Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o «movel divino» do

Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio,

tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados

como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o

assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peça superior

era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, João, Marcos,

Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas

que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um

trophéo agricola com mólhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiças

d'arados; e, á sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos,

recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam

n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.

--Então, hein? dizia Carlos. Que movel! É todo um poema da Renascença,

Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se póde metter dentro

d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava,

como n'um altar-mór.

Ella não respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do

passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um

luxo morto: finos moveis da Renascença italiana, exilados dos seus

palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um

brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras

côr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahús, onde se guardavam os

presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com

graças de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de

ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em

fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e

além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha

de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de

tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcorão,

desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sêda de

um leque aberto...

Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV,

ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de

tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma

d'empoado.

Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então, ainda considerava

uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?

--Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver

uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades...

--Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo fogo a tudo!

Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda uma arte

immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma

sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um desenho raro, com

um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flôr de côr viva: e

aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas

tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e

desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba,

Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os

Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra,

uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o

azul-ferrete de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr de rosa,

com transparencias fugitivas de concha na agua...

--Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, é

necessario saudar o genio tutelar da casa!

Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um

deus bestial, nú, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso,

com o ventre óvante, distendido na indigestão de todo um universo--e as

duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um

feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de

pés humanos, que dobrava para a terra o pescoço submisso, mostrando no

focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação...

--E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras vieram ajoelhar-se

diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe

riquezas, morrer por elle...

--O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio, não é

verdade?

--Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por si...

Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de

almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia entre aquelle

luxo do passado um fôfo recanto de conforto moderno: e como ella se

queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril

crescia tambem um grande pé de margaridas; adiante, n'um velho vaso de

pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos

ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.

Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a; e ficaram

alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doçura

d'aquella solidão. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois

calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoação que branquejava ao

longe ao sol na collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois

brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un

peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das mãos.

--Para que precisa perguntar ás flôres?

--Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como eu quero

que m'o diga...

Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos, com os olhos

mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e implorando:

--Ainda não vimos a saleta de banho...

Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão, depois através

da sala de tapeçarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os

banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho

tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe

no pescoço um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos

cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr

d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella,

feitas de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um

instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço, sem se tocarem,

como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.

--Aquella horrivel cabeça! murmurou ella.

Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então

todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as

arvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho...

Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo.

Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se o

café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas.

A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o

Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto d'um sofá Cruges escutava

religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos

da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha

poltrona, de cachimbo na mão, fallava-se do campo.

Ao jantar Affonso annunciára a intenção de ir visitar, para o meado do

mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinára-se logo uma grande

romaria de amizade ás margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam

Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto «na companhia

melodiosa», dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com

receio da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se de

persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de

reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa «á banca do

labor...» Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os

selvagens. O homem, á maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e

a realisação do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os

Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o

Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um

bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes

para perfumar o altar da Justiça...

--E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava Villaça, rindo

com malicia.

Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda

se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes era um resto da rude

animalidade do homem. Com os tempos o sêr civilisado e completo vinha a

alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em

pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...

--O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos

bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito

_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo

não ha sociedade.

--Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se

admitte...

Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em

silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a

tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então o marquez, que

já duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrára a mesma abstracção

radiosa, impacientou-se:

--Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje com um ar

extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o

Santissimo!

Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça

achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com um ar

entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E

Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.

Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso.

--Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho estado hoje

languido e mono... É o começo do verão... Mas é necessario sacudir-me...

Quer você fazer uma partida de bilhar, ó marquez?

--Vá lá, homem. Se isso o resuscita...

Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como

recordando-se, perguntou sem rebuço ao Ega noticias dos Cohens.

Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flôr de

lealdade, não havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findára, e

agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...

--Eu perguntei isto, disse o marquez, porque já vi a Cohen duas vezes...

--Onde? foi a exclamação sôfrega do Ega.

--No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi já esta semana. E lá

estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio

sentar-se um bocado ao pé de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de

lá, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... Não havia que

duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen é um predestinado.

Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:

--O Damaso é muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, não duvido...

São dignos um do outro.

No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiçosamente, elle não

cessou de passear, n'uma agitação, trincando o charuto apagado. De

repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes:

--Quando é que você a viu ultimamente no Price, essa torpe filha

d'Israel?

--Terça-feira, creio eu.

O Ega recomeçou a passear, sombrio.

N'esse instante Baptista, apparecendo á porta do bilhar, chamou Carlos

em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.

--É um cocheiro de praça, murmurou Baptista. Diz que está alli uma

senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar.

--Que senhora?

Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mão, olhava para elle,

aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo

Deus, para ella vir n'uma tipoia, ás nove da noite, ao Ramalhete!

Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapéo baixo; e assim mesmo, de

casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou

com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenço a

poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupé, parado á

porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso,

aterrador...

Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro,

abafado n'uma mantilha de renda, debruçou-se, perturbado, balbuciou:

--É só um instante! Quero-lhe fallar!

Que allivio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação, Carlos foi

brutal.

--Que diabo de tolice é esta? Que quer?

Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fóra, desesperada; e não

se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia

tranquillamente na fivela d'um tirante.

--De quem é a culpa? Para que me trata d'este modo?... É só um instante,

entre, tenho de lhe fallar!...

Carlos saltou para dentro, furioso:

--Dá uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!

O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento, na

escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas

palavras, bruscas e colericas, através do barulho das vidraças.

--Que imprudencia! que tolice!...

--E de quem é a culpa? De quem é a culpa?

Depois, na rampa de Santos, o coupé rolou mais silenciosamente no

macadam. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e

com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por

aquella imprudencia... Pois não era melhor ter-lhe escripto?

--Para quê? exclamou ella. Para não me responder? Para não fazer caso

das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma

esmola!...

Suffocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar do coupé,

sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração d'ella,

tumultuosa e cheia d'angustia. E não dizia nada, immovel, n'um infinito

mal-estar, entrevendo confusamente, através do vidro embaciado, na

sombra triste do rio adormecido, as mastreações vagas de falúas. A

parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se,

profundas, mordentes, repassadas d'amargura.

--Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe, não me

responde... Quero ter uma explicação franca comsigo, não apparece...

Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo

brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas não pude,

não pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz

eu?

Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas

retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a

fitar, murmurou, torturado:

--Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, não são

necessarias explicações.

--São! É necessario saber se isto é uma coisa passageira, um amuo, ou se

é uma coisa definitiva, um rompimento!

Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa

ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findára. Terminou por

affirmar que não era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre

elevados, não cahiria agora na pieguice de ter um amuo...

--Então é um rompimento?...

--Não, tambem não... Um rompimento absoluto, para sempre, não...

--Então é um amuo? Porquê?

Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço.

--Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha a

coragem de dizer o que é!

Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade,

continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas

mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.

--Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações deviam ser

alteradas...

E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo

aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.

--Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado,

que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...

E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas,

através do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligação?

Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu

bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que,

envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na

banalidade d'uma união quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De

resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra,

n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a

perceber a sua affeição. E havia por acaso nada mais horroroso, para

quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o

publico conhece, até os cocheiros de praça? Não... O bom senso, o bom

gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separação. Ella mesmo

mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupção d'um

habito dôce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir

feliz. Fôra por isso que não tivera a coragem de lhe escrever... Emfim

deviam ser fortes, e não se vêrem pelo menos durante alguns mezes...

Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietação,

tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura.

Calou-se; e então, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do

coupé, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu véo,

estava chorando baixo.

Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com

um chôro lento, que parecia não dever findar. E Carlos só achava esta

palavra banal e desenxabida:

--Que tolice, que tolice!

Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um

americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella

noite de verão e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente

entre as arvores. Ella continuava a chorar.

Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, começou a commovel-o;

e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella não reter essas lagrimas

infindaveis que laceravam o seu coração... E elle que estava tão

tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma

deliciosa lassidão!

Tomou-lhe a mão, querendo calmal-a, apiedado, e já impaciente.

--Realmente não tem razão. É absurdo... Tudo isto é para seu bem...

Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente

por entre os seus longos soluços... E de repente, n'um arranque de

paixão, atirou-lhe os braços ao pescoço, prendendo-se a elle com

desespero, esmagando-o contra o seu seio.

--Oh meu amor, não me deixes, não me deixes! Se tu soubesses! És a unica

felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz

eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo,

vida, honra, tudo! tudo!...

Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se,

sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como nú, subir-lhe para os

joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos

sôfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um

momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e

arquejando.

Mas a tipoia não continuava. Então Carlos desprendeu um braço, desceu o

vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo á

ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera á

porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentação de descer,

acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma

brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:

--Outra vez ao Aterro, anda sempre!...

A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de

novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais

suavemente, desceram a rampa de Santos.

Ella recomeçára os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um

instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia só uma

fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que

ella o arrancára para o torturar com estas recriminações, estes ardores

entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como

tonta, pendurada do seu pescoço,--elle viu surgir n'alma, viva e

resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla áquella hora na

sua sala de reps vermelho, fazendo serão, confiando n'elle, pensando

n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de

seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve então horror á

Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coupé.

--Basta! Tudo isto é absurdo... As nossas relações estão acabadas, não

temos mais nada que nos dizer!

Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso

nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o braço.

--Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu

conheço-a, é uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem

lhe pague as modistas!...

Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na

tipoia escura, onde já havia um vago cheiro de verbena, os olhos

d'ambos, sem se vêrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu

raivosamente no vidro. A tipoia não parou. E a Gouvarinho, do outro

lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraça.

--É melhor que sáia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar

aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!

O calhambeque parou. Carlos pulou para fóra, fechou d'estalo a

portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapéo, virou costas, abalou

a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idéas de

rancor, sob a paz da noite estrellada.

IV

Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo

n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia,

installára-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde

fôra acompanhar o avô, com o Ega, dizia-lhe alegremente:

--Então aqui ficamos nós sós a torrar, _na cidade de marmore_ e de

lixo...

--Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar,

por entre a poeirada de Cintra!

Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao

anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse

momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas

n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito:

«Baptista, vou pastar.»

A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: «Assaltou-me de

repente, amigo, juntamente com um horror á caliça de Lisboa, uma saudade

infinita da natureza e do verde. A porção d'animalidade que ainda resta

no meu sêr civilisado e recivilisado precisa urgentemente

d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balançada

n'um ramo de castanheiro. O solícito Baptista que me remetta ámanhã pelo

omnibus a mala com que eu não quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_.

Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado

com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vêr o que estão fazendo os

myosotis junto á meiga _fonte dos Amores_...»

--Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o

deixava o Ega.

E atirando a carta:

--Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos

_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _Flôr de Cuba_. Os _Imperiales_ são um

veneno. Esse animal nem fumar sabe!

Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de

Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueñas_ no

terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O

Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da

noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As

janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao

andar do Cruges. O menino Victorino não estava em casa...

Amaldiçoando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao

hombro, lendo os telegrammas. Não havia nada novo por essa velha Europa;

apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price...

--Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens lá uma mulher bonita que se mette

na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de

bichos!... Que esta é difficil, traz um _chulo_... Mas eu já lhe

escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina.

Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. Não

tornára a ver essa flôr? Pois essa flôr andava apregoando por toda a

parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo

explicações humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha

figura, interior, e natureza de pélla! Com quanto mais força se atirava

ao chão, mais elle resaltava para o ar, triumphante!...

--Em todo o caso é uma rez traiçoeira, e deves ter cautela com elle...

Carlos encolheu os hombros, rindo.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 32 / 53 段