Não, não, dizia o Taveira muito sério, eu conheço o meu Damaso. Quando

foi da nossa péga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um

poltrão, mas depois ia-me atrapalhando a vida... É capaz de tudo...

Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado

ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas

ameaças...

--Ameaças! Que disse elle?

--Diz que te dás ares de espadachim e de valentão, mas has de encontrar

dentro em pouco quem te ensine... Que se está ahi preparando um

escandalo monumental... Que se não admirará de te vêr brevemente com uma

boa bala na cabeça...

--Uma bala?

--Assim o disse. Tu ris, mas eu é que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao

Damaso e dizia-lhe: «Damasosinho, flôr, fique avisado que, d'ora em

diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e

parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...»

Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada,

apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de

camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os

requebros do palhaço, rebocado de cáio e vermelhão, que tocava nos

pésinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um

gosto de mel... Descançando na sella larga de xairel dourado, a

creatura, magrinha e séria, com flôres nas tranças, dava a volta

devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado á mão

por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e nescio acompanhava-a,

com as mãos ambas apertadas ao coração, n'uma supplica babosa, rebolando

languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de

lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada d'ouro, empurrava-o,

n'um arremedo de ciumes; e o palhaço cahia, estatelado, com um estoiro

de nadegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O

calor suffocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam

uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado,

abalou.

--Espera ao menos para vêr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o

Taveira.

--Não posso, cheira mal, morro!

Mas á porta, de repente, foi detido pelos braços abertos do Alencar, que

chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo

vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vêr alli o de seu Carlos.

Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira até nos papeis publicos...

--Não, disse Carlos, o avô é que foi hontem... Eu não me sinto ainda em

disposição do ir communicar com a natureza...

Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo.

Ao lado, grave, o ancião de barbas calçava as suas luvas pretas.

--Pois eu é o contrario! exclamava o poeta.

Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O

bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana.

Estão lá os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do

Victor...

Os Cohens! Carlos comprehendeu então a fuga do Ega e a «sua saudade do

verde.»

--Ouve lá, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado.

Tu não conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita

troça juntos... Não era nenhum personagem, era apenas um alquilador de

cavallos... Mas tu sabes, cá em Portugal, sobretudo n'esses tempos,

havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que

diabo, tu deves conhecel-o! É o tio do Damaso!

Carlos não se recordava.

--O Guimarães, o que está em Paris!

--Ah, o communista!

--Sim, muito republicano, homem de idéas humanitarias, amigo do

Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por

causa d'umas terras que herdou do irmão, d'esse outro tio do Damaso que

morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos,

beberam-se uns liquidos, e até estivemos a fallar de teu pai... Queres

tu que eu t'o apresente?

Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasião mais intima, quando

podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado...

--Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a

padraria... Espirito largo, espirito muito largo!

O poeta sacudiu ardentemente as duas mãos de Carlos. O snr. Guimarães

ergueu de leve o seu chapéo, carregado de crepe.

Todo o caminho, até ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e

n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presença

d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas

troças! E isto trazia conjuntamente outra idéa, que n'esses ultimos dias

já o atravessára, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua

radiante felicidade, um sombrio arripio de dôr... Carlos pensava no avô.

Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia,

nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sêcca

e pretenciosa, fallava «em apparecer por Lisboa, com as elegancias do

frio, lá para meado de novembro»; e era necessario antes d'isso que

estivessem já longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu

amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo

isto era facil, considerado quasi legítimo pelo seu coração, e enchia a

sua vida d'esplendor... Sómente havia n'isto um espinho--o avô!

Sim, o avô! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas

ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz

que lhe tornava tão bella a velhice. Homem de outras eras, austero e

puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o avô,

n'esta franca, viril, rasgada solução d'um amor indominavel, só veria

libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas,

acima e fóra das ficções civis; e nunca comprehenderia essa subtil

ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados,

procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que

leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga

um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da

paixão, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de

sabão, contra as tres ou quatro idéas fundamentaes de Dever, de Justiça,

de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que

assentára a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o

horror d'uma fatalidade! Já a mulher de seu filho fugira com um homem,

deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem,

arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se

assim uma repetição d'adulterios, de fugas, de dispersões, sob o bruto

aguilhão da carne!... Depois as esperanças que Affonso fundára

n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser

para sempre, na imaginação angustiada do avô, um foragido, um

inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sólo,

tendo abdicado toda a acção que o elevaria no seu paiz, vivendo por

hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia

equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina...

Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os

derradeiros annos do pobre avô!... Mas, que podia elle fazer? Já o

dissera ao Ega. A vida é assim! Elle não tinha o heroismo nem a

santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do

avô, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus,

tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...

Chegára ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por

alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se

esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle não voltasse! Uma

onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria tão facil, perfeito

e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio

que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado

n'uma visão em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre,

serena, sorrindo e coberta de luto...

No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um

suspiro de fadiga, de desconsolação,--disse, depois de tossir

risonhamente, e dando mais luz ao candieiro:

--Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais só...

--Está só, está triste, murmurou Carlos. É necessario sacudirmo-nos...

Eu já te disse que talvez fossemos viajar este inverno...

O menino não lhe tinha dito nada.

--Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia?

Baptista reflectiu.

--Eu, da outra vez não vi o Papa... E antes de morrer não se me dava de

vêr o Papa...

--Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vêr o Papa.

Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lançando um olhar ao espelho:

--Para vêr o Papa vai-se de casaca, creio eu?

--Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos,

era um habito de Christo... Hei de vêr se te arranjo um habito de

Christo.

Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate,

d'emoção:

--Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez

com menos merecimentos que eu... Dizem que até ha barbeiros...

--Tens razão, replicou Carlos muito sério. Era uma vergonha. O que hei

de vêr se te arranjo com effeito é a commenda da Conceição.

Todas as manhãs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos

Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do

_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha

cavalhariça da _Toca_, e, até á hora em que Carlos voltava ao Ramalhete,

vadiava pelas tabernas.

Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoçar, Maria Eduarda, ouvindo

rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos á porta da

casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco

toldo de fazenda côr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ás

vezes trazia, á antiga moda hespanhola, uma flôr entre os cabellos; o

forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate

eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura,

ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior.

Cerrando o portão d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se

logo envolvido n'um «extraordinario conforto moral», como elle dizia, em

que todo o seu sêr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma

permanente impressão de harmonia e doçura... Mas o seu primeiro beijo

era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma

onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado,

pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe

sorria-lhes, sob o toldo côr de rosa. Em redor tudo era luminoso,

familiar e cheio de paz.

A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. Já se podia

usar o salão nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a

tristeza d'um luxo morto: as flôres que Maria punha nos vasos, um jornal

esquecido, as lãs de um bordado, o simples roçar dos seus frescos

vestidos, tinham communicado já um subtil calor de vida e de conchego

aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de

ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto não

chegava a hora das lições de Rosa.

A essa hora apparecia miss Sarah, séria e recolhida--sempre de preto,

com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de

homem. Recuperára as suas côres fortes de boneca, e as pestanas baixas

tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandós puritanos.

Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo,

mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldêa. Mas aquellas

terras trigueiras d'olivedo não lhe pareciam campo: «é muito sêcco, é

muito duro,» dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados

da sua Inglaterra, e dos céos de nevoa, cinzentos e vagos.

Davam duas horas; e começavam logo nos quartos de cima as longas lições

de Rosa. Carlos e Maria iam então refugiar-se n'uma intimidade mais

livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do

Japão, construira ao pé da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o

retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiçoara-se áquelle

recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma só

janellinha redonda, e um telhado agudo á japoneza, onde roçavam os

ramos--tão leve que através d'elle nos momentos de silencio se sentiam

piar as aves. Craft forrára-o todo de esteiras finas da India; uma mesa

de xarão, algumas faianças do Japão, ornavam-no sobriamente; o tecto não

se via, occulto por uma colcha de sêda amarella, suspensa pelos quatro

cantos, em laços, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro

kiosque parceia ter sido armado só com o fim d'abrigar um divan baixo e

fôfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo

para todas as preguiças...

Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presença de miss

Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro

cahiam logo no chão--e os seus labios, os seus braços uniam-se

arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma

almofada, tremulo, impaciente depois da forçada reserva diante de Rosa e

diante de Sarah--e alli ficava, abraçado á sua cintura, balbuciando mil

coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam

frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doçura de desmaio. Ella queria

saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separação.

E Carlos nada tinha a contar senão que pensára n'ella, que sonhára com

ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam

por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia

os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho

negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas.

Fóra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta sêcca, d'um verde

empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa

branca, através das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado

das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque havía tambem um

silencio satisfeito e pleno--sómente quebrado por algum dôce suspiro de

lassidão que sahia do divan, d'entre as almofadas de sêda, ou algum

beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os

tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta,

encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle já repassado d'esse

aroma indefinido em que havia jasmim.

Lenta, e passando as mãos no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo

aos pés de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe

custava então esse momento de separação! Para que havia de ser assim?

Parecia tão pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda

a noite, sósinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas

carícias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam

muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos,

trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus

labios cançados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando

impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaçando ladrar.

Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietação. Que pensaria

miss Sarah d'esta sésta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella

do pavilhão cerrada? Melanie, desde pequena ao serviço de Maria, era uma

confidente: o bom Domingos, um imbecil, não contava: mas miss Sarah?...

Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar

depois á mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandós

virginaes... Está claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou

franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no

_Royal Mail_ para Southampton! Rosa não a lamentaria, Rosa não lhe tinha

affeição. Mas, emfim, era tão séria, admirava tanto a senhora! Ella não

gostava de perder a admiração d'uma rapariga tão séria. E assim

decidiram despedir miss Sarah, régiamente paga, e substituil-a, mais

tarde, em Italia, por uma governante allemã, para quem elles fossem como

casados, «Monsieur et Madame...»

Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa,

foi crescendo n'elles. Não lhes bastava já essa curta manhã no divan com

os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em

redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os

seus braços se podessem enlaçar sem encontrar o estofo dos vestidos, e

tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem

facil! A sala de tapeçarias, communicando com a alcova de Maria, abria

sobre o jardim por uma porta envidraçada; a governante, os criados,

subiam ás dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia

profundamente; Carlos tinha uma chave do portão; e o unico cão,

_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos...

Maria desejava essa noite tão ardentemente como elle. Uma tarde ao

escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos

essa dupla chave--que Carlos já promettia mandar dourar: e elle ficou

surprehendido ao vêr que o velho portão, que ouvira sempre ranger

abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso.

Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao

amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de

gorgetas. O céo, molle e abafado, não tinha uma estrella; e sobre o mar

lampejava a espaços, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com

inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma

posse tão desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente

o acobardava. Abriu quasi a tremer o portão: e mal déra alguns passos

estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo

emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade

que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupão de rendas, junto da

porta envidraçada, suffocando quasi entre os braços _Niniche_ que ainda

rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado:

e não quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus,

com _Niniche_ que aquietára e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma

infinita mancha de tinta; só lá em baixo, perdida e mortiça, surdia da

treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a

Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos

mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares

do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na

sombra.

--Porque não havemos de partir já para a Italia? perguntou ella de

repente, procurando a mão de Carlos. Se tem de ser, porque não ha de ser

já?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!

--Sustos de que, meu amor? Estamos aqui tão seguros como na Italia, como

na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize

tu um dia, marca um dia!

Ella não respondeu, deixando cahir dôcemente a cabeça sobre o hombro de

Carlos. Elle acrescentou, devagar:

--Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia,

vêr o avô...

Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escuridão--como recebendo

d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem.

--Tu tens Santa Olavia, tens teu avô, tens os teus amigos... Eu não

tenho ninguem!

Carlos estreitou-a a si, enternecido.

--Não tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustiça, nem

chega a ser ingratidão! É nervoso; e é tambem o que os inglezes chamam a

«impudente adulteração d'um facto.»

Ella ficára aninhada no peito de Carlos, como desfallecida.

--Não sei porque, queria morrer...

Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na

alcova. Os mólhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os

setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma

refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito já

aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e côr

de chamma. Fóra, para os lados do mar, um trovão rolou lento e surdo.

Mas Maria já o não ouviu, cahida nos braços de Carlos. Nunca o desejára,

nunca o adorára tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais

longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a

alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos

soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa

que elle sempre imaginára, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio

immortal, e com elle pairava n'uma celebração d'amor, muito alto, sobre

nuvens de ouro...

Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir

n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que

governou até ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro,

encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz.

Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos

reparou n'uma casita, á beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo

a idéa de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de

madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaçando o trem

pelas calçadas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e

cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio

ao outro dia, com moveis n'uma carroça, arranjar este novo ninho. Maria

disse, quasi triste:

--Mais outra casa!

--Esta, exclamou Carlos rindo, é a ultima! Não, é a penultima... Temos

ainda a outra, a nossa, a verdadeira, lá longe, não sei onde...

Começaram a encontrar-se todas as noites. Ás nove e meia, pontualmente,

Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accêso: e Domingos, adiante,

de lanterna, vinha fechar o portão, tirar a chave. Elle recolhia devagar

á sua «choupana» onde o servia um criadito, filho do jardineiro do

Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas,

além do leito, uma mesa, um sofá de riscadinho, duas cadeiras de palha;

e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo

para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra.

Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi sómente do Damaso. O Damaso

apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornára-se grutesco em

Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvorára capacete e véo em

Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor,

de perna traçada, dizia familiarmente «a Rachel»; era um dever de

moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os

hombros, achando estes ciumes indignos do coração do Ega. E então por

quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a

bengala! «Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti até

ao Damaso, tens só a fazer como se fosse um charuto que te cahisse á

lama: não o pódes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao

garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, é

d'imbecil.» Mas ordinariamente, quando respondia, fallava só ao Ega dos

Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto

d'ella, da superioridade d'ella... Ao avô não achava que dizer; nas dez

linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que não se

fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do

Manoelzinho--que elle nunca via.

Quando não tinha que escrever, estirava-se no sofá, com um livro aberto,

os olhos no ponteiro do relogio. Á meia noite sahia, encafuado n'um

gabão d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na

mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa...

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 33 / 53 段