N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos cançado adormeceu no sofá:

e só despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava

tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de

amor! E Maria decerto á espera, angustiada, imaginando desastres!...

Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir

subtilmente o portão da quinta, pensou que Maria teria adormecido:

_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se,

mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do

chão, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam

beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles

dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro

dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz

soluçava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza!

Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos,

atordoado, Carlos escoou-se pelo portão, cerrou-o mansamente, foi

esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia,

sumido na sombra. E tremia de indignação. Era preciso contar

immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! Não queria que ella

consentisse um momento mais essa impura fêmea, junto de Rosa, roçando a

candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim

astuta e methodica, sem se desconcertar jámais! Havia dias apenas, vira

a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_Illustração_, onde dois

castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia,

estirada na herva!

Na estrada escura, do lado do portão, brilhou um lume de cigarro. Um

homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um

jornaleiro. A boa miss Sarah não escolhera! Bem lavada, toda correcta,

com os seus bandós puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde

que era um macho! E assim os embaíra, mezes, com aquellas suas duas

existencias, tão separadas, tão completas! De dia virginal, severa,

córando sempre, com a Biblia no cesto da costura: á noite a pequena

adormecia, todos os seus deveres sérios acabavam, a santa

transformava-se em cabra, chale aos hombros, e lá ia para a relva, com

qualquer!... Que bello romance para o Ega!

Voltou; tornou a abrir devagarinho o portão: de novo subiu, amollecendo

os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitação

em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria

o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que

tambem elle penetrava alli, ás escondidas, como o homem da manta... De

certo era bem differente! Toda a immensuravel differença que vai do

divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos

escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de

requintes e passado entre brocados côr d'ouro, aquelle outro rude amor,

secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva...

Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada,

mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente

parecida... Não, não diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relações

com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana

laboriosa, grave e cheia d'ordem.

A porta envidraçada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos

vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu,

mal embrulhada n'um roupão, juntando os cabellos que se tinham

desenrolado, e meia adormecida.

--Porque vieste tão tarde?

Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados.

--Adormeci estupidamente, a lêr... Depois, quando entrei pareceu-me

ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginação, tudo

deserto.

--Precisavamos ter um cão de fila, murmurou ella, espreguiçando-se.

Sentada á beira do leito, com os braços cahidos e adormentados, sorria

da sua preguiça.

--Estás tão fatigada, filha! queres tu que me vá embora ?...

Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente.

--Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps...

Ao outro dia Carlos não fôra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_.

Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um

pouco cançada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle

entrou no salão: defronte da janella aberta, sentada no banco de

cortiça, miss Sarah costurava, á sombra das arvores.

--_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo

curioso de a observar.

--_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tímido.

Carlos fallou do calor. Miss Sarah já áquella hora o achava intoleravel.

Felizmente a vista do rio, lá em baixo, refrescava...

Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fôra

tão abafada! Elle mal pudera dormir. E ella?

Oh, ella dormira d'um somno só. Carlos quiz saber se tivera bonitos

sonhos.

--_Oh yes, sir_.

_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E

tão correcta, tão pregada, fresca como se nunca tivesse servido!...

Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava

que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho!

Assim ia passando o verão nos Olivaes. No começo de setembro, Carlos

soube por uma carta do avô que Craft devia chegar a Lisboa, n'um

sabbado, ao Hotel Central: e correu lá cedo, logo n'essa manhã, a ouvir

as novidades de Santa Olavia. Achou Craft já a pé, diante do espelho,

fazendo a barba. A um canto do sofá, Eusebiosinho, que viera na vespera

á noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um

canivete, em silencio, coberto de negro.

Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso,

beirão forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do

Ramalhete. Tinha-se passado régiamente! O avô, cheio de saude, d'uma

hospitalidade que lembrava Abrahão e a Biblia. O Sequeira optimo comendo

tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo

d'uma poltrona. Lá conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com

os olhos cheios de lagrimas do «talento do seu caro collega Carlos.» E o

marquez esplendido, com abraços de primo a todos os fidalgotes de

Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares,

alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danças de raparigas no adro,

guitarradas, esfolhadas, todo o dôce idyllio portuguez...

--Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sériamente, disse

por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabeça.

--E tu, perguntou então Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens

estado em Cintra, hein? Que se faz lá?... O Ega?

O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas.

--Lá está no Victor, muito engraçado, comprou um burro... Lá está o

Damaso tambem... Mas esse pouco se vê, não larga os Cohens... Emfim

tem-se passado menos mal, com bastante calor...

--Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?

Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sério! O

Palma é que lá tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha

agora um jornal, _A Corneta do Diabo_.

--_A Corneta...?_

--Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. É um jornal de pilherias, de

picuinhas... Elle já existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou

para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais

chalaça...

--Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle...

Craft reappareceu, enxugando a cabeça. E emquanto se vestia, fallou de

uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia.

Como já não tinha a _Toca_, e a sua casa ao pé do Porto necessitava

longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em

communicação espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se

adiantasse até Bagdad, a vêr o Euphrates, e os sitios de Babylonia...

--Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e

Babylonia_... Que diabo, você gosta d'isso? Eu tenho horror a raças e a

civilisações defuntas... Não me interessa senão a Vida.

--É que você é um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e

de Babylonia, quer vir você almoçar ao Bragança? Eu tenho de lá

encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua

do Ouro, que quero trepar um instante á caverna do meu procurador... E a

caminho, que é meio dia!

Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres

lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft

travou do braço de Carlos, e disse-lhe que as coisas sérias a respeito

de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do avô por elle não

ter lá apparecido.

--Seu avô não me disse nada, mas eu sei que elle está muitissimo magoado

com você. Não ha desculpa, são umas horas de viagem... Você sabe como

elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_.

--Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter lá ido... Que quer você,

amigo?... Emfim acabou-se, é necessario fazer um esforço!... Talvez

parta para a semana com o Ega.

--Sim, homem, dê-lhe esse alegrão... Esteja lá umas semanas...

--_Est modus in rebus_. Hei de vêr se lá estou uns dias.

A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava,

havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de

repente avistou Melanie, a sahir o portão do Monte-Pio, com uma matrona

gorda, de chapéo rôxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou

como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta;

balbuciou logo que Madame lhe déra licença para vir a Lisboa, e ella

andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha

branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para

dentro, á pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do

Paço.

Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que voltára, olhando

tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos

Olivaes, onde elle ás vezes costumava vir «janotar a Lisboa».

--Era alguem lá da _Toca_? perguntou.

Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embaraço de

Melanie.

E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no

rumor da rua:

--Ouça lá! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft?

O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto,

rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de

Carlos nos Olivaes...

--Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era tão

pouco curioso que nem mesmo quizera lêr nunca a _Historia Romana_... Em

todo o caso você deve ir a Santa Olavia.

Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que

devia ao avô. Ella, muito séria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de

o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o

amavam.

--Mas ouve, querido, não é por muito tempo, não?

--Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago até o avô.

Não está lá a fazer nada, e eu não estou para a massada de voltar lá...

Maria então lançou-lhe os braços ao pescoço, e baixo, timidamente,

confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vêr o Ramalhete! Queria

visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas

vezes elle pensara n'ella, e se desesperára, sentindo-a distante e

inaccessivel...

--Dize, queres? Mas é necessario que seja antes de vir teu avô. Queres?

--Acho um encanto! Ha só um perigo. É eu não te deixar sahir mais e

ficar a devorar-te na minha caverna.

--Prouvera a Deus!

Combinaram então que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida

de Carlos para Santa Olavia. Á noitinha levava-o no coupé a Santa

Apolonia; depois seguia para os Olivaes.

Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu coração

batia com a deliciosa perturbação d'um primeiro encontro, quando sentiu

parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roçarem o velludo

côr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo

que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doçura d'um primeiro

beijo!

Ella foi logo ao toucador tirar o chapéo, dar um geito ao cabello. Elle

não cessava de a beijar; abraçava-a pela cinta; e com os rostos juntos

sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois,

impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, até á alcova

de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos,

abriu os cortinados de sêda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia

uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de

esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada,

outras ainda. Ella mergulhou as mãos, com um sorriso triste, na profusão

d'aquellas recordações... Carlos, rindo, pediu-lhe que não olhasse

«esses enganos do seu coração».

Porque não? dizia Maria, séria. Sabia bem que elle não descera das

nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado

d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amára as outras como a

sabia amar a ella.

--Até é uma profanação fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas

d'acaso, murmurou Carlos. São quartos de estalagem onde se dorme uma

vez...

No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella

d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza?

--Não, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios...

Gente tranquilla, que vivia no campo...

--Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de

Vienna!

Carlos tirou-lhe a photographia da mão. Para que haviam de fallar

d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e

elle tinha-a alli abraçada sobre o seu coração.

Foram então percorrer todo o Ramalhete, até ao terraço. Ella gostou

sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de

prelado, a sua feição severa de paz estudiosa.

--Não sei porque, murmurou dando um olhar lento ás estantes pesadas e ao

Christo na cruz, não sei porque, mas teu avô faz-me medo!

Carlos riu. Que tonteria! O avô se a conhecesse, fazia-lhe logo a côrte

rasgadamente... O avô era um santo! E um lindo velho!

--Teve paixões?

--Não sei, talvez... Mas creio que o avô foi sempre um puritano.

Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua

cascatasinha chorando n'um rythmo dôce. Sentaram-se um instante sob o

velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas

letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos

pareceu a Maria mais dôce que o de todas as outras aves que ouvira;

depois arranjou um ramo para levar como reliquia.

Mesmo em cabello foram vêr defronte as cocheiras: o guarda-portão ficou

de boné na mão, embasbacado para aquella senhora tão linda, tão loira, a

primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez

uma festa grata e mais longa á _Tunante_, que tantas vezes levára Carlos

á rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graças

incomparaveis d'uma esposa perfeita.

Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava

«mysteriosa» com aquelles velludos grossos côr de cereja, forrando-a

como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca

alli passára outro vestido--a não ser o do Ega, uma vez, mascarado de

varina.

Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista:

mas quando voltou encontrou-a a um canto do sofá, tão descahida, tão

desanimada, que lhe arrebatou as mãos, cheio d'inquietação.

--Que tens, amor? Estás doente?

Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas.

Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua

paz, os teus amigos... É uma tristeza, tenho remorsos!

Carlos ajoelhára ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe

tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se

ella então valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes

usados?...

--O que eu tenho pena é de te sacrificar tão pouco, minha querida Maria,

quando tu sacrificas tanto!

Ella encolheu os hombros, amargamente.

--Eu!

Passou-lhe as mãos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu

seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coração, calmando-lhe

as incertezas e as duvidas:

--Não, com effeito, nada vale no mundo senão o nosso amor! Nada mais

vale! Se elle é verdadeiro, se é profundo, tudo mais é vão, nada mais

importa...

A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraçada para o

leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel.

Ás cinco horas pensaram em jantar. A mesa fôra posta n'uma saleta que

Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim côr de perola e

botão d'ouro. Mas não estava ainda arranjada; as paredes conservavam o

seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de

seu pai--uma teia banal, representando um moço pallido, de grandes

olhos, com luvas de camurça amarella e um chicote na mão.

Era Baptista que os servia, já com um fato claro de viagem. A mesa,

redonda e pequena, parecia uma cesta de flôres; o champagne gelava

dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dôce tinha as

iniciaes de Maria.

Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou

no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar

aquella face descórada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais

tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos.

--Quem é? perguntou.

--É meu pai.

Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. Não achava que Carlos

se parecesse com elle. E voltando-se muito séria, emquanto Carlos

desarrolhava com veneração uma garrafa de velho Chambertin:

--Sabes tu com quem te pareces ás vezes?... É extraordinario, mas é

verdade. Pareces-te com minha mãi!

Carlos riu, encantado d'uma parecença que os aproximava mais, e que o

lisonjeava.

--Tens razão, disse ella, que a mamã era formosa... Pois é verdade, ha

um não sei quê na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma

maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco

vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes...

Baptista entrava com uma terrina de louça do Japão. E Carlos,

alegremente, annunciou um jantar á portugueza. Mr. Antoine, o _chef

francez_, fôra com o avô. Ficára a Michaela, outra cozinheira de casa,

que elle achava magnifica, e que conservava a tradição da antiga cozinha

freiratica do tempo do snr. D. João V.

--Assim, para começar, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de

gallinha, como só se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em

noites de noivado mystico...

E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles

apertavam-se rapidamente a mão por cima das flôres. Nunca Carlos a

achára tão linda, tão perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma

ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a

superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de

ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos

portuguezes á moda de D. João V, servidos pelo Baptista de jaquetão.

--Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como

implorando a sua approvação.

--Não, deves ir... é necessario não sermos egoistas... Sómente não te

descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os

telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e está longe,

como dizia a mamã.

Então Carlos gracejou de novo sobre a sua parecença com a mãi d'ella. E

baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo:

--É curioso não m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de

tua mãi...

Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fallára da

mamã, porque nunca viera a proposito...

--De resto não havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A

mamã era uma senhora da ilha da Madeira, não tinha fortuna, casou...

--Casou em Paris?

--Não, casou na Madeira com um austriaco que fôra lá acompanhar um irmão

tisico... Era um homem muito distincto, viu a mamã, que era lindíssima,

gostaram um do outro, _et voilà_...

Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza

de frango.

--Mas então, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu és

tambem austriaca... És talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que

tem um tão grande encanto...

Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca

conhecera o pai, vivera sempre com a mamã, fallára sempre portuguez,

considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo

allemão...

--Não tiveste irmãos?

--Sim, tive, uma irmãsinha que morreu em pequena... Mas não me lembra.

Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda!

N'esse momento em baixo, na calçada, uma carruagem, a trote largo,

estacou. Carlos, surprehendido, correu á janella com o guardanapo na

mão.

--É o Ega! exclamou. É aquelle velhaco que chega de Cintra!

Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pé, ambos se olharam,

hesitando... Mas o Ega era como um irmão de Carlos. Elle esperava só que

o Ega recolhesse de Cintra para o levar á _Toca_. Melhor seria que o

encontro se désse alli, natural, franco e simples...

--Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou

a jantar, que entre para aqui.

Maria sentára-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do

cabello, arranjado á pressa, um pouco desmanchado.

A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapéo

branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mão.

--Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega.

E ao Ega disse simplesmente:

--Maria Eduarda.

Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mão que Maria

Eduarda lhe estendia, córada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado,

desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Cintra rolou,

esmagando-se, sobre as flôres do tapete. Então todo o embaraço findou

através d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braços

sobre as ruinas do seu dôce.

--Tu já jantaste? perguntou Carlos.

Não, não tinha jantado. E via já alli uns ovos molles nacionaes, que o

encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que

cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calão, como as

comedias do Gymnasio!

--Então avança! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de

gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa

Olavia?

Está claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas

não podia jantar ainda, assim coberto do pó da estrada, e com um

jaquetão de bucolica...

--Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo,

que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!...

O Baptista servira o café. E a carruagem da senhora, que os devia levar

a Santa Apolonia, esperava já á porta com a maleta. Mas Ega agora queria

conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E

elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flôres e

como as aves...

--Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda.

--Não, minha senhora, só o tempo de cumprir o meu dever de cidadão,

subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra

começa a ser interessante para mim, agora que não está ninguem...

Cintra, de verão, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de

sebo.

Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a

não se devia demorar se não tencionava perder o comboio, de proposito.

Maria ergueu-se logo para ir dentro pôr o chapéo. E os dois amigos, sós,

ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto.

--Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega.

--Tres ou quatro dias. E tu não voltes para Cintra antes que eu chegue,

precisamos communicar... Que diabo tens tu feito lá?

O outro encolheu os hombros.

--Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando

«que lindo que isto é!» etc.

Depois, debruçado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona:

--De resto, nada... O Damaso lá está! Sempre com a Cohen, como te mandei

dizer... Está claro que não ha nada entre elles, aquillo é só para mim,

para me irritar... É um canalha aquelle Damaso! Eu só quero um pretexto.

Esgano-o!

Deu um puxão forte aos punhos, com uma côr de cólera no rosto queimado:

--Eu, está claro, fallo-lhe, aperto-lhe a mão, chamo-lhe «amigo Damaso»,

etc. Mas só quero um pretexto! É necessario aniquilar aquelle animal. É

um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de

lama humana!

--Quem esteve por lá mais? perguntou Carlos.

--Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma só vez. Apparecia

pouco, coitada, agora que andava de luto.

--De luto?

--Por ti.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 34 / 53 段