--Então? exclamou ella, voltando-se logo, com um mólho de cravos na mão.

Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira,

com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela...

--Certamente! E ha de tomar algum remedio, não é verdade?

Atirou logo o resto dos cravos do regaço para o cesto, foi abrir uma

secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo

arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E

estes cuidados perturbavam Carlos como caricias.

--Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta...

Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade

enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doçura das mãos

d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de

marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taçasinha de Saxe cheia

d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que tão bem condizia com o

seu puro perfil. Na rua o realejo calára-se, por cima do tecto já não

cavallavam as crianças. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a

abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais

de leve.

--Que bonitas flôres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando

a cabeça, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita.

De pé, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India,

ella arranjava folhas em volta de duas rosas.

--Dão frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais

bonitas flôres. Não ha nada que se compare ás flôres de França... Pois

não é verdade?

Elle não respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doçura

de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de

claridade e cheia de silencio, a vêl-a pôr folhas verdes em torno de pés

de rosa!

--Em Cintra ha lindas flôres, murmurou por fim.

--Oh, Cintra é um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo.

Vale a pena vir a Portugal só por causa de Cintra.

N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaçou, e Rosa entrou de dentro,

correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sêda preta, uma onda

negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande

boneca. Ao vêr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito

abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braços Cri-cri

que vinha em camisa.

--Não conheces? perguntou-lhe a mãi, indo sentar-se outra vez diante do

seu cesto de flôres.

Rosa começava já a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda côr. E

assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro,

com o seu dôce mimo de fórma, a sua graça ligeira, os seus grandes olhos

cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se

adiantou com a mão estendida para renovar o antigo conhecimento--ella

ergueu-se na ponta dos pés, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca

como um botão de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa.

Depois quiz apertar a mão á sua velha amiga Cri-cri. E então, de

repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr.

--É o robe-de-chambre, mamã! Não posso achar o robe-de-chambre de

Cri-cri... Ainda a não pude vestir... Dize, sabes onde é que está o

robe-de-chambre?

--Vejam esta desarranjada! murmurava a mãi olhando-a com um sorriso

lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu

guarda-vestidos, não se lhe deviam perder as coisas... Pois não é

verdade, snr. Carlos da Maia?

Elle, ainda com a sua receita na mão, sorria tambem, sem dizer nada,

todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar

dôcemente.

A pequena então veio encostar-se á mãi, roçando-se pelo seu braço, com

uma vozinha languida, lenta, e de mimo:

--Anda, dize... Não sejas má... Anda... Onde está o robe-de-chambre?

Dize...

Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino

laço de sêda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais

séria:

--Está bem, está quieta... Tu sabes que não sou eu que trato dos

arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie.

E Rosa obedeceu logo, séria tambem, comprimentando agora Carlos ao

passar, com um arzinho senhoril:

--Bonjour, Monsieur...

--É encantadora! murmurou elle.

A mãi sorriu. Tinha acabado de compôr o seu ramo de cravos;--e

immediatamente attendeu a Carlos, que pousára a receita sobre a mesa, e

sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da

dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se

lhe deviam dar de tres em tres horas...

--Pobre Sarah! dizia ella. E é curioso, não é verdade? Veio com o

presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal...

--Então vem a detestar Portugal!

--Oh! tem-lhe já horror! Acha muito calor, por toda a parte maus

cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim é

infelicissima, está ardendo por se ir embora...

Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a

boa miss Sarah tinha talvez razão...

--E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?

Ella encolheu os hombros, indecisa.

--Sim... Devo dar-me bem... É o meu paiz

O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira!

--Não, sou portugueza.

E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomára de sobre a mesa,

abria lentamente um grande leque negro pintado de flôres vermelhas. E

Carlos sentia, sem saber porque, uma doçura nova penetrar-lhe no

coração. Depois ella fallou da sua viagem que fôra muito agradavel;

adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manhã da chegada a Lisboa,

com um céo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e já um calorzinho do

clima dôce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra

desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma

noite, assustára-os muito com uma indigestão. Em seguida no Porto viera

aquelle desastre...

--Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na Praça Nova...

Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo

pelo Damaso...

--São muito amigos, creio eu.

Depois d'uma leve hesitação, que ella comprehendeu, Carlos murmurou:

--Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... É de resto um rapaz que

eu conheço apenas ha mezes...

Ella abriu os olhos, pasmada.

--O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que

eram até parentes...

Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo.

--É uma bella illusão... E se isso o faz feliz!...

Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros.

--E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos não querendo fallar

mais do Damaso, como acha Lisboa?

Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade

meridional... Mas, havia tão poucos confortos!... A vida tinha aqui um

ar que ella não pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de

pobreza.

--Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...

Ella riu.

--Não direi isso. Mas supponho que são como os gregos: contentam-se em

comer uma azeitona, olhando o céo que é bonito...

Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu coração fugiu para ella.

Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, tão faltas de

commodidade, tão despidas de gosto, tão desleixadas. Aquella em que

vivia fazia a sua desgraça. A cozinha era atroz, as portas não fechavam.

Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e

collinas que lhe tiravam o appetite...

--Além d'isso, acrescentou, é um horror não ter um quintal, um jardim,

onde a pequena possa correr, ir brincar...

--Não é facil encontrar assim uma casa nas condições d'esta e com

jardim, disse Carlos.

Deu um olhar ás paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe

de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as

frescas ruas de acacias.

Felizmente, Maria Eduarda tomára a casa apenas ao mez, e estava pensando

em ir passar á beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal.

--De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o

dr. Chaplain.

O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain.

Ouvira-lhe as lições, visitára-o até intimamente na sua propriedade de

Maisonnettes, ao pé de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um

espirito bem superior!

--E tão bom coração! disse ella com um claro sorriso, um olhar que

brilhou.

E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dôcemente:

cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda

fallando d'elle prolongadamente, gozando, através d'essa trivial

sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus

corações.

O bom dr. Chaplain! Que physionomia tão amavel, tão fina!... Sempre com

o seu barretinho de sêda... E sempre com a sua grande flôr na casaca...

De resto, o pratico maior que sahira da geração de Trousseau.

--E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, é uma pessoa encantadora... Não

é verdade?

Mas Maria Eduarda não conhecia Madame Chaplain.

Dentro o relogio ronceiro começára a bater onze horas. E Carlos então

ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita...

Quando ella lhe estendeu a mão, um pouco de sangue subiu-lhe de novo á

face ao tocar aquella palma tão macia e tão fresca. Pediu os seus

comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, á porta, já com o

reposteiro na mão, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudação,

a receber o olhar suave com que ella o seguia...

--Até ámanhã, está claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo

sorriso.

--Até ámanhã, decerto!

O Domingos estava já no patamar, de casaca, risonho e bem penteado.

--É coisa de cuidado, meu senhor?

--Não é nada, Domingos... Estimei vêl-o por aqui.

--E eu muito a v. exc.^a. Até ámanhã, meu senhor.

--Até ámanhã.

_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a

afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante:

--Até ámanhã, _Niniche_!

Até ámanhã! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica idéa que elle

sentia distinctamente através da nevoa luminosa que lhe afogava a alma.

Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada

a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps

vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando

ainda folhas verdes em torno de pés de rosa...

Pelo Aterro, por entre a poeira de verão e o ruido das carroças, o que

elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara:

por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom

d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus

anneis entremettidos pelos pêllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda,

agora que conhecia o seu sorriso d'uma graça tão delicada; era cheia de

inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha á porta, esse doente a

quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o

encantava é que não tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro

perdido, á busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns

degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente

na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem

impaciencias.

No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.

--Trouxe-a a escosseza, já v. exc.^a tinha sahido.

Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a

lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... Não se

tornára quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em

que andára o seu coração. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas,

que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma

estalagem! Elle promettera-lh'o, a sério; já ella se preparára decerto,

com a atroz cabelleira postiça, com o _water-proof_ de grande roda; tudo

estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles,

estupida... Oh, era claro como a luz que não ia, que nunca iria, jámais!

Mas tinha d'apparecer na estação de Santa Apolonia, balbuciar uma

desculpa tosca, assistir á sua desconsolação, vêr-lhe os olhos marejados

de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio.

Quando chegou á mesa do almoço Craft e Affonso, já sentados, fallavam

justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a

publicar no _Jornal do Commercio_.

--Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando

sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as

importunidades amorosas da mulher.

Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft

censurou-lhe a ingratidão. Porque, realmente, não havia em toda a terra

um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por

Carlos...

--V. exc.^a não faz idéa, snr. Affonso da Maia. É um culto. É uma

idolatria!

Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, já bem disposto para

com o homem que assim admirava tão prodigamente o seu neto, murmurou com

bondade:

--Coitado, supponho que é inoffensivo...

Craft fez uma ovação ao velho:

--_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_,

applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador,

é um achado! E é com effeito o que elle é, _inoffensivo_... E é o que

elles são...

--Chablis? murmurou o escudeiro.

--Não, tomo chá.

E acrescentou:

--Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo,

arrasou-me... Tenho de me pôr uma semana a regimen de leite.

Então fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e

do véo azul do Damaso.

--Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft

remexendo o seu chá. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme,

tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'était

un [oe]illet blanc panaché de noir_... Vossê não achou, Carlos?

--Sim, rosnou Carlos, estava bem.

Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que não haveria na sua vida

conversa em que não surgisse a Gouvarinho, e que não haveria caminho na

sua vida que o não atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, á mesa,

decidiu comsigo não a tornar a vêr, escrever-lhe um bilhete curto,

polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razões...

Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette,

sem achar phrase que não fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia

precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe até por

ella uma indefinida repulsão physica: devia ser intoleravel toda uma

noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella

pelle do seu pescoço, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um

tom pegajoso, um tom amarellado, para além da linha de pós d'arroz.

Decidiu não lhe escrever. Iria á noite a Santa Apolonia, e no momento do

comboio partir correria á portinhola, a balbuciar fugitivamente uma

desculpa; não lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um

rapido aperto de mão, e adeus, para nunca mais...

Á noite, porém, á hora de ir á estação, que sacrificio em se arrancar

aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o

coupé desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por

causa d'uma rosa e d'um certo vestido côr de folha morta que lhe ficava

bem, elle se'achára cahido com ella n'um sofá...

Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois

minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, já quasi vazia

áquella hora, a comprar uma _admissão_; e ainda ahi esperou uma

eternidade, vendo dentro do postigo duas mãos lentas e molles arranjar

laboriosamente os patacos d'um troco.

Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de

chapéo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as

mãos, enternecido:

--Ó menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu

partia?

Carlos não o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que

encontrára o Taveira...

--Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta

manhã, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei

furioso! Isto é, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...

Foi então que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo

no chapéo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenço...

Murmurou, embaraçado:

--O Taveira disse-me que ias, mas não me disse mais nada... Morreu-te

alguem?

--Meu tio Guimarães.

--O communista? o de Paris?

--Não, o irmão d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu

volto já, vou alli ao café encher o frasco de cognac. Com a afflicção

esquecia-me o cognac...

Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pó, com

chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens.

D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet

bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos,

respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluçava por baixo

do véo.

Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou lá a

condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanação

d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? Não sabia que

era o _reservado_ do snr. Carneiro?

--Não sabia.

--Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.

Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava,

atabafadamente, na amontoação dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a

proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma criança

esperneava no collo da ama, aos gritos.

--Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente,

surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braço pela cinta.

--Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.

Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lúgubre massada de ter d'ir a

Penafiel!

--E então agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado

com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!

Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraço terno a Carlos, saltou

para o seu wagon, enterrou na cabeça um barretinho de sêda--e depois

debruçado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o

contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que

ferro! agora que aquillo ia tão bem, o gajo no Brazil, e ella alli, á

mão, a dois passos do Gremio!...

Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio

transparente. De repente Damaso, á portinhola, deu um salto de surpreza:

--Olha os Gouvarinhos!

Carlos deu um salto tambem. O conde, de côco de viagem, de paletot

alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia,

vinha conversando com um empregado superior da estação, agaloado de

ouro, que se encarregára da chapeleira de papelão de s. exc.^a E a

condessa, com um rico guarda-pó de foulard côr de castanho, um véo

cinzento que lhe cobria a face e o chapéo, seguia atraz, com a criada

escosseza, trazendo na mão um ramo de rosas.

Carlos correu para elles, foi todo um assombro.

--Por aqui, Maia?

--De viagem, conde?

É verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do papá...

Resolução da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.

--Então temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?

Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mão ao pobre

Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.

Debruçado da portinhola, com as mãos de fóra calçadas de negro, o pobre

Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o

bom Gouvarinho não quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e

o seu pezame.

Sósinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:

--Que ferro!

--Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que

fuzilou através do véo. Tudo tão bem arranjado, e á ultima hora teima em

vir!...

Carlos acompanhou-os até ao _reservado_, n'um outro wagon que se

estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do

canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a

aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella

teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado

desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um duro olhar

de colera passou entre ambos. Carlos, embaraçado, perguntava:

--Então vão com demora?

O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor:

--Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.

--Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma

navalha.

O conde não respondeu, livido.

Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a

plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido

secco de freios retesados, começou a rolar, com gente ás portinholas,

que ainda se debruçava, estendendo a mão para um ultimo aperto. Aqui e

além esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de

Carlos teve a doçura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o

Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro

dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite...

Carlos, só, dentro do coupé, voltando á Baixa, sentia uma alegria

triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do

Damaso. Era como uma dispersão providencial de todos os importunos: e

assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solidão--com todos os

seus encantos, e todas as suas cumplicidades.

No caes do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferregial, veio

passar diante das janellas na rua de S. Francisco. Só pôde vêr uma vaga

tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe.

Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ella estava passando

na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e

as partituras que tinha sobre o piano; e as flôres que espalhavam alli o

seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manhã. Poria ella um instante o

seu pensamento n'elle? Decerto; a doença em casa forçava-a a lembrar as

horas do remedio, as explicações que elle dera, e o som da sua voz; e

fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes

percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite

estrellada, devagar, ruminando a doçura d'aquelle grande amor.

Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa,

esplendida, perfeita, «a visita á ingleza».

Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como

n'uma acção triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia

uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma

pequena flôr meio murcha. Elle deixava ficar a flôr no tapete: e mal

podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas

vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho

Thompson, tivera uma apoplexia. Ella lá estava, d'enfermeira. Depois,

levando duas ou tres bellas flôres do jardim embrulhadas n'um papel de

sêda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupé--porque o

tempo mudára, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de

chuva.

Á porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido.

_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braços

para a beijar. Esperava um instante na sala, de pé, saudando com o olhar

os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a

musica que ella tocára essa manhã, ou o livro que deixára interrompido,

com a faca de marfim entre as folhas.

Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro

tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia

ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ás vezes uma gravata

de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras,

avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais

bello, e como uma expressão do seu espirito.

Começavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que

lhe era tão desfavoravel. Conversando, ainda de pé, ella dava aqui e

além um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que não

estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompôr constantemente

a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a

superficie de moveis já perfeitamente espanejados com as magnificas

rendas do seu lenço.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 26 / 53 段