--Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que está amuado... Eu

sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois

dedos...

--Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte,

fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a

ella peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou, que te

metteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro,

e tu és o mais rico, ella lhe passou o pé... Vês d'ahi a infamiasinha. E

isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes,

envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe

pôr cobro.

Carlos, muito pallido, disse simplesmente:

--Ha de se fazer justiça.

Desceu, indignado. Aquella torpe insinuação sobre «dinheiro» parecia-lhe

poder ser castigada só com a morte. E um instante mesmo, com a mão no

fecho da portinhola do coupé, pensou em correr a casa do Damaso, tomar

um desforço brutal.

Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia

seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coração,

Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficára combinado,

na vespera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós,

n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle

pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo

e naturalmente. N'essa manhã elle mandára aos Olivaes dois criados para

arejar as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá, como um

devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era

através d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia

outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do

Damaso!

Até aos Olivaes, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que

faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não haveria paz, emquanto

aquelle villão o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das

ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que

elle não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil...

Quando o coupé parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas

no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...

Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisára a linda

rua d'acacias que os pés d'ella pisariam na manhã seguinte: dera um

longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alçado sobre um

estrado, envolto em cortinados de brocatel côr d'ouro, com um esplendor

sério d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sós

n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão os seus

amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldêa; e d'ahi a tres

mezes estariam longe, na Italia, á beira d'um claro lago, entre as

flôres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que

lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calão nos

bilhares do Gremio! Quando chegou á rua de S. Francisco resolvera, se

visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.

Maria Eduarda fôra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em

que lhe pedia para vir á noite _faire un bout de causerie_. Carlos

desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na

carteira como uma dôce reliquia; e sahia o portão, no momento em que o

Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto,

moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois

vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.

Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com effusão o seu

Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra,

em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrára do rico dia

passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza.

Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão

erudito e tão profundo, apesar da excellente musica da mulher, da

Julinha (que para elle era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão

de velhice...

--Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o

teu ar aureolado.

O poeta encolheu os hombros.

--O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia que o diz...? Não; é

S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade não faz

ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo é um valle

de lagrimas...

--Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.

O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que

importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle

dissera isso mesmo em casa dos Cohens...

E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço de Carlos:

--E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu

rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira

mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle,

apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois

do que houve!...

Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo da chegada, horas

depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de

resto se não podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas

entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades

humanas tinham de se desfazer...

Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeça baixa.

Depois parou de novo, franzindo a testa:

--Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma

péga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, lá em casa dos Cohens,

elle veio com uns ditos, umas insinuações... Eu declarei-lhe logo:

«Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, é como se fosse meu

irmão.» E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que

eu n'estas coisas de lealdade e de coração sou uma fera!

Carlos disse simplesmente:

--Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.

--Pois é verdade, continuou Alencar tomando o braço de Carlos,

lembrei-me muito de ti em Cintra. Até fiz lá um coisita que me não sahiu

má, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho

de Cintra ao pôr do sol. Quiz provar ahi a esses da Idéa Nova, que,

sendo necessario, tambem por cá se sabe cinzelar o verso moderno e dar o

traço realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa

chama-se--_Na estrada dos Capuchos_...

Tinham parado á esquina do Seixas; e o poeta tossira já de leve, antes

de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo,

vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaquetão de flanella

azul.

Alencar e elle não se encontravam desde a fatal soirée dos Cohens. E ao

passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo

n'elle o inventor d'essa perfida lenda da «carta obscena»--Alencar

odiava-o pela certeza secreta de que elle fôra o amante amado da sua

divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de mão que deram foi

incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso

levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi

elle que fallou, por entre uma fumaça, affectando uma superioridade

amavel:

--Acho-te com boa côr, Alencar!

O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode:

--Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos dás essas _Memorias_,

homem?

--Estou á espera que o paiz aprenda a lêr.

--Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle

occupa-se da Instrucção publica... Olha, alli o tens tu, grave e ôco

como uma columna do _Diario do Governo_...

O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o

Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado

d'elles, de chapéo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares

pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus

dominios. Já aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou

Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de

costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, não se conteve,

atravessou a rua.

Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o

Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:

--Ouve lá. Se continúas a fallar de mim e de pessoas das minhas

relações, do modo como tens fallado, e que não me convém, arranco-te as

orelhas.

O conde acudiu, mettendo-se entre elles:

--Maia, por quem é! Aqui no Chiado...

--Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sério e muito

sereno. É apenas um aviso a este imbecil.

--Eu não quero questões, eu não quero questões!... balbuciou o Damaso,

livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria.

E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter

saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho.

Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julgára

vêr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocação intoleravel. Só o

Alencar não reparára em nada: continuava a discursar sobre coisas

litterarias, explicando ao Ega as concessões que se podiam fazer ao

naturalismo...

--Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de

paizagem é necessario copiar a realidade... Não se pode descrever um

castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E lá isso faço

eu... Ahi está esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É

realista, está claro que é realista... Pudéra, se é paizagem! Ora eu

vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas

vejam lá vocês se isto os massa...

Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S.

Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o

poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pôr do sol: uma ingleza,

de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda

que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das

madresilvas; então a ingleza pára, deixa o burrinho, olha enlevada o

céo, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha «a

nota realista» de que se ufanava o Alencar:

Ella olha a flôr dormente, a nuvem casta,

Emquanto o fumo dos casaes se eleva

E ao lado o burro, pensativo, pasta.

--Ahi têm vocês o traço, a nota naturalista... _Ao lado o burro,

pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, está-se a vêr o burro

pensativo... Não ha nada mais pensativo que um burro... E são estas

pequeninas coisas da natureza que é necessario observar... Já vêem vocês

que se póde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades...

Vocês que lhes parece o sonetito?

Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de não ter

completado a humilhação do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando

que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o

Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, já desanuviado, foi

acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um

romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso

d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso

d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, só, de noite, na pôpa do

seu galeão, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flôr secca, entre

soluços. Alencar achava isto sublime.

Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir á rua de S. Francisco--quando

o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com

urgencia. Não o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o

entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante

encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianças hollandezas.

--Você, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por

porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vêr tudo

isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma missão... Você

não adivinha?

Carlos não adivinhava.

E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um

sorriso:

--Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se você hoje,

n'aquillo que lhe disse, tinha tenção de o offender. É só isto... A

minha missão é apenas esta: perguntar-lhe se você tinha intenção de o

offender.

Carlos olhou-o, muito sério:

--O quê!? Se tinha intenção de offender o Damaso quando o ameacei de lhe

arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha só intenção de lhe arrancar

as orelhas!

Telles da Gama saudou, rasgadamente:

--Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que você não tinha senão

essa intenção. Em todo o caso, desde este momento, a minha missão está

finda... Como você tem isto bonito!... O que é aquelle prato grande,

majolica?

--Não, um velho Nevers. Veja você ao pé... É Thetis conduzindo as armas

d'Achilles... É esplendido; e é muito raro... Veja você esse Deft, com

as duas tulipas amarellas... É um encanto!

Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando

o chapéo de sobre o sofá.

--Lindissimo tudo isto!... Então só intenção de lhe arrancar as orelhas?

nenhuma de o offender?...

--Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume você um

charuto.

--Não, obrigado...

--Calice de cognac?

--Não! abstenção total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu

bom Maia!

--Adeus, meu bom Telles...

Ao outro dia, por uma radiante manhã de julho, Carlos saltava do coupé,

com um mólho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria

Eduarda devia chegar ás dez horas, só, na sua carruagem da Companhia. O

hortelão, dispensado por dois dias, fôra a Villa Franca; não havia ainda

criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo

a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldêa, em

que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.

Logo depois do portão, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde

cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com

tecto de madeira, pintado de vermelho, que fôra o capricho de Craft, e

que elle mobilára á japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com

janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre

tres degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos.

Só o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura

d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas:

e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara, e uma

alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo

bom Deus para alumiar a festa do seu coração. Correu logo á sala de

jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam

ainda viçosas as flôres que lá deixára na vespera. Depois voltou ao

coupé a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em

flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só

passando uma saloia montada na sua egua.

Mas apenas accommodára o gelo--sentiu fóra o ruido lento da carruagem.

Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e

ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro

da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de

acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-véo espesso como

uma mascara. Os seus pésinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle

sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve:

--_Êtes-vous là?_

Appareceu--e ficaram um instante, á porta do gabinete, apertando

sofregamente as mãos, sem fallar, commovidos, deslumbrados.

--Que linda manhã! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.

--Linda manhã, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.

Maria Eduarda resvalára sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaço

delicioso, deixando calmar o alvoroço do seu coração.

--É muito confortavel, é encantador tudo isto, dizia ella olhando

lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com

um tapete de Brousse, a estante envidraçada cheia de livros. Vou ficar

aqui adoravelmente...

--Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a

olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mão...

Maria Eduarda começou a tirar o véo, depois as luvas, fallando da

estrada. Achára-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se

accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!

Atirou o chapéo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa.

--Vamos vêr a casa, estou morta por vêr essas maravilhas do seu amigo

Craft!... É Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria!

--Mas ainda nem sequer lhe beijei a mão! tornou Carlos, sorrindo e

supplicante.

Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braços.

E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era

feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de

quinta que a separavam do resto do mundo...

Ella deixava-se beijar, séria e grave:

--E é verdade isso? É realmente verdade?...

Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:

--Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga

que já Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que não

duvide de mim...

Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.

--Vamos vêr a casa, disse ella.

Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos

em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam

sobre o rio e sobre os campos.

--Os seus aposentos, disse Carlos, hão de ser em baixo, está visto,

entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui

esplendidamente. Não lhe parece?

E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodação dos

armarios, palpando a elasticidade dos colxões, attenta, cuidadosa, toda

no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma

alteração. E era realmente como se aquelle homem que a seguia,

enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio.

--O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor

para Rosa. Mas a pequena não póde dormir n'aquelle enorme leito de pau

preto...

--Muda-se!

--Sim, póde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ás

horas do calor... Se não houvesse o tabique entre os dois quartos

pequenos...

--Deita-se abaixo!

Elle esfregava as mãos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e

ella não recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.

Desceram á sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminé de carvalho

lavrado, flanqueada á maneira de cariatides pelas duas negras figuras de

Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda começou a achar o

gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos não lhe dizia

que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio

batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua

excentricidade...

--Oh, a vista é que é deliciosa! exclamou ella chegando-se á janella.

Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado outro de

baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal

aparada, um pouco amarellada já pelo calor de julho; e entre duas

grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da

sésta, um largo banco de cortiça. Um renque de arbustos cerrados parecia

fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia,

com outras quintarolas, casas que se não viam, e uma chaminé de fabrica;

e lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol,

até ás montanhas d'além-Tejo, azuladas tambem na faiscação clara do céo

de verão.

--Isto é encantador! repetia ella.

--É um paraiso! Pois não lhe dizia eu? É necessario pôr um nome a esta

casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ Não. _Château-Rose_...

Tambem não, crédo! Parece o nome d'um vinho. O melhor é baptisal-a

definitivamente com o nome que nós lhe davamos. Nós chamavamos-lhe a

_Tóca_.

Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _Tóca_. Devia-se até pintar

em letras vermelhas sobre o portão.

--Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa

de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _Não me mexam!_

Mas ella parára, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta,

cheia de fruta, com as duas cadeiras já chegadas, e os crystaes

brilhando entre as flôres.

--São as bodas de Canná!

Os olhos de Carlos resplandeceram.

--São as nossas!

Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um

morango, depois a escolher uma rosa.

--Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? Nós

temos gelo, temos tudo! Não nos falta nada, nem a benção de Deus... Uma

gotinha de champagne, vá!

Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se

encontraram, apaixonadamente.

Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A

cozinha agradou-lhe muito, arranjada á ingleza, toda em azulejos. No

corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com

uma cabeça negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sêda vermelha,

conservando nas suas pregas uma graça ligeira, e ao lado o cartaz

amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como

um quente lampejo de festa e de sol peninsular...

Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar,

desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova,

recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeçarias, onde desmaiavam

na trama de lã os amores de Venus e Marte: da porta de communicação,

arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da Renascença,

de ferro forjado: e, áquella hora, batida por uma larga facha de sol, a

alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado,

convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e

tectos, de um brocado amarello, côr de botão d'ouro; um tapete de

velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que

poderiam correr nús os pés ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de

docel, alçado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello

bordada a flôres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas

de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido

para as voluptuosidades grandiosas de uma paixão tragica do tempo de

Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenço de sêda

da India amarrado na cabeça, resonava as suas sete horas, pacata e

solitariamente.

Mas Maria Eduarda não gostou d'estes amarellos excessivos. Depois

impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em

negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma

cabeça degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de

cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna

de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um

ar de meditação sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos...

Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves.

Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do

corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um

setim côr de rosa e risonho.

--Não, venho-me a acostumar a todos esses ouros... Sómente aquelle

quadro, com a cabeça, e com o sangue... Jesus, que horror!

--Reparando bem, disse Carlos, creio que é o nosso velho amigo S. João

Baptista.

Para desfazer essa impressão desconsolada levou-a ao salão nobre, onde

Craft concentrára as suas preciosidades. Maria Eduarda, porém, ainda

descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.

--É para vêr de pé, e de passagem... Não se póde ficar aqui sentado, a

conversar.

--Mas esta é materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma

sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o

armario, veja que centro! Que belleza!

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 31 / 53 段