foi da nossa péga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um
poltrão, mas depois ia-me atrapalhando a vida... É capaz de tudo...
Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado
ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas
ameaças...
--Ameaças! Que disse elle?
--Diz que te dás ares de espadachim e de valentão, mas has de encontrar
dentro em pouco quem te ensine... Que se está ahi preparando um
escandalo monumental... Que se não admirará de te vêr brevemente com uma
boa bala na cabeça...
--Uma bala?
--Assim o disse. Tu ris, mas eu é que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao
Damaso e dizia-lhe: «Damasosinho, flôr, fique avisado que, d'ora em
diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e
parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...»
Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada,
apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de
camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os
requebros do palhaço, rebocado de cáio e vermelhão, que tocava nos
pésinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um
gosto de mel... Descançando na sella larga de xairel dourado, a
creatura, magrinha e séria, com flôres nas tranças, dava a volta
devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado á mão
por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e nescio acompanhava-a,
com as mãos ambas apertadas ao coração, n'uma supplica babosa, rebolando
languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de
lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada d'ouro, empurrava-o,
n'um arremedo de ciumes; e o palhaço cahia, estatelado, com um estoiro
de nadegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O
calor suffocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam
uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado,
abalou.
--Espera ao menos para vêr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o
Taveira.
--Não posso, cheira mal, morro!
Mas á porta, de repente, foi detido pelos braços abertos do Alencar, que
chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo
vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vêr alli o de seu Carlos.
Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira até nos papeis publicos...
--Não, disse Carlos, o avô é que foi hontem... Eu não me sinto ainda em
disposição do ir communicar com a natureza...
Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo.
Ao lado, grave, o ancião de barbas calçava as suas luvas pretas.
--Pois eu é o contrario! exclamava o poeta.
Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O
bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana.
Estão lá os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do
Victor...
Os Cohens! Carlos comprehendeu então a fuga do Ega e a «sua saudade do
verde.»
--Ouve lá, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado.
Tu não conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita
troça juntos... Não era nenhum personagem, era apenas um alquilador de
cavallos... Mas tu sabes, cá em Portugal, sobretudo n'esses tempos,
havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que
diabo, tu deves conhecel-o! É o tio do Damaso!
Carlos não se recordava.
--O Guimarães, o que está em Paris!
--Ah, o communista!
--Sim, muito republicano, homem de idéas humanitarias, amigo do
Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por
causa d'umas terras que herdou do irmão, d'esse outro tio do Damaso que
morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos,
beberam-se uns liquidos, e até estivemos a fallar de teu pai... Queres
tu que eu t'o apresente?
Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasião mais intima, quando
podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado...
--Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a
padraria... Espirito largo, espirito muito largo!
O poeta sacudiu ardentemente as duas mãos de Carlos. O snr. Guimarães
ergueu de leve o seu chapéo, carregado de crepe.
Todo o caminho, até ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e
n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presença
d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas
troças! E isto trazia conjuntamente outra idéa, que n'esses ultimos dias
já o atravessára, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua
radiante felicidade, um sombrio arripio de dôr... Carlos pensava no avô.
Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia,
nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sêcca
e pretenciosa, fallava «em apparecer por Lisboa, com as elegancias do
frio, lá para meado de novembro»; e era necessario antes d'isso que
estivessem já longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu
amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo
isto era facil, considerado quasi legítimo pelo seu coração, e enchia a
sua vida d'esplendor... Sómente havia n'isto um espinho--o avô!
Sim, o avô! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas
ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz
que lhe tornava tão bella a velhice. Homem de outras eras, austero e
puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o avô,
n'esta franca, viril, rasgada solução d'um amor indominavel, só veria
libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas,
acima e fóra das ficções civis; e nunca comprehenderia essa subtil
ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados,
procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que
leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga
um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da
paixão, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de
sabão, contra as tres ou quatro idéas fundamentaes de Dever, de Justiça,
de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que
assentára a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o
horror d'uma fatalidade! Já a mulher de seu filho fugira com um homem,
deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem,
arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se
assim uma repetição d'adulterios, de fugas, de dispersões, sob o bruto
aguilhão da carne!... Depois as esperanças que Affonso fundára
n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser
para sempre, na imaginação angustiada do avô, um foragido, um
inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sólo,
tendo abdicado toda a acção que o elevaria no seu paiz, vivendo por
hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia
equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina...
Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os
derradeiros annos do pobre avô!... Mas, que podia elle fazer? Já o
dissera ao Ega. A vida é assim! Elle não tinha o heroismo nem a
santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do
avô, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus,
tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...
Chegára ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por
alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se
esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle não voltasse! Uma
onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria tão facil, perfeito
e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio
que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado
n'uma visão em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre,
serena, sorrindo e coberta de luto...
No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um
suspiro de fadiga, de desconsolação,--disse, depois de tossir
risonhamente, e dando mais luz ao candieiro:
--Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais só...
--Está só, está triste, murmurou Carlos. É necessario sacudirmo-nos...
Eu já te disse que talvez fossemos viajar este inverno...
O menino não lhe tinha dito nada.
--Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia?
Baptista reflectiu.
--Eu, da outra vez não vi o Papa... E antes de morrer não se me dava de
vêr o Papa...
--Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vêr o Papa.
Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lançando um olhar ao espelho:
--Para vêr o Papa vai-se de casaca, creio eu?
--Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos,
era um habito de Christo... Hei de vêr se te arranjo um habito de
Christo.
Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate,
d'emoção:
--Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez
com menos merecimentos que eu... Dizem que até ha barbeiros...
--Tens razão, replicou Carlos muito sério. Era uma vergonha. O que hei
de vêr se te arranjo com effeito é a commenda da Conceição.
Todas as manhãs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos
Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do
_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha
cavalhariça da _Toca_, e, até á hora em que Carlos voltava ao Ramalhete,
vadiava pelas tabernas.
Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoçar, Maria Eduarda, ouvindo
rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos á porta da
casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco
toldo de fazenda côr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ás
vezes trazia, á antiga moda hespanhola, uma flôr entre os cabellos; o
forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate
eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura,
ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior.
Cerrando o portão d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se
logo envolvido n'um «extraordinario conforto moral», como elle dizia, em
que todo o seu sêr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma
permanente impressão de harmonia e doçura... Mas o seu primeiro beijo
era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma
onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado,
pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe
sorria-lhes, sob o toldo côr de rosa. Em redor tudo era luminoso,
familiar e cheio de paz.
A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. Já se podia
usar o salão nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a
tristeza d'um luxo morto: as flôres que Maria punha nos vasos, um jornal
esquecido, as lãs de um bordado, o simples roçar dos seus frescos
vestidos, tinham communicado já um subtil calor de vida e de conchego
aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de
ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto não
chegava a hora das lições de Rosa.
A essa hora apparecia miss Sarah, séria e recolhida--sempre de preto,
com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de
homem. Recuperára as suas côres fortes de boneca, e as pestanas baixas
tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandós puritanos.
Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo,
mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldêa. Mas aquellas
terras trigueiras d'olivedo não lhe pareciam campo: «é muito sêcco, é
muito duro,» dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados
da sua Inglaterra, e dos céos de nevoa, cinzentos e vagos.
Davam duas horas; e começavam logo nos quartos de cima as longas lições
de Rosa. Carlos e Maria iam então refugiar-se n'uma intimidade mais
livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do
Japão, construira ao pé da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o
retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiçoara-se áquelle
recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma só
janellinha redonda, e um telhado agudo á japoneza, onde roçavam os
ramos--tão leve que através d'elle nos momentos de silencio se sentiam
piar as aves. Craft forrára-o todo de esteiras finas da India; uma mesa
de xarão, algumas faianças do Japão, ornavam-no sobriamente; o tecto não
se via, occulto por uma colcha de sêda amarella, suspensa pelos quatro
cantos, em laços, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro
kiosque parceia ter sido armado só com o fim d'abrigar um divan baixo e
fôfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo
para todas as preguiças...
Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presença de miss
Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro
cahiam logo no chão--e os seus labios, os seus braços uniam-se
arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma
almofada, tremulo, impaciente depois da forçada reserva diante de Rosa e
diante de Sarah--e alli ficava, abraçado á sua cintura, balbuciando mil
coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam
frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doçura de desmaio. Ella queria
saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separação.
E Carlos nada tinha a contar senão que pensára n'ella, que sonhára com
ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam
por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia
os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho
negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas.
Fóra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta sêcca, d'um verde
empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa
branca, através das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado
das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque havía tambem um
silencio satisfeito e pleno--sómente quebrado por algum dôce suspiro de
lassidão que sahia do divan, d'entre as almofadas de sêda, ou algum
beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os
tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta,
encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle já repassado d'esse
aroma indefinido em que havia jasmim.
Lenta, e passando as mãos no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo
aos pés de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe
custava então esse momento de separação! Para que havia de ser assim?
Parecia tão pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda
a noite, sósinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas
carícias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam
muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos,
trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus
labios cançados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando
impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaçando ladrar.
Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietação. Que pensaria
miss Sarah d'esta sésta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella
do pavilhão cerrada? Melanie, desde pequena ao serviço de Maria, era uma
confidente: o bom Domingos, um imbecil, não contava: mas miss Sarah?...
Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar
depois á mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandós
virginaes... Está claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou
franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no
_Royal Mail_ para Southampton! Rosa não a lamentaria, Rosa não lhe tinha
affeição. Mas, emfim, era tão séria, admirava tanto a senhora! Ella não
gostava de perder a admiração d'uma rapariga tão séria. E assim
decidiram despedir miss Sarah, régiamente paga, e substituil-a, mais
tarde, em Italia, por uma governante allemã, para quem elles fossem como
casados, «Monsieur et Madame...»
Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa,
foi crescendo n'elles. Não lhes bastava já essa curta manhã no divan com
os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em
redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os
seus braços se podessem enlaçar sem encontrar o estofo dos vestidos, e
tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem
facil! A sala de tapeçarias, communicando com a alcova de Maria, abria
sobre o jardim por uma porta envidraçada; a governante, os criados,
subiam ás dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia
profundamente; Carlos tinha uma chave do portão; e o unico cão,
_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos...
Maria desejava essa noite tão ardentemente como elle. Uma tarde ao
escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos
essa dupla chave--que Carlos já promettia mandar dourar: e elle ficou
surprehendido ao vêr que o velho portão, que ouvira sempre ranger
abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso.
Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao
amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de
gorgetas. O céo, molle e abafado, não tinha uma estrella; e sobre o mar
lampejava a espaços, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com
inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma
posse tão desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente
o acobardava. Abriu quasi a tremer o portão: e mal déra alguns passos
estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo
emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade
que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupão de rendas, junto da
porta envidraçada, suffocando quasi entre os braços _Niniche_ que ainda
rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado:
e não quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus,
com _Niniche_ que aquietára e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma
infinita mancha de tinta; só lá em baixo, perdida e mortiça, surdia da
treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a
Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos
mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares
do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na
sombra.
--Porque não havemos de partir já para a Italia? perguntou ella de
repente, procurando a mão de Carlos. Se tem de ser, porque não ha de ser
já?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!
--Sustos de que, meu amor? Estamos aqui tão seguros como na Italia, como
na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize
tu um dia, marca um dia!
Ella não respondeu, deixando cahir dôcemente a cabeça sobre o hombro de
Carlos. Elle acrescentou, devagar:
--Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia,
vêr o avô...
Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escuridão--como recebendo
d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem.
--Tu tens Santa Olavia, tens teu avô, tens os teus amigos... Eu não
tenho ninguem!
Carlos estreitou-a a si, enternecido.
--Não tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustiça, nem
chega a ser ingratidão! É nervoso; e é tambem o que os inglezes chamam a
«impudente adulteração d'um facto.»
Ella ficára aninhada no peito de Carlos, como desfallecida.
--Não sei porque, queria morrer...
Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na
alcova. Os mólhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os
setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma
refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito já
aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e côr
de chamma. Fóra, para os lados do mar, um trovão rolou lento e surdo.
Mas Maria já o não ouviu, cahida nos braços de Carlos. Nunca o desejára,
nunca o adorára tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais
longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a
alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos
soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa
que elle sempre imaginára, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio
immortal, e com elle pairava n'uma celebração d'amor, muito alto, sobre
nuvens de ouro...
Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir
n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que
governou até ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro,
encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz.
Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos
reparou n'uma casita, á beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo
a idéa de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de
madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaçando o trem
pelas calçadas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e
cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio
ao outro dia, com moveis n'uma carroça, arranjar este novo ninho. Maria
disse, quasi triste:
--Mais outra casa!
--Esta, exclamou Carlos rindo, é a ultima! Não, é a penultima... Temos
ainda a outra, a nossa, a verdadeira, lá longe, não sei onde...
Começaram a encontrar-se todas as noites. Ás nove e meia, pontualmente,
Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accêso: e Domingos, adiante,
de lanterna, vinha fechar o portão, tirar a chave. Elle recolhia devagar
á sua «choupana» onde o servia um criadito, filho do jardineiro do
Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas,
além do leito, uma mesa, um sofá de riscadinho, duas cadeiras de palha;
e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo
para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra.
Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi sómente do Damaso. O Damaso
apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornára-se grutesco em
Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvorára capacete e véo em
Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor,
de perna traçada, dizia familiarmente «a Rachel»; era um dever de
moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os
hombros, achando estes ciumes indignos do coração do Ega. E então por
quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a
bengala! «Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti até
ao Damaso, tens só a fazer como se fosse um charuto que te cahisse á
lama: não o pódes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao
garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, é
d'imbecil.» Mas ordinariamente, quando respondia, fallava só ao Ega dos
Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto
d'ella, da superioridade d'ella... Ao avô não achava que dizer; nas dez
linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que não se
fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do
Manoelzinho--que elle nunca via.
Quando não tinha que escrever, estirava-se no sofá, com um livro aberto,
os olhos no ponteiro do relogio. Á meia noite sahia, encafuado n'um
gabão d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na
mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa...