Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de

porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico

serviço que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e côr de fogo. Pobre

senhora! tão delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a

graça das suas mãos nas coisas reles da mãi Cruges!

--E onde é essa casa? perguntou Maria Eduarda.

--Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se lá n'uma hora de carruagem...

Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos

n'ella, e com um sorriso inquieto:

--Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fôr para lá

installar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a vêr?

Ella pareceu surprehendida:

--Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que não

tem quasi nada que fazer?...

Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas

visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto

d'esta intimidade, tão largamente offerecida, e decerto mais dôce na

solidão d'aldêa. Quando acabou a sua chavena de chá--era como se a casa,

os moveis, as arvores fossem já seus, fossem já d'ella. E teve alli um

momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por

uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas

abrindo sobre o rio...

Ella escutava-o, encantada:

--Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia

d'esperanças... Quando poderei ter uma resposta?

Carlos olhou o relogio. Era já tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na

manhã seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...

--Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei

de eu agradecer?...

Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de

Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do

segredo que ella retinha no seu coração.

Elle murmurou:

--Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra

vez assim.

Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.

--Não diga isso...

--E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois não sabe perfeitamente que

a adoro, que a adoro, que a adoro!

Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios

d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma

grande alteração no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho

supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi

desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mãos

inquietas e tremulas:

--Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja

tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...

Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutára, nem a

comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido

até ahi no seu coração irrompera por fim, triumphante, e embatendo no

coração d'ella, através do apparente marmore do seu peito, fizera de lá

resaltar uma chamma igual... Só via que ella tremia, só via que ella o

amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe

lentamente as mãos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, já sem

força, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os

dedos, devagar, murmurando apenas:

--Meu amor! meu amor! meu amor!

Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as

mãos, erguendo para elle os olhos cheios de paixão, ennevoados de

lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicação:

--Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...

Carlos estava já ajoelhado aos seus pés.

--Eu sei o que é! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a

deixar fallar mais, certo de que adivinhára o seu pensamento. Escusa de

dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que

um amor como o nosso não póde viver nas condições em que vivem outros

amores vulgares... É que desde que eu lhe digo que a amo, é como se lhe

pedisse para ser minha esposa diante de Deus...

Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não

comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mãos d'ella

presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer:

--Sempre que pensava em si, era já com esta esperança d'uma existencia

toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laços

presentes, pondo a nossa paixão acima de todas as ficções humanas, indo

ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre...

Levamos Rosa, está claro, sei que não se póde separar d'ella... E assim

viveriamos sós, todos tres, n'um encanto!

--Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada.

Carlos erguera-se.

--E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nós fazer, digna do nosso

amor?

Maria não respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera.

E pouco a pouco uma idéa parecia surgir n'ella, inesperada e

perturbadora, revolvendo todo o seu sêr. Os seus olhos alargavam-se,

anciosos e refulgentes.

Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala

deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do chá: e durante

um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sêres,

sacudidos por um ardente vendaval de paixão, a caseira passagem d'um

criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente,

refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a

vidraça. Carlos foi sentar-se no sofá, a folhear ao acaso uma

_Illustração_, que lhe tremia nas mãos. E não pensava em nada, nem sabia

onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com

ella, dizia ceremoniosamente «minha cara senhora»: depois houvera um

olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornára-se o cuidado supremo

da sua vida, e a esposa secreta do seu coração.

--V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos.

Maria Eduarda respondeu sem se voltar:

--Não.

O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella então atravessou a sala,

veio para Carlos, que a esperava no sofá, com os braços estendidos. E

era como se obedecesse só ao impulso da sua ternura, calmadas já todas

as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixão, tão prompta

a apoderar-se de todo o seu sêr, e murmurou, quasi triste:

--Mas conhece-me tão pouco!... Conhece-me tão pouco, para irmos assim

ambos, quebrando por tudo, crear um destino que é irreparavel...

Carlos tomou-lhe as mãos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:

--O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na

vida!

Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do

seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um

longo suspiro.

--Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria

dizer, mas não importa... É melhor assim!...

E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica

solução digna, séria... E nada os podia embaraçar; amavam-se, confiavam

absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo...

E ella repetia, mais firme agora, já decidida, e como se aquella

resolução a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma,

penetrando-a toda e para sempre:

--Pois seja assim! É melhor assim!

Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.

--Dize-me ao menos que és feliz, murmurou Carlos.

Ella lançou-lhe os braços ao pescoço: e os seus labios uniram-se n'um

beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria

Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:

--Adeus, deixa-me só, vai.

Elle tomou o chapéo, e sahiu.

No dia seguinte Craft, que havia uma semana não ia ao Ramalhete,

passeava na quinta antes d'almoço--quando appareceu Carlos. Apertaram as

mãos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois,

Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o

horisonte, perguntou rindo:

--Você quer-me vender tudo isto, Craft?

O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mãos nas algibeiras:

--A la disposicion de ustêd...

E alli mesmo concluiram a negociação, passeando n'uma ruasinha de buxo

por entre os geranios em flôr.

Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas

mil e quinhentas libras, pagas em prestações: só reservava algumas raras

peças do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecção

que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos não tinha

no Ramalhete lugar para este vasto _bric-à-brac_, Craft alugava-lhe por

um anno a casa dos Olivaes, com a quinta.

Depois foram almoçar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza

que fazia, só para offerecer uma residencia de verão, por dois curtos

mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de

quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, já com

olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de

gosto.

Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu á rua de S. Francisco, a

annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjára emfim definitivamente uma

linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu

encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com

ella ao collo, em triumpho. E não se conteve; foi á pequena que deu logo

«a grande novidade», annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma

cabra, e flôres, e arvores para se balouçar...

--Onde é? Dize, onde é? exclamava Rosa, com os lindos olhos

resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.

--D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vêem-se passar os

barcos no rio... E entra-se por um grande portão onde ha um cão de fila.

Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo.

--Mamã, mamã! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do

vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouço... É verdade?

Dize, deixa vêr, onde é? Dize... E vamos já para lá?

Maria e Carlos apertaram a mão, com um longo olhar, sem uma palavra. E

logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a

sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, já, n'uma

semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca,

mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...

Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.

--Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...

--Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! É tal qual

como n'um conto de fadas... As luzes estão accêsas, as jarras estão

cheias de flôres... É só tomar uma carruagem e chegar.

--Sómente, é necessario saber o que esse paraiso me vae custar...

Carlos fez-se vermelho. Não previra que se fallasse em dinheiro--e que

ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Então preferiu

confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava

desejando desfazer-se das suas collecções, e alugar a quinta: o avô e

elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e

das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais

Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que

entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de

verão, uma residencia tão graciosa, e tão confortavel...

--Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de

silencio... Miss Sarah está á tua espera.

Depois, olhando para Carlos, muito séria:

--De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não

tinha feito essa despeza...

--Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis

mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para

metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar

conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos

criados, etc....

E acrescentou, rindo:

--Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...

Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.

--Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que

me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para

que eu lá me installasse...

Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E

isto inquietou-o--o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão

d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração.

--Não approva então o que fiz? Seja franca...

--Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto

vem de si? Mas...

Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar:

--Não ha _mas_! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no

campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto,

se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga,

se fosse possivel que a nossa affeição se passasse fóra do mundo,

distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria

delicioso... Mas não póde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma

coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua

casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua

porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha

sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses

antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os

tornava invisiveis. Nós não somos deuses, felizmente...

Ella sorriu.

--Quantas palavras para converter uma convertida!

E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.

Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É

um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte

Santa-Olavia e o Ramalhete.»

Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario»,--despeitado por

essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava

sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo,

outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de

Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos

ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes

em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos:

mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não

mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que

Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado,

já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela

casa da titi...

Mas do outro segredo não sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via

todas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando

flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»;

via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao

mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente

amado... E não sabia nada.

Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de

verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas

das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do

Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um

pedaço do paraiso...

Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeava com as

mãos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente,

farto d'aquelles louvores eternos á casinhola do Craft.

--Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da

rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos

cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de

dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o

armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o

armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo

archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric-à-brac_!

Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como

reflectindo:

--Com effeito esses cretones são medonhos... Mas eu vou mandar

remobilar, tornar aquillo mais habitavel.

Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos.

--Habitavel? Vaes ter hospedes?

--Vou alugar.

--Vaes alugar! A quem?

E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no

tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi até ao chão, disse

sarcasticamente:

--Peço perdão. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar

uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio é sempre um d'esses

delicados segredos de sentimento e de honra em que não deve roçar nem a

aza da imaginação... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!

Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um

remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o

enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas

as suas outras aventuras as contára ao Ega; e essas confidencias

constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto,

porém, não era «uma aventura». Ao seu amor misturava-se alguma coisa de

religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre

a sua fé... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentação de fallar

d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios

olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas

divinas e confusas que lhe enchiam o coração. Além d'isso, Ega não

saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes

lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra

cigarrette. Justamente o Ega tomára o seu castiçal, e começava a

accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.

--Não sejas tolo, não te vás deitar, senta-te ahi, disse Carlos.

E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, á

entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.

Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Suppuzera

um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo:

e agora, só pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle

sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal

tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino.

Imaginára uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o

marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sofá, obedecia

simplesmente e alegremente á disposição das coisas: e sahia-lhe uma

creatura cheia de caracter, cheia de paixão, capaz de sacrificios, capaz

de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas,

murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o

bom Ega teve esta pergunta chôcha:

--Então estás decidido a safar-te com ella?

--A _safar-me_, não; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!

Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno

prodigioso, e murmurou:

--É d'arromba!

Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez,

Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam

nunca uma d'essas situações atrozes e reles em que a mulher é do amante

e do marido, a horas diversas... Só lhes restava uma solução digna,

decente, séria--fugir.

Ega, depois de um silencio, disse pensativamente:

--Para o marido é que não é talvez divertido perder assim, de uma vez, a

mulher, a filha, e a cadellinha...

Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle já

pensára n'isso... E não sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver

no absoluto egoismo da paixão... Elle não conhecia intimamente Castro

Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe

dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes

não era um esposo a sério: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um

homem de sport e de cocottes... Casára com uma mulher bella, saciára a

paixão, e recomeçára a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar

para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se

logo a trivialidade d'aquelle caracter...

--Que tal é, como homem? perguntou Ega.

--Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um

_rastaquouère_, o verdadeiro typosinho do _Café de la Paix_... É

possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na

vaidade ferida... Mas é um coração que se ha de consolar facilmente nas

_Folies Bergères_.

Ega não dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel

nas _Folies Bergères_, póde não se importar muito com sua mulher, mas

póde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra

idéa, acrescentou:

--E teu avô?

Carlos encolheu os hombros:

--O avô tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente

feliz; como eu teria de ser desgraçado toda a minha vida se quizesse

poupar ao avô essa contrariedade... O mundo é assim, Ega... E eu, n'esse

ponto, não estou decidido a fazer sacrificios.

Ega esfregou lentamente as mãos, com os olhos no chão, repetindo a mesma

palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas

coisas vehementes:

--É d'arromba!

III

Carlos, que almoçára cedo, estava para sahir no coupé, e já de

chapéo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe

n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficára

a fazer a barba.

Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella

chegára a Lisboa, Ega ainda a não vira, e fallava d'ella raramente. Mas

Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhãs o pobre Ega

mostrava um desapontamento ao receber o correio, que só lhe trazia algum

jornal cintado, ou cartas de Celorico. Á noite percorria dois, tres

theatros, já quasi vazios n'aquelle começo de verão; e ao recolher era

outra desconsolação, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que

não viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega não se resignava a

perder Rachel, anciava por a encontrar; e roía-o o despeito de que ella,

de qualquer modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração permanecia

ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega

apparecera á hora do jantar, transtornado: cruzára-se com o Cohen na rua

do Ouro, e parecera-lhe que «esse canalha» lhe atirára de lado um olhar

atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha»

ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente, a

uma esquina da Baixa.

Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir

ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista

dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos

acabava de a lêr--quando o Ega appareceu, de jaquetão, e em chinelas.

--Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.

--Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.

A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes,

Carlos faltára ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer

escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e

vinha agora intimal-o, «em nome de todos os sacrificios que por elle

fizera», a que apparecesse na rua de S. Marçal, domingo ao meio dia,

para terem uma explicação definitiva antes d'ella partir para Cintra.

--Excellente occasião d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a

Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não vás, nem respondas...

Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, não vos vêdes mais, e

assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o

Imperio Romano, e como o Rheno, por dispersão, insensivelmente...

--É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a calçar as luvas.

Jesus! Que mulher massadora!

--E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrificios!...»

Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá de

extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo céo,

delira, e depois põe dolorosamente os olhos no chão, e chama a isso

«sacrificios...» Só com um chicote!...

Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se nas condessas de

Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia e dólo.

--E que é isso que tu me tinhas a dizer?

Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma

cigarrette, abotoou devagar o jaquetão.

--Tu não tens visto o Damaso?

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 30 / 53 段