--Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se

atreveria a dizer-me mal de ti.

Damaso olhou-o, esgazeado:

--Ora essa!... Mas podia ter dito bem!

--Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.

E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta,

acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em

que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...

Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o

de revez.

--Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um

traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!

--Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!

Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E

pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o

Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua

intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra

vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o

bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...

--Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no

sabbado.

Foi um espanto para o Damaso.

--Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha

dois dias de Southampton... Jógo eu?

Jogou, falhou a carambola.

--Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a

Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com

coisas brancas, coisas côr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um

moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos

escandalo!

II

No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua

de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de

cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.

--Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa

_incognito_!

E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por

alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava

com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...

--Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas

ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de

pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.

Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a

Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascença,

e uma cópia dos _Borrachos_ de Velasquez.

--Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres do

naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O

pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi buscal-a.

Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.

--Ah! murmurou Carlos.

Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava Carlos.

--É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente,

immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o

meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não é verdade? E que tal,

no acto d'amor?

Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a

Gouvarinho senão relações superficiaes. Ia lá ás vezes tomar uma chavena

de chá; e á hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar

com o conde sobre as miserias publicas, á esquina do Loreto. Nada mais.

--Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas não importa. Eu hei de

descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira....

Porque nós vamos lá jantar na segunda-feira.

--Nós... Nós, quem?

--Nós. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o

Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou

logo que haviamos de ter tambem «o nosso Maia». O Maia d'elle, e o Maia

d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!

Carlos olhou-o com severidade.

--Tu vens obsceno de Celorico, Ega.

--É o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.

Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega

porém já sabia. A chegada dos Cohens, não é verdade? Lêra-o logo n'essa

manhã, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. Lá se dizia

respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo

estrangeiro.

--E que impressão te fez? perguntou Carlos rindo.

O outro encolheu brutalmente os hombros:

--Fez-me o effeito de haver um cabrão mais na cidade.

E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua

immunda, o Ega, um pouco córado, arrependido talvez, lançou-se em

considerações criticas, clamando pela necessidade social de dar ás

coisas o nome exacto. Para que servia então o grande movimento

naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, é porque a sociedade,

indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o

idealisavam... Que escrupulo póde ter uma mulher em beijocar um terceiro

entre os lençoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um

romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?

--E a proposito, a tua comedia, o _Lodaçal_? perguntou Carlos, que

entrára um instante para a alcova de banho.

--Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E além d'isso fazia-me

remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana...

Affligia-me...

Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquetão

claro e ás botas com mau verniz.

--Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente

mandou-te fato de verão, hei de querer examinar esses córtes da alta

civilisação... Não ha negal-o, diabo, esta minha linha está chinfrim!

Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a

alcova de banho:

--Pois, menino, eu agora o que necessito é o regimen da Chimera. Vou-me

atirar outra vez ás _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte

colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a

proposito, é necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que

elle me vai dar o pão, o tecto, e a enxerga...

Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona,

com um antigo volume da _Illustração franceza_ aberto sobre os joelhos,

mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e

cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega

vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.

--Já não tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!

--Então esclarecêl-o com a tua clara razão, disse o velho rindo. Estamos

cá precisando d'ambas as coisas, John.

Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho,

rapazinho amavel da visinhança, filho do Vicente, mestre d'obras; o

Manoelinho vinha ás vezes animar a solidão d'Affonso--e alli folheavam

ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora,

justamente, estava elle muito embaraçado por não lhe saber explicar como

é que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu

cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas,

não era mettido na cadêa...

--Está visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraçado, com as mãos

cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na

cadêa!

--Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta

bella logica? Olha, filho, agora que estão aqui estes dois senhores que

são formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vêr os

bonecos alli para cima da mesa... E depois vão sendo horas d'ires lá

dentro á Joanna, para merendares.

Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se á mesa com o seu grande

volume d'estampas, pensava quanto o avô, com aquelle seu amor por

crianças, gostaria de conhecer Rosa!

Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quê! Já

abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados

incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua

indifferença pela arte. Que espirito original não esmoreceria, vendo em

torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa,

desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idéa

nobre, por uma phrase bem feita?

--Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta

prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve

limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...

--Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes. É um serviço á

alimentação publica. Mas tu nem isso fazes!

Carlos, muito sério, apoiava o Ega.

--A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, é plantar legumes,

emquanto não ha uma revolução que faça subir á superficie alguns dos

elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo.

E se se vir então que não encerra nada, demittamo-nos logo

voluntariamente da nossa posição de paiz para que não temos elementos,

passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos

mais legumes!

O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia

como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a

glorificação da sua inercia. Terminou por dizer:

--Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam

alguma coisa!

--O Carlos já não faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa,

a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!

O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda,

antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no

corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr

ao Fillon, ao photographo, vêr se podia tirar um bonito retrato.

--Um retrato?

--Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia

d'annos d'uma creaturinha que me adoçou o exilio.

--Oh Ega!

--É horroroso, mas então? É a filha do padre Corrêa, filha conhecida

como tal; além d'isso casada com um proprietario rico da visinhança,

reaccionario odioso... De modo que, bem vês, esta dupla peça a pregar á

Religião e á Propriedade...

--Ah! n'esse caso...

--Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!

Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupé

fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da

condessa Carlos vira-a só uma vez, em casa d'ella; e fôra uma meia hora

desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e

recriminações infindaveis. Ella queixára-se das cartas d'elle, tão

raras, tão seccas. Não se puderam entender sobre os planos d'esse verão,

ella devendo ir para Cintra onde já alugára casa, Carlos fallando no

dever de acompanhar o avô a Santa Olavia. A condessa achava-o

distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante

sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos

de um fastidioso peso de bronze.

Por fim a condessa arrancára-lhe a promessa de a ir encontrar,

justamente n'essa segunda-feira de manhã, a casa da titi, que estava em

Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o

apertar nos braços nús, em dias que o devesse receber na sua sala, mais

tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltára,--e agora, rodando para casa

d'ella, impacientavam-n'o já as queixas que teria de ouvir nos vãos de

janella, e as mentiras chôchas que teria de balbuciar...

De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de

verão, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sério:

--Dize-me uma coisa, se não é um segredo sacrosanto... Quem é essa

brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhãs?

Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.

--Quem te fallou n'isso?

--Foi o Damaso que m'o disse. Isto é, o Damaso que m'o rugiu... Porque

foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sofá do Gremio, e com

uma côr d'apoplexia, que elle me contou tudo...

--Tudo o quê?

--Tudo. Que te apresentára a uma brazileira a quem se atirava, e que tu,

aproveitando a sua ausencia, te metteras lá, não sahias de lá...

--Tudo isso é mentira! exclamou o outro, já impaciente.

E Ega, sempre risonho:

--Então «que é a verdade», como perguntava o velho Pilatus ao chamado

Jesus Christo?

--É que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma

paixão, como suppõe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante

ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda não

está melhor, eu vou vêl-a todos os dias. E Madame Gomes, que é o nome da

senhora, que nem brazileira é, não podendo tolerar o Damaso, como

ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta é a verdade; mas

talvez eu arranque as orelhas ao Damaso!

Ega contentou-se em murmurar:

--E ahi está como se escreve a historia... vá-se lá a gente fiar em

Guizot!

Em silencio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cólera

contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra

suave e favoravel em que se abrigára o seu amor! Agora já se pronunciava

o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega,

repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez

nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por

diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles

do Damaso!

--Parece-me que temos cá mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na

ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapé um paletot cinzento e

capas de sonhem.

A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada «do busto», vestida

de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoço picada de tres

estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flôres quasi enchia a

mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos

Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Além da

boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora,

que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pé,

conversando baixo com o conde, de mãos atraz das costas, um cavalheiro

alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceição.

A condessa, um pouco córada, estendeu a Carlos a mão amuada e frouxa:

todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do

querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr.

Sousa Netto já tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um

medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de

Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputação, o

poder-se ter assim uma apreciação mais justa dos caracteres. Em Paris,

por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta

relaxação...

--Nunca sabe a gente quem mette em casa.

O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as

estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu

exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermões para o abbade: o

abbade recitava-os; e os sermões, sob uma fórma mystica, eram de facto

affirmações revolucionarias que o santo varão lançava com fervor,

esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mãos

no regaço, escutava o Ega, com o olhar espantado.

--Imaginei que v. exc.^a tinha ido já para Cintra, veio dizer Carlos á

senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a é sempre a

primeira...

--Como quer o senhor que se vá para Cintra com um tempo d'estes?

--Com effeito, está infernal...

--E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande

leque preto.

--Creio que não ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte

do snr. D. João VI.

--Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.

--É verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza?

Ella nem baixou a voz para dizer:

--Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e não gosto d'elle,

não posso dizer nada...

--Oh senhora baroneza, que falta de caridade!

O escudeiro annunciára o jantar. A condessa tomou o braço de Carlos,--e,

ao atravessar o salão, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento

das caudas de sêda, pôde dizer-lhe asperamente:

--Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a

brazileira...

Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel côr de vinho,

escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa

oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca,

com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos

ficou á direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse

dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.

--Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe

ella, desdobrando o guardanapo.

--Por esse mundo, minha senhora, vagamente...

Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no

peitilho da camisa, estava já observando, emquanto remexia a sopa, que a

senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas

e nos edificios grandes mudanças... A condessa, infelizmente, mal tinha

sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, é que

admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do

Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre

Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da

Hungria. E através d'estas coisas graves, lançadas d'alto, com

superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois

lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.

Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras

da condessa. Tambem ella conhecia já a sua intimidade com a

«brazileira». Era evidente pois que já andava alli, diffamante e torpe,

a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne,

estava decidido a bater no Damaso.

De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e

cantada:

--O snr. Maia é que deve saber... O snr. Maia já lá esteve.

Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe

fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buço forte de

quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentára, elle não sabia quem era.

Sorriu tambem, perguntou:

--Onde, minha senhora?

--Na Russia.

--Na Russia?... Não, minha senhora, nunca estive na Russia.

Ella pareceu um pouco desapontada.

--Ah, é que me tinham dito... Não sei já quem me disse, mas era pessoa

que sabia...

O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera

apenas na Hollanda.

--Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao

nosso... Já conheci mesmo um hollandez que era excessivamente

instruido...

A condessa baixára os olhos, partindo vagamente um bocadinho de pão,

mais séria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se

tão tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle,

então, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella,

muito naturalmente e risonho:

--Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d'ir á Russia. Ha

assim uma infinidade de coisas que se dizem e que não são exactas... E

se se faz uma allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a allusão nem

a ironia...

A condessa não respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao

escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:

--No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto

que é verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...

--A senhora condessa tem então uma credulidade infantil. Estou vendo que

acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na

testa...

Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinião do seu amigo Maia.

Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessára a

Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde

via alli só inveja--a inveja que nos têm todas as nações por causa da

importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na

Africa...

--Está claro, dizia o conde, que não temos nem os milhões, nem a marinha

dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique é de

primeira ordem; e a tomada d'Ormuz é um primor... E eu que conheço

alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que não ha hoje

colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no

progresso, nem mais liberaes que as nossas! Não lhe parece, Maia?

--Sim, talvez, é possivel... Ha muita verdade n'isso...

Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o

monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente

contra todas essas explorações da Africa, e essas longas missões

geographicas... Porque não se deixaria o preto socegado, na calma posse

dos seus manipansos? Que mal fazia á ordem das coisas que houvesse

selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de

pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiões

e todas as raças ao mesmo typo de civilisação, o mundo ia tornar-se

d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes

sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para quê? Para

encontrar lá pretos de chapéo alto, a lêr o _Jornal dos Debates_!

O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago

abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:

--Este Ega! Este Ega! Que graça! Que _chic_!

Então Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta

pergunta grave:

--V. exc.^a pois é em favor da escravatura?

Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela

escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham começado com

a libertação dos negros. Só podia ser sériamente obedecido, quem era

sériamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos

bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde

que não tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só

houvera duas civilisações em que o homem conseguira viver com razoavel

commodidade: a civilisação romana, e a civilisação especial dos

plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a

escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!...

Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois

passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega:

--Então v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, não acredita no

Progresso?

--Eu não senhor.

O conde interveio, affavel e risonho:

--O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem

realmente razão, porque os faz brilhantes...

Estava-se servindo _Jambon aux épinards_. Durante um momento fallou-se

de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e

difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o

ministro do reino...

--Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.

--Sim, pujante, disse o conde.

Mas elle agora não fallava tanto do talento do Barros como parlamentar,

como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu

_esprit_...

--Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante! Até foi em

casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a não se lembra, snr.^a D.

Maria? Esta minha desgraçada memoria! Ó Thereza, lembras-te d'aquelle

paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo

muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois não te

lembras, Thereza?

A condessa não se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo

anciosamente, com a mão na testa, as suas recordações,--a senhora

d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma

cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois

queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a

Joanna, que estava em casa havia quinze annos, não sabia que fazer,

andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis mezes já vira quatro

caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!...

Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma

migalhinha de pão:

--Ó baroneza, ainda tens a Vicenta?

--Pois então não havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a

D. Vicenta, se faz favor.

A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.

--E é a Vicenta que te penteia?

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 28 / 53 段