Calou-se. Maria entrava, com o véu descido, acabando de apertar as

luvas. Então Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braços ao

Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava,

pedindo um abraço filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira.

Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola,

promettendo a Maria Eduarda uma visita á _Toca_, apenas Carlos voltasse

d'esses penhascos do Douro...

--Não vás para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a

Michaela que tome conta em ti!

--_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a,

minha senhora... Até á _Toca_!

O coupé partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava

preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flôres e os restos do

jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no

painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus

olhos.

No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda á mesa do

almoço, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos

chegára de lá essa madrugada, só. O avô decidira ficar entre as suas

velhas arvores até ao fim do outono que ia tão luminoso e tão macio...

Carlos fôra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido

obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu

culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fôra

um allivio para o coração de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos

ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. Além d'isso

achára um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo

da sua vida sem magoar o avô, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um

_truc_, simples. Consistia em partir elle só para Madrid, no começo

d'uma certa «viagem d'estudo», para que já preparára o avô em Santa

Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete

para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a começarem essa

existencia de felicidade e romance que as flôres da Italia deviam

perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria

installada no seu ninho: e então, pouco a pouco, ia revelando ao avô

aquella ligação, a que o prendia a honra, e que o forçaria agora a viver

regularmente longos mezes n'uma outra terra que se tornára a patria do

seu coração. E que havia de dizer o avô? Aceitar esse romance, a que não

veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa

da paixão. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se

passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar

pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria

pensando na curta duração dos idyllios humanos. De resto Carlos contava

com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando

apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_

parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_.

Depois, mais alegremente, fallaram da installação d'esse amor. Carlos

permanecia na sua idéa romantica--um cottage á beira d'um lago. Mas Ega

não approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre

mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paixão.

Na quietação continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios,

dizia elle, não sendo botanicos nem pescando á linha, vêem-se forçados a

viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as

suas idéas, sensações, occupações, gracejos e silencios... E, que diabo,

o mais forte sentimento não póde dar para tanto! Dois amantes, cuja

unica profissão é amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta

cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os

clubs, o cavaco, os museus, as idéas, o sorriso d'outras mulheres--e a

mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a attenção d'outros

homens; de sorte que á noite, quando se reunam, não tendo passado o

infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo

cada um a vibração da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo

e verdadeiro no conchego da sua solidão, e um sabor sempre renovado na

repetição dos seus beijos...

--Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, não

era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era

para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli á esquina do

Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do

_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a

minha doutrina!... E ahi temos nós o amigo Baptista com o correio.

Não era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma

salva: e vinha tão perturbado que annunciou «um sujeito, alli fóra, na

antecamara, n'uma carruagem, á espera...»

Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o,

lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em

silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa.

--Caramba! murmurou Ega, assombrado.

Era Castro Gomes!

Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.

--Manda entrar... Para o salão grande!

Baptista apontou para o jaquetão de flanella com que Carlos tinha

almoçado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca.

--Traze.

Sós, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.

--Não é um desafio, está claro, balbuciou Ega.

Carlos não respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se

Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis «Hotel

Bragança»... Baptista voltára com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a

devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficára de pé junto da

mesa, limpando estupidamente as mãos ao guardanapo.

No salão nobre, forrado de brocados côr de musgo d'outono, Castro Gomes

examinava curiosamente, com um joelho apoiado á borda do sofá, a

esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e

forte no seu vestido de velludo escarlate de caçadora ingleza. Ao rumor

dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapéo branco na mão,

sorrindo, pedindo perdão de estar assim a pasmar familiarmente para

aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido,

indicou-lhe o sofá. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se

vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um botão de

rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho;

no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os

cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura,

de fadiga.

--Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem

embaraço, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro

adocicava. Mas é apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. É um

pintor que não me diverte, a dizer a verdade... Todavia dá muito tom a

uma galeria. É necessario tel-o.

Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre

os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle

modo affavel, uma idéa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa,

pondo-lhe já nos olhos largos que não tirava de sobre o outro, uma

irreprimivel chamma de cólera. Carlos Gomes decerto _não sabia nada_!

Chegára, desembarcára, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o

marido, era novo, tivera-a já nos braços--a ella! E agora alli estava,

tranquillo, de flôr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de

Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse.

No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar

assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma

entrevista...

--O motivo porém que me traz é tão urgente, que cheguei esta manhã ás

dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E

esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.

Fez-se um allivio infinito no coração de Carlos. Ainda não vira então

Maria Eduarda, aquelles seccos labios não a tinham tocado! E sahiu emfim

da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de

leve a cadeira.

Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapéo, tirára do bolso

interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e,

vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na

mão, muito tranquillamente:

--Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo...

Mas não creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar á pressa

o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe

que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui

o tem. Quer v. exc.^a lêl-o, ou quer que eu leia?

Carlos murmurou com um esforço:

--Leia v. exc.^a

Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.

--Como v. exc.^a vê, é a carta anonyma em todo o seu horror: papel de

mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro

reles. Um documento odioso. E aqui está como elle se exprime: «Um homem

«que teve a honra de apertar a mão de v. exc.^a» Eu dispensava a

honra... «que teve a hora de apertar a mão de v. exc.^a e d'apreciar o

seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher é, á vista de

toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo

da Maia, que vive n'uma casa ás Janelas Verdes, chamada o Ramalhete.

Este heroe, que é muito rico, comprou expressamente uma quinta nos

Olivaes, «onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vêr todos os

dias, ficando ás vezes, com escandalo da visinhança, até de madrugada.

Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital.» É tudo o

que diz a carta; e eu só devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto

ella diz é incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia é pois

publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa

senhora.

Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braços, n'uma

aceitação inteira de todas as responsabilidades:

--Não tenho então nada a dizer a v. exc.^a senão que estou ás suas

ordens!...

Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes.

Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo

friamente:

--Perdão... O snr. Carlos da Maia sabe, tão bem como eu, que se isto

tivesse de ter uma solução, violenta, eu não viria aqui pessoalmente, a

sua casa, lêr-lhe este papel... A coisa é inteiramente outra.

Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentidão adocicada

d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que

viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi

fazia estalar o seu pobre coração. E era um desejo brutal de lhe gritar

que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua

presença era uma inutilidade ou uma torpeza!...

O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as

suas palavras com cuidado e com precisão:

--O meu caso é este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me

não conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em

Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma

mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um

amante. Isto é desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a

comprehende que eu não devo continuar a arrastar por mais tempo a fama

de _marido infeliz_, visto que a não mereço, e que a não posso

_legalmente_ ter... É por isso que aqui venho, muito francamente, de

_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho tenção de dizer a

outros, que aquella senhora não é minha mulher.

Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas

elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos

brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um

esforço, baixou de leve a cabeça, como acolhendo placidamente aquella

revelação, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria

e vã.

Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida

resignação, como quem attribue tudo á malicia dos Destinos.

--São as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia está d'ahi a

vêr as coisas. É a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu

vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil,

trouxe-a a Lisboa para não vir sósinho. Fômos para o hotel Central. V.

exc.^a comprehende perfeitamente que eu não fui fazer confidencias ao

gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia

commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher.

Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro

Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de

Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de

Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente

desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! não podemos realmente

condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente

posição social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da

verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posição e nome

eram de emprestimo e ella era apenas «Fulana de tal, amigada...» De

resto, sejamos justos, ella não era moralmente obrigada a dar

semelhantes explicações ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou á

matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a não

ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do

convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas

vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome.

Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante

ingleza. As inglezas são tão exigentes!... Aquella, sobretudo, uma

rapariga tão séria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora é

que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestára; e ella fica

apenas com o seu, que é Madame Mac-Gren.

Carlos ergueu-se, livido. E com as mãos fincadas nas costas da cadeira

tão fortemente, que quasi lhe esgaçava o estofo:

--Mais nada, creio eu?

Castro Gomes mordeu de leve os beiços perante este remate brutal que o

despediu.

--Mais nada, disse elle tomando o chapéo e levantando-se muito

vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a

suspeitas injustas, que aquella senhora não é uma menina que eu tivesse

seduzido, e a quem recuse uma reparação. A pequerruchinha que alli anda

não é minha filha... Eu conheço a mãi sómente ha tres annos... Vinha dos

braços d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem

injuria, que era uma mulher que eu pagava.

Completára com esta palavra a humilhação do outro. Estava deliciosamente

desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella

brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava só mortificação,

Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou:

--Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o

conhecimento de v. exc.^a por um motivo tão desagradavel... Tão

desagradavel para mim.

Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as

tapeçarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na

calçada...

Carlos ficára cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeça entre

as mãos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe

resoavam em redor, adocicadas e lentas, só lhe restava o sentimento

atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que

cahia de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de

nodoas intoleraveis... Não soffria: era simplesmente um assombro de todo

o seu sêr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma

arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre

nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas

rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braços uma

mulher que não conhecia, e que se chamava Mac-Gren!

Mac-Gren! era a Mac-Gren!

Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de

todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido,

tremulo, ancioso, seguindo á maneira d'uma estrella aquella mulher, que

qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sofá,

facil e núa! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a

emoção religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S.

Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mãos, que elle

julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de lã no bordado, n'um

constante trabalho de mãi laboriosa e recolhida; a veneração espiritual

com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle á tunica

d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria

desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella

sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha

vergonha agora das flôres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha

das «excellencias» que lhe déra!

E seria tão facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que

aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas

quê! a sua paixão absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e

as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que dão

ás montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa!

Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua

intimidade, o homem que na rua a fitára com um fulgor de desejo na face?

Porque é que nas suas longas conversas, nas manhãs da rua de S.

Francisco, não fallára jámais de Paris, dos seus amigos e das coisas da

sua casa? Porque é que ao fim de dois mezes, sem preparação, sem todas

essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma

flôr, se lhe abandonára de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o

primeiro «amo-te»?... Porque lhe aceitára uma casa já mobilada, com a

facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda,

pequeninas, mas que não teriam escapado ao mais simples: joias brutaes,

d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _Explicação de sonhos_, á

cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora até o

ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da

paixão--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabára,

providencialmente! A mulher que elle amára e as suas seducções

esvaíam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que

aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas

a Mac-Gren... O seu amor fôra, desde que a vira, como o proprio sangue

das suas veias; e escoava-se agora todo através da ferida incuravel e

que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!

Ega appareceu á porta do salão, ainda pallido:

--Então?

Toda a cólera de Carlos fez explosão:

--Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa

mais immunda!

--O homem pediu-te dinheiro?

--Peor!

E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem

reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas

e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhação

e de nojo.

--Já por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim,

cruzando violentamente os braços diante do Ega, que se abatera no sofá,

assombrado. Pódes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais

burlesco? É para estalar o coração. E é para rebentar a rir. Estupendo!

Ahi, n'esse sofá, ahi onde tu estás, o homemzinho, muito amavel, de flôr

ao peito, a dizer: «Olhe que aquella creatura não é minha mulher, é uma

creatura que eu pago...» Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito

paga-a... Quanto é o beijo? Cem francos. Ahi estão cem francos... É de

morrer!

E recomeçou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando

tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda

n'uma brutalidade maior...

--Que te parece, Ega? Dize lá. Que fazias tu? É horrivel, heim?

Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou

por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do

seu tempo e «do seu mundo», ellas não offereciam nem motivos de cólera,

nem motivos de dôr...

--Então não comprehendes nada! gritou Carlos, não percebes o meu caso!

Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no

momento em que ia ligar com adoração o seu destino ao d'uma mulher,

saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo

simplificava e amenisava as coisas. O que fôra um drama complicado

tornava-se uma distracção bonançosa. Ficava Carlos, desde logo,

alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: já não tinha de

se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; já o

não prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez não o

prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens.

--E a dignidade d'ella! exclamou Carlos.

Sim, mas a diminuição de dignidade e pureza não era na verdade grande,

porque antes da visita de Castro Gomes já ella era uma mulher que foge

do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem é muito puro

nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhação irritante--não

superior todavia á d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com

religião, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina

foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o

resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos até ahi tivera

uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes

uma bella amante...

--O que tu deves fazer, meu caro Carlos...

--O que eu vou fazer é escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preço de

dois mezes que dormi com ella...

--Brutalidade romantica!... Isso já vem na _Dama das Camelias_...

Sobretudo é não vêr com boa philosophia as _nuances_.

O outro atalhou, impaciente:

--Bem, Ega, não fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente

nervoso!... Até logo. Tu jantas em casa, não é verdade? Bem, até logo.

Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se

muito lentamente do sofá:

--O homemzinho foi para lá.

Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes:

--Foi para os Olivaes? Foi ter com ella?

Sim, pelo menos mandára a tipoia á quinta do Craft. Ega, para conhecer

esse snr. Castro Gomes, fôra metter-se no cubiculo do guarda-portão. E

vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses

_rastaquouèros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _Café

de la Paix_ ás duas horas para tomar a sua groseille, tesos e

embrutecidos... E fôra o guarda-portão que lhe dissera que o sujeito

parecia muito alegre e mandára o cocheiro bater para os Olivaes...

Carlos parecia aniquilado:

--Tudo isso é nojento!... No fim talvez até se entendam ambos... Estou

como tu dizias aqui há tempos: «Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso

um banho por dentro!»

Ega murmurou melancolicamente:

--Essa necessidade de banhos moraes está-se tornando com effeito tão

frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles.

Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de

papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, já tinha a data d'esse dia,

depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforçára por traçar

firme e serena:--e não achava outra palavra. Estava bem decidido a

mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante

das semanas que passára no seu leito. Mas queria juntar duas linhas

regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: não

encontrava senão phrases de grande cólera, revelando um grande amor.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 35 / 53 段