sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. Já sabia
verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_...
--E a senhora baroneza, acudiu o Ega, começou por lhe mandar ensinar os
verbos mais necessarios.
Está claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na
idade da Vicenta já de pouco lhe poderia servir!
--Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me
lembro!
Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros
que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não, não era isto!
--Esta minha desgraçada memoria!... E era sobre cães. Uma coisa
brilhante, philosophica até!
E, por se fallar de cães, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da
condessa; perguntou por _Tommy_. Já o não via ha que tempos, esse bravo
_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado!
Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandára-o para
o Instituto, lá morrera.
--Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se
para Carlos.
--Deliciosa.
E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeição. Com um
olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e
apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de cães,
lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa
Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle,
não seria mesmo de mais que o governo lhe désse um subsidio.
--Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a
senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as
sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, á imitação do que
se faz lá fóra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora
dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis.
Voltou-se para o lado, para o Ega:
--V. exc.^a pertence?
--Á _Sociedade protectora dos animaes_?... Não senhor, pertenço a outra,
á de _Geographia_. Sou dos protegidos.
A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se
extremamente sério: pertencia á _Sociedade de Geographia_, considerava-a
um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilisadora, detestava
aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e
de repente a frialdade que até ahi os conservára ao lado um do outro
reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor
d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se
irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma côrzinha no
rosto. O seu pé, sem ella saber como, roçou pelo pé de Carlos; sorriram
ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns
concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo,
com uma reprehensão amavel:
--Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso?
Ella confessou-lhe logo que fôra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o
enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhãs inteiras que lá
passava, todos os dias, á mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe
claramente entrevêr uma _liaison_.
Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia
conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...
--É perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem
brazileira é, que é tão portugueza como eu; mas é porque ella tem a
governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa.
Foi até o Damaso, elle proprio, que lá me levou como medico!
No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dôce
allivio que se fazia no seu coração.
--Mas o Damaso disse-me que era tão linda!...
Sim, era muito linda. E então? Um medico, por fidelidade ás suas
affeições, e para as não inquietar, não podia realmente, antes de
penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
--Mas que está ella cá a fazer?...
--Está á espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... É
uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vão-se brevemente
embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas são de
medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres,
sobre as suas impressões de Portugal...
A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello
olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pé apertava o de Carlos
n'uma reconciliação apaixonada, com a força que desejaria pôr n'um
abraço--se alli lh'o podesse dar.
A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeçára a fallar da Russia. O que
a assustava é que o paiz era tão caro, corriam-se tantos perigos por
causa da dynamite, e uma constituição fraca devia soffrer muito com a
neve nas ruas. E foi então que Carlos percebeu que ella era a esposa de
Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico,
despachado segundo secretario para a legação de S. Petersburgo.
--O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz
do leque. É um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto não é
peor que os outros... Que a quantidade de mônos, de semsaborões e de
tolos que nos representam lá fóra até faz chorar... Pois o menino não
acha? Isto é um paiz desgraçado.
--Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto é um paiz _cursi_.
Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu
sorriso cansado; a senhora de escarlate calára-se, já preparada, tendo
mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento
em que o Ega, ainda ácerca da Russia, acabava de contar uma historia
ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido...
--Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o
conde, já de pé.
Os homens, sós, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o café.
Então o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mão, aproximou-se de
Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu
conhecimento...
--Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a...
Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Começava eu então
a minha carreira publica... E o avô de v. exc.^a, bom?
--Muito agradecido a v. exc.^a
--Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que
se chama «um elegante». Tive tambem o prazer de conhecer a mãi de v.
exc.^a...
E de repente calou-se, embaraçado, levando a chavena aos labios. Depois,
lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia
com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretária da
legação da Russia, com quem elle encontrára n'essa manhã o conde
conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho
nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o conde, que a
admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucção. Isso,
segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser
bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia
que não gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era
junto do berço, não na bibliotheca...
--No emtanto é agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas
amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se
publica um livro... Emfim, não direi quando se trata d'um Guizot, ou
d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet,
d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. Não lhe parece, Netto?
Netto, grave, murmurou:
--Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas
prendas...
Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas
litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr.
Zola, é um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de
cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia
ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
--V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon?
--Não me recordo textualmente, mas...
--Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon?
O outro, muito seccamente, não gostando decerto d'aquelle
interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.
Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:
--V. exc.^a leu evidentemente, como nós todos, as grandes paginas de
Proudhon sobre o amor?
O snr. Netto, já vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser
sarcastico, esmagar aquelle moço, tão litterario, tão audaz.
--Não sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse
philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos!
Ega atirou os braços ao ar, consternado:
--Oh snr. Sousa Netto! Então v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor
um assumpto escabroso?!
O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto
da sua consideravel posição burocratica:
--É meu costume, snr. Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar
todas as opiniões alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...
E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos,
desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se
fixava algum tempo mais em Portugal. Então, durante um momento, acabando
os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os
seus muitos deveres não lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno
fôra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupações publicas, via-se
forçado a não deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer
Badajoz...
--E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres?
Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar... Duas cidades tão
differentes, duas civilisações tão originaes...
--Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão...
Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos fogões,
quando havia frio...
O snr. Sousa Netto murmurou:
--E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima tão ao norte!...
Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez
esta observação sagaz e profunda:
--Povo pratico, povo essencialmente pratico.
--Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a
sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.
--E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse,
cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por lá, em Inglaterra,
d'esta litteratura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de
pulso?...
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com
descaro:
--Não, não ha d'isso.
--Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.
E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado
defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirée
de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um
abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A
senhora d'escarlate, no sofá ao lado, com os braços cahidos no regaço,
pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaço. D.
Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _Illustração_; e
vendo que Carlos ao entrar procurára com o olhar a condessa, chamou-o,
disse-lhe baixo que ella fôra dentro vêr Charlie, o pequeno...
--É verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que é feito
d'elle, d'esse lindo Charlie?
--Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
--A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha.
--É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento
vêm só das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a
proposito d'outras coisas: então a Cohen tambem chegou?
--Chegou, disse Carlos, mas não _tambem_. O _tambem_ implica
combinação... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De
resto isso é historia antiga, é como os amores de Helena e de Páris.
N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e
trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo
para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de não ter achado
Charlie bem... Estava tão quente, tão inquieto... Tinha quasi medo que
fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:
--Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o
incommodo de o vir vêr um instante... É odioso, realmente, pedir-lhe
logo depois de jantar para examinar um doente...
--Oh senhora condessa! exclamou elle, já de pé.
Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto,
enterrados n'um sofá, conversavam fumando.
--Levo o snr. Carlos da Maia para vêr o pequeno...
O conde erguera-se um pouco do sofá, sem comprehender bem. Já ella
passára. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sêda preta
através do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos
de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado,
por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com
uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraçada, e uma
escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda côr de
rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braços ao pescoço de
Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sôfrego,
penetrante, completo, findando n'um soluço de desmaio... Elle sentia
aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os
joelhos sem força.
--Ámanhã, em casa da titi, ás onze, murmurou ella quando pôde fallar.
--Pois sim.
Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mãos sobre os
olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera côr
de cêra. Depois, cansada e sorrindo:
--Que doida que eu sou... Vamos vêr Charlie.
O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de
ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco,
com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros
espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe
apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a
commoda, disse, sorrindo tranquillamente:
--O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...
Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, já com a
mão no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis.
Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa
Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse
ao marido:
--O pequeno está a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem.
O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E
durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pé, a deixar-se
serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar
a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr.
Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra,
desde a Universidade, não pegára n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando
appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou
o conde de Steinbroken. Então o resto da noite passou-se no salão, em
redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama
tocou _fados_.
Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and
soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no
pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pôde emfim soltar a
pergunta que lhe faiscára nos labios toda a noite:
--Ó Ega, quem é aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em
Inglaterra havia tambem litteratura?
Ega olhou-o com espanto:
--Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste immediatamente
quem n'este paiz é capaz de fazer essa pergunta?
--Não sei... Ha tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
--Official superior d'uma grande repartição do Estado!
--De qual?
--Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instrucção publica!
Na tarde seguinte, ás cinco horas, Carlos, que se demorára de mais em
casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez
voar o coupé até á rua de S. Francisco, olhando a cada momento o
relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle
lindo dia de verão, luminoso e sem calor. Com effeito á porta d'ella
estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado
com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, tão fraco, tão passivo, que
assim se deixára retomar por aquelles braços exigentes, cada vez mais
pesados, e já incapazes de o commover...
--A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltára da
terra havia tres dias, e ainda não cessára de lhe sorrir.
Sentada no sofá, de chapéo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma
dôce côr no rosto, e uma carinhosa reprehensão:
--Estive á espera mais de meia hora antes de sahir... É uma ingratidão!
Imaginei que nos tinha abandonado!
--Porquê? Está peor, miss Sarah?
Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia
seguindo perfeitamente na sua convalescença... Mas agora já não eram as
visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe
faltado.
Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava
junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratidão infinita
do seu coração, que não ousava mostrar á mãe, pôl-a toda na longa
caricia em que envolveu a filha.
--São historias que a mamã agora comprou, dizia Rosa, séria e presa ao
seu livro. Hei de t'as contar depois... São historias de bichos.
Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapéo.
--Quer tomar uma chavena de chá comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha
morrendo por uma chavena de chá... Que lindo dia, não é verdade? Rosa,
fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapéo...
Carlos, só com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro,
tomando-lhe ambas as mãos.
--Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mamã não se
queria demorar, porque tu podias ter vindo!
Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãosinhas de Rosa.
--E então que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve
suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.
--Andei a correr, havia uns patinhos novos...
--Bonitos?...
A pequena encolheu os hombros:
--Chinfrinzitos.
Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia?
Rosa sorriu. Fôra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas
assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos
tinha muita graça.
Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos,
não devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rôta.
--O Domingos não anda rôto, disse Rosa muito séria.
E subitamente, com outra idéa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os
joelhos, radiante:
--E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns grillos...
Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein?
Eu nunca vi ninguem mais medrosa...
Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
--É a mamã que lhe dá tanto mimo. É uma pena!
Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e,
ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella estragava com
mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manhã fôra
castigada!
Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mãos:
--Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a manga de
Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog!
dreadful dog!_
Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o dedinho
erguido, a ameaçar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito
que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sofá.
E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de
tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que ella nem era mau cão, nem
feio cão; fôra só para contar como fazia a mamã...
--Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse então Maria
Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que
nos traga o chá.
Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da
janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a
sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella
queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos
permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto,
apenas houvesse significação n'uma certa palavra de que os seus labios
estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi receava que fosse
adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coração.
--Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim,
impaciente de a vêr, tão serena, a occupar-se das suas lãs.
Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer
os olhos:
--E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a fazer, pois
não acha? Uma malha hoje, outra malha ámanhã, torna-se assim uma
companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve
ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu
amor,--esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã
cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas
mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado,
sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da
costura, para ser o desafogo da sua solidão?
Disse-lhe então, commovido:
--Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só
então dão a felicidade que se procurava n'ellas.
--É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil...
--Quer que lh'o diga mais claramente?
N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava
alli o snr. Damaso...
Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:
--Diga que não recebo!
Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto,
lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o
seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus
pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante
a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.
--Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria
Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, é
demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi
todos os dias este assalto á minha porta! É intoleravel.
E com uma subita idéa, atirando o bordado para o açafate, cruzando as
mãos sobre os joelhos:
--Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria
possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse
passar os mezes de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço
ninguem, não sei a quem me hei de dirigir...
Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como já
n'outra occasião em que ella mostrára desejos d'ir para o campo.
Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais
decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas
collecções. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre,
condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o,
irresistivel.
--Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que lhe convinha
tanto!...
--Que se aluga?
Carlos não hesitou:
--Sim, é possivel arranjar-se...
--Isso era um encanto!
Ella tinha dito--«era um encanto». E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe
desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperança, e não lh'a
realisar com fervor.
O Domingos entrára com o taboleiro do chá. E emquanto o collocava sobre
uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pé da janella, Carlos,
erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em começar
immediatamente negociações com o Craft, comprar-lhe as collecções,
alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os
mezes de verão. E não considerava, n'esse instante, nem as
difficuldades, nem o dinheiro. Via só a alegria d'ella passeando com a
pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria
ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascença,
severos e nobres!
--Muito assucar? perguntou ella.
--Não... Perfeitamente, basta.