se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, não cessava de o chamar com
o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle não
obedeceu logo, parado ao pé dos degraus da tribuna, accendendo vagamente
uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe
deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia só em Lisboa,
vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que já a conhecia,
sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os
hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua
imaginação transluziam já possibilidades d'um encontro, alguma palavra
trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus
destinos se começariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentação
pueril de ir lá, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como
amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da
porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer
da sua vida.
O olhar da condessa não o deixava. Elle approximou-se, emfim,
contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns
passos com elle pela relva, recomeçou a fallar na ida a Santarem.
Carlos, então, muito seccamente, declarou toda essa invenção insensata.
--Porque?...
Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo...
Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de
romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso.
Ella mordia o beiço, com todo o sangue na face. E não via alli bom
senso. Via só frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por
uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem...
--Mas não é isso!...
Então que era? Tinha medo? Não havia mais perigo do que nas idas a casa
da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra côr de cabello, toda a
sorte de véos, disfarçada n'um grande water-proof. Chegavam de noite,
entravam para o quarto, d'onde não sahiam mais, servidos apenas pela
escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o
Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o
seductor, com a sua vehemencia de paixão activa, tentando-o,
soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e
assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor,
prolongando-se assim, ameaçava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de
voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por
elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo;
e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente á curta chamma
que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo
mil cousas, disse, um pouco pallido:
--Pois bem, perfeitamente... Ámanhã á noite, na estação.
N'esse momento, em redor, romperam exclamações de troça: era um cavallo
solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se
apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de
domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo
só--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia
sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se,
arquejando, n'um esforço doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um
jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, já o outro
_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava
conversando com os amigos, encostado á corda da pista.
Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim,
grotescamente.
Ainda havia o Premio de Consolação--mas agora desapparecera todo o
interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da
tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a
pesagem, cançadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais
cadeiras: aqui e além, sobre a relva pisada, formavam-se grupos
alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapéo: e
palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em
redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz.
Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instrucção. A horrivel
Craben, entre outros diplomatas e moços de binoculo a tiracolo, dava do
fundo grosso do papo, opiniões sobre Daudet, que elle achava _très
agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as
corridas, tomava um tom de _soirée_, no ar claro e fresco da collina,
com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando
uma valsa de Strauss.
Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o
Darque, com outros, bebendo mais champagne.
--Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton.
Abandono torpemente. Você vá para o Ramalhete como poder...
--Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha já a gravata toda
desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica
por minha conta... É necessario recibo? Á saude do Craft, inglez cá dos
meus... Hurrah!
--Hurrah! Hip, hip, hurrah!
D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a
volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbação deliciosa e
singular, com aquella certeza de que ella estava só na casa do Cruges: o
ultimo olhar que ella lhe déra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e
um despertar tumultuoso de esperanças sem nome atirava-lhe a alma para o
azul.
Quando parou diante do portão--alguem, por dentro das janellas d'ella,
ía correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia já uma sombra
de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca
viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe
horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes
nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no começo de escuridão. No
patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou
olhando, com uma devoção ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a
do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do
lado direito pendia, com uma enorme bola, o cordão da campainha. De
dentro não vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao
movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas
que alli viviam de solidão e de impenetrabilidade. Uma desconsolação
passou-lhe na alma. Se ella agora, só, sem o marido, começasse uma vida
reclusa e solitaria? Se elle não tornasse mais a encontrar os seus
olhos?
Foi subindo de vagar até ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de
dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi
um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha
sahido.
Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton até
ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do
store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha
uma estrella.
Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pó, estava-se justamente apeando
de uma calecha de praça. Um momento ficaram alli á porta, em quanto
Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas.
No _Premio de Consolação_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pé
da meta, sem se magoar: e, por ultimo, já á partida, o Vargas, que ia na
sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com
ferocidade.
--Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas
pelo velho principe Shakespereano de que _tudo é bom quanto acaba bem_.
--Um murro, disse Carlos rindo, é com effeito um bello ponto final.
No peristillo, o velho guarda-portão esperava, descoberto, com uma carta
na mão para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s.
ex.^a chegar.
Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um
sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo á primeira linha,
teve um movimento tão vivo, de tão bella surpreza, illuminando-se-lhe
tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:
--Aventura? Herança?...
Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:
--Um bilhete apenas, um doente...
Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas começava
assim:--«Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos
da Maia, e roga-lhe o obsequio...»--depois, em duas breves palavras,
pedia-lhe para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possivel, uma
pessoa de familia, que se achava incommodada.
--Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ás sete e meia, hein?
--Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o quê, banhado todo n'um
sorriso, como em extase.
Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapéo,
leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente
a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel.
Era datada d'esse mesmo dia á tarde. Assim, quando elle passara defronte
da sua porta, já ella a escrevera, já o seu pensamento se demorara
n'elle--quando mais não fosse senão ao traçar as lettras simples do seu
nome. Não era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella não diria tão
friamente «uma pessoa de familia.» Era talvez o esplendido preto de
carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abençoada fosse ella para sempre,
que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia lá uma pessoa
n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos
corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira
tão fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado
bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o
conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma
significação profunda, perturbadora...
Se ella não quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os
seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que
tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os
d'ella--então poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico
qualquer, um estranho. Mas não: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella
abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta idéa era uma gratidão
ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pés,
ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem
querer mais nada, sem pedir mais nada...
Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado,
correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapéo na
cabeça passeando o quarto, n'esta agitação radiante.
--Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as
mãos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu
resplandecente collarinho. Você flameja!... Você parece que tem uma
auréola na nuca!... Você succedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em
silencio, encolheu os hombros, e murmurou:
--A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede é, em definitivo, bom
ou mau.
--Ordinariamente é mau, disse o outro friamente, aproximando-se do
espelho a retocar com mais correcção o nó da gravata branca.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
EÇA DE QUEIROZ
OS MAIAS
EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
VOLUME II
PORTO
Livraria Internacional de Ernesto Chardron
CASA EDITORA
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1888
Todos os direitos reservados
OS MAIAS
VOLUME I
OS MAIAS
I
Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete
até á rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde
morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenço na
cabeça, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada
melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava
uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um
relogio ronceiro estava batendo dez horas.
--A senhora já tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapéo.
A velha murmurou, d'entre a sombra do lenço que lhe cahia para os olhos,
n'um tom cançado e doente:
--Já, sim, meu senhor. Já fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr.
Domingos, não tarda...
Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha
um barulho alegre de crianças brincando; por cima, o moço do Cruges
esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um
longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a
negrura do lenço, deu um suspirosinho abatido. Lá ao fundo um canario
rompera a cantar; e então Carlos, impaciente, puxou o cordão da
campainha.
Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaquetão de
flanella, appareceu correndo, com uma travessa na mão, abafada n'um
guardanapo; e ao vêr Carlos ficou tão atarantado, bambaleando á porta,
que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho.
--Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a
bondade d'esperar um instantinho, que eu abro já a sala... Tome lá,
snr.^a Augusta, tome lá, olhe não entorne mais! A senhora diz que lá
manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por
aqui, meu senhor...
Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala
alta, espaçosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a
rua de S. Francisco; e erguendo á pressa os dois transparentes de
paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a não se lembrava já do
Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os
canhões das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com
effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no começo do inverno
estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras
ciumentas, com o cozinheiro francez.
--Não o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar é um pouco
escuro... Lembro-me perfeitamente... E então vossê agora aqui, hein? E
está contente?
--Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges
tambem mora cá por cima...
--Bem sei, bem sei...
--Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar
parte á snr.^a D. Maria Eduarda...
Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e
pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria
Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem
sabe se não presagiava a concordancia dos seus destinos!
Domingos, no entanto, já á porta da sala, com a mão no reposteiro, parou
ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo:
--É a governante ingleza que está doente...
--Ah! é a governante?
--Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito...
--Ah!...
O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar,
contemplando Carlos com admiração:
--E o avôsinho de v. exc.^a passa bem?
--Obrigado, Domingos, passa bem.
--Aquillo é que é um grande senhor!... Não ha, não ha outro assim em
Lisboa!
--Obrigado, Domingos, obrigado...
Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta
curiosa e lenta pela sala. O soalho fôra esteirado de novo. Ao pé da
porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre
uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes
illustrados, pousava um vaso do Japão onde murchavam tres bellos lirios
brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos pés do
sofá estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta
intallação summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de
gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede,
tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno
contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio
Abrahão, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de
pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas
encadernações de livros, albuns, duas taças japonezas de bronze, um
cesto para flôres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que
não pertenciam decerto á mãi Cruges. E parecia errar alli, acariciando a
ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle
indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do Hotel Central, e
em que dominava o jasmim.
Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho crú, com
ramalhetes bordados, desdobrado ao pé da janella, fazendo um recanto
mais resguardado e mais intimo. Havia lá uma cadeirinha baixa de setim
escarlate, uma grande almofada para os pés, uma mesa de costura com todo
um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um
bordado enrolado, mólhos de lã de côres transbordando de um açafate. E,
confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse
momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes passára nos
sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura
pelo Aterro fóra, ou aninhada e adormecida n'um doce regaço...
--Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe
as sympathias.
A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas,
dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois
bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetração quasi humana.
Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha
de repente namorára-se d'elle, deitada já na cadeira, de patas ao ar,
descomposta, abandonando o ventresinho ás suas caricias. Carlos ia
coçal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu
Maria Eduarda diante de si.
Foi como uma inesperada apparição--e vergou profundamente os hombros,
menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia
abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja
preta, um collarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas
verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval,
acabando de desdobrar um pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto
risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente á borda do sofá de reps. E
depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi
solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um
tom d'ouro que acariciava.
Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia
os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se
demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra
fórma da sua perfeição. Os cabellos não eram louros, como julgára de
longe á claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e
castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na
grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de
muito grave e de muito dôce. Por um geito familiar cruzava ás vezes, ao
fallar, as mãos sobre os joelhos. E através da manga justa de sarja,
terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o
macio, quasi o calor dos seus braços.
Ella calára-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue
abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber já pelo Domingos que a doente
era a governante, só achou, na sua perturbação, esta pergunta timida:
--Não é sua filha que está doente, minha senhora?
--Oh não! graças a Deus!
E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante
ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de
respirar, tosse, uma ponta de febre...
--Imaginámos ao principio que era uma constipação passageira; mas hontem
á tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja...
Ergueu-se, foi puxar um enorme cordão de campainha que pendia ao lado do
piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabeça, deixava
uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do
pescoço. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque
enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma
belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli
ousaria olhal-a tão francamente, com uma tão clara adoração, como quando
a encontrava na rua.
--Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando
Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo já n'estas palavras simples,
ditas a sorrir, um accento de ternura.
Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no
queixo, dava uma doçura mais mimosa ás suas feições sérias. E
alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo:
--_Niniche!_ estão-te a fazer elogios, vem agradecer!
_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de
_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que
se chamava _Niniche_...
N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar
petulante, que Carlos vira já no Hotel Central.
--Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda.
Eu não o acompanho, porque ella é tão timida, tem tanto escrupulo em
incommodar, que diante de mim é capaz de negar tudo, dizer que não tem
nada...
--Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto
de tudo.
E pareceu-lhe então que no olhar d'ella alguma coisa brilhára, fugira
para elle, de mais vivo, de mais dôce.
Com o seu chapéo na mão, pisando familiarmente aquelle corredor intimo,
surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria
d'uma posse. Por uma porta meio aberta pôde entrevêr uma banheira, e ao
lado dependurados grandes roupões turcos de banho. Adiante, sobre uma
mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas
d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas
coisas tão simples, tão banaes, evidencias de vida delicada.
Melanie correu um reposteiro de linho crú, fêl-o entrar n'um quarto
claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho
de ferro, sentada, com um laço de sêda azul ao pescoço, e os bandós tão
lisos, tão acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a
capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes
estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas
rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os
retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda
que cobria a commoda, até ás suas botinas bem engraxadas, classificadas,
perfiladas n'uma prateleira de pinho.
Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de
vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que não tinha nada.
Era a senhora, tão boa, tão cautelosa, que a forçára a metter-se na
cama... E para ella era um desgosto vêr-se alli ociosa, inutil, agora
que Madame estava tão só, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de
brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma prisão para
Madame!...
Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu
para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto,
apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era
_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe
o pulmão direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe
algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York,
filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irmãos: os rapazes estavam na
Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a
mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava só
oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenças de
peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mamã ainda vivia. O papá, já muito
velho, morrera do couce de uma egua.
Carlos, no entanto, já de pé, com o chapéo na mão, continuava a
observal-a, reflectindo. Então, de repente, sem motivo, ella
enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando
ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no
quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas
quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar
paternalmente a mão.
--_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo.
Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa,
arranjando ramos, com uma grande cesta de flôres pousada ao lado d'uma
cadeira, e o regaço cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida
na esteira, vinha morrer-lhe aos pés; e _Niniche_, deitada alli, reluzia
como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um
realejo ia tocando, na alegria da linda manhã de sol, a walsa da _Madame
Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeçado as correrias de crianças
brincando.