amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a
caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir
do movimento das suas saias. Ella ás vezes abria familiarmente a porta
de um quarto, apenas mobilado com um velho sofá: era alli que Rosa
brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri,
a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando
profundamente com a boneca; ou então, ao canto do sofá, com os pésinhos
cruzados, immovel, perdida na admiração d'algum livro d'estampas aberto
sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a
sua pessoa tinha a frescura de uma linda flôr.
No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pés do leito
branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa,
verificando a cada instante se o lenço de sêda lhe cobria correctamente
o pescoço, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella,
provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar
alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e
appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame,
com um suspiro. Depois murmurava:
--_Oh yes, I am very comfortable!_
E enternecia-se.
Logo nos primeiros dias, ao voltar á sala, Maria Eduarda tinha-se
sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomára
muito naturalmente o seu bordado como na presença familiar de um velho
amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarça!
Devia ser um faisão de plumagens rutilantes: mas por ora só estava
bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de
primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.
Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais
velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas
rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as
_Illustrações_ ou algum jornal de modas; ás vezes, um instante calado,
elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mãos de Maria, com
brilhos de joias, iam puxando os fios de lã. Aos pés d'ella _Niniche_
dormitava, espreitando-os a espaços, através das repas do focinho, com o
seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de
friagem lá fóra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a
paz do vagaroso trabalho na talagarça, as vozes lentas e amigas, e ás
vezes um dôce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso...
Mas no que diziam não havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu
encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de
inverno, da Italia que era o seu sonho vêr, de livros, de coisas d'arte.
Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos
Feuillet, por cobrir tudo de pó d'arroz, mesmo as feridas do coração.
Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lêra Michelet e lêra
Renan. De resto não era catholica praticante; as igrejas apenas a
attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as
luzes, ou os lindos mezes de Maria, em França, na doçura das flôres de
maio. Tinha um pensar muito recto e muito são--com um fundo de ternura
que a inclinava para tudo o que soffre e é fraco. Assim gostava da
Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos
humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista.
--Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa,
comtanto que não haja gente que tenha fome!
Mas era isso possivel? Já Jesus, mesmo, que tinha tão dôces illusões,
declarára que pobres sempre os haveria...
--Jesus viveu ha muito tempo, Jesus não sabia tudo... Hoje sabe-se mais,
os senhores sabem muito mais... É necessario arranjar-se outra
sociedade, e depressa, em que não haja miseria. Em Londres, ás vezes,
por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a
gemer de fome... É um horror! E em Paris então! É que se não vê senão o
boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade...
Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas
palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um só
sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ás suas caridades,
pedindo-lhe para ir vêr a irmã da sua engommadeira que tinha
rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava
tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acções religiosas.
E n'estas piedades achava-lhe semelhanças com o avô. Como Affonso, todo
o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da Praça
da Figueira, quasi com idéas de vingança, por ter visto nas tendas dos
gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias
as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes
bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que
era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado
tambem, jurava justiça, fallava em cadêas, em costa d'Africa... E
Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia
póde ter, mesmo isolado de tudo, um coração que é justo.
Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua
petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha
Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. João Baptista a
_Notre-Dame_?...
--E então a insistencia de fallar de pessoas que eu não conheço! A
snr.^a condessa de Gouvarinho, e os chás da snr.^a condessa de
Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia
que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ás
vezes tinha medo de adormecer...
Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da
Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente.
Decerto não sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre
elles esse nome, começou a fallar de Mr. Guimarães, o famoso tio do
Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica...
--O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito...
Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
--Mr. Guimarães?... Sim, conheço muito... Ultimamente viamo-nos menos,
mas elle era muito amigo da mamã.
E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeçando a puxar o seu
longo fio de lã:
--Pobre Guimarães, coitado! A sua influencia na Republica é traduzir
noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso
é que vive... Se é amigo de Gambetta, não sei, Gambetta tem amigos tão
extraordinarios... Mas o Guimarães, aliás bom homem e homem honrado, é
um grutesco, uma especie de Calino republicano. E tão pobre, coitado! O
Damaso, que é rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, não o
deixava viver assim tão miseravelmente.
--Mas então essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o
Damaso...?
Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco
intoleravel.
Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais
penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do avô. E
durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a
talagarça, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os
amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia,
o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos
lhe explicasse longamente a idéa do seu livro _A medicina antiga e
moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos
grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam só
guerreiros e fortes? A vida salva a uma criança parecia-lhe coisa bem
mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com
simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no
coração de Carlos e ficavam lá muito tempo, palpitando e brilhando...
Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões;--e ainda não
sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer
a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jámais o nome do
marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia não
ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente
como a deusa que elle ideára, sem contactos anteriores com a terra,
descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado
da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado
d'affeições. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma
mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia
amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fé
n'essas bellas uniões, todas d'estima, todas de razão--comtanto que se
lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso
perfumava-as d'um grande encanto--e não lhes diminuia a sinceridade. E,
sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do
bordado e com lentos sorrisos, ficára subtilmente estabelecido que entre
elles só deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de
suavidade e sem tormentos.
Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na
poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas
interessantes, ou tornadas interessantes pela graça da sua pessoa;
comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente córado, baixar-se, com a
lenta attracção d'uma caricia, sobre as flôres que lhe trazia; comtanto
que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava
seguindo sympathicamente através do seu dia, mal elle deixava aquella
adorada sala de reps vermelho--o seu coração estava satisfeito,
esplendidamente.
Não pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenção casta, era o
caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braços
ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomára ao vêr-se de repente
admittido a uma intimidade que julgára impenetravel,--os seus desejos
desappareciam: longe d'ella, ás vezes, ainda ousavam ir temerariamente
até á esperança d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos
dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu
olhar negro, cahia em devoção, e julgaria um ultraje bestial roçar
sequer as prégas do seu vestido.
Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si
mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginára que
houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o céo está
limpo; ou em descer de manhã ao jardim para escolher uma rosa mais
aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam.
O marquez achava-lhe o ar baboso e abençoador...
Ás vezes, passeando só no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o
levaria aquelle grande amor. Não sabia. Tinha diante de si os tres mezes
em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais senão elle
occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe,
separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era
largo...
Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu
dia só houvesse horas nobres,--e que aquellas que não pertenciam ás
puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia
ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da
visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto,
n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a
recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a
graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de
_whist_. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos
n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias.
Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao
Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as
balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de
vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus
longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges--que vinha da rua
de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava.
O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss
ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de
coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da
visinha...
--A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem
expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam
no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da
visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de _grande dame_».
Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle
dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta».
Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade
d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela
condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
--E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
--Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_
que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu
discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um
ar de cumplicidade, murmurou:
--É o snr. Damaso!...
Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi
escandalisada.
--Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito,
gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado
por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos
alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o
olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio
comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para
Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
--Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!...
Eu estava mais longe...
Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente
uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle
tinha chegado.
--Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural...
Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a vê--e mostrou o seu luto
pesado--acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso
pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de
sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para
imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas
roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.
--E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?
Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez
risonho:
--Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer...
Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero
dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da
_Niniche_. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o
bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao
bigode, estendeu a mão para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos
de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho
desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
--_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi,
ami... Alors, Niniche_...
Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E,
aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso,
rosnando, e com rancor.
--Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...
--Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei
o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este
escandalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
--Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre
caricias...
E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades
novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braços d'outro,
emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
Carlos ria.
--Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.^a D. Maria
Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio...
--Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra
negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria
Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a
tarde á espera...
--Eram vesperas de partida, disse ella.
--Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes?
V. exc.^a já recebeu noticias?
--Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa.
Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
--Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de
loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda
não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na
estação... Pois não é verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha
senhora, d'uma coisa póde v. exc.^a estar certa, é que hippodromo mais
bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se
vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?
--Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de
corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de
corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha
apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico...
Maria Eduarda ria, alegremente.
--Mas então?
--Vêem-se entrar os navios, minha senhora...
Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer
mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal
qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...
--Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!
Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois não achou mais
nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se
forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...
--Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um
bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas
de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v.
exc.^a, não tolero...
Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a
contar attentamente as malhas do seu bordado.
De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a
snr.^a D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma
preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle
Rosa.
--Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no
embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles
d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que
tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos,
que é uma delicia, até conhecido lá fóra?
--Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
Pousára _Niniche_ no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.
--Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para
elle. Até ámanhã, então!
E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle
conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a
perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
--_Au revoir_, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de
apparecer!...
Carlos desceu as escadas, furioso.
Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente,
tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E
para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em
calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe
dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito
da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o
_atracão_». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse
um ultraje? A supposição era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo,
applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o
Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor
reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser
assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua.
Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle
ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma
vidraça--viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater
com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e
subitamente teve dó d'aquelle grutesco...
N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava,
enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa
manhã,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da
porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã:
--Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a
brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os
joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor,
disse, com uma dôce reprehensão paternal:
--Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre
as lavradeiras de Penafiel!
--Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o
outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho
direito a saber... Como a conheceste tu?
Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou,
n'um tom lento e solemne de recitativo:
--Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens
d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete.
Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão
do seu semblante...
Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa.
--Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
--Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde
existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado,
petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um
photographo?
--Então quem está doente?
Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o
Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava
para elle desconfiado.
--E como soube ella onde tu moravas?
--Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a
estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se
aprendem nas aulas de instrucção primaria...
O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos
bolsos.
--Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um
silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu
lhe digo...
--Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o
embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras...
Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na
sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára
furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se
explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com
ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse
delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...
E acrescentou logo, accendendo o charuto:
--Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito...
Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco
quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?