. Então, muito baixo, enrouquecida pelo
chôro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria começou a fallar
do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes
soluços que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas
mãos a face afflicta.
A culpa não fôra d'ella! não fôra d'ella! Elle devia ter perguntado
áquelle homem que sabia toda a sua vida... Fôra sua mãi... Era horroroso
dizel-o, mas fôra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o
primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro
annos, como sua esposa, tão fiel, tão retirada de tudo e só occupada da
sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os
allemães, na batalha de Saint-Privat. E ella ficára com Rosa, com a mãi
já doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio
trabalhára... Em Londres tinha procurado dar lições de piano... Tudo
falhára, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com
fome! com fome! Ah, elle não podia perceber o que isto era!... Quasi
fôra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera
Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava
perdida...
Lentamente escorregára do sofá, cahira aos pés de Carlos. E elle
permanecia immovel, mudo, com o coração rasgado por angustias
differentes: era uma compaixão tremula por todas aquellas miserias
soffridas, dôr de mãi, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam
confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o
irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais
maculada...
Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle,
honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era
estar quieta em casa. Elle é que a forçava a andar em ceias, em
noitadas...
E Carlos não podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mãos, que
procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...
--Oh não, não me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle
anciosamente. Eu sei que não mereço nada! Sou uma desgraçada... Mas não
tive coragem, meu amor! Tu és homem, não comprehendes estas coisas...
Olha para mim! porque não olhas para mim? Um instante só, não voltes o
rosto, tem pena de mim...
Não! elle não queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio
d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, já tudo
n'elle começava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E
então, sem saber, a seu pezar, as suas mãos apertaram as d'ella. Ella
cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e
anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia.
--Oh, dize que me perdôas! Tu és tão bom! Uma palavra só... Dize só que
não me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao
menos para mim como d'antes, uma só vez!...
E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Então a fraqueza
em que sentia afundar-se todo o seu sêr encheu Carlos de cólera, contra
si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou:
--Mas porque não me disseste, porque não me disseste? Para que foi essa
longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu?
Largára-a, prostrada no chão. E de pé, deixava cahir sobre ella a sua
queixa desesperada:
--É a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira
sómente!
Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de
desmaio.
--Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante
d'elle, deixando cahir os braços. Eu queria dizer-t'o... Não te lembras,
n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e
que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te
logo: «ha uma coisa que te quero contar...» Tu nem me deixaste acabar.
Imaginavas o que era, que eu queria ser só tua, longe de tudo... E
disseste então que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto
do mundo... Não te lembras?... Foi então que me veio uma tentação! Era
não dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois,
quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua
estima, confessar-te tudo e dizer-te: «agora, se queres, manda-me
embora.» Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentação, não
resisti... Se tu não fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas
mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperança, nem
sei que! E além d'isso adiava aquella horrivel confissão! Emfim, nem
posso explicar, era como o céo que se abria, via-me comtigo n'uma casa
nossa... Foi uma tentação!... E depois era horrivel, no momento em que
tu me querias tanto, ir dizer-te «não faças tudo isso por mim, olha que
eu sou uma desgraçada, nem marido tenho...» Que te hei de explicar mais?
Não me resignava a perder o teu respeito. Era tão bom ser assim
estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi está,
vejo-me perdida, tudo acabou!
Atirou-se para o chão, como uma creatura vencida e finda, escondendo a
face no sofá. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando
bruscamente até junto d'ella, tinha só a mesma recriminação, a
_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... Só os soluços d'ella
lhe respondiam.
--Porque não me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando
sabias que tu eras tudo para mim?...
Ella ergueu a cabeça fatigada:
--Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro
modo... Via-te já a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi
dentro de chapéo na cabeça, a perder a affeição á pequena, a querer
pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia
«hoje não, um dia só mais de felicidade, ámanhã será...» E assim ia
indo! Emfim, nem eu sei, um horror!
Houve um silencio. E então Carlos sentiu á porta _Niniche_ que queria
entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu,
pulou para o sofá, onde Maria permanecia soluçando, enrodilhando a um
canto: procurava lamber-lhe as mãos, inquieta: depois ficou plantada
junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus
vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomeçára a passear sombriamente.
Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento
olhando para aquella dôr humilhada... Todo abalado, com os labios a
tremer, murmurou:
--Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca
mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre nós a separar-nos! Não teria
um unico dia de confiança e de paz...
--Nunca te menti senão n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella
gravemente do fundo da sua prostração.