A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a

solidão da Patriarchal para se desembaraçar do calhambeque d'assento

duro, onde durante a ultima hora suffocára, sem ousar descer as

vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas

amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba...

Até ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da

rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fôra para o

Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A

boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma

apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da

Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisação á

provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas á treva catholica,

purificando (como ella dizia) o tremedal papista... Já na escada havia

um cheirinho adocicado e triste a devoção e a virgem velha: e no patamar

pendia um largo cartão, com um distico em letras de ouro entrelaçadas de

lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do

Senhor! Carlos entrou, tropeçando logo n'um montão de Biblias. O quarto

todo era um ninho de Biblias; havia-as ás pilhas por cima dos moveis,

transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas,

cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato,

entaladas n'uma encadernação negra como n'uma armadura de combate,

carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de

cartonagens impressas em lettras de côr, irradiando versiculos duros da

Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaças

insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, á

cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas

quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito

rigido ficou revolto como um campo de batalha.

Depois a condessa começou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que

visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos.

Uma occasião em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam

languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas á porta atroaram a

casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo á janella, viu

um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mão, outras

dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fôra a Borges quem mandára

o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como

tres avisos, tres rebates da Moral... Não quizera voltar mais ao

beatifico cuté da titi. E n'essa tarde, como não havia ainda outro

escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de

praça.

Mas Carlos vinha de lá enervado, amollecido, sentindo já na alma os

primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles

braços perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoço,--e agora,

pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia

as folhagens da alameda, elle ía pensando como se poderia desembaraçar

da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... É que a condessa ía-se

tornando absurda com aquella determinação anciosa e audaz de invadir

toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como

se o primeiro beijo trocado tivesse unido não só os labios de ambos um

momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde lá

tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu

peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu

quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sós!_... E

isto era claro--a condessa concebera a idéa extravagante de fugir com

elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo,

o mais longe possivel da rua de S. Marçal! _Se tu quizesses!_ Não, com

mil demonios, não queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!...

E não era só isto--mas ainda exigencias, egoismos, explosões tumultuosas

d'um temperamento cioso: já mais de uma vez, n'essas duas curtas

semanas, por pieguices, ella despropositára, fallara de morrer,

debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma

voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o

inquietava eram certos clarões que lhe sulcavam o rosto, um dardejar

nervoso dos olhos seccos, revelando a paixão que se accendera n'aquelles

nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava até ás

profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um

luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil,

sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer

cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os

braços, e queria fugir com elle--então adeus! Tudo estava estragado; e a

sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos côr de braza, e o seu

pranto, era apenas um trambolho!

O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E

Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo

d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço

abafado n'um enorme cache-nez de seda branca.

--Que é isso? Constipação? perguntou Carlos.

--Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma

lentidão de moribundo. Deitei-me tarde. Cançasso. Oppressão no peito.

Pigarreira. Dôres no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados.

--Não seja piegas, homem! Você o que precisa é roast-beef e uma garrafa

de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Ramalhete?... É, até tem

lá o Craft e o Damaso... Então descemos por essa rua do Alecrim, que já

não chove, depois pelo Aterro fóra, a passo gymnastico, e em chegando lá

você está curado.

O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo,

uma dôr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_.

O mundo começava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma

preoccupação angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto

com o padre capellão--com quem ás vezes, todavia, terminava por jogar as

damas.

--Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar

pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me você ir primeiro ao

Gremio... Quero escrever á Manoeleta que não conte comigo esta noite...

Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso

do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, na quinta materna,

ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na

grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia

chamar o _Lodaçal_--escripta para se vingar de Lisboa.

--O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais

no cache-nez, é se eu estou assim no domingo para as corridas!

--O quê! exclamou Carlos, então as corridas são já no domingo?

O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as

corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_

de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado

humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_

e com os seus cavallos de raça, os seus jockeys inglezes, constituia a

unica feição séria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era

uma brincadeira de pilecas e d'_abas_...

--Você não conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas

oiro de lei.

Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braço a Carlos.

--Veja esse pulso!

--O pulso está excellente... Vá você dar lá esse golpe á Manoela, que eu

fico aqui á espera.

No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_

estaria lá, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas

semanas vira-a duas vezes: uma occasião, estando a conversar com o

Taveira á porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de

chapeu, calçando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma

tarde de chuva, ella viera parar á porta do Mourão, ao Chiado, n'um

coupé da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava

dentro á loja um embrulho que tinha a fórma d'um cofre, apertado com uma

fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um

momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como

abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doçura, ao pousar no seu...

Era talvez uma illusão; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a

realisar a antiga idéa (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo

Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta

exigencia, ficou perturbado; e com um ar de cão que defende o seu osso,

lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que

não viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu cartão

ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre

rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem

todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correcção o nó

da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos

de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a

fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propôr a

Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porém não queria

entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mão, atraz do Damaso. Resolveram

então esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. «Ahi,

no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentação é mais _chic_... É

mesmo pôdre de _chic_.»

--Deus queira com effeito que não chova no domingo, murmurou Carlos

quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.

Foram seguindo pelo meio da rua, em direcção ao Ferregial. Adiante do

Gremio, encostado ao passeio, estava um coupé da Companhia, com um

trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou,

casualmente; e viu, debruçado á portinhola, um rosto de creança, d'uma

brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas

covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella não

se contentou em sorrír, com o seu doce olhar azul fugindo todo para

elle,--deitou a mãosinha de fóra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo

do coupé, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom

ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, tão

perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabeça, de

leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoção,

espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da mãe e da

filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanação de

sympathia.

--Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a

impressão de Madame Gomes.

Carlos córou.

--Não, é uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha...

--Irra! que gratidão! rosnou o outro de dentro das dobras do seu

cachenez.

Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idéa que lhe

viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que é que Damaso

não levaria uma manhã o Castro Gomes aos Olivaes, a vêr as collecções do

Craft?... Elle estaria lá, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam

_bric-à-brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a

almoçar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas

colxas da India. E assim, já antes das corridas existiria entre elles

uma camaradagem, talvez um tratamento de _você_.

No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, até

ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto,

apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella

lenta inclinação de cabeça, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo...

Ella até ahi não o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande

_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a mãe, a dizer-lhe

decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e á boneca... E

então a linda côr que lhe enternecera o rosto tomava uma significação

mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o

homem que ella notára já de algum modo tinha penetrado na sua

intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado á beira do seu

leito...

Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora,

mais brilhante. Porque não iria ella tambem vêr as curiosidades do

Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft

arranjava um _lunch_ delicado no seu velho serviço de Wedgewood. Elle

ficava á meza junto d'ella. Depois iam vêr o jardim já em flôr; ou

tomavam chá no pavilhão japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais

lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando

ambos diante d'uma bella faiença ou d'um movel raro, e sentindo, atravez

da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos

seus corações... Nunca a vira tão formosa como n'essa tarde, dentro do

coupé forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu

perfil. Sobre o regaço do vestido negro pousava o tom claro das suas

luvas; e no chapéo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve.

A tipoia parara ao portão do Ramalhete, estavam agora entre as

silenciosas tapessarias da ante-camara.

--Como é que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com

um tom desconfiado, desembaraçando-se do cache-nez.

Carlos olhou para elle, como mal acordado.

--Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem

você razão!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada à

porta do Cruges!.. Talvez alguem que móre n'outro andar.

--Não móra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em

todo o caso, é um mulherão.

Carlos achou a palavra odíosa.

Do corredor ouvia-se já no escriptorio de Affonso, atravez da porta

aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de

_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com

convicção, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua

velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio

no collo. Ao canto do sophá, Craft folheava um livro.

E o Damaso appellou logo para o marquez. Não era verdade, como elle

estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores

corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio nacional

de seiscentos mil réis havia oito cavallos inscriptos! E além d'isso, o

Clifford trazia a _Mist_.

--Ah, é verdade, oh marquez, é necessario que você appareça sexta-feira

á noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_!

O marquez arrastara uma cadeira para o pé de Affonso, para lhe fazer a

confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles,

fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo

apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por

se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar

ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar

pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador

portuguez!...

--Pois não é verdade, sr. Affonso da Maia?

O velho sorrio, amaciando o seu gato.

--O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de

corridas, fazer uma boa tourada.

Damazo levou as mãos á cabeça. Uma tourada! Então o sr. Affonso da Maia

preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um

inglez!...

--Um simples beirão, sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto

n'isso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôz

fóra do meu paiz... Pois é verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro

touros. Cada raça possue o seu _sport_ proprio, e o nosso é o toiro: o

toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas

sabe o sr. Salcede qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande escola

de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não ha instituição que

tenha uma importancia egual á tourada de curiosos. E acredite uma cousa:

é que se n'esta triste geração moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes

com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco,

deve-se isso ao touro e á tourada de curiosos...

O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo é que era fallar!

Aquillo é que era dar a philosophia do toiro! Está claro que a tourada

era uma grande educação phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar

com os touros! Oh, estupidos, acabaes então com a coragem portugueza!...

--Nós não temos os jogos de destresa das outras nações, exclamava elle,

bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o _cricket_,

nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: não temos a

gymnastica como ella se faz em França; não temos o serviço militar

obrigatorio que é o que torna o allemão solido... Não temos nada capaz

de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a

tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a mellarem-se

pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?

Craft, do canto do sophá, onde Carlos se fôra sentar e lhe fallava

baixo, respondeu, convencido:

--O que, o touro? Está claro! o touro devia ser n'este paiz como o

ensino é lá fóra: gratuito e obrigatorio.

Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem

muito de touros. Ah lá n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava

a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de

Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar!

--Sabes o que é pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos.

É que tu não tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos

d'aqui, cahia tudo de chic!

Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena não ter um _four-in-hand_.

Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da

Conceição irem todos dentro d'um omnibus.

Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braços, descorçoado:

--Ahi está, sr. Affonso da Maia! Ahi está por que em Portugal nunca se

faz nada em termos! É por que ninguem quer concorrer para que as cousas

saiam bem... Assim não é possivel! Eu cá entendo isto: que n'um paiz,

cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisação.

--Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma

grande palavra!

--Pois não é verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso.

Assim eu, por exemplo...

--Tu, o quê? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisação?...

--Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou

de véo azul no chapéo!

Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho,

sorrindo ainda das idéas de Damaso sobre a civilisação, puxou a luneta,

leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se

logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado

Bonifacio.

--Isto é que é ter gosto, isto é que é comprehender as cousas! exclamava

o Damaso, agitando os braços para Carlos, quando o velho desappareceu

atravez do reposteiro de damasco. Este teu avô, menino, é podre de

chic!..

--Deixa lá o chic do avô... Anda cá, que te quero dizer uma cousa.

Abriu uma das janellas do terraço, levou para lá o Damaso, e disse-lhe

ahi, á pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que

poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle já fallara ao

Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de

flores. E agora só restava que Damaso amigo, como amabilidade sua,

convidasse os Castro Gomes...

--Caramba! murmurou Damaso desconfiado, estás com furor de a conhecer!

Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasião

para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as

curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zás, ia

para a quinta passear com ella... A calhar!

--Pois vou ámanhã já fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo.

Ella pela-se por bric-a-brac!

--E vens dizer-me se acceitaram ou não...

--Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende

tambem de litteratura; e olha que ás vezes a conversar atrapalha...

O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a

porta envidraçada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava

antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...

--E é isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente

do braço.

--Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se

d'elle e olhando-o com ferocidade. E você é-o no sentimento. E o Craft

é-o na respeitabilidade. E o Damasosinho é-o na tolice. Em Portugal é

tudo Pieguice e Companhia!

Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na

ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto,

que lhe beijava a mão, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado

outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do

chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara

embaraçado; o marquez instinctivamente levou a mão á algibeira. Mas o

velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas

mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abençoando-o, n'um

murmurio de soluços; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou

n'uma voz que ainda tremia:

--Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que é peior

é que por mais que se dê nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito,

marquez.

--Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez

commovido.

No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito

molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se

installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em

que para o lado do Hyppodromo estavam já estalando foguetes. Um dos

criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca

guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho

de grandes barbas grisalhas.

Era um dia já quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de

festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baça do ar, poem

fulgores d'espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essa branca

faiscação de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentidão das

horas de verão cança a alma, e vagamente entristece. No largo dos

Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava,

desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao

collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli,

pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu

domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das

corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes,

sentara-se com a sua bilha á sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados

municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solidão. E a distancia,

sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.

No entanto o tritanario continuava debruçado na guarita, sem poder

arranjar lá dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da

almofada, ir lá parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o

chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no

largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim

governando, irritadamente, sem descerrar os labios. É que toda aquella

semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos

Olivaes, fôra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a

resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, não procurara o Damaso. Os

dias tinham passado, vazios; não se realisara o alegre idyllio dos

Olivaes; ainda não conhecia Madame Gomes; não a tornara a ver; não a

esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente

pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de

melancolia e de malestar.

Uma caleche de praça passou, com dous sujeitos de flores ao peito,

acabando de calçar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem

gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft

voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas

propheticas.

Para além do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras

debruçadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a

cavallo, atravancavam a rua.

Os Maias: episodios da vida romantica · 第 22 / 53 段